| ONDE O GRÊMIO ESTIVER
O imortal Tricolor de Porto Alegre,
quem diria, comemora um século de vitórias segurando
a lanterninha do Brasileirão
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
 |
| O Time do Grêmio campeão
do mundo, 1983 |
óquio, 10 de dezembro de 1983. O placar eletrônico
do Estádio Nacional de Tóquio marcava 38 minutos do
primeiro tempo, quando o camisa 7 do Grêmio, Renato Portaluppi,
aplicou três dribles seguidos e chutou a bola direto para
as redes do goleiro Stein, do Hamburgo. Embretado na mesma missão
do inimigo, o time alemão ainda tentou reagir, a fim de erguer
o troféu do Mundial Interclubes. Schroeder, “joão”
daquela seqüência de dribles, vingou-se de Renato, e
empataria aos 41 da primeira etapa. Porém, a decisão
do jogo estava escrito nos oráculos há 6 mil anos,
como diria Nelson Rodrigues. Era a partida de Renato. Depois de
um segundo tempo sem gols, a partida foi para a prorrogação.
Aos três minutos, com um cruzamento de Caio do lado esquerdo,
Portaluppi dominou a bola, e mandou, sem chances para o goleiro.
Grêmio 2 a 1, campeão do Mundo. Como dizia uma marchinha
da época, nada poderia ser maior, e a decisão de 1983
seria considerada como o maior jogo do clube que, fundado num 15
de setembro de 1903, completa um século este ano. A festa,
porém, tem cheiro de velório: no atual momento, o
Grêmio ostenta pífios 24 pontos, amargando um trágico
degredo segurando a lanterninha do Brasileirão — posição
garantida após mais uma derrota, dessa vez contra o Fluminense,
no último 30 de agosto, mesmo com um jogador a mais em campo.
Nada poderia ser pior.
PASSADO E PRESENTE
A histórica e longínqua partida também indicaria
um período de superação do já secular
Grêmio que, depois do hepta gaúcho em 1968, passou
por um inefável ostracismo frente à década
de 70, quando o tricolor porto-alegrense foi sufocado pelos títulos
do seu tradicional arquiinimigo, o Internacional. A partir do episódio
do Mundial Interclubes, o clube do Olímpico iniciou uma fase
considerada plena de êxitos, passando por mais uma Libertadores
da América (1995) e quatro títulos da Copa do Brasil.
O fato pitoresco a ser lembrado no ensejo das comemorações
do centenário gremista é que a gênese do clube
se confunde com a própria história do futebol de Porto
Alegre. Até 1903, a voga consistia apenas em esportes náuticos
ou hípicos. O futebol, ou foot-ball, se
mostrava mais acessível e menos classudo. Para tanto, bastava
apenas uma bola e um terreno vadio.
Tudo começou quando o primeiro clube de futebol do Brasil,
o Esporte Clube Rio Grande, foi convidado a se apresentar em Porto
Alegre em comemoração de mais um sete de setembro.
A chegada triunfal contou com chapéus jogados ao ar e corbeilles.
Cerca de duas mil pessoas compareceram ao Campo da Várzea
para assistir o jogo. No meio da partida, a única bola trazida
pela delegação furou. Seria o fim do jogo, se um grupo
de jovens não irrompesse do meio do povo — um deles
trazia uma bola. A pelota pertencia a um certo Cândido Dias
da Silva, que havia ganhado de presente de seus irmãos, paulistas
como ele. Como ele e seus amigos não sabiam as regras, ele
emprestou a bola em troca de uma aula de como jogar aquele curioso
esporte. Uma semana depois, aqueles jovens decidiriam fundar também
dois clubes: o Fussball e o Grêmio Foot-ball
Porto-Alegrense, que chegou até os dias de hoje (o Internacional
só surgiria em 1909).
