equipe discussao anteriores
15 a 28 de setembro de 2003


Picosearch

ONDE O GRÊMIO ESTIVER
O imortal Tricolor de Porto Alegre, quem diria, comemora um século de vitórias segurando a lanterninha do Brasileirão

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 

 O Time do Grêmio campeão do mundo, 1983

óquio, 10 de dezembro de 1983. O placar eletrônico do Estádio Nacional de Tóquio marcava 38 minutos do primeiro tempo, quando o camisa 7 do Grêmio, Renato Portaluppi, aplicou três dribles seguidos e chutou a bola direto para as redes do goleiro Stein, do Hamburgo. Embretado na mesma missão do inimigo, o time alemão ainda tentou reagir, a fim de erguer o troféu do Mundial Interclubes. Schroeder, “joão” daquela seqüência de dribles, vingou-se de Renato, e empataria aos 41 da primeira etapa. Porém, a decisão do jogo estava escrito nos oráculos há 6 mil anos, como diria Nelson Rodrigues. Era a partida de Renato. Depois de um segundo tempo sem gols, a partida foi para a prorrogação. Aos três minutos, com um cruzamento de Caio do lado esquerdo, Portaluppi dominou a bola, e mandou, sem chances para o goleiro. Grêmio 2 a 1, campeão do Mundo. Como dizia uma marchinha da época, nada poderia ser maior, e a decisão de 1983 seria considerada como o maior jogo do clube que, fundado num 15 de setembro de 1903, completa um século este ano. A festa, porém, tem cheiro de velório: no atual momento, o Grêmio ostenta pífios 24 pontos, amargando um trágico degredo segurando a lanterninha do Brasileirão — posição garantida após mais uma derrota, dessa vez contra o Fluminense, no último 30 de agosto, mesmo com um jogador a mais em campo. Nada poderia ser pior.

PASSADO E PRESENTE

A histórica e longínqua partida também indicaria um período de superação do já secular Grêmio que, depois do hepta gaúcho em 1968, passou por um inefável ostracismo frente à década de 70, quando o tricolor porto-alegrense foi sufocado pelos títulos do seu tradicional arquiinimigo, o Internacional. A partir do episódio do Mundial Interclubes, o clube do Olímpico iniciou uma fase considerada plena de êxitos, passando por mais uma Libertadores da América (1995) e quatro títulos da Copa do Brasil. O fato pitoresco a ser lembrado no ensejo das comemorações do centenário gremista é que a gênese do clube se confunde com a própria história do futebol de Porto Alegre. Até 1903, a voga consistia apenas em esportes náuticos ou hípicos. O futebol, ou foot-ball, se mostrava mais acessível e menos classudo. Para tanto, bastava apenas uma bola e um terreno vadio.

Tudo começou quando o primeiro clube de futebol do Brasil, o Esporte Clube Rio Grande, foi convidado a se apresentar em Porto Alegre em comemoração de mais um sete de setembro. A chegada triunfal contou com chapéus jogados ao ar e corbeilles. Cerca de duas mil pessoas compareceram ao Campo da Várzea para assistir o jogo. No meio da partida, a única bola trazida pela delegação furou. Seria o fim do jogo, se um grupo de jovens não irrompesse do meio do povo — um deles trazia uma bola. A pelota pertencia a um certo Cândido Dias da Silva, que havia ganhado de presente de seus irmãos, paulistas como ele. Como ele e seus amigos não sabiam as regras, ele emprestou a bola em troca de uma aula de como jogar aquele curioso esporte. Uma semana depois, aqueles jovens decidiriam fundar também dois clubes: o Fussball e o Grêmio Foot-ball Porto-Alegrense, que chegou até os dias de hoje (o Internacional só surgiria em 1909).

Ao todo, o tricolor possui 77 títulos. São 59 estaduais e citadinos, seis da cidade, entre 1910 e 1930, uma Copa Mercosul, uma Recopa, um título de Supercampeão Brasileiro, quatro copas do Brasil, dois campeonatos brasileiros, duas Libertadores e um Mundial Interclubes. O tetra da Copa do Brasil, por sua vez, se tornaria o símbolo de uma época: após a vitória naquela final, por 3 a 1 sobre o Corinthians, o Grêmio não levantaria mais nenhuma taça. O passado de glórias, quando uma bola na grande área tinha destino certo no fundo das redes, parece ter sumido por sortilégio e contrasta muito com a atual situação do clube. Para muitos, devido a sua invencibilidade, as aparentes desclassificações entre 2001 e 2003 seriam bissextas, uma reles turbulência em seu percurso de títulos. Quem sabe por causa disto, talvez ninguém suspeitasse o que estaria por acontecer nos arredores do Estádio Olímpico no ensejo do centenário gremista.

