A partir do movimento feminista, que ganhou força nas décadas de 1960 e 1970, houve o que se pode avaliar, de certa forma, como uma revolução, no campo político e artístico, no que se refere à arte produzida por mulheres e sobre mulheres. Assim, a partir da conquista de uma maior autonomia criativa e de expressão, artistas (especialmente algumas mulheres) iniciaram um movimento contemporâneo de questionamento e construção / desconstrução dos papéis femininos atribuídos e desempenhados social e culturalmente no mundo.
Como os tempos históricos e artísticos não são estanques e rígidos, mas ao contrário, fazem parte de relações cíclicas entre tempos / espaços / épocas, esse movimento feminino e feminista não rompeu com tudo o que se produziu anteriormente em termos de arte e visão de mulher, mas estabeleceu e estabelece um diálogo com a visão tradicionalista dos papéis femininos e da soberania masculina representados na arte dos diferentes tempos e movimentos.
Assim, enquanto os papéis estereotipados e “clicherizados” da mulher branca, masculinista, submissa e heterossexual ainda permanecem através da cultura arraigada desde há tempos – e são legitimados socialmente através das diferentes mídias, que constroem e influenciam muito do pensamento e comportamento humano que se mantém e se reforma -, artistas contemporâneos, preocupados e interessados na alienação social e cultural, em relação aos diferentes papéis de gênero, estabelecem diálogo com as produções artísticas, políticas e de outras ordens, através de obras que criticam ou apresentam os processos, desenvolvimento e conseqüências dessas referências.
Esses (as) artistas utilizam muitos recursos e suportes diferenciados, mas em grande parte das obras, o corpo se destaca como tema, instrumento de representação ou mesmo suporte da expressão artística; utilizando-o para a desconstrução e proposição de reflexões individuais e sociais. Essas reflexões e críticas se propõem (intencionalmente ou não) a desconstruir fronteiras, a reivindicar a igualdade sem perder a diferença e a encontrar a identidade social, individual e cultural feminina no mundo atual, ainda que para isso haja a necessidade de uma reivindicação pelas identidades múltiplas.
A fotógrafa norte americana Cindy Sherman, é uma dessas artistas. Utiliza o recurso do corpo para representar a mulher em seus diversos papéis construídos, e se auto representar em múltiplas identidades através de máscaras que cria e/ou desenvolve imageticamente. Trabalhando com fotografias produzidas em estúdio ou utilizando cenários planejados e confeccionados para cada trabalho, desconstrói o sujeito da imagem, se permitindo visualizar com outra forma no espaço e tempo em que a fotografia é produzida; trazendo ao espectador, através do uso de novos significados e simbologias imagéticas, uma outra dimensão da representação artística, que deseja apresentar um discurso retórico ou até mesmo uma narrativa ficcional, ainda que se baseie em concepções e afirmações de identidades reais.
Assim, as imagens de Cindy Sherman não são auto-retratos, já que se encontram muito mais no campo da construção e representação retórico-narrativa das identidades e papéis femininos individuais e sociais do que da auto-representação enquanto vontade de se revelar em sua dimensão íntima. Dessas fotografias não emerge uma visão de mulher enquanto sujeito, mas como estereótipo social.
Sherman portanto, não deseja demonstrar a si mesma, mas ao contrário, apresentar modelos de identidades femininas, construídos ao longo do tempo e destituídos de subjetividade e individualidade. Estes modelos são baseados em “valores” e padrões coletivos, culturais e sociais, que ela utiliza para transgredir o conceito de auto-representação, autorizando a perda da própria identidade ao representar papéis e personagens que são múltiplas e diversificadas. Essas personas também possuem semelhanças e podem ser a própria Cindy Sherman, já que se referem à representação do gênero feminino, da época, do tempo, do lugar que vive e da sociedade da qual faz parte e se insere.
Ao criar personagens estereotipadas, que interagem com o público, através de olhares de expectativas que parecem se referir ao peso da visão que o outro tem sobre elas, ou simplesmente à percepção da avaliação alheia sobre os cumprimentos dos papéis desempenhados, sejam eles de submissão, de superficialidade ou de independência, Cindy Sherman expressa uma reação crítica à construção da visão social e cultural de e da mulher, em suas diversas funções e lugares, ao longo dos tempos históricos.
Ao desenvolver quase uma narrativa, a partir das séries “stills” e “projeções num telão”, e definir uma representação crítica de cunho individual, cultural e social que deseja fazer, Sherman utiliza referências da arte, da sociedade e dos desdobramentos conseqüentes do diálogo estabelecido entre as permanências e rupturas dos diferentes períodos em relação aos valores e ao papel feminino assumido nas esferas privadas e públicas.
Através da pose, da criação de cenários e da representação de estereótipos, a fotógrafa estabelece uma mediação entre o personagem e o observador que se propõe a desenvolver ou a construir uma visão crítica e reflexiva do segundo sobre os “clichês midiáticos” que desenvolvem e legitimam os papéis sociais femininos na sociedade atual.
Enquanto Cindy Sherman é ela mesma, é também todas as mulheres produzidas social e culturalmente, e nesse jogo de espelhos e reflexos, o público de suas obras encontra e perde a artista e a si mesmo, numa gama de reflexões e questionamentos que abordam a questão da identidade feminina num mundo que apresenta, desenvolve e determina, através da história construída ao longo dos séculos e da influência midiática, diversos significados para as funções e lugares de gênero.
Paulinha…
Eu adorei o texto!!!!!!!!
Bjo grande
Parabéns!
Nós podemos mudar o mundo, basta ter ação e coragem para isso!
Força e Luz!
André Farias
Parabens pelo sucesso.
Muita paz em seu coração.
Paulinha…
Eu adorei o texto!!!!!!!!
Bjo grande
Tem mesmo muita gente pensando aobra da Cindy Sherman.
Uma palavra fundamental para entender o trabalho dela é “simulacro”.
Parabéns pelo texto.