Ao todo, o tricolor possui 77 títulos. São 59 estaduais
e citadinos, seis da cidade, entre 1910 e 1930, uma Copa Mercosul,
uma Recopa, um título de Supercampeão Brasileiro,
quatro copas do Brasil, dois campeonatos brasileiros, duas Libertadores
e um Mundial Interclubes. O tetra da Copa do Brasil, por sua vez,
se tornaria o símbolo de uma época: após a
vitória naquela final, por 3 a 1 sobre o Corinthians, o Grêmio
não levantaria mais nenhuma taça. O passado de glórias,
quando uma bola na grande área tinha destino certo no fundo
das redes, parece ter sumido por sortilégio e contrasta muito
com a atual situação do clube. Para muitos, devido
a sua invencibilidade, as aparentes desclassificações
entre 2001 e 2003 seriam bissextas, uma reles turbulência
em seu percurso de títulos. Quem sabe por causa disto, talvez
ninguém suspeitasse o que estaria por acontecer nos arredores
do Estádio Olímpico no ensejo do centenário
gremista.
CLEMÊNCIA
A falta de títulos, contudo, seria o menor problema comparado
à crise técnica que se seguiria, dois anos depois,
com erros de avaliação à longo prazo, o fim
da parceria com a ISL (International Sports Leisure)
e uma conseqüente crise financeira e carência de jogadores
de qualidade a fim de disputar jogos no segundo semestre de 2003,
além de uma crise tática e erros consecutivos no comando
do futebol do clube, fatores que colocaram o Grêmio na lanterna
do Brasileirão deste ano, com apenas seis vitórias
em 30 jogos. O paroxismo aconteceu durante a participação
gremista na Copa Sul-Americana deste ano. Disputando sua primeira
partida contra o São Paulo, no Olímpico, o tricolor
foi amassado pelo clube paulista e só não escapou
de levar seis ou sete gols porque alguns torcedores invadiram o
campo e pediram clemência aos adversários. Um deles,
transtornado, agitava furiosamente uma bandeira do Rio Grande do
Sul O técnico do São Paulo, Roberto Rojas, consentiu,
e concedeu piedade aos atletas do Grêmio, como se fossem escravos
jogados às feras, num circo romano.
— Nunca tinha visto um time com tanto medo — disse
Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, após o
jogo. — A bola estava queimando nos pés dos jogadores
do Grêmio.
“O medo de errar aumenta o risco de erros”, disse Paulo
Roberto Falcão, ex-lateral-direito do Internacional na década
de 70 e comentarista esportivo. “O medo de ser humilhado pode
despertar a agressividade e leva à omissão”.
Para ele, o time errou demais, perturbou-se emocionalmente e fugiu
da responsabilidade. O que doeu mais aos torcedores foi ver um clube
vencedor fugindo da bola e sendo goleado em casa, e durante uma
competição internacional e no ano do centenário
do clube. “Que time medíocre, sem vontade, sem sorte”,
disse um torcedor, após o jogo. “Se não fosse
a invasão, o São Paulo teria demolido o Grêmio”.
Na verdade, o time amedrontado que Rogério Ceni testemunhou
era o corolário de uma crise sem precedentes, dentro e fora
do campo, e que começou em meados de 2001. “O fato
que está acontecendo agora não aconteceu esta semana,
mas sim ao longo de todo esse tempo”, afirma Fábio
Koff, ex-dirigente tricolor. “Não houve uma concepção
correta sobre o que se queria com uma equipe de futebol, e está
se pagando esse preço agora”.
QUIMERAS
Em março daquele ano, a multinacional suíça
ISL entrou em concordata um ano após formar parceria com
o Grêmio. O contrato com a malfadada empresa de marketing
soprava o mesmo canto de sereia que seduziu o Flamengo, em 1999:
montagem de uma super equipe e uma injeção mensal
de R$ 2 milhões nos cofres do clube. Porém, ao contrário
do que aconteceu pelos lados da Gávea, o tricolor porto-alegrense
conquistaria títulos, o Gauchão, a Copa do Brasil
e ainda chegaria às semifinais da Copa Mercosul (hoje Sul-Americana).
