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15 a 28 de setembro de 2003


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FLORES NA JANELA
More Than Us traz um dos melhores momentos do Travis registrado em DVD

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

m meados de 2001, cinco anos após ter debutado no universo musical com o single “All I Wanna Do Is Rock”, a banda escocesa Travis vivia um dos momentos mais harmônicos de sua carreira. Os três discos de estúdio vendiam bem, os fãs começavam a aparecer de todos os cantos do planeta e o quarteto composto por Fran Healy (vocal) Andy Dunlop (guitarra) Douglas Payne (baixo) e Neil Primrose (bateria) já tinha o privilégio de tocar para um público que cantava durante toda a apresentação.

No mês de agosto daquele ano, o grupo fez três shows, para cem mil pessoas, nas cidades de Reading, Leeds (Leeds Festivals) e Glasgow (Glasgow Gig On The Green, do qual participaram também The Strokes, Iggy Pop, PJ Harvey, Green Day, entre outras grandes bandas). O resultado transformou–se em More Than Us (Live in Glasgow), um registro que tem a proposta de servir como diário da banda, durante a passagem por sua terra natal.

O DVD tem 93 minutos e contém o concerto completo em Glasgow - com dezoito canções pinçadas dos três discos – além de documentários, discografia e outros recursos multimídia, como a escolha do ângulo em que se quer assistir partes do show, informações sobre o site oficial e o playlist dividido por álbum. A única desvantagem é que o produto vendido no Brasil é importado e não tem legenda em português, dificultando o entendimento do documentário, cujas opções de língua são inglês, francês e espanhol. O show, por sua vez, está todo em inglês. Quem sabe as canções não terá dificuldade de acompanhar e, quem não sabe, pode fazer uma cola das letras e curtir o alto astral da banda no palco.

CANTE, CANTE, CANTE...

Cantar parece fazer Fran Healy feliz. O bom humor do rapaz mostra-se logo no início da apresentação quando ele se ajoelha e faz uma reverência real para a platéia. A lógica culturalmente difundida parece entrar em colapso. Quem são os deuses, tão propagados pela indústria cultural, naquele espaço? A banda? O público? Nenhum dos dois? Para Healy a resposta parece não importar e o que interessa, naquele instante, é dizer, com um gesto simples, “estamos aqui graças a vocês”.

A gravação foi feita em um momento peculiar para qualquer grupo: a época em que os integrantes apreciam seu próprio trabalho. O Travis estava solto no palco. Andy Dunloap fazia malabarismos com a guitarra enquanto a câmera flagrava o baixista Douglas Payne dançando. As canções fluíam bem e eles pareciam curtir cada momento. Também era perceptível o perfeito entrosamento com o músico convidado, Jeremy Procter, o que foi fundamental para o bom desempenho da banda. Além disso, a relação amistosa com o público contribuiu para o clima descontraído que acompanhou toda a apresentação.

Fran Healy, por sua vez, brincou com o público, comentou o comportamento de Marilyn Manson em sair mostrando partes íntimas do corpo durante os shows e contou como construiu algumas das canções. “Driftwood”, diz ele, é feita para aquelas pessoas que têm potencial para crescer, mas preferem ficar em casa, o dia inteiro, sem fazer nada. “The Cage”, por sua vez, foi feita quando ele estava de coração partido e sua mãe o aconselhou a deixar que as coisas caminhassem, usando o dito popular “Deixe livre tudo aquilo que amas. Se voltar é porque é seu. Se não voltar, é porque nunca foi”. Dessa frase surgiram os versos:

“But then this bird just flew away/ She was never meant to stay/ Oh to keep her caged/ Would just delay the spring” (Mas então este pássaro foi embora/ Ela nunca esteve decidida a ficar/ Oh mantê-la enclausurada/ Seria apenas adiar a estação).

Por último, ele coloca que, embora as pessoas possam parecer distintas, elas se assemelham diante de situações como a morte, o amor ou o encontro com quem se gosta; e que essa convergência de reações mostra que somos todos parte de uma única esfera, de um único ciclo (ou círculo). É daí que surge a letra de “Side”, um dos maiores sucessos da banda até então.

O concerto vai chegando ao fim quando eles tocam “All I Want To Do Is Rock”- em homenagem aos cinco anos de début da formação que se consolidou com o nome de Travis (que foi inspirado em um personagem do filme Paris, Texas, de Win Wenders. Antes, porém, o nome do grupo era Glass Onion e tinha outros integrantes) – e se encerra com “Happy” - para celebrar aquela data, em casa, junto com familiares, amigos e um dia de sol, coisa rara em Glasgow, pelo que diz Fran Healy em sua conversa final com o público.

POR QUE MEU INTERIOR É MEU EXTERIOR...

A princípio, acompanhar a rotina do Travis não é muito diferente do que já tem sido mostrado em outros documentários envolvendo os bastidores de uma grande banda. Nesse sentido, podemos dizer que a produção caiu um pouco no lugar comum, ao mostrar cenas do pessoal acordando e “aquele flagra inusitado no banheiro”, que nem é tão inusitado assim, considerando que poucas pessoas se sentem confortáveis e naturais diante uma câmera.

Mas se for levado em consideração que, depois de um certo tempo, as pessoas esquecem que tem uma lente vigiando tudo o que elas fazem, o quarteto escocês conseguiu dar ao documentário o toque de “diário de uma viagem” que foi proposto inicialmente. As cenas em que eles conversam com as outras bandas, passam o som para o público que chegou cedo ao local do evento, caminham pelo estádio com as crianças e dão entrevistas, conseguem amenizar o ar de falsa realidade que as câmeras costumam reforçar. É uma linha muito tênue, mas que a banda acabou se acostumando, pois, como disse o baixista Douglas Payne ao cinegrafista “vocês passam o tempo inteiro com a câmera ligada”. São os ossos do ofício.

VOU ESCREVER UMA CANÇÃO

More Than Us (Live In Glasgow) abre com “Sing”, do terceiro disco The Invisible Band e fecha com “Happy”, do primeiro disco, Good Feeling. Nesse show, o grupo privilegia as músicas dos dois últimos álbuns, que são mais trabalhados, e usa apenas três canções do disco de estréia. A lista das faixas que compõem a apresentação do DVD é:

The Invisible Band
“Sing”,
“Pipe Dreams”,
“Last Train”,
“The Cage”,
“Flowers In The Window”,
“Humpty Dumpty Love Song”,
“Side”.

The Man Who
“Writing To Reach You”
“As You Are”,
“Driftwood”,
“Turn”,
“Why Does It Always Rain On Me?”,
“Slide Show”,
“Blue Flashing Light”.

Good Feeling
“U16 Girls”,
“All I Want To Do Is Rock”,
“Happy”.