| TEORIA E PRÁTICA DO FUTEBOL-ARTE
Em O Negro no Futebol Brasileiro,
Mário Filho estabelece o mito fundador do esporte no Brasil
e conta como negros ingressaram nos gramados do início do
século 20
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

ue o futebol é um esporte que nasceu inglês, todo mundo
sabe. Que encontrou o seu berço esplêndido na terra
de Iracema, todos também sabem. Que o futebol tem um padrasto
genial e torcedor ululante na figura inesquecível de Mário
Rodrigues Filho (1908-1966), muitos sabem, e isto é fato.
Mas saber que ele foi o inventor do futebol como espetáculo
épico como todos conhecem, sociólogo do esporte bretão
e pai da crônica futebolística, isso poucos sabem.
Para quem não sabe, vale a pena ler e conhecer a obra do
escritor e filósofo da bola Mário Filho, autor de
O Negro no Futebol Brasileiro, livro editado pela primeira
vez em 1947, e que ganha nova edição, pela editora
Murad. Empírico e rapsodo da bola, Mário Filho criou
o jornalismo esportivo como conhecemos hoje, concebeu e nomeou o
Estádio Municipal do Maracanã, inaugurou o clássico
Fla-Flu e criou o Torneio Rio-São Paulo, que se tornaria
o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (vulgo “Robertão”),
embrião do Campeonato Brasileiro.
MITO FUNDADOR
Ciente de que o Brasil era uma geléia geral e que o futebol
era algo mal assistido, Mário Filho decidiu intervir. Se
ninguém se habilitara a contar a história do começo,
ele mesmo se debruçaria sobre o assunto: alguma coisa como
teoria e prática do futebol-arte. Em seu livro, ele revela:
o primeiro clube a aceitar um jogador negro foi o Bangu, e o carioca
Vasco da Gama foi o precursor a colocar um time racialmente misto
em campo. Por mais incrível que pareça, no começo,
o futebol dos grandes clubes era interdito aos negros. Para poderem
jogar, eles usavam toucas para esconder o cabelo crespo e se maquiavam
com pó-de-arroz para clarear a pele. Para entrarem pela porta
da frente, eles tinham que se passar por pessoas brancas. O próprio
apelido de “pó-de-arroz”, não é
gratuito: ele nasceu da necessidade de certos jogadores que, por
mais geniais e convincentes que fossem, prescindissem do fato de
serem brancos para demonstrarem sua arte.
Foi a partir da questão da nacionalidade e do fetiche particular
de Mário Filho pelo futebol que O Negro no Futebol
Brasileiro veio à lume. O livro, escrito com um
texto vigoroso, importante material histórico e de caráter
épico, se tornaria referência de pesquisa da história
do esporte bretão no país. Principalmente porque a
bibliografia a respeito do assunto é rara e restrita, e a
obra de Mário Filho é, antes de tudo, o seu mito fundador.
É pelo fato de ser oriundo de um tempo em que a sociologia
brasileira engatinhava (Casa Grande e Senzala,
por exemplo, é de 1933) e advinha de um pensamento ora ufanista,
ora pessimista (vide Afonso Celso, Nina Rodrigues ou Paulo Prado),
Mário colocou a sua visão particular. Como dizem alguns,
ele atribuiu ao seu livro uma aura acadêmica. Particular porque,
com exceção de estudos formais sobre sociologia, em
quando ele começou a escrevê-lo, não havia o
que consultar, a não ser arquivos de jornais e o material
que ele começava a documentar no seu revolucionário
Jornal dos Sports.
O livro é audacioso. A despeito de uma pretensa objetividade
ao analisar os fatos, Mário Filho se aproxima um pouco do
pensamento que seu irmão viria a imprimir na crônica
esportiva, com um verniz de imaginação. Esse é
o fator questionado por seus detratores. A discussão teórica
sobre o futebol foi superestimada ao paroxismo de que O
Negro... se tornou um suporte teórico com fundo
falso. Como dizia Nelson Rodrigues, todos os eventos épicos
tinham sempre o seu Homero, o seu Dante à mão, a fim
de ser o seu rapsodo. O objetivo de Mário é justamente
este: ser o Homero do futebol. No livro, ele pretende fazer a genealogia
do esporte mais popular do Brasil e explicar a forma como negros
e mulatos ingressaram no futebol carioca do início do século
20. Mário revela que, num país “mulato”,
somente brancos ricos tinham o direito de correr atrás de
uma bola importada. Mais: o que definia a formação
dos times era a cor da pele e a composição da “assistência”,
enquanto os cariocas se questionavam sobre a necessidade de incluir
pretos num escrete.