O ano produtivo não provocou nenhum problema e, sem traumas,
o clube entrou pisando firme em 2002. A perda do Supercampeonato
Regional daquele ano (desclassificado com uma goleada de 4 a 2 do
inexpressivo XV de Novembro, de Campo Bom) e a vitória também
não causou maiores abalos: aquele era mais um ano de Libertadores.
A derrota frente ao Olímpia do Paraguai, em Assunción,
foi o fim daquela quimera, mas ainda não seria a última.
O desempenho no Campeonato Brasileiro de 2002 possibilitou ao Grêmio
a disputa de mais uma Libertadores da América. Mais do que
bem vinda, ela seria mais do que oportuna: chegar ao tri da América
quando o clube faz um século faria jus ao passado de glórias
tricolor. Para torcedores e conselheiros, o Grêmio começou
a fazer água quando dispensou o preparador físico
Paulo Paixão em favor de Adenor Bacchi, o Tite (hoje no São
Caetano). A explicação da diretoria foi de que houve
necessidade de corte de despesas. Apesar dos supostos atritos do
técnico com os ex-dirigentes e dos resultados desfavoráveis
em 2002, ele seria mantido no cargo, já sob o comando do
presidente Flávio Obino, que foi escolhido por aclamação,
sob um clima de confiança na tradição do clube
e no “porvir venturoso” em lugar de José Alberto
Guerreiro, no fim do ano passado.
A manutenção do treinador se deu porque ele mantinha
uma boa relação com o grupo de jogadores e seria a
única pessoa capaz de mobilizar a equipe, que há meses
reclamava de atrasos salariais. Segundo o ex-dirigente Luís
Eurico Vallandro, Tite adotava uma atitude personalista, não
gostava da interferência de dirigentes em seu trabalho e protegia
seus jogadores. “Ele acabou discutindo várias vezes
com o Zé Otávio (Germano) e acabou criando essa questão”.Vallandro
revelou que, no episódio da saída de Paixão
do clube (que ingressaria no Internacional), houve uma incompatibilidade
de gênios entre o preparador físico e o técnico.
“O Paixão é um homem de personalidade forte,
é um agregador que motiva muito no vestiário”,
diz. O ex-vice de futebol entende que Tite talvez enxergasse em
Paixão um concorrente. “Entendo que houve uma dificuldade,
e a saída do Paixão se somou a uma série de
situações traumáticas, e o Grêmio pagou
o ônus disso”, conclui.
“OVELHINHAS”
Por sinal, Vallandro foi a última opção de
Flávio Obino para o futebol do Grêmio. Após
a recusa de nomes como Luís Carlos Silveira Martins, Adalberto
Preis ou Rafael Bandeira dos Santos, o presidente gremista optou
por ele. Problemas de disciplina no vestiário eram constantes.
A relação entre Tite e os jogadores e a dependência
do clube em tê-lo como pacificador perante os atletas lhe
investiu poder de mando superior ao do vice de futebol. Vallandro
não foi capaz de reverter a situação, ao mesmo
tempo em que tal situação ocorria com a anuência
do presidente tricolor. Com isso, problemas de indisciplina eram
constantes. Na estréia do Grêmio no Gauchão,
o jogador Gilberto forçou um cartão vermelho. O lateral
Anderson Lima, ao ser interpelado por Vallandro, no vestiário,
mandou o dirigente “lavar a boca” antes de falar no
nome dele. A relação entre Tite e os jogadores deu
o apelido de “ovelhinhas” ao grupo de jogadores —
numa conversa entre o vice e Obino captado pela imprensa através
de um celular ligado, dia 30 de abril, logo após a vitória
do Grêmio frente ao Olímpia.
