Flor Amorosa

Uma das obras-primas do choro abre as portas para a história de Joaquim Antônio da Silva Callado

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

De acordo com as enciclopédias, o Choro ou chorinho, é — como bem se sabe — um gênero musical popular e instrumental brasileiro secular, que remonta aos tempos do Segundo Reinado (1840). Os seus executantes – tanto instrumentistas quanto compositores são apelidados de “chorões”. A despeito da expressão, o Choro é um gênero burlesco, alegre e jovial, onde se caracteriza o virtuosismo dos músicos e a sua capacidade de improvisação, o que exige de cada um deles muito apuro e técnica, além do domínio completo do instrumento que toca.

De acordo com qualquer vade mecum sobre o assunto , esse gênero, considerado genuinamente brasileiro, é considerado como a primeira música popular urbana típica do Brasil e difícil de ser executado”. Já a sua formação geralmente gira em torno de “um ou mais instrumentos de solo, como flauta, bandolim e cavaquinho, que executam a melodia”. Sendo assim, o cavaquinho faz o centro do ritmo e um ou mais violões e o violão de sete cordas formam a base do conjunto, além do pandeiro como marcador de ritmo.

A história toda começa ainda nos tempos da Colônia quando, junto com a Corte de D. João VI, aportam no Brasil, além de uma gama considerável de funcionários públicos, instrumentos como o piano, clarinete e o bandolim, por exemplo, que, até então, eram difíceis de serem encontrados em terras brasileiras. Além destes, da Europa aqui também chegam diversas danças de salão do Velho Mundo desconhecidas naquele tempo, como a polca, a valsa, a quadrinha, o minueto e a mazurca, por exemplo.

Com o tempo, já no Segundo Reinado, o contexto sócio-econômico permitiu que muitos desses funcionários públicos, pequenos comerciantes e músicos de bandas militares e de coretos (muitos deles de origem negra), que formavam o que se podia chamar de uma emergente classe média urbana brasileira, passassem a se unir de maneira informal em conjuntos, misturando a melodia daquelas danças européias (como a valsa, que tomou o país de assalto em meados do Século 19) com elementos já enraizados aqui, como o lundu, adaptando aqueles gêneros em algo mais abrasileirado e ligado ao gosto musical das camadas populares.

Contudo, até meados do Século retrasado, o Brasil não possuía agremiações de música desse gênero nessas camadas populares. Apenas uma elite podia se reunir em orquestras e teatros de música lírica e podiam dispor de conjuntos musicais que surgiam no Rio de Janeiro, para atender ao entretenimento das camadas mais altas nos salões.

Os escravos, em geral, se limitavam a cultivar sua música em batuques, quase sempre à base de instrumentos de percussão. Os ranços e mestiços do povo em geral cantavam fados, miudinhos e lundus ao som de violões e com o acompanhamento de palmas. Esse tipo de música não deixava de ser uma outra forma de amalgamar os ritmos europeus, como a polca, com o gênero vigente, o lundu.

Assim, como essa emergente classe média percebeu que não havia um estilo pelo qual eles pudessem se identificar e, ao mesmo tempo que ia se estratificando, elas começaram a sincretizar todo aquele tipo de música importada em sua sonoridade. Foi nessa época que aparece no Rio de Janeiro um mulato que cedo se tornou um virtuose na flauta. O seu nome é Joaquim Antônio da Silva Callado. Músico precoce, para sustentar a família depois da morte da mãe, ele passa a tocar desde em saraus até cerimônias de casamento e batizado.

Como nesse tipo de ambiente era impossível colocar uma grande orquestra, ele resolveu reduzir o número de músicos a violões e cavaquinho. Uma polca, por exemplo, eles a executavam quando o solista tocava a melodia de ouvido e o resto do conjunto toava ao sabor do improviso, num curioso divertimento lúdico.

O que deu sabor ao chorinho foi a flauta de Callado. Ele foi o introdutor desse instrumento nesses regionais e, com o seu reconhecimento, seu engenho e sua arte, chegou a professor de flauta no Conservatório Real (em 1871), e a dominava como ninguém. Seu som é que daria o que soava como a forma “chorada”, o que explicaria o porquê do nome desse gênero musical que, se não foi criado por ele, podemos dizer que Callado foi o músico que consolidou o Choro no Brasil. Ele, como solista, era quem sabia ler a partitura.

Os violões e o cavaquinho eram os improvisadores. Assim, cabia a eles o acompanhamento harmônico da execução de cada música. Sua execução ficou conhecida como o “choro do Callado”, pelo tom lamurioso da flauta. E o termo pegou. O resultado é que as melodias pareciam tão complexas que os editores não conseguiam entende-las, alegando soarem de difícil assimilação (ou “avançadas para a época). Por conta disso, Callado foi convencido a pagar ele mesmo a impressão das suas primeiras obras.

Um exemplo disso é a polca “Querida por Todos”. O flautista não podia tirar-lhes a razão: polcas como essa tinham uma refrão permanente a estrofes que depois se alternavam – forma que só seria entronizada pelo maxixe, muito tempo depois. Porém, com certeza o maior sucesso de Callado, e que se perpetuaria até os dias de hoje na memória popular foi Flor Amorosa. Em mais de um século, recebeu centenas de gravações. Com o tempo ela se tornou carro-chefe de grandes flautistas do Século 20, como Luperce Miranda e Jacob do Bandolim. Anos depois da morte do flautista, o poeta Catulo da Paixão Cearense colocou-lhe versos:

Flor amorosa,

compassiva,

sensitiva,

vem porque

É uma rosa

orgulhosa,

presunçosa,

tão vaidosa

Pois olha

a rosa

tem prazer

em ser beijada, é flor, é flor

Oh, dei-te um beijo,

mas perdoa,

foi à toa

meu amor

Em uma taça

perfumada

de coral..

Segundo a histórica pesquisadora Marisa Lira (primeira biógrafa de Chiquinha Gonzaga), Callado foi, sem dúvida, quem lançou “as bases na nacionalização da Música Popular Brasileira”. Sobre o seu papel como mentor da formação de grupos de chorinho pelo Brasil afora, ela diz: “foi seu acompanhador predileto o Saturnino, um pardo magrinho que tocava violão admiravelmente.

Seus companheiros de choro: Viriato Figueira, Chiquinha Gonzaga, o Silveira, o Luizinho flautista, Rangel, Baziza, Ismael Correia, Zequinha, Leal Careca e mais alguns”. Porém, o fato de ter galgado o honroso cargo comendador do Conservatório não o impedia de continuar a viver esmolando cachês como músico de bailes e festas no Rio de Janeiro.

Um ano depois de ser entronizado professor, Callado foi acometido de uma febre epidêmica que invadiu a Cidade Maravilhosa. A moléstia lhe foi fatal. Em março daquele ano, o mestre flautista sucumbiu com a doença. Com sua morte, por muito tempo o Brasil teria que esperar por um substituto à altura.

Abra seu coração: