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17 a 30 de novembro de 2003


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“MUDAR O MUNDO EM QUE QUERO MORAR”
Cariocas do Alpha buscam seu espaço com ideais de transformação e filosofia engajada

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

om um discurso forte e próprio, a banda Alpha, do Rio de Janeiro, busca seu espaço, só que com um pensamento diferente. Procurando harmonizar seu dia-a-dia, o grupo tenta se desvincular dos vícios da sociedade e se coloca com uma filosofia de mudar o mundo a seu redor. Segundo a ideologia dos integrantes, Alpha é um estado de consciência dos insatisfeitos com seu cotidiano e que buscam a utopia de transformar o todo, partindo dos pequenos e simples elementos.

Mas antes de formular todo esse arcabouço de ideais, o Alpha demorou a se consolidar. A idéia de formar uma banda de rock começou por volta de 1998, quando Murilo Rangel (vocal, guitarra), Rafael Sartini (bateria) e Bruno Nunes (baixo) se conheceram no colégio. Ali começaram alguns despretensiosos ensaios, por onde passaram diversos amigos, tocando mais pelo prazer de fazer rock and roll. Somente em 2001 o conjunto saiu definitivamente do papel, quando estes se sentiram preparados para batalhar uma carreira independente. A formação foi definida, com apenas uma alteração: Rafael, que tocava guitarra no começo, assumiu as baquetas e o conjunto se fechou como um trio, contando apenas com um guitarrista.

Em 2002, a banda começou a tocar em diversos lugares do underground carioca. No mesmo ano, resolveram lançar um CD demo, para atingir maior público. A demo possui três músicas: “O Mundo em que Quero Morar (Não Consigo Mudar)”, um rock pesado, de guitarra distorcida, que diz bastante sobre a mensagem passada pela Alpha; “Poesia”, um “quase” hardcore, que brada com raiva: “Você não sabe o que é sofrer / Você não sabe o que é não ter o que comer”, seguindo a linha de arte com preocupação social e humanística; e “Sem Ideais”, uma canção ambígua, lenta, parecendo uma balada, mas de peso e acidez impressionantes. O último verso da canção é sintomático: “Não há mais ideais entre os jovens / Então quem irá lutar para mudar?”. As introduções de guitarra lembram o heavy metal, porém com som mais próximo ao punk rock, essa mistura revela um caldo que dá resultado.

Em entrevista ao Rabisco por email, o trio mostra sua postura firme e engajada, contando um pouco mais sobre suas influências e divagando sobre o conceito Alpha e a reflexão interior que se faz necessária para a compreensão da vida, bem como para encontrar a melhor maneira de encará-la.

Quais são suas maiores influências, tanto na música quanto nas artes em geral?

O rock dos anos 90 é muito influente em nossas músicas. O grunge, talvez, tenha mais força ainda. Porém rock é rock em qualquer lugar do espaço-tempo. Led Zeppelin e Black Sabbath são bandas muito importantes para nós também.

As discussões filosóficas que levam a reflexões me despertam muito interesse. Outra influência é a minha percepção do nosso cotidiano e seus aspectos positivos e negativos.

Eu me ligo muito em filosofia. Definir arte é algo meio difícil, mas dentro da concepção estabelecida, gosto de ler livros, textos no geral com preocupação social ou reflexões sobre a natureza humana e etc. O mesmo penso em relação aos filmes.

Como você definiria o estilo musical da banda?

Rock. Como estilo musical, o rock é a nossa base. Não existe nenhuma divisão do rock em que nos encaixamos completamente. É claro que procuramos outros ritmos, mas sempre através de uma visão roqueira.

Como é o processo de composição da banda?

Há diferentes processos. O mais comum até agora foi alguém chegar com uma idéia harmônica e rítmica e irmos trabalhando em cima. A primeira idéia surge na guitarra, e tanto o Rafael e o Bruno sabem tocá-la, o que ajuda muito. Depois vem o resto. Mas, pode ser algo não planejado e na hora do ensaio o som acontece sem nem percebemos, aí trabalhamos com ele.

O que inspira vocês a compor uma canção?

Sentimentos. Certamente os sentimentos que possuímos nos inspiram.

Qual é a mensagem que a vocês procuram passar nas músicas?

Conhece-te a ti mesmo. Em todas as músicas e mais diretamente nas letras viajamos numa reflexão que todos devem fazer, pois nós somos nossos piores inimigos. É essa a mensagem que tentamos passar. Nós queremos que as pessoas ouçam a música e através dela possam pensar coisas que a façam se conhecer, se melhorar. É claro, isso não quer dizer que a diversão fique de lado, pois não há maior felicidade do que poder extravasar os sentimentos que guardamos, e fazê-los virarem pensamentos. Queremos que as pessoas existam mais. Queremos existir mais.

