Aproveitando mais uma passagem do intrépido e secular Jerry Lee Lewis por terras brasileiras, eu aproveitei para desencavar um LP raro que eu ouvi muito tempo atrás, mas que deve estar esgotado aqui há vários anos. Na verdade, não me lembro de ter visto qualquer lançamento do histórico registro do Jerry Lee em vinil em nosso país. Só para fazer menção: um dos maiores discos ao vivo da história do rock é em notório desconhecido.
De certa forma, isso se deve porque o Live At Star Club foi um projeto muito interessante que envolveu uma parceria entre os proprietários da casa de espetáculos com a Philips alemã; do resultado desse conúbio, nasceu a Star Club Records, uma pequena subsidiária do selo, mas que, em pouco mais de cinco anos, lançou muito do que subiu naquele palco.
Se para muitos, a apresentação do Jerry Lee pareceu simples demais, — uma banda de apoio minúscula, no caminho reverso do que costuma presumir no tocante à excentricidades típicas de turnês meteóricas de artistas do gênero pelo mundo afora. Assim como Chuck Berry fazia, ele arranjava um conjunto local qualquer e, depois de alguns ensaios, tocava com eles mesmos.
Isso é fácil de explicar: diferente de hoje, os pioneiros do rock tinham que colher figos de abrolhos para realizar shows numa época em que não existiam turnês como conhecemos hoje, o equipamento de som era precário e o próprio público rock não existia. Logo, boa parte deles fazia tudo na base do empirismo, e até hoje mostra às gerações seguintes que tudo é irrelevante exceto o essencial: a performance.
Claro que foi necessário ao gênero entronizado por Elvis que a indústria do entretenimento desenvolvesse os shows do rock, que atingiram o seu ápice em matéria de mise en scène nos anos 70, com Genesis, Stones, Yes, Led Zeppelin e muitos outros. Mas, podemos dizer que eles podiam; afinal, eles eram os maiores. O problema é quando a pirotecnia suplanta a qualidade — o essencial, a performance.
Chega uma hora em que tudo aquilo cansa. Os Beatles cansaram. Os Stones não cansaram, mas nunca subestimaram os pequenos espaços. Como na turnê que redundou no Love You Live, onde eles resolveram fazer, no meio da mega turnê de 76, um show minúsculo no El Mocambo, em Toronto. É o que podemos chamar de nostalgia de show de boteco. Mesmo que os mega-shows marquem época e encham os olhos de qualquer um, no pélago da alma, existirá sempre a nostalgia do show de boteco.
Depois do escândalo envolvendo sua vida pessoal e o casamento com sua prima de segundo grau, Jerry Lee Lewis sofreu uma espécie de suicídio cultural. Foi banido da memória musical da conservadora, bizantina e calvinista América dos anos 50. Seus discos não eram mais produzidos, não mais vendiam e só tocavam no programa do mítico DJ Allan Freed, que foi o único do meio que abraçou a causa do cantor e pianista, nascido no sudeste dos Estados Unidos.
Lewis chamou a atenção por fazer uma espécie de crossover entre o country e o boogie, porém tocando de forma mais vigorosa e entusiástica. Além do mais, mesmo sendo convencido a desistir do piano e tocar guitarra, como todo mundo fez quando nasceu o rockabilly, Jerry Lee foi até o fim, com todas as forças.
O resultado é que ele conseguiu uma vaga como músico de estúdio na Sun Records. Tocou com Cash e Carl Perkins — o piano de Marchbox é dele. Ou seja, Lee praticamente foi um dos pioneiros na consolidação do instrumento dentro do rock. Porém, o músico foi julgado pela sua forma despojada de tocar e pela suposta lascívia de algumas letras, como Whole Lotta Shakin’ Goin’ On, o que era comum com boa parte dos roqueiros daquele tempo. Little Richard, que copiara o penteado igual ao do Esquerita (um topete do tamanho de um chapéu coco), provocava um misto de escândalo, pânico e frisson quando aparecia na tevê. Algo que, em uma década e meia seria considerado, vamos dizer assim, antiquado.
Mas depois de 1958, Jarry foi banido da história. Conseguiu relativo sucesso com um cover de What’d I Say, de Ray Charles, porém cantando sob pseudônimo (The Hawk). Mas foi prontamente desmascarado e banido dos broadcastings de novo. Contudo, enquanto a América lhe virava as costas (profetas são sempre rejeitados em sua terra), Jerry Lee passou a se tornar cultuado na Europa, especialmente Inglatera e Alemanha, a partir de meados dos anos 60. Isso possibilitou a ele uma nova turnê ao Velho Mundo, em 1964. Conseguiu um contrato para tocar no Star Club de Hamburgo. Recém inaugurado (em 1962) no Reeperbahn, região licensiosamente boêmia da velha cidade hanseática. Ali, ele travou contato com um dos muitos conjuntos britânicos que tocavam lá — os Nashville Teens.
Lee conseguiu um contrato com a Philips para transformar o show em disco. O que parecia apenas uma apresentação registrada ao vivo (algo que era mais comum em selos de jaz e de blues do que do rock) se tornou um dos maiores discos do gênero em todos os tempos. em treze canções, ele escreveu a sua profissão-de-fé.
Mesmo que aquilo soasse ultrapassado, ainda que a geração da British Invasion tivesse beatificado aquele som, Lewis mostrava que tinha plena noção de seu talento e da sua capacidade de se mostrar original, desafiador e às vezes até ligeiramente iconoclasta ao tocar seus sucessos de forma deliciosamente garageira, quando em geral se prezava sempre o bom mocismo musical.
Além das canções mais conhecidas (Whole Lotta Shakin’ Goin’ On, High School Confidential e Great Balls Of Fire), ele ataca com velhos (forma de dizer, já que não eram tão velhas na época) standards do rock, como Good Golly Miss Molly, Hound Dog, Matchbox e Long Tall Sally e toca até Hank Williams (Your Cheatin’ Heart, em sua melhor versão, mostrando também suas influências do country), Ray Charles (What’d I Say) e uma releitura irresistível de Money (That’s What I Want), clássico dos primórdios da Motown, e que, naquela época, já fazia a cabeça da juventude dos anos 60.
E o interessante é que a linguagem dos Nashville Teens é um upgrade sonoro que catalisa o ímpeto de Lewis, num som mais cru e barulhento que as antigas versões da Sun, mais contidas e com menos percussão. No fim, ele toca aquelas mesmas canções porém com uma vitalidade e energia fora do comum.
Jery Lee foi (justamente ou injustamente?) execrado e banido por sua música e sua conduta numa época e num contexto histórico que não demorou a ruir por suas próprias contradições. Mas os deuses do rock lhe compensaram tamanha injustiça, lhe concedendo a vida eterna.