| “MUDAR O MUNDO
EM QUE QUERO MORAR”
Cariocas do Alpha buscam seu espaço
com ideais de transformação e filosofia engajada
por Rodrigo
Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

om um discurso forte e próprio, a banda Alpha, do Rio de
Janeiro, busca seu espaço, só que com um pensamento
diferente. Procurando harmonizar seu dia-a-dia, o grupo tenta se
desvincular dos vícios da sociedade e se coloca com uma filosofia
de mudar o mundo a seu redor. Segundo a ideologia dos integrantes,
Alpha é um estado de consciência dos insatisfeitos
com seu cotidiano e que buscam a utopia de transformar o todo, partindo
dos pequenos e simples elementos.
Mas antes de formular todo esse arcabouço de ideais, o Alpha
demorou a se consolidar. A idéia de formar uma banda de rock
começou por volta de 1998, quando Murilo Rangel (vocal, guitarra),
Rafael Sartini (bateria) e Bruno Nunes (baixo) se conheceram no
colégio. Ali começaram alguns despretensiosos ensaios,
por onde passaram diversos amigos, tocando mais pelo prazer de fazer
rock and roll. Somente em 2001 o conjunto saiu definitivamente do
papel, quando estes se sentiram preparados para batalhar uma carreira
independente. A formação foi definida, com apenas
uma alteração: Rafael, que tocava guitarra no começo,
assumiu as baquetas e o conjunto se fechou como um trio, contando
apenas com um guitarrista.
Em 2002, a banda começou a tocar em diversos lugares do
underground carioca. No mesmo ano, resolveram lançar um CD
demo, para atingir maior público. A demo possui três
músicas: “O Mundo em que Quero Morar (Não Consigo
Mudar)”, um rock pesado, de guitarra distorcida, que diz bastante
sobre a mensagem passada pela Alpha; “Poesia”, um “quase”
hardcore, que brada com raiva: “Você não sabe
o que é sofrer / Você não sabe o que é
não ter o que comer”, seguindo a linha de arte com
preocupação social e humanística; e “Sem
Ideais”, uma canção ambígua, lenta, parecendo
uma balada, mas de peso e acidez impressionantes. O último
verso da canção é sintomático: “Não
há mais ideais entre os jovens / Então quem irá
lutar para mudar?”. As introduções de guitarra
lembram o heavy metal, porém com som mais próximo
ao punk rock, essa mistura revela um caldo que dá resultado.
Em entrevista ao Rabisco por email, o
trio mostra sua postura firme e engajada, contando um pouco mais
sobre suas influências e divagando sobre o conceito Alpha
e a reflexão interior que se faz necessária para a
compreensão da vida, bem como para encontrar a melhor maneira
de encará-la.
Quais são suas maiores influências, tanto na música
quanto nas artes em geral?
O rock dos anos 90 é muito influente em nossas músicas.
O grunge, talvez, tenha mais força ainda. Porém rock
é rock em qualquer lugar do espaço-tempo. Led Zeppelin
e Black Sabbath são bandas muito importantes para nós
também.
As discussões filosóficas que levam a reflexões
me despertam muito interesse. Outra influência é a
minha percepção do nosso cotidiano e seus aspectos
positivos e negativos.
Eu me ligo muito em filosofia. Definir arte é algo meio difícil,
mas dentro da concepção estabelecida, gosto de ler
livros, textos no geral com preocupação social ou
reflexões sobre a natureza humana e etc. O mesmo penso em
relação aos filmes.
Como você definiria o estilo
musical da banda?
Rock. Como estilo musical, o rock é a nossa base.
Não existe nenhuma divisão do rock em que nos encaixamos
completamente. É claro que procuramos outros ritmos, mas
sempre através de uma visão roqueira.

