| ATCHIM... AMOR!
Temporada de Gripe faz apologia
à paixão comparando-a com uma doença virótica
por Thiago
Vieira (thiagovieira_sp@hotmail.com)

escuridão se faz presente, alguns segundos em que se
escuta apenas o murmúrio ansioso da platéia. Em meio
às trevas, uma voz, em alto e bom som, declara o início
do espetáculo. Dissertando sobre a escuridão, a voz
dá as boas vindas à peça Temporada de Gripe,
em cartaz até o dia 7 de dezembro no Teatro Popular do Sesi,
escrita por Will Eno, uma das grandes promessas da nova dramaturgia
estadunidense, e dirigida por Felipe Hirsch.
O amor é o assunto principal, sem deixar de mostrar todas
as faces deste sentimento tão cheio de paradoxos e contradições.
O sim e o não, o agora e o depois, insegurança, respiração
difícil, tão difícil quanto falar tudo o que
se sente. Temporada de Gripe mostra todas as
nuances do amor, desde a maneira repentina com que aparece até
a maneira desagradável com que se vai. Como a gripe, um vírus
mutante e sem cura, o amor não anuncia sua chegada, apenas
pode-se experimentar uma estranha sensação de mal-estar,
uma perda gradativa das forças, um inexplicável estado
febril.
Com pequenos detalhes e semelhanças, o autor mostra o tamanho
da fragilidade humana de ante a um simples vírus. O amor
é bom e a peça não tenta desmentir isso - pelo
contrário, ressalta toda a sua grandeza e como pode ser,
ao mesmo tempo, a escada para o céu e o expresso 666 para
o inferno.
A
primeira coisa que se pode ver com o ascender da primeira lâmpada
é Prólogo (Leonardo Medeiros), uma personagem que
pode ser comparada ao lado emocional do homem, poético, singelo,
otimista. Prólogo dá a primeira introdução,
informações básicas como localização,
temperatura, tempo e espaço. Engana-se quem acha que este
personagem não aparecerá mais: Prólogo será
visto e ouvido durante toda a peça. Logo após o belo
“abre-alas” proclamado por Prólogo, outra personagem
se apresenta: Epílogo (Lavínia Pannunzio). Esta pode
ser comparada ao lado racional do homem, mais duro, sem rodeios,
realista a tal ponto que parece pessimista. Epílogo vai sempre
traduzir de forma clara ou, pelo menos, mais direta, a confusa beