| TERRA DO NUNCA
Venha para Santos voltar a ser criança
na festa indie Popscene
por Julio
Ibelli (jcim13@ig.com.br),
fotos por Guilherme
Augusto dos Santos

ector Lima discotecava quando chamou a atenção dos
presentes ao colocar uma máscara cirúrgica sobre o
rosto. O símbolo pirata estampado sobre a camiseta vermelha
que ele vestia completava sua homenagem à pneumonia asiática.
Uma homenagem à ferocidade com que a do ença se espalhou
ou ao fato do vírus estar sendo domado, hein, Hector? "Não
sei. Sempre quis me vestir de médico. Agora sim tem um motivo".
Um falso médico vestido de uma maneira um tanto quanto mórbida
e garotas com vestidos mais apropriados às ruas de Tóquio.
Muitos Adidas, tênis, calças e agasalhos e quase nenhuma
camiseta da Cavallera, depois de tal artigo ter virado item disputadíssimo
nos camelôs. Franjas, óculos de aro grosso e um careca
com uma regata do Dead Kennedys.
Não é baile de carnaval, um club de Nova York ou
a Funhouse em São Paulo. É um lugar meio inóspito
para os blogueiros (diga-se intelectuais do novo milênio),
universitários e profissionais liberais descolados se reunirem
para ouvir o novo rock que se faz em Manhattan ou em qualquer outra
parte do mundo, interpretar o seu próprio air-guitar
ou dançar feito um robozinho quando uma batida eletrônica
tocar entre guitarras no meio da música.
É o ensolarado litoral paulista, infestado de surfistas
e infectado por baladas de "dance comercial", as infames
tecneiras. Mais exatamente, estamos no Retrô
Bar & Lounge, uma das casas noturnas de maior bom gosto da cidade,
localizada bem no meio do embasbacante visual que é o centro
restaurado de Santos. A agitação dos freqüentadores
a cada hit tocado faz balançar o piso de assoalho da pista
de dança no terceiro andar. O visual da casa é formado
por espelhos redondos e quadros hentai bem comportados
pendurados na parede, sofás confortáveis de diferentes
tamanhos, formas e cores no segundo andar, com a arquitetura do
século retrasado, ou quem sabe de bem antes, fechando com
chave de ouro.
É
para onde retorna a heróica festa Popscene, depois de ter
sido banida do Retrô quando um notívago mais exaltado
resolveu botar pra quebrar, literalmente, fazendo um estrago no
banheiro masculino. Depois dessa, foi a vez de experimentar um blecaute
quando a festa foi transferida para outro local. Um CD riscado bem
na hora do sucesso "Hate To Say I Told You So", do Hives,
é peixe pequeno perto do que já passou a anfitriã
da Popscene, a conhecida jornalista e organizadora de eventos, namorada
do Hector citado no início do texto, Flávia Durante.
Pergunto logo de cara aos dois qual a fórmula
mágica para trazer a festa de volta ao Retrô. Hector
diz que foi o Santo Expedito, o das causas impossíveis, cuja
imagem até foi postada no site oficial da Popscene quando
a notícia do retorno foi confirmada. O renascimento da festa
é atribuído até a um vudu. Flávia explica
que após o pequeno incidente da depredação,
teve que ceder a algumas exigências do dono da casa para selecionar
o público, como aumentar o preço da entrada e permitir
um número maior de seguranças circulando.
Se essa seleção de público deu certo, é
uma incógnita. O lugar parecia mais cheio do que nas outras
edições da festa. E enquanto eu conversava com a Flávia,
um garçom passou por nós perguntando se ela tinha
gravado o CD que ele havia pedido. "Ele gosta daquela música
do Pizzicato Five", explica Durante.
Aliás, é a música o grande atrativo. Trata-se
da única festa com temática indie da Baixada Santista.
Têm presença constante os Strokes, Vines, White Stripes
e outros "The" da vida. "Dope Show", do Marilyn
Manson; "Celebrity Skin", do Hole; "No One Knows",
do Queens Of The Stone Age; e "She Said", do John Spencer
Blues Explosion, são alguns dos exemplos de músicas
estratégicas que incendeiam a pista. Mas não fica
só nisso: o setlist vai de "Fingi Na Hora Rir",
dos Los Hermanos, até a parceria recente do Blur com Norman
Cook do Fatboy Slim, em "Crazy Beat". Prodigy, t.A.T.u.,
Hot Hot Heat, Yeah Yeah Yeahs - a lista de bons sons é enorme.
A festa do último dia 14 contou ainda com lançamento
da grife de bolsas femininas
Dama das Camélias e da de acessórios On Fire, além
de sorteio de CDs e camisetas, cortesia da loja especializada paulistana
London Calling. A idéia a partir de agora é regular
a periodicidade da Popscene, tornando-a mensal e sem mais contratempos.
A busca por famosos para ficar atrás da mesa de discotecagem
também vai ser uma constante. Colunáveis como Lúcio
Ribeiro já tiveram a oportunidade de descer a serra para
tocar ao lado dos habitués Hector, Flávia, Bruno Sosa
e Thiago Baraldi, esse último, responsável pelo design
dos flyers da Popscene.
Mas
Santos não é Manchester, aquela onde a festa nunca
termina, apesar de uma dúzia de gatos pingados não
terem entendido o recado mandado pelas pick-ups por Hector: aquela
típica seqüência bota-fora, fim de noite, com
direito até a uma canjinha dos Smiths. Crianças. Sempre
querendo mais. Mais gritos ensandecidos deste que vos escreve quando
"Seven Nation Army" dos Stripes começa a tocar,
mais encenação com os versos de "Keep Fishin'",
do Weezer, servindo de diálogo, mais sátiras como
aquela feita em cima da música da Xuxa, Brincar de Indie
(ao invés de Brincar de Índio), que você
já deve ter visto no blog de algum caiçara por aí.

|