No dia seguinte, houve uma reunião dos dirigentes com os
jogadores. Com o dedo em riste, Rodrigo Fabri exigiu que Luís
Onofre Meira (também então responsável pelo
futebol do Grêmio e integrante da conversa gravada) pedisse
desculpa à equipe. Vallandro pediu o afastamento de Ânderson,
Fabri e Luís Mário, as “ovelhinhas” de
Tite. Apesar de todo o escândalo, os três jogadores
permaneceriam no grupo à pedido e por decisão de Obino,
que deu todo o poder a Tite a fim de “pastorear” o seu
plantel, que disputava a Libertadores da América. Mesmo naquele
momento extremo, a vexatória posição de lanterna
do Regional não abalou a confiança de equipe técnica,
dirigentes, conselheiros: a decisão de priorizar o certame
sul-americano era mais importante do que ganhar o “ruralito”
(forma depreciativa com que os torcedores gremistas apelidam o Gauchão)
ou se preocupar com o Brasileiro.
A desclassificação do Grêmio na Libertadores
foi um balde de água fria nos sonhos de ser tricampeão
em 2003. Ao contrário dos anos anteriores, o atraso de salários
e a crise financeira, — somados aos revezes em competições
— não saíam dos limites do Olímpico.
Correndo por trás, estes atrasos decretariam a derrocada
da equipe, que vinha costurando e descosendo a sua mortalha desde
os tempos da ISL. Ao ser eliminado da Libertadores em 2002, sem
as cotas da Sul-Americana e o corte de verbas pagas pela transmissão
dos jogos, o clube viu seus cofres raspados. Enquanto o atraso de
salários era traduzido por um mau desempenho em campo, a
falta de dinheiro obrigou o Grêmio a reduzir gastos, enquanto
via o seu plantel ser desmanchado após a saída de
Tite e a resignação em salvar a imagem.
CAVEIRA NO ESPELHO
Este ano, os jogadores não deixavam de transparecer o desapontamento.
Gilberto, por exemplo, que havia deixado o Grêmio após
recente convocação para a seleção Brasileira,
só reingressou ao grupo após a promessa de que seus
salários seriam pagos e, mesmo assim, seu contrato tem uma
cláusula misteriosa que o impede de se manifestar sobre o
assunto. Sem dinheiro, a debandada foi geral. Já em 2003,
o clube havia perdido Zinho, Mauro Galvão, Valdo, Paulo Hernandéz,
Leandro Amaral, Fábio Baiano e Rodrigo Mendes. Porém,
tendo em vista manter em parte a “seleção de
ouro” de 2002, o departamento de futebol firmou acordo de
apenas seis meses com atletas que, finda a Libertadores, deixaram
o Olímpico. A eliminação custou R$ 3 milhões
ao clube, sendo que a folha salarial só com jogadores gira
em torno de R$ 900 mil. Uma fortuna para um clube de cofres raspados.
Hoje muitos torcedores avaliam que o Grêmio priorizou a competição
sul-americana também como se estivesse em busca do ouro.
“Eles jogavam mais pelo bicho do que pela camiseta”,
diz Alberto Tomaselli, torcedor. “O presidente Obino disse
que faltou apenas o gol do Carlos Miguel, mas ele sabia que o Miguel
não tinha condições de jogar, botaram ele naquele
delírio de ficar acreditando num pensamento mágico,
de que a gente ia ganhar só na camiseta”, reclama.
Já o primeiro mandatário tricolor se defende: “jamais
descuidamos do Campeonato Brasileiro, mas na véspera dos
grandes jogos, priorizamos a Libertadores, procurando equilibrar
as duas disputas”. Otimista, ele simplificou, em depoimento
à imprensa:
— Quando falta o gol, não há diferença
entre uma administração eficiente e outra que deixa
a desejar — se defende Obino.
