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17 a 30 de novembro de 2003


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DUAS VEZES AS HORAS
Livro e filme formam um painel sobre a depressão e deixam o leitor/espectador mergulhado em imagens atordoantes

por Fábio Costa (fabio_fcosta@hotmail.com)

á alguns anos, li A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, e fiquei simplesmente fascinado com o livro. A escritora conseguiu reunir uma gama de personagens interessantes para contar a saga de uma família e de quebra parte da história de seu país, o Chile. O livro trazia uma pouco de romance, política, realismo fantástico e suspense misturados de forma exemplar. Logo em seguida fui assistir à versão cinematográfica da obra e saí da sala decepcionado. Nem mesmo o elenco estelar (Jeremy Irons, Meryl Streep, Winona Ryder, Glenn Close, Vanessa Redgrave e Antonio Banderas) e a direção do aclamado dinamarquês Billie August (Mistério na Neve) conseguiram salvar o filme dos clichês e do péssimo roteiro. Desde então sempre fico com o pé atrás quando o assunto é adaptações, seja de livros, peças, seriados televisivos e até videogames.

Lógico que sempre existem as exceções, como as versões cinematográficas de livros pop (Alta Fidelidade e Um Grande Garoto, ambos de Nick Hornby, e O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding), de HQs (X-Men 2, Batman - O Retorno, Homem Aranha) e até clássicos da literatura (Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, Retrato de uma Senhora, de Henry James, Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos, A Era da Inocência, de Edith Wharton, pra citar só alguns). Partindo do princípio que as adaptações existem desde os primórdios da sétima arte, sendo um dos recursos utilizados pela indústria para que o cinema fugisse do rótulo de arte menor e para proletários, até que é natural que algumas delas sejam sofríveis.

Enfim, esse lenga-lenga todo só porque acabei de ler As Horas, de Michael Cunningham, obra vencedora do prêmio Pulitzer (uma das maiores honrarias da literatura mundial) e que deu origem a um dos melhores longas que vi esse ano. Assisti ao filme, dirigido por Stephen Daldry (Billy Elliot) e estrelado pelo trio Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep (ela de novo), na segunda de carnaval desse ano junto com mais três amigos (não sei se a data foi a mais apropriada, afinal durante o carnaval Fortaleza fica praticamente deserta). As Horas (o filme) é uma espécie de ode à depressão e ao suicídio. A tristeza das personagens é latente e a atuação de todo o elenco é visceral e comovente. Enfim, uma produção nada fácil e que não agrada a todos. Não é de estranhar a sensação de incômodo e tristeza que dominou a mim e meus amigos quando saímos do cinema.

Passado alguns meses, decidi ler o livro e comprovar a essência da obra. Agora, ao terminá-lo, confesso que fiquei um pouco decepcionado. Não que ele seja ruim, longe disso. As Horas é um livro elegante, muito bem escrito e cheio de possibilidades. Talvez seu maior problema seja sua narrativa lenta e descritiva, onde nada realmente acontece. É um trabalho para ser apreciado aos poucos, ser lido e digerido durante algum tempo. Outro problema é que assisti primeiro ao filme e, enquanto lia, suas imagens, interpretações e trilha sonora não me saiam da cabeça, o que de certa forma me deixou preso e me impediu de mergulhar na leitura sem expectativas prévias.

Mas o livro é uma obra tão profunda e marcante quanto o filme. A estrutura narrativa que alterna o foco entre as três personagens (que já deixa o espaço aberto para a magistral edição do filme) e a complexidade destas proporciona uma leitura cheia de ramificações. Algumas personagens têm um destaque maior no livro, principalmente na parte de Mrs. Dalloway (Streep), como sua filha e sua amante. Já o filho de Mrs. Brown (Moore) e o marido de Virginia Woolf (Kidman) ganham maior importância no filme.

Tanto o livro quanto o filme tem suas particularidades e se sustentam independentemente, ao contrário de adaptações como os do bruxinho inglês Harry Potter ou do herói aracnídeo, que, para o bem ou para o mal, precisam do apelo da obra que lhes deu origem. Agora, o fato de eu ter lido o livro só me tornou mais fã do filme. O trabalho de adaptação do roteiro (de um tal de David Hare) é simplesmente genial. A transposição das personagens para a tela é brilhante e o maior mérito do roteiro é ter transformado um livro extremamente psicológico e com pouquíssimos diálogos em um filme fluído e que captura com louvor a essência torturante do original. As Horas é uma obra para ser lida e para ser vista.