Já vou avisando que eu não comprei o gibi com a morte do Capitão América! Dei uma lida rápida na banca. Isso mesmo! Dei uma lida rápida na banca e não me arrependo disso. O dono da banca era conhecido meu e sabe que sempre compro alguma coisa no final, mas não isso. Já estou de saco cheio dessas revistas que vem falando da morte de algum super-herói para enganar os incautos, leiam-se leitores de quadrinhos, e depois o cara aparece firme e forte como se nada tivesse acontecido. Os quadrinhos japoneses e europeus são mais honestos nisso do que os americanos.
Eram os idos de 1940 e as revistas em quadrinhos vendiam aos milhares dando lucros astronômicos para os donos das editoras; e somente para eles. Goodman, o dono do que futuramente viria a se chamar Marvel Comics, queria um herói patriótico, já existia um chamado Shield, e comentou isso com uma dupla de jovens que aproveitando uma idéia existente colocaram mais algum molho na sopa. Como assim? Joe Simon pegou a idéia do Shield, melhorando seu desenho, colocou o herói com as cores da bandeira americana e, ainda por cima, deu ao personagem um escudo com as mesmas cores, estava pronto o herói que veio a se chamar de Capitão América! Quem ele chamou para desenhar as primeiras páginas, fazer uma capa e mostrar para o chefão? Ninguém mais do que Jack Kirby! Os dois arrebentaram!
Kirby nunca pode freqüentar as escolas de arte e estudar anatomia, sendo assim, ele aprendeu com e experiência do dia a dia. Quando desenhava fazia com que os seus personagens ganhassem vida nos quadrinhos com poses e musculaturas que fascinavam os adolescentes daquela época. Era ágil, poderoso, incrível a maneira como ele usava cada canto dos quadros. Até hoje ele é reverenciado por isso. Com os argumentos de Simon e o desenho de Kirby o Capitão América se tornou um grande sucesso.
Claro, tudo isso foi calculado. Primeiramente o uniforme, com as cores da bandeira americana. Quem em perfeito juízo iria se vestir daquele jeito em uma guerra, ainda mais a segunda guerra mundial, que inaugurou a guerra moderna e tecnológica!? Seria facilmente visto em campo aberto e na neve, sem falar de como colocaria seus companheiros em perigo por causa disso. Outra coisa, já pensou porque ele tem um escudo e não uma arma qualquer? Os criadores queriam mostrar como os EUA só atacam para se defender. O escudo do Capitão é uma arma perigosa em suas mãos treinadas exatamente para mostrar como ele somente atacava para defender a sua vida e as dos outros. A mesma política que os EUA usam hoje para explicar suas guerras e invasões a nações soberanas. Somente se defendem nunca atacam. Devemos perguntar se todos os países dos cinco continentes onde eles já se meteram acham a mesma coisa.
Os eventos vão ficando melhores com o tempo, Steve Rogers, a identidade secreta do Capitão América era um garoto magricela da periferia que se voluntária para uma experiência com um super-soro que transformaria qualquer pessoa em um super-soldado; o que os nazistas não conseguiram os cientistas americanos alcançaram. Veja novamente o sonho americano entrando em ação: um garoto magrelo, da periferia, todavia, branco, loiro, dos olhos azuis, para mostrar sua descendência européia, do imigrante vindo para o Novo Mundo, toma um soro que lhe da super-poderes para se tornar o sentinela da liberdade. Foi uma sacada de gênios, uma isca para todos que liam quadrinhos, foi algo que motivou uma garotada a comprar as revistas, foi um sucesso! Tanto que a segunda edição alcançou a marca de um milhão de exemplares! O mito emblemático tinha dado certo.
No entanto, com o termino da guerra, o Capitão perdeu espaço e teve que sofrer um acidente e sair de cena para voltar mais tarde. Estava dado como desaparecido, congelado, e depois de anos foi achado boiando em um iceberg; isso mesmo! Como ele conseguiu sobreviver são coisas que nem Freud explica. Voltou para fazer parte do grupo mais popular da época, Os Vingadores, e para destruir super-vilões que queriam dominar o mundo. Esse não era o plano do Cérebro, aquele ratinho? Já imaginou um embate entre os dois?
Mas, a vida do Capitão não foi esse mar de rosas não. Nos anos 1980 ele até que teve boas aventuras nas mãos de John Byrne, com seus traços brilhantes, mas depois caiu no esquecimento. Até que decidiram matá-lo para, claro, trazê-lo de volta em um arco de histórias sensacionalistas. Algo que é motivo de nota é que todos os filmes feitos com o Capitão América foram retumbantes fracassos! Nenhum deles deu dinheiro e foram muito mal aceitos em todos os países em que foram lançado, até mesmo nos EUA, para mostrar como as cores estão desbotando com o tempo.
Todo esse personagem é emblemático, mas não tem como esconder o que há por trás do escudo que foi feito para defender a paz. Lutou contra o autoritarismo nazi-fascista, entretanto será que ele não escondia um outro tipo de autoritarismo? Quando o Capitão voltar à vida eu irei retornar a banca do meu amigo para ler a revista lá mesmo, não vou gastar dinheiro com isso não. De novo não!