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O VELHO E BOM BANDIDO
Longe da isenção pretendida, Caco Barcelos constrói em Abusado um quadro irregular sobre a vida nos morros e do traficante Marcinho VP

por Thiago P. Ribeiro (thiagopribeiro@cinemando.com.br)

reio que poucos tenham lido o apesar de tudo excelente livro Abusado, de Caco Barcelos, com a atenção que este merecia. Longe de se tratar apenas de uma romantização da vida de um bandido superestimado pela mídia e por todos, a obra traz em suas numerosas linhas uma versão da história desconhecida de todos e de quebra nos mostra um dos grandes personagens de nossa literatura. Juliano VP, além de ser a visão única do jornalista sobre um ícone da violência moderna, é uma pequena releitura do tema bandidagem. Longe da sociologia e do antropologismo de estudos anteriores, o livro do renomado e consagrado repórter é um pequeno libelo ao bandido moderno.

Maniqueísta como todo bom autor, Caco traz para os olhos do leitor um homem/menino comum arremessado na desgraça de novos tempos. Tempos em que a violência brota das vielas e becos. Tempos em que biroscas e pontos de vendas de drogas são tomados à bala. Mas principalmente, tempos em que matar se torna necessário e até recomendável. Como nos bons e velhos filmes noir, a maldade está presente em todos, mas nem por isso deixamos de amar e torcer pelo bad guy. Somos lançados ao mundo privado de uma guerra que há muito já não é tão particular assim. Temos a impressão de que estamos, como gosta de frisar a todo instante o personagem do livro, no lado certo da vida errada.

 Caco Barcellos

Juliano é cria de um ambiente hostil mas nem por isso deixa de pensar nos amigos, moradores do morro e na unidade de uma causa. A revolução sonhada por tantos através dos tempos se mostra uma preocupação natural do líder comunitário. Juliano VP, o dono do morro Santa Marta, é sempre o mocinho. Por mais que Caco se esforce para ser imparcial e mostrar com clareza e isenção a “vida louca” das “bocas de fumo”, o bandido acaba se tornando o herói. Não só dos compaheiros de luta, mas também de leitores que sonham com uma revolução vinda das ruas, de intelectuais que acreditam no diálogo entre as classes, de mulheres que buscam emoções mais fortes, de crianças que ficam em seus barracos o dia todo sem nada no que pensar. Acaba se tornando o herói da história.

O trabalho investigativo do jornalista se mostra apurado e amplo, mas o foco do romancista se sobrepõe ao do imparcial homem da notícia. Marcinho VP dá lugar ao carismático e querido Juliano VP, um pseudônimo que parece ter nascido errado, no lugar errado e na hora errada. Adorado por muitos e transformado em símbolo da ousadia, o protagonista desta estória de ação e crimes é um joguete do destino, designado a sofrer os percalços do mal. Seus atos são camuflados e transfigurados em ações guerrilheiras, em ímpetos de coragem e heroísmos. Seus bondes armados são sempre retratados como empreitadas revolucionárias e sadias. São os cavalos de arranque de novos tempos em que os fracos e sem valia se tornam úteis e existentes. Seus atos são valiosos e sempre socialmente válidos.

 Marcinho VP

Longe de ser o vilão que os jornais voltaram a pintar recentemente, após sua morte ocorrida dentro de Bangu 3 e ainda envolta em mistério, Marcinho VP não era o mocinho que Caco mostra nas páginas brancas e leves de Abusado. Seus atos nunca são expostos com clareza e suas vítimas e crimes nunca são inteiramente desnudados. Temos a sensação de que todos somos culpados, mas que aquele homem não tem nada a ver com a estória, ele está apenas tentando mudá-la. O livro peca por não dissecar as verdadeiras relações existentes no morro, e de quebra mostra apenas um lado da torpe visão de mundo de um homem que nunca existiu.

Mesmo sendo um elemento da ficção, Julano/Marcinho VP é um exemplo da espetacularização da bandidagem. Os livros, os filmes, os documentários, os inúmeros textos escritos sobre o tema apenas têm servido para aumentar a aura criada em volta destes novos elementos das guerras modernas. Abusado não deixa de ser mais uma versão da história, contada com propriedade, mas sem a isenção necessária, que se perde na tarefa de relatar, ao ilustrar com tintas coloridas e leves a vida de desgraçados sem futuro e que tornam a vida menos importante a cada novo ato.