CLEMÊNCIA

A falta de títulos, contudo, seria o menor problema comparado à crise técnica que se seguiria, dois anos depois, com erros de avaliação à longo prazo, o fim da parceria com a ISL (International Sports Leisure) e uma conseqüente crise financeira e carência de jogadores de qualidade a fim de disputar jogos no segundo semestre de 2003, além de uma crise tática e erros consecutivos no comando do futebol do clube, fatores que colocaram o Grêmio na lanterna do Brasileirão deste ano, com apenas seis vitórias em 30 jogos. O paroxismo aconteceu durante a participação gremista na Copa Sul-Americana deste ano. Disputando sua primeira partida contra o São Paulo, no Olímpico, o tricolor foi amassado pelo clube paulista e só não escapou de levar seis ou sete gols porque alguns torcedores invadiram o campo e pediram clemência aos adversários. Um deles, transtornado, agitava furiosamente uma bandeira do Rio Grande do Sul O técnico do São Paulo, Roberto Rojas, consentiu, e concedeu piedade aos atletas do Grêmio, como se fossem escravos jogados às feras, num circo romano.

— Nunca tinha visto um time com tanto medo — disse Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, após o jogo. — A bola estava queimando nos pés dos jogadores do Grêmio.

“O medo de errar aumenta o risco de erros”, disse Paulo Roberto Falcão, ex-lateral-direito do Internacional na década de 70 e comentarista esportivo. “O medo de ser humilhado pode despertar a agressividade e leva à omissão”. Para ele, o time errou demais, perturbou-se emocionalmente e fugiu da responsabilidade. O que doeu mais aos torcedores foi ver um clube vencedor fugindo da bola e sendo goleado em casa, e durante uma competição internacional e no ano do centenário do clube. “Que time medíocre, sem vontade, sem sorte”, disse um torcedor, após o jogo. “Se não fosse a invasão, o São Paulo teria demolido o Grêmio”. Na verdade, o time amedrontado que Rogério Ceni testemunhou era o corolário de uma crise sem precedentes, dentro e fora do campo, e que começou em meados de 2001. “O fato que está acontecendo agora não aconteceu esta semana, mas sim ao longo de todo esse tempo”, afirma Fábio Koff, ex-dirigente tricolor. “Não houve uma concepção correta sobre o que se queria com uma equipe de futebol, e está se pagando esse preço agora”.

QUIMERAS

Em março daquele ano, a multinacional suíça ISL entrou em concordata um ano após formar parceria com o Grêmio. O contrato com a malfadada empresa de marketing soprava o mesmo canto de sereia que seduziu o Flamengo, em 1999: montagem de uma super equipe e uma injeção mensal de R$ 2 milhões nos cofres do clube. Porém, ao contrário do que aconteceu pelos lados da Gávea, o tricolor porto-alegrense conquistaria títulos, o Gauchão, a Copa do Brasil e ainda chegaria às semifinais da Copa Mercosul (hoje Sul-Americana). O ano produtivo não provocou nenhum problema e, sem traumas, o clube entrou pisando firme em 2002. A perda do Supercampeonato Regional daquele ano (desclassificado com uma goleada de 4 a 2 do inexpressivo XV de Novembro, de Campo Bom) e a vitória também não causou maiores abalos: aquele era mais um ano de Libertadores. A derrota frente ao Olímpia do Paraguai, em Assunción, foi o fim daquela quimera, mas ainda não seria a última.

O desempenho no Campeonato Brasileiro de 2002 possibilitou ao Grêmio a disputa de mais uma Libertadores da América. Mais do que bem vinda, ela seria mais do que oportuna: chegar ao tri da América quando o clube faz um século faria jus ao passado de glórias tricolor. Para torcedores e conselheiros, o Grêmio começou a fazer água quando dispensou o preparador físico Paulo Paixão em favor de Adenor Bacchi, o Tite (hoje no São Caetano). A explicação da diretoria foi de que houve necessidade de corte de despesas. Apesar dos supostos atritos do técnico com os ex-dirigentes e dos resultados desfavoráveis em 2002, ele seria mantido no cargo, já sob o comando do presidente Flávio Obino, que foi escolhido por aclamação, sob um clima de confiança na tradição do clube e no “porvir venturoso” em lugar de José Alberto Guerreiro, no fim do ano passado.

