Velocidade Mínima

Tony Scott tira um pouco o pé do acelerador em O Seqüestro do Metrô

por Fábio Freire (fabiofreire@rabisco.com.br)

A diferença entre os diretores Tony Scott e Michael Bay é que o primeiro tem como irmão o talentoso Ridley Scott e o segundo não é irmão de ninguém. No mais, os dois são bem parecidos e fazem um cinema genérico e hiperbólico de baixa qualidade apoiado mais na estetização das imagens e na profusão de barulhos do que propriamente em recursos narrativos válidos. Os filmes de Tony Scott e Michael Bay foram feitos para serem vistos em tela grande, em alto e bom som, com as cores saturadas estourando na cara do público e os efeitos sonoros ruidosos gritando nas salas de cinema. Enquanto entretenimento, podem até passar para o público menos exigente, fazendo o espectador desconectar da realidade por duas horas. Já como cinema, não passam de enredos discutíveis envernizados com fotografia de publicidade e ritmo de videoclipe.

Uma outra diferença que poderia ser apontada entre os dois é que Scott fez alguns acertos na vida, caso dos interessantes Fome de Viver e Amor à Queima-Roupa (seria um reflexo do talento do irmão?), enquanto Bay faz uma produção duvidosa atrás da outra (são deles os descontrolados Armaggedon, A Ilha e os dois Transformers). Mas mesmo que, de vez em quando, Scott demonstre um certo talento, seus últimos filmes são lamentáveis e não passam de uma coletânea de imagens picotadas e editadas de maneira esquizofrênica. Desde Inimigo do Estado (filme bacana com Will Smith) que Scott constrói um cinema sensorial feito para proporcionar ataques epilépticos no público por meio de uma enxurrada de imagens que pipocam na tela, geralmente acompanhadas de explosões, tiros, perseguições de carros e música em altíssimo volume (Chamas da Vingança, Domino e Déjà Vu seguem essa linha).

Diante dessa trajetória pouco elogiosa, é surpreendente que O Seqüestro do Mêtro funcione. Não que o filme seja perfeito, repetindo uma série de equívocos recorrentes aos trabalhos anteriores de Scott (exageros na alternância de câmeras lentas e aceleradas, fotografia estilizada que acrescenta pouco ao filme, trilha sonora estereotipada que tenta caracterizar os personagens). Mas ainda que escorregue feio em algumas decisões, aqui, Tony Scott tira um pouco o pé do acelerador e deixa de lado seu fetiche pelas imagens para apoiar a produção no que realmente interessa: o embate entre os protagonistas, o mocinho Denzel Washington (em atuação discreta) e o vilão John Travolta (beirando a caricatura).

Tensão constante

Mesmo os dois personagens sendo construídos em cima de estereótipos, sem grandes aprofundamentos, O Seqüestro do Metrô se segura enquanto filme quando abandona as firulas da montagem (e elas existem!) para se concentrar na construção do relacionamento entre os dois protagonistas. Washington é um executivo do metrô de Nova York que em virtude de um processo assume a função de controlador de tráfego exatamente no dia em que um dos trens é seqüestrado por John Travolta. Cabe a ele, então, assumir também o papel de negociador, já que Travolta desenvolve uma relação afetiva com Washington.

Um dos acertos de Scott é começar o longa de forma direta, sem digressões sobre seus personagens ou ações paralelas desnecessárias. Em poucos minutos, o metrô é seqüestrado e a narrativa está estabelecida. Simples, direto e funcional. Outro ponto positivo é que o roteiro centra o foco apenas em Washington e Travolta, pouco se importando com os passageiros que funcionam como reféns, não os transformando em vítimas indefesas diante de uma tragédia. Dessa forma, a tensão construída pelo diretor está toda nos diálogos travados entre o mocinho e o vilão. Sim, no filme, mocinhos e vilões estão bem definidos, ainda que o diretor tente atribuir aos dois características dúbias.

Mas se Tony Scott constrói o filme em tensão constante, já que vemos tudo que uma produção de seqüestro tem direito (tempo limitado de negociação, reféns ameaçados, grana e vinganças envolvidas etc.), O Seqüestro do Metrô se perde em sua parte final. Se Scott mantém o longa nos trilhos até quando pode, no final, ele descarrilha ao apostar no óbvio. Sem coragem para terminar o filme de forma ousada, Scott se entrega aos clichês do gênero, transformando o personagem de Washington, um homem comum, em herói (e o redimindo dos erros do passado) e explicando, da pior forma possível, as intenções do vilão de Travolta. De qualquer forma, já é um indício de que Tony Scott, quando quer, sabe fazer as coisas. A depender de O Seqüestro do Metrô, Michael Bay será o rei solitário das explosões, dos tiros e das perseguições sem sentido.

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