"Queremos que as pessoas existam mais. Queremos existir mais". Poderia explicar melhor isso? Em que sentido isso é considerado pela banda?

É sempre aquela questão: "Penso, logo existo". Isso cada vez fica mais claro. Quanto mais pensamos e refletimos, vemos o quanto menos existíamos antes ou mais éramos descartáveis para o mundo. As pessoas precisam de um catalisador para pensar mais, e a música é um ótimo catalisador. Esse é o nosso objetivo.

Há algum conceito por trás do nome Alpha? Fale sobre isso.

Sim. Na verdade a inspiração desse nome vem de uma banda de que gostamos muito, Nirvana. Esse nome mostra um pouco do que queremos passar. Alpha, pode ser compreendido como um estado de consciência, e este é um símbolo que criamos. Para nós, nosso trabalho é esse, não estacionar na prisão que a sociedade nos impõe de ser um parasita, e sim cada vez nos sentirmos mais livres das idéias impostas e tudo. É claro, nada de chegar a algo absoluto, uma verdade surreal, nada disso. Apenas podemos ser mais nós mesmos, e aí seria mais fácil conseguirmos por em prática o que realmente achamos certo.

Vocês se consideram livres dessa sociedade “impositiva”? Como fazer para ser mais fiel a si em um lugar como esse?

Claro que não somos livres. Estamos inseridos dentro dela e ela de alguma forma contribuiu para o que somos hoje. Porém é da natureza humana ser racional, e dentro da razão é que buscamos essa liberdade. É difícil, pois é sempre melhor se deixar carregar pela correnteza, mas se pararmos e pensarmos que no final há uma grande queda, o esforço começa a valer a pena. Quanto mais longe da queda, menor a correnteza e aí começamos a agir de maneira mais livre, mais fiel a nós mesmos.

Como é a prática desse conceito Alpha no cotidiano, com as pessoas?

Essa resposta também serve como um complemento ao dito acima. Bom, tudo começa com a vontade do homem de ser feliz. Sua grande busca é a felicidade. E é nessa busca que ele percorre os caminhos errados. E o que é errado e certo, todos sabemos, pois faz parte de nós. É como a gravidade: é algo inerente à natureza. No cotidiano, a aplicação do conceito Alpha é fazer sempre a coisa certa. E a questão é que, quanto mais livre somos, mais próximo de fazer o certo ficamos.

Saindo um pouco da discussão conceitual do grupo, como é para vocês tocar entre amigos, já que a amizade entre vocês existe há um bom tempo?

Muito bom. Já tivemos outros componentes nessa mesma banda e não é a mesma coisa. Não nos conhecemos pela música, por isso não temos medo que ela nos separe, já com os outros rola esse tipo de compromisso e fica complicado. Mas conhecer alguém por causa da música também é muito bom, já fizemos amigos dessa maneira, mas não dá para comparar.

Fale um pouco sobre os problemas enfrentados para expor o trabalho e tocar no Rio de Janeiro.

Isso não é muita novidade. O problema é o desestímulo que toma conta quando vemos um movimento independente fraco, sem muitas brechas para quem não conhece as pessoas. É complicado esse assunto, mas o que posso dizer, é que muitas bandas boas morrem na praia devido a essa dificuldade. Talvez quem trabalhe para o mercado independente também deva começar a conhecer melhor as bandas dispostas a realizar um trabalho profissional.

Vocês estavam com um projeto para começar a gravar um CD no final desse ano, só que teve de ser cancelado. O que causou esse cancelamento?

Foi uma completa frustração, a qual nos levou a um momento ruim, mas já estamos passando por cima e com certeza isso ficou como um aprendizado (mais um). O cancelamento se deu mais por nossa conta. Quando estava tudo certo e já fluindo, um problema financeiro atingiu um de nós e o cancelamento foi inevitável.

Quais são os planos da banda atualmente?

Antes de gravar o CD vamos ensaiar muito, divulgar mais ainda nosso som (temos 14 músicas). Seria completamente arrogante dizermos que estamos satisfeitos plenamente com nosso som, até porque só ensaiamos uma vez por semana, e não temos muito tempo para isso e talvez essa seja a coisa mais interessante do trabalho independente. Então, como disse antes, não queremos ser mais um parasita dentro da música, e portanto pretendemos cada vez mais aparecer com um som melhor, o qual acreditamos poder ser maior que os problemas que enfrentamos para expô-lo.