| DUAS VEZES AS
HORAS
Livro e filme formam um painel sobre
a depressão e deixam o leitor/espectador mergulhado em imagens
atordoantes
por Fábio
Costa (fabio_fcosta@hotmail.com)

á alguns anos, li A Casa dos Espíritos, de
Isabel Allende, e fiquei simplesmente fascinado com o livro. A escritora
conseguiu reunir uma gama de personagens interessantes para contar
a saga de uma família e de quebra parte da história
de seu país, o Chile. O livro trazia uma pouco de romance,
política, realismo fantástico e suspense misturados
de forma exemplar. Logo em seguida fui assistir à versão
cinematográfica da obra e saí da sala decepcionado.
Nem mesmo o elenco estelar (Jeremy Irons, Meryl Streep, Winona Ryder,
Glenn Close, Vanessa Redgrave e Antonio Banderas) e a direção
do aclamado dinamarquês Billie August (Mistério
na Neve) conseguiram salvar o filme dos clichês e do péssimo
roteiro. Desde então sempre fico com o pé atrás
quando o assunto é adaptações, seja de livros,
peças, seriados televisivos e até videogames.
Lógico que sempre existem as exceções,
como as versões cinematográficas de livros pop (Alta
Fidelidade e Um Grande Garoto, ambos de Nick Hornby,
e O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding), de
HQs (X-Men 2,
Batman - O Retorno, Homem Aranha) e até clássicos
da literatura (Razão e Sensibilidade, de Jane Austen,
Retrato de uma Senhora, de Henry James, Ligações
Perigosas, de Chordelos de Laclos, A Era da Inocência,
de Edith Wharton, pra citar só alguns). Partindo do princípio
que as adaptações existem desde os primórdios
da sétima arte, sendo um dos recursos utilizados pela indústria
para que o cinema fugisse do rótulo de arte menor e para
proletários, até que é natural que algumas
delas sejam sofríveis.
Enfim,
esse lenga-lenga todo só porque acabei de ler As Horas,
de Michael Cunningham, obra vencedora do prêmio Pulitzer (uma
das maiores honrarias da literatura mundial) e que deu origem a
um dos melhores longas que vi esse ano. Assisti ao filme, dirigido
por Stephen Daldry (Billy Elliot) e estrelado pelo trio Nicole
Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep (ela de novo), na segunda
de carnaval desse ano junto com mais três amigos (não
sei se a data foi a mais apropriada, afinal durante o carnaval Fortaleza
fica praticamente deserta). As
Horas (o filme) é uma espécie de ode à
depressão e ao suicídio. A tristeza das personagens
é latente e a atuação de todo o elenco é
visceral e comovente. Enfim, uma produção nada fácil
e que não agrada a todos. Não é de estranhar
a sensação de incômodo e tristeza que dominou
a mim e meus amigos quando saímos do cinema.
Passado alguns meses, decidi ler o livro e comprovar a essência
da obra. Agora, ao terminá-lo, confesso que fiquei um pouco
decepcionado. Não que ele seja ruim, longe disso. As
Horas é um livro elegante, muito bem escrito e
cheio de possibilidades. Talvez seu maior problema seja sua narrativa
lenta e descritiva, onde nada realmente acontece. É um trabalho
para ser apreciado aos poucos, ser lido e digerido durante algum
tempo. Outro problema é que assisti primeiro ao filme e,
enquanto lia, suas imagens, interpretações e trilha
sonora não me saiam da cabeça, o que de certa forma
me deixou preso e me impediu de mergulhar na leitura sem expectativas
prévias.
Mas o livro é uma obra tão profunda e marcante quanto
o filme. A estrutura narrativa que alterna o foco entre as três
personagens (que já deixa o espaço aberto para a magistral
edição do filme) e a complexidade destas proporciona
uma leitura cheia de ramificações. Algumas personagens
têm um destaque maior no livro, principalmente na parte de
Mrs. Dalloway (Streep), como sua filha e sua amante. Já o
filho de Mrs. Brown (Moore) e o marido de Virginia Woolf (Kidman)
ganham maior importância no filme.
Tanto
o livro quanto o filme tem suas particularidades e se sustentam
independentemente, ao contrário de adaptações
como os do bruxinho inglês Harry Potter ou do herói
aracnídeo, que, para o bem ou para o mal, precisam do apelo
da obra que lhes deu origem. Agora, o fato de eu ter lido o livro
só me tornou mais fã do filme. O trabalho de adaptação
do roteiro (de um tal de David Hare) é simplesmente genial.
A transposição das personagens para a tela é
brilhante e o maior mérito do roteiro é ter transformado
um livro extremamente psicológico e com pouquíssimos
diálogos em um filme fluído e que captura com louvor
a essência torturante do original. As Horas é
uma obra para ser lida e para ser vista. 
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