Depois da derrota nas quartas de final, Ânderson Polga foi
para o Sporting de Lisboa, Rodrigo Mendes recebeu proposta no Japão
e Luís Mário mudou-se para a Coréia. Fabri
e Amaral também debandaram. Com o que sobrou do plantel,
em dinheiro e com o prazo de contratações expirando
em agosto, o Grêmio viu a caveira no espelho com uma equipe
sem qualidade, onde nem os melhores jogadores desencantaram este
ano — caso de Roger e Ânderson Lima. Christian, centroavante
contratado para a guerra santa da Libertadores, foi suspenso por
dois meses no jogo contra o Figueirense. Mesmo após esse
período, Christian não conseguiu marcar um único
e escasso gol.
A certeza da virada a cada partida, a esperança com o retorno
de jogadores suspensos e a escolha de mais um técnico davam
ânimo para a torcida, mas, a cada derrota, o medo venceu a
esperança. Estando na 18o posição após
o jogo do Independiente de Medellín, o Grêmio entrou
em uma lenta e discreta curva descendente que, mesmo chegando à
lanterna do Campeonato Brasileiro após a derrota frente ao
Guarani de Campinas, parece transcender a última colocação.
Nem a camiseta, nem a tradição, nem o nome de atletas
vencedores, como o goleiro Danrlei, nem o retorno de Christian ao
grupo, após ser suspenso por ter agredido o árbitro
Alício Pena Júnior, e nem a troca de comando no departamento
de futebol — hoje sob a batuta de Saul Berdichevisky —
indicam, por si só, qualquer possibilidade real de reversão.
“Falta qualidade”, resume o ex-zagueiro gremista Aírton
Ferreira da Silva, o Pavilhão, símbolo vivo do Grêmio
cuja história se confunde com a história do clube
vencedor dos anos 60, quando deu ao tricolor porto-alegrense doze
títulos em treze anos. Para ele, hoje a história é
diferente: “jogadores que tínhamos como solução,
como o Amaral e o Tinga, eu achava que os dois iriam resolver tudo
no meio-campo”. Além da carência de qualidade
técnica, Aírton entende que existem problemas na zaga.
Para ele, com a falta de defensores, os técnicos sucessivos
(após Tite, o Grêmio apostou em Darío Pereyra,
depois de tentar Mário Sérgio e Abel Braga, que em
oito jogos, perdeu cinco, e Nestor Simionatto, quatro derrotas e
uma vitória, e o atual, Adílson “Capitão
América” dos Santos, com dois empates e uma derrota)
exigem que o esquema tático seja improvisado. “Improvisação
nunca dá certo”.
A temerária campanha do Grêmio, até o presente
momento, apresenta apenas 20% de aproveitamento. Nos últimos
dez jogos, uma vitória, que foi sobre o Santos, três
empates e seis derrotas. A partir da desclassificação
da Libertadores, foram 30 jogos, com seis vitórias, seis
empates e dezoito derrotas. Após o episódio das “ovelhinhas”
e do desmantelamento da equipe (com a suspensão dos jogadores
Christian e Gavião após a derrota contra o Figueirense,
e a saída de Fabri, Ânderson Polga e Luís Mário
e Amaral) o aproveitamento foi de 26%. Na temporada, o vencedor
clube centenário tem apenas 32,6%, o pior aproveitamento
do Grêmio nos últimos 15 anos. Mais: o clube tem o
pior ataque da competição, com 26 gols em 29 jogos,
média de 0,89 gols por partida.
“POUCA
LUZ”
“Eu moro defronte ao campo do Grêmio”, diz Aírton,
que jogou no tricolor de 1955 até 1968 e é considerado
o maior zagueiro gaúcho que já botou uma chuteira
no Rio Grande do Sul, e que hoje vive perto do Largo dos Campeões,
no acesso principal ao Estádio Olímpico, no bairro
Azenha. Apesar de tal privilégio, hoje Aírton sofre
a cada rodada, e não tem coragem de “ir a campo”.
