equipe discussao anteriores
4 a 24 de agosto de 2003


Picosearch

COMO ERA AZUL O MEU RIACHO
Box com primeiro ano de Dawson’s Creek provoca fina ironia se comparado com os últimos capítulos da série

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

em mesmo Kevin Williamson teria feito melhor. O seriado adolescente Dawson’s Creek encerrou sua carreira, como diriam os americanos, coming full circle. Fechou um ciclo, deixando de lado os dilemas de Dawson e Joey nos últimos episódios, para apelar para a metalinguagem. Dawson, que era um alter-ego do roteirista e diretor Williamson, encerrou seus seis anos de existência televisiva criando uma série sobre sua própria adolescência. Para deleite dos fãs hardcore, a tal The Creek reproduzia exatamente os primeiros episódios de Dawson’s Creek, cena por cena, diálogo por diálogo.

Coincidência ou não, estes capítulos iniciais acabam de ser lançados em um box com três DVDs. Permanecem como o testemunho, em tudo digno da nostalgia que lhe acometeu em seus suspiros finais, de uma série que prometia muito, mas que se perdeu. Tivesse Williamson permanecido atento à reprodução de suas memórias pueris, ao invés de tentar ser diretor com Tentação Fatal, o resultado poderia ser diferente.

É difícil tecer uma crítica sobre o conteúdo desorientado da série depois da análise matadora que a jornalista Bia Abramo publicou na Folha de São Paulo. Ela dizia que Dawson’s Creek comprometia-se de tal maneira com uma postura adolescente conformista (e irreal) que restava aos personagens apenas discutir infinitamente suas relações amorosas. Tornavam-se Woody Allens, mas sem o mesmo humor. É fato. Faltou a Bia apenas notar que a aspiração a micro-Allens fracassou somente quando começou a se utilizar os diálogos rocambolescos como uma muleta que impedisse a progressão natural da trama - o reencontro de Dawson e sua querida Joey; o fim da tensão amorosa.

Por outro lado, este é o motivo pelo qual a primeira temporada em DVD ainda funciona. Os rostos imberbes de James Van Der Beek, Michelle Williams, Joshua Jackson e (a mais talentosa do grupo) Katie Holmes incorporam com perfeição todo o potencial daqueles primeiros anos. As falas soam frescas, até mesmo inovadoras. E a história - garoto do interior apaixona-se por menina da cidade grande, sem notar o amor platônico da amiga de infância - corre com a leveza do riacho que dá título à série. Tanto que, como é de se esperar, a temporada se encerra com Dawson completando o perímetro dramático e voltando a Joey. Não se contraria a psicologia dos personagens, muito menos a do espectador.

No início, também era levada à sério a paixão de Dawson pelo cinema. As referências à sétima arte eram bem aproveitadas nos argumentos de cada episódio. Mas ela também podia ser apreciada no âmbito técnico - e com exclusividade neste primeiro ano. A fotografia, de película, realça a beleza plástica dos atores e transforma a cidade de Capeside em um personagem a mais - até porque, antes de tornar-se preguiçosa, Dawson’s Creek era rodada com um grande número de cenas externas. A série imortaliza algumas ótimas paisagens, noites enluaradas e crepúsculos, que, em DVD, ganham nitidez ainda melhor.

O DVD ainda conta com alguns bônus razoavelmente fracos: uma entrevista com os atores, antes de Dawson’s estrear e tornar-se um fenômeno; bastidores do set de filmagem e comentários de Williamson e do produtor Paul Stupin sobre o episódio final. Este último, no entanto, é interessante: Williamson se debruça sobre a infância de seu ‘‘filhote’’ como que com a ciência da atribulada adolescência que se seguiu. Eis, então, a fina ironia que a primeira temporada de Dawson’s Creek deixa como legado: para um site teen, nada pior do que envelhecer.