Eles
diziam: pra que negros, se times de brancos eram campeões
no Rio? Fluminense, América, Botafogo e Flamengo. Mulatos
ou negros inexistiam na paisagem futebolística. E não
era apenas no Rio de Janeiro. Homens de cor eram segregados também
no Rio Grande do Sul. Por conta disso, jogadores negros criaram
a Liga da Canela Preta, no final da década de 20.
Negros só foram aceitos, a princípio, no Internacional
que, com um time misto, criou a primeira revolução
futebolística no estado, criando o mítico Rolo
Compressor. O preconceito racial do Grêmio, por exemplo,
só acabaria em 4 de março de 1952, com Osmar Fortes
Barcellos, o Tesourinha, contratado pelo time tricolor. Até
então ídolo da torcida colorada e reconhecido como
um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro,
apresentou-se na Baixada como primeiro reforço negro do clube,
depois de fazer fama nos gramados do Inter e do Vasco da Gama.
No começo, futebol era um esporte classudo. Só os
bem-nascidos tinham acesso a ele. Coisa de inglês. Negros
e mestiços (ou creoles) só conseguiram
ocupar seus espaços graças aos embranquecimentos artificiais.
Foi o pó de arroz usado pelos jogadores mulatos que deu nome
à torcida do Flu. Carlos Alberto, tricolor, usava o produto
no rosto para camuflar-se. O lendário Friedenreich alisava
o cabelo. Obstinado, Robson era “pó-de-arroz”.
Crivado de olhares preconceituosos, uma vez ele disse: "Eu
já fui preto e sei o que é isso”. O
Negro... é cheio de historietas desse tipo. Mário
Filho é capaz de emocionar, não sem nos deixar vermelhos
de vergonha. Principalmente porque, apesar de Mário Filho,
o preconceito ainda vive. Por incrível que pareça,
Mário também é considerado mentor desse “preconceito”.
Em A Invenção do País do Futebol -
Mídia, Raça e Idolatria, os autores Ronaldo
Helal, Antonio Jorge Soares e Hugo Lovisolo entendem que o livro
pioneiro de Mário se equivoca justamente no enfoque sociológico,
ao afirmar que o negro teria sido o criador da ginga, do drible,
do estilo brasileiro de se jogar futebol.
INVENÇÃO E CONSTRUÇÃO
Para eles, a utilização de O Negro no Futebol
Brasileiro por sociólogos criou uma espécie
de interpretação única, com os ideais da construção
de uma nação brasileira com menos antagonismos entre
as raças.Antonio Jorge Soares reconhece a qualidade do livro,
mas diz que o livro foi utilizado de maneira equivocada pelos cientistas
sociais. De fato, quando os estudiosos decidiram se debruçar
sobre a história social do futebol e discutir o seu papel
na sociedade brasileira, se depararam apenas com a obra de Mário
Filho. Desta maneira, o jornalista se tornou fonte principal. De
acordo com os pesquisadores, o equívoco não seria
de Mário, mas da forma com que especialistas acabaram franqueando
a tese do autor, como a construção do ídolo
negro — que seria mais uma criação romântica
que deu certo.
Para os autores, o racismo preexistiu, mas o nosso
futebol se fez mais pela pressão do profissionalismo, pela
criação das ligas, do que propriamente por racismo.
Jorge salienta que Mário Filho buscou constituir uma identidade
nacional, cujo enfoque tem influência do meio em que viveu.
De sua pena, teria nascido um conceito que encontra cognato no pensamento
daqueles tempos, a idéia de “coesão social”.
Todos se unem pelo futebol, o esporte os iguala. A partir daí
que Mário Filho foi usado em favor de uma teoria explicável
de que essa coesão social se faz, o negro vira o criador
da ginga e o futebol se torna brasileiro e a Seleção
Brasileira a “pátria de chuteiras”. Para Soares
e Lovisolo, esse conceito se criou antes pela necessidade de afirmação
de uma nação, e depois pela ''paixão'' dos
jornalistas. Para eles, tal fato se deu como opção
cultural que ocorreu na definição da identidade. O
futebol para ser tipicamente brasileiro tinha que ser alegre, plástico,
épico e lúdico.