A manutenção do treinador se deu porque ele mantinha uma boa relação com o grupo de jogadores e seria a única pessoa capaz de mobilizar a equipe, que há meses reclamava de atrasos salariais. Segundo o ex-dirigente Luís Eurico Vallandro, Tite adotava uma atitude personalista, não gostava da interferência de dirigentes em seu trabalho e protegia seus jogadores. “Ele acabou discutindo várias vezes com o Zé Otávio (Germano) e acabou criando essa questão”.Vallandro revelou que, no episódio da saída de Paixão do clube (que ingressaria no Internacional), houve uma incompatibilidade de gênios entre o preparador físico e o técnico. “O Paixão é um homem de personalidade forte, é um agregador que motiva muito no vestiário”, diz. O ex-vice de futebol entende que Tite talvez enxergasse em Paixão um concorrente. “Entendo que houve uma dificuldade, e a saída do Paixão se somou a uma série de situações traumáticas, e o Grêmio pagou o ônus disso”, conclui.

“OVELHINHAS”

Por sinal, Vallandro foi a última opção de Flávio Obino para o futebol do Grêmio. Após a recusa de nomes como Luís Carlos Silveira Martins, Adalberto Preis ou Rafael Bandeira dos Santos, o presidente gremista optou por ele. Problemas de disciplina no vestiário eram constantes. A relação entre Tite e os jogadores e a dependência do clube em tê-lo como pacificador perante os atletas lhe investiu poder de mando superior ao do vice de futebol. Vallandro não foi capaz de reverter a situação, ao mesmo tempo em que tal situação ocorria com a anuência do presidente tricolor. Com isso, problemas de indisciplina eram constantes. Na estréia do Grêmio no Gauchão, o jogador Gilberto forçou um cartão vermelho. O lateral Anderson Lima, ao ser interpelado por Vallandro, no vestiário, mandou o dirigente “lavar a boca” antes de falar no nome dele. A relação entre Tite e os jogadores deu o apelido de “ovelhinhas” ao grupo de jogadores — numa conversa entre o vice e Obino captado pela imprensa através de um celular ligado, dia 30 de abril, logo após a vitória do Grêmio frente ao Olímpia.

No dia seguinte, houve uma reunião dos dirigentes com os jogadores. Com o dedo em riste, Rodrigo Fabri exigiu que Luís Onofre Meira (também então responsável pelo futebol do Grêmio e integrante da conversa gravada) pedisse desculpa à equipe. Vallandro pediu o afastamento de Ânderson, Fabri e Luís Mário, as “ovelhinhas” de Tite. Apesar de todo o escândalo, os três jogadores permaneceriam no grupo à pedido e por decisão de Obino, que deu todo o poder a Tite a fim de “pastorear” o seu plantel, que disputava a Libertadores da América. Mesmo naquele momento extremo, a vexatória posição de lanterna do Regional não abalou a confiança de equipe técnica, dirigentes, conselheiros: a decisão de priorizar o certame sul-americano era mais importante do que ganhar o “ruralito” (forma depreciativa com que os torcedores gremistas apelidam o Gauchão) ou se preocupar com o Brasileiro.

A desclassificação do Grêmio na Libertadores foi um balde de água fria nos sonhos de ser tricampeão em 2003. Ao contrário dos anos anteriores, o atraso de salários e a crise financeira, — somados aos revezes em competições — não saíam dos limites do Olímpico. Correndo por trás, estes atrasos decretariam a derrocada da equipe, que vinha costurando e descosendo a sua mortalha desde os tempos da ISL. Ao ser eliminado da Libertadores em 2002, sem as cotas da Sul-Americana e o corte de verbas pagas pela transmissão dos jogos, o clube viu seus cofres raspados. Enquanto o atraso de salários era traduzido por um mau desempenho em campo, a falta de dinheiro obrigou o Grêmio a reduzir gastos, enquanto via o seu plantel ser desmanchado após a saída de Tite e a resignação em salvar a imagem.

