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17 a 30 de novembro de 2003


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ATCHIM... AMOR!
Temporada de Gripe faz apologia à paixão comparando-a com uma doença virótica

por Thiago Vieira (thiagovieira_sp@hotmail.com)

 escuridão se faz presente, alguns segundos em que se escuta apenas o murmúrio ansioso da platéia. Em meio às trevas, uma voz, em alto e bom som, declara o início do espetáculo. Dissertando sobre a escuridão, a voz dá as boas vindas à peça Temporada de Gripe, em cartaz até o dia 7 de dezembro no Teatro Popular do Sesi, escrita por Will Eno, uma das grandes promessas da nova dramaturgia estadunidense, e dirigida por Felipe Hirsch.

O amor é o assunto principal, sem deixar de mostrar todas as faces deste sentimento tão cheio de paradoxos e contradições. O sim e o não, o agora e o depois, insegurança, respiração difícil, tão difícil quanto falar tudo o que se sente. Temporada de Gripe mostra todas as nuances do amor, desde a maneira repentina com que aparece até a maneira desagradável com que se vai. Como a gripe, um vírus mutante e sem cura, o amor não anuncia sua chegada, apenas pode-se experimentar uma estranha sensação de mal-estar, uma perda gradativa das forças, um inexplicável estado febril.

Com pequenos detalhes e semelhanças, o autor mostra o tamanho da fragilidade humana de ante a um simples vírus. O amor é bom e a peça não tenta desmentir isso - pelo contrário, ressalta toda a sua grandeza e como pode ser, ao mesmo tempo, a escada para o céu e o expresso 666 para o inferno.

A primeira coisa que se pode ver com o ascender da primeira lâmpada é Prólogo (Leonardo Medeiros), uma personagem que pode ser comparada ao lado emocional do homem, poético, singelo, otimista. Prólogo dá a primeira introdução, informações básicas como localização, temperatura, tempo e espaço. Engana-se quem acha que este personagem não aparecerá mais: Prólogo será visto e ouvido durante toda a peça. Logo após o belo “abre-alas” proclamado por Prólogo, outra personagem se apresenta: Epílogo (Lavínia Pannunzio). Esta pode ser comparada ao lado racional do homem, mais duro, sem rodeios, realista a tal ponto que parece pessimista. Epílogo vai sempre traduzir de forma clara ou, pelo menos, mais direta, a confusa beleza das palavras de Prólogo. Estes são os guias da peça e que nos levarão para dentro da história contada através de trechos, pequenos espaços de tempo, da complexidade simplista do amor.

Homem (Joelson Medeiros) e Mulher (Maureen Miranda) se conhecem em um hospital psiquiátrico. Ele, cheio de dúvidas sobre si e egocêntrico a ponto de se preocupar apenas consigo mesmo e com seus pensamentos. Ela, a imagem da contradição entre ternura e revolta, um retrato fiel de muitas mulheres. O inevitável acontece: de repente, Homem e Mulher se apaixonam e a peça vai mostrando todas as dificuldades de duas pessoas neste estado. A insegurança, a admiração, a necessidade de impressionar o outro, o primeiro toque, a conversa fluindo mais naturalmente com o passar do tempo, o beijo... O amor. Ah, o amor!

Prólogo, sempre poético, anuncia um breve intervalo. Epílogo, apenas dita o tempo de duração: 5 minutps. Bom, intervalo, momento de esticar as pernas, “tirar a água do joelho”, fumar um cigarro ou engendrar uma simples conversa sobre a peça. Uma tentativa pessoal de entender o que foi mostrado pela peça. Até aqui, é muito subjetiva a comparação entre gripe e amor. Estes cinco minutos são o suficiente para um salto temporal de quase um ano na narrativa: só no segundo “bloco” são jogadas na cara da platéia todas as semelhanças entre a doença virótica e o sentimento passional.

Um choque. Do céu ao inferno. Na volta do intervalo, a bela história parece ter virado de ponta cabeça. Saem de cena o romantismo, a poesia, as gentis palavras, para darem lugar à total perda dos sentimentos, à troca de ofensas. Uma outra pessoa é causadora disso tudo. Nem mesmo Prólogo e Epílogo conseguem explicar o que está acontecendo. A história se torna confusa, sem nexo, e uma pergunta vem à mente da platéia: o que ocorreu com todo aquele amor dos dois personagens?

O choque entre os dois blocos da peça faz com que a platéia saia do teatro com cara de quem não entendeu absolutamente nada. Toda essa confusão, talvez, seja causada pela subjetividade do sentimento em questão e da linguagem, mais particular ainda, usada pelo autor Will Eno. Com um pouco de esforço, percebe-se o paralelo que o autor quis forjar desde o princípio. Da mesma maneira como aparecem, amor e gripe se vão. Deixam algumas marcas no corpo, na alma, consomem as forças, chegam ao ponto de não conseguir mais lutar contra e simplesmente se entregam, às vezes há sofrimento, outras não. Então, sem nenhum aviso, somem. Mas o vírus é mutante e ele nos infecta novamente, de formas diferentes, pessoas diferentes.

Tentando mostrar todas as sensações causadas pelo amor, Will Eno acaba usando uma linguagem difícil de se assimilar dentro de pouco tempo; é muita informação sendo transmitida rapidamente em pequenos espaços de tempo. Ainda assim, a peça é uma ótima opção de lazer para quem está ou não apaixonado, para quem está sozinho, procurando ou acompanhando. Bom divertimento.