É lógico que o fato de ser fruto de uma época
e de um lugar, O Negro... não possui demérito
algum em ser questionável do ponto de vista sociológico.
Tal questionamento visa apenas que Mário Filho seja encarado
como fonte, mas não como matriz indubitável. É
bem provável que esta não fosse a intenção
se seu autor, o pai dos cronistas esportivos. Além de prosa
excelente, ele é um grande livro de histórias:
"O Flamengo podia ter um preto no atletismo, no basquete,
no water-polo, no remo. Assistia-se a uma regata de longe, do pavilhão
da praia de Botafogo, da amurada da Avenida Beira-Mar, de uma barca.
Não se via direito o remador, via-se o barco, os remos. Os
remadores, numa regata, viravam uns barcos, uns remos.
Num match de futebol via-se o jogador em close-up.
Batalha, Pena e Hélcio, Mamede, Seabra e Dino, Newton, Candiota,
Nonô, Vadinho e Moderato. O Flamengo não podia ter
nenhum preto em futebol. Em futebol precisava ser branco, tão
branco como o Fluminense. Não era de admirar, portanto, que
quando gente do Flamengo e do Fluminense se juntava para formar
um escrete carioca, o escrete saísse todo branco, do quíper
ao extrema-esquerda" (p. 150)
O grande primeiro ídolo creole na Terra
da Palmeira foi Friedenreich, mulato de cabelo crespo, filho de
pai alemão e mãe negra. Jogador do Paulistano, se
tornaria famoso a partir de1919, após derrotar o Uruguai."O
povo descobrindo, de repente, que o futebol deveria ser de todas
as cores, futebol sem classes, tudo misturado, bem brasileiro",
narra Mário Filho. Num trecho, ele revela as atribulações
por que passavam os atletas que quisessem cidadania na Itália:
"O que valia um Bertini, um Zacconi no nome. Benedito de Oliveira
Menezes seria o Benedito Zacconi, adotando o nome do sogro. O sogro,
o Zacconi, virou pai do genro. A mulher, irmã dele”.
Só para se imaginar o que significava um sobrenome. E o incrível
é que a história de Benedito Menezes aconteceu na
década de 30. Na questão racial, Mário demonstra
que, a despeito da tal coesão social, a utilização
de negros tinha um viés maquiavélico. Oriundo da segundona,
o Vasco da Gama ganhou a primeira divisão usando um time
misto (brancos, negros e mulatos), "patrolando" times
100% brancos. Contudo, dirigentes da equipe diziam: "entre
um preto e um branco, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco fica
com o branco. O preto é para a necessidade, para ajudar o
Vasco a vencer".
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| Mario Filho, autor do livro |
Mário Rodrigues Filho, o ”Homero do
futebol”, nasceu no dia 3 de junho de 1908 em Recife, Pernambuco.
Desembarcou no Rio de Janeiro em 1916. Iniciou sua carreira jornalística
muito jovem, com apenas dezessete anos, nos jornais A Manhã
e Crítica. Desempregado, em 1931, ele foi convidado
por Roberto Marinho a chefiar a parte de esportes do jornal O
Globo. Foi Mário quem deu identidade à página
de esportes de um jornal, destituindo-o de todo formalismo ainda
existente. Em 1936, ele comprou de Roberto o Jornal dos Sports.
Foi no Jornal dos Sports que ele realizou a verdadeira revolução:
criou os Jogos da Primavera em 1947, os Jogos Infantis em
1951, o Torneio de Pelada no Aterro do Flamengo e o Torneio Rio-São
Paulo (que ele chamou de Roberto Gomes Pedrosa para melindrar os
paulistas). Mário também liderou a campanha pela construção
de um gigantesco estádio municipal no Rio de Janeiro, no
Derby carioca, o Maracanã, hoje Estádio Mário
Filho. Além de O Negro no Futebol Brasileiro, ele
escreveu outros nove livros, todos clássicos: Bonecas
(1927), Copa Rio Branco (1932), Histórias do Flamengo
(1934), Romance do Football (1949), Senhorita
(1950), Copa do Mundo de 62 (1962), Viagem em Torno de
Pelé (1964), O Rosto (1965) e Infância
de Portinari (1966). Em 1994, a Companhia das Letras editou
uma coletânea de crônicas de Mário, Sapo de
Ararubinha. 
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