CAVEIRA NO ESPELHO

Este ano, os jogadores não deixavam de transparecer o desapontamento. Gilberto, por exemplo, que havia deixado o Grêmio após recente convocação para a seleção Brasileira, só reingressou ao grupo após a promessa de que seus salários seriam pagos e, mesmo assim, seu contrato tem uma cláusula misteriosa que o impede de se manifestar sobre o assunto. Sem dinheiro, a debandada foi geral. Já em 2003, o clube havia perdido Zinho, Mauro Galvão, Valdo, Paulo Hernandéz, Leandro Amaral, Fábio Baiano e Rodrigo Mendes. Porém, tendo em vista manter em parte a “seleção de ouro” de 2002, o departamento de futebol firmou acordo de apenas seis meses com atletas que, finda a Libertadores, deixaram o Olímpico. A eliminação custou R$ 3 milhões ao clube, sendo que a folha salarial só com jogadores gira em torno de R$ 900 mil. Uma fortuna para um clube de cofres raspados.

Hoje muitos torcedores avaliam que o Grêmio priorizou a competição sul-americana também como se estivesse em busca do ouro. “Eles jogavam mais pelo bicho do que pela camiseta”, diz Alberto Tomaselli, torcedor. “O presidente Obino disse que faltou apenas o gol do Carlos Miguel, mas ele sabia que o Miguel não tinha condições de jogar, botaram ele naquele delírio de ficar acreditando num pensamento mágico, de que a gente ia ganhar só na camiseta”, reclama. Já o primeiro mandatário tricolor se defende: “jamais descuidamos do Campeonato Brasileiro, mas na véspera dos grandes jogos, priorizamos a Libertadores, procurando equilibrar as duas disputas”. Otimista, ele simplificou, em depoimento à imprensa:

— Quando falta o gol, não há diferença entre uma administração eficiente e outra que deixa a desejar — se defende Obino.

Depois da derrota nas quartas de final, Ânderson Polga foi para o Sporting de Lisboa, Rodrigo Mendes recebeu proposta no Japão e Luís Mário mudou-se para a Coréia. Fabri e Amaral também debandaram. Com o que sobrou do plantel, em dinheiro e com o prazo de contratações expirando em agosto, o Grêmio viu a caveira no espelho com uma equipe sem qualidade, onde nem os melhores jogadores desencantaram este ano — caso de Roger e Ânderson Lima. Christian, centroavante contratado para a guerra santa da Libertadores, foi suspenso por dois meses no jogo contra o Figueirense. Mesmo após esse período, Christian não conseguiu marcar um único e escasso gol.

A certeza da virada a cada partida, a esperança com o retorno de jogadores suspensos e a escolha de mais um técnico davam ânimo para a torcida, mas, a cada derrota, o medo venceu a esperança. Estando na 18o posição após o jogo do Independiente de Medellín, o Grêmio entrou em uma lenta e discreta curva descendente que, mesmo chegando à lanterna do Campeonato Brasileiro após a derrota frente ao Guarani de Campinas, parece transcender a última colocação. Nem a camiseta, nem a tradição, nem o nome de atletas vencedores, como o goleiro Danrlei, nem o retorno de Christian ao grupo, após ser suspenso por ter agredido o árbitro Alício Pena Júnior, e nem a troca de comando no departamento de futebol — hoje sob a batuta de Saul Berdichevisky — indicam, por si só, qualquer possibilidade real de reversão.

“Falta qualidade”, resume o ex-zagueiro gremista Aírton Ferreira da Silva, o Pavilhão, símbolo vivo do Grêmio cuja história se confunde com a história do clube vencedor dos anos 60, quando deu ao tricolor porto-alegrense doze títulos em treze anos. Para ele, hoje a história é diferente: “jogadores que tínhamos como solução, como o Amaral e o Tinga, eu achava que os dois iriam resolver tudo no meio-campo”. Além da carência de qualidade técnica, Aírton entende que existem problemas na zaga. Para ele, com a falta de defensores, os técnicos sucessivos (após Tite, o Grêmio apostou em Darío Pereyra, depois de tentar Mário Sérgio e Abel Braga, que em oito jogos, perdeu cinco, e Nestor Simionatto, quatro derrotas e uma vitória, e o atual, Adílson “Capitão América” dos Santos, com dois empates e uma derrota) exigem que o esquema tático seja improvisado. “Improvisação nunca dá certo”.

A temerária campanha do Grêmio, até o presente momento, apresenta apenas 20% de aproveitamento. Nos últimos dez jogos, uma vitória, que foi sobre o Santos, três empates e seis derrotas. A partir da desclassificação da Libertadores, foram 30 jogos, com seis vitórias, seis empates e dezoito derrotas. Após o episódio das “ovelhinhas” e do desmantelamento da equipe (com a suspensão dos jogadores Christian e Gavião após a derrota contra o Figueirense, e a saída de Fabri, Ânderson Polga e Luís Mário e Amaral) o aproveitamento foi de 26%. Na temporada, o vencedor clube centenário tem apenas 32,6%, o pior aproveitamento do Grêmio nos últimos 15 anos. Mais: o clube tem o pior ataque da competição, com 26 gols em 29 jogos, média de 0,89 gols por partida.