Como é o processo de composição da banda?
Há diferentes processos. O mais comum até
agora foi alguém chegar com uma idéia harmônica
e rítmica e irmos trabalhando em cima. A primeira idéia
surge na guitarra, e tanto o Rafael e o Bruno sabem tocá-la,
o que ajuda muito. Depois vem o resto. Mas, pode ser algo não
planejado e na hora do ensaio o som acontece sem nem percebemos,
aí trabalhamos com ele.
O que inspira vocês a compor
uma canção?
Sentimentos. Certamente os sentimentos que possuímos
nos inspiram.
Qual é a mensagem que a vocês
procuram passar nas músicas?
Conhece-te a ti mesmo. Em todas as músicas e mais
diretamente nas letras viajamos numa reflexão que todos devem
fazer, pois nós somos nossos piores inimigos. É essa
a mensagem que tentamos passar. Nós queremos que as pessoas
ouçam a música e através dela possam pensar
coisas que a façam se conhecer, se melhorar. É claro,
isso não quer dizer que a diversão fique de lado,
pois não há maior felicidade do que poder extravasar
os sentimentos que guardamos, e fazê-los virarem pensamentos.
Queremos que as pessoas existam mais. Queremos existir mais.
"Queremos que as pessoas existam
mais. Queremos existir mais". Poderia explicar melhor isso?
Em que sentido isso é considerado pela banda?
É sempre aquela questão: "Penso, logo
existo". Isso cada vez fica mais claro. Quanto mais pensamos
e refletimos, vemos o quanto menos existíamos antes ou mais
éramos descartáveis para o mundo. As pessoas precisam
de um catalisador para pensar mais, e a música é um
ótimo catalisador. Esse é o nosso objetivo.
Há algum conceito por trás
do nome Alpha? Fale sobre isso.
Sim. Na verdade a inspiração desse nome vem
de uma banda de que gostamos muito, Nirvana. Esse nome mostra um
pouco do que queremos passar. Alpha, pode ser compreendido como
um estado de consciência, e este é um símbolo
que criamos. Para nós, nosso trabalho é esse, não
estacionar na prisão que a sociedade nos impõe de
ser um parasita, e sim cada vez nos sentirmos mais livres das idéias
impostas e tudo. É claro, nada de chegar a algo absoluto,
uma verdade surreal, nada disso. Apenas podemos ser mais nós
mesmos, e aí seria mais fácil conseguirmos por em
prática o que realmente achamos certo.

Vocês se consideram livres dessa sociedade “impositiva”?
Como fazer para ser mais fiel a si em um lugar como esse?
Claro que não somos livres. Estamos inseridos dentro
dela e ela de alguma forma contribuiu para o que somos hoje. Porém
é da natureza humana ser racional, e dentro da razão
é que buscamos essa liberdade. É difícil, pois
é sempre melhor se deixar carregar pela correnteza, mas se
pararmos e pensarmos que no final há uma grande queda, o
esforço começa a valer a pena. Quanto mais longe da
queda, menor a correnteza e aí começamos a agir de
maneira mais livre, mais fiel a nós mesmos.
Como é a prática desse
conceito Alpha no cotidiano, com as pessoas?
Essa resposta também serve como um complemento ao
dito acima. Bom, tudo começa com a vontade do homem de ser
feliz. Sua grande busca é a felicidade. E é nessa
busca que ele percorre os caminhos errados. E o que é errado
e certo, todos sabemos, pois faz parte de nós. É como
a gravidade: é algo inerente à natureza. No cotidiano,
a aplicação do conceito Alpha é fazer sempre
a coisa certa. E a questão é que, quanto mais livre
somos, mais próximo de fazer o certo ficamos.
Saindo um pouco da discussão
conceitual do grupo, como é para vocês tocar entre
amigos, já que a amizade entre vocês existe há
um bom tempo?
Muito bom. Já tivemos outros componentes nessa mesma
banda e não é a mesma coisa. Não nos conhecemos
pela música, por isso não temos medo que ela nos separe,
já com os outros rola esse tipo de compromisso e fica complicado.
Mas conhecer alguém por causa da música também
é muito bom, já fizemos amigos dessa maneira, mas
não dá para comparar.
Fale um pouco sobre os problemas enfrentados
para expor o trabalho e tocar no Rio de Janeiro.
Isso não é muita novidade. O problema é
o desestímulo que toma conta quando vemos um movimento independente
fraco, sem muitas brechas para quem não conhece as pessoas.
É complicado esse assunto, mas o que posso dizer, é
que muitas bandas boas morrem na praia devido a essa dificuldade.
Talvez quem trabalhe para o mercado independente também deva
começar a conhecer melhor as bandas dispostas a realizar
um trabalho profissional.
Vocês estavam com um projeto
para começar a gravar um CD no final desse ano, só
que teve de ser cancelado. O que causou esse cancelamento?
Foi uma completa frustração, a qual nos levou
a um momento ruim, mas já estamos passando por cima e com
certeza isso ficou como um aprendizado (mais um). O cancelamento
se deu mais por nossa conta. Quando estava tudo certo e já
fluindo, um problema financeiro atingiu um de nós e o cancelamento
foi inevitável.
Quais são os planos da banda
atualmente?
Antes de gravar o CD vamos ensaiar muito, divulgar mais
ainda nosso som (temos 14 músicas). Seria completamente arrogante
dizermos que estamos satisfeitos plenamente com nosso som, até
porque só ensaiamos uma vez por semana, e não temos
muito tempo para isso e talvez essa seja a coisa mais interessante
do trabalho independente. Então, como disse antes, não
queremos ser mais um parasita dentro da música, e portanto
pretendemos cada vez mais aparecer com um som melhor, o qual acreditamos
poder ser maior que os problemas que enfrentamos para expô-lo.

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