“Eu chego a não ir ao campo apesar do meu sofrimento.
Quando eu abro a janela do meu quarto e vejo aquela bandeira tremulando,
e sei que a gente está numa situação em que
vejo pouca luz. Nunca vi o Grêmio nessa situação”,
revela. “A gente vê às vezes o Grêmio jogando
tão mal que parece que eles desaprenderam tudo, ou sabem
fazer e não estão fazendo”.
“Eu cheguei no Grêmio em 1973, fiquei até 1976
sem ganhar ou fazer gols em Grenais, mas nunca passei numa situação
de um Grêmio lá embaixo”, revela Tarciso, campeão
brasileiro em 1981, gaúcho, da América e Campeão
do Mundo, com Mazzaropi, Baidek, China, Paulo Roberto, Oswaldo,
Bonamigo, Renato e Mário Sérgio, De León e
Paulo César Caju, no longínquo e nostálgico
1983. “Encontro os torcedores na rua, e só sei falar
uma coisa ao torcedor: está ruim, é fácil quem
está fora criticar a direção. Só quem
pode mudar isso aí são os jogadores” explica.
Tarciso diz que estava no Olímpico no jogo contra o São
Paulo, quando a bola parecia queimar os pés dos atletas gremistas
adversários. “Eu saí no segundo tempo e fui
embora, para não ser mais um corneteiro, porque passei por
uma situação quase igual, e não adianta criticar
os que estavam ali, fazendo o melhor”. Para ele, a solução
só vem de dentro do campo. “Os jogadores têm
que olhar um para o outro, e ver que existe uma família deles
que esta sofrendo e que, se o Grêmio cair, cai também
o jogador. Como eu fiz história dentro do clube, de ser campeão,
e isso está nos livros, amanhã pode ficar o nome deles,
de como o Grêmio foi para a segunda divisão”.
Já Alcindo, o Bugre Xucro, velho centroavante
do Grêmio dos tempos de Aírton e João Severiano,
heptacampeão gaúcho, entende que a única forma
de sair da vexatória posição na tabela é
através da superação, treinando até
a exaustão. Para ele, a repetição dá
a tranqüilidade necessária para um bom desempenho em
campo. Alcindo foi hepta regional (sobre o Inter de Bráulio
e Gainete, em 1968), disputando a taça Roberto Gomes
Pedrosa e priorizando, quem diria, o “ruralito”.
O mítico ídolo gremista faz coro a Tarciso em dizer
que tem experiência em vivenciar crises como a do Grêmio,
mas nenhuma com a proporção dramática de 2003.
A receita, para o Bugre, além da dedicação
espartana, é fazer uma tática pensando no único
atacante de ofício que existe no grupo, o também centroavante,
Christian. Alcindo associa a carência de gols à falta
de concatenação dos três setores do time e a
falta de assistência ao seu principal atacante: “Se
não o encostarem, é injusto cobrar gols dele”,
explica.
Mas fica a pergunta no ar: se a nostálgica decisão
daquele que é considerado o maior jogo do Grêmio em
todos os tempos, em 1983, estava escrito nos oráculos há
6 mil anos, será que o seu destino fatal rumo à segunda
divisão, logo no ano do centenário, também
estará? Para escapar do rebaixamento, será preciso
vencer oito jogos nas próximas dezessete rodadas e disputar
um patético “hexagonal da morte” com seus respectivos
adversários diretos na rabeira da tabela, a saber: Ponte
Preta, Juventude, Bahia, Fluminense (que já faturou três
pontos em cima dos azuis, no returno) e Fortaleza — feito
que, para um time que venceu apenas seis partidas no Campeonato
Brasileiro, parece mais uma tarefa de gincana macabra. Pelo menos,
uma coisa é certa: por ironia do destino, o aniversário
do imortal tricolor este ano caiu — inexoravelmente
— numa segunda... 
|