“POUCA LUZ”

“Eu moro defronte ao campo do Grêmio”, diz Aírton, que jogou no tricolor de 1955 até 1968 e é considerado o maior zagueiro gaúcho que já botou uma chuteira no Rio Grande do Sul, e que hoje vive perto do Largo dos Campeões, no acesso principal ao Estádio Olímpico, no bairro Azenha. Apesar de tal privilégio, hoje Aírton sofre a cada rodada, e não tem coragem de “ir a campo”. “Eu chego a não ir ao campo apesar do meu sofrimento. Quando eu abro a janela do meu quarto e vejo aquela bandeira tremulando, e sei que a gente está numa situação em que vejo pouca luz. Nunca vi o Grêmio nessa situação”, revela. “A gente vê às vezes o Grêmio jogando tão mal que parece que eles desaprenderam tudo, ou sabem fazer e não estão fazendo”.

“Eu cheguei no Grêmio em 1973, fiquei até 1976 sem ganhar ou fazer gols em Grenais, mas nunca passei numa situação de um Grêmio lá embaixo”, revela Tarciso, campeão brasileiro em 1981, gaúcho, da América e Campeão do Mundo, com Mazzaropi, Baidek, China, Paulo Roberto, Oswaldo, Bonamigo, Renato e Mário Sérgio, De León e Paulo César Caju, no longínquo e nostálgico 1983. “Encontro os torcedores na rua, e só sei falar uma coisa ao torcedor: está ruim, é fácil quem está fora criticar a direção. Só quem pode mudar isso aí são os jogadores” explica. Tarciso diz que estava no Olímpico no jogo contra o São Paulo, quando a bola parecia queimar os pés dos atletas gremistas adversários. “Eu saí no segundo tempo e fui embora, para não ser mais um corneteiro, porque passei por uma situação quase igual, e não adianta criticar os que estavam ali, fazendo o melhor”. Para ele, a solução só vem de dentro do campo. “Os jogadores têm que olhar um para o outro, e ver que existe uma família deles que esta sofrendo e que, se o Grêmio cair, cai também o jogador. Como eu fiz história dentro do clube, de ser campeão, e isso está nos livros, amanhã pode ficar o nome deles, de como o Grêmio foi para a segunda divisão”.

Já Alcindo, o Bugre Xucro, velho centroavante do Grêmio dos tempos de Aírton e João Severiano, heptacampeão gaúcho, entende que a única forma de sair da vexatória posição na tabela é através da superação, treinando até a exaustão. Para ele, a repetição dá a tranqüilidade necessária para um bom desempenho em campo. Alcindo foi hepta regional (sobre o Inter de Bráulio e Gainete, em 1968), disputando a taça Roberto Gomes Pedrosa e priorizando, quem diria, o “ruralito”. O mítico ídolo gremista faz coro a Tarciso em dizer que tem experiência em vivenciar crises como a do Grêmio, mas nenhuma com a proporção dramática de 2003. A receita, para o Bugre, além da dedicação espartana, é fazer uma tática pensando no único atacante de ofício que existe no grupo, o também centroavante, Christian. Alcindo associa a carência de gols à falta de concatenação dos três setores do time e a falta de assistência ao seu principal atacante: “Se não o encostarem, é injusto cobrar gols dele”, explica.

Mas fica a pergunta no ar: se a nostálgica decisão daquele que é considerado o maior jogo do Grêmio em todos os tempos, em 1983, estava escrito nos oráculos há 6 mil anos, será que o seu destino fatal rumo à segunda divisão, logo no ano do centenário, também estará? Para escapar do rebaixamento, será preciso vencer oito jogos nas próximas dezessete rodadas e disputar um patético “hexagonal da morte” com seus respectivos adversários diretos na rabeira da tabela, a saber: Ponte Preta, Juventude, Bahia, Fluminense (que já faturou três pontos em cima dos azuis, no returno) e Fortaleza — feito que, para um time que venceu apenas seis partidas no Campeonato Brasileiro, parece mais uma tarefa de gincana macabra. Pelo menos, uma coisa é certa: por ironia do destino, o aniversário do imortal tricolor este ano caiu — inexoravelmente — numa segunda...