| COMO ERA AZUL O MEU RIACHO
Box com primeiro ano de Dawson’s
Creek provoca fina ironia se comparado com os últimos
capítulos da série
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

em mesmo Kevin Williamson teria feito melhor. O seriado adolescente
Dawson’s Creek encerrou sua carreira, como diriam os
americanos, coming full circle. Fechou um ciclo, deixando
de lado os dilemas de Dawson e Joey nos últimos episódios,
para apelar para a metalinguagem. Dawson, que era um alter-ego do
roteirista e diretor Williamson, encerrou seus seis anos de existência
televisiva criando uma série sobre sua própria adolescência.
Para deleite dos fãs hardcore, a tal The Creek reproduzia
exatamente os primeiros episódios de Dawson’s Creek,
cena por cena, diálogo por diálogo.
Coincidência ou não, estes capítulos iniciais
acabam de ser lançados em um box com três DVDs. Permanecem
como o testemunho, em tudo digno da nostalgia que lhe acometeu em
seus suspiros finais, de uma série que prometia muito, mas
que se perdeu. Tivesse Williamson permanecido atento à reprodução
de suas memórias pueris, ao invés de tentar ser diretor
com Tentação Fatal, o resultado
poderia ser diferente.
É
difícil tecer uma crítica sobre o conteúdo
desorientado da série depois da análise matadora que
a jornalista Bia Abramo publicou na Folha de São Paulo.
Ela dizia que Dawson’s Creek comprometia-se de tal
maneira com uma postura adolescente conformista (e irreal) que restava
aos personagens apenas discutir infinitamente suas relações
amorosas. Tornavam-se Woody Allens, mas sem o mesmo humor. É
fato. Faltou a Bia apenas notar que a aspiração a
micro-Allens fracassou somente quando começou a se utilizar
os diálogos rocambolescos como uma muleta que impedisse a
progressão natural da trama - o reencontro de Dawson e sua
querida Joey; o fim da tensão amorosa.
Por outro lado, este é o motivo pelo qual
a primeira temporada em DVD ainda funciona. Os rostos imberbes de
James Van Der Beek, Michelle Williams, Joshua Jackson e (a mais
talentosa do grupo) Katie Holmes incorporam com perfeição
todo o potencial daqueles primeiros anos. As falas soam frescas,
até mesmo inovadoras. E a história - garoto do interior
apaixona-se por menina da cidade grande, sem notar o amor platônico
da amiga de infância - corre com a leveza do riacho que dá
título à série. Tanto que, como é de
se esperar, a temporada se encerra com Dawson completando o perímetro
dramático e voltando a Joey. Não se contraria a psicologia
dos personagens, muito menos a do espectador.
No
início, também era levada à sério a
paixão de Dawson pelo cinema. As referências à
sétima arte eram bem aproveitadas nos argumentos de cada
episódio. Mas ela também podia ser apreciada no âmbito
técnico - e com exclusividade neste primeiro ano. A fotografia,
de película, realça a beleza plástica dos atores
e transforma a cidade de Capeside em um personagem a mais - até
porque, antes de tornar-se preguiçosa, Dawson’s
Creek era rodada com um grande número de cenas externas.
A série imortaliza algumas ótimas paisagens, noites
enluaradas e crepúsculos, que, em DVD, ganham nitidez ainda
melhor.
O DVD ainda conta com alguns bônus razoavelmente
fracos: uma entrevista com os atores, antes de Dawson’s
estrear e tornar-se um fenômeno; bastidores do set de
filmagem e comentários de Williamson e do produtor Paul Stupin
sobre o episódio final. Este último, no entanto, é
interessante: Williamson se debruça sobre a infância
de seu ‘‘filhote’’ como que com a ciência
da atribulada adolescência que se seguiu. Eis, então,
a fina ironia que a primeira temporada de Dawson’s Creek
deixa como legado: para um site teen, nada pior do que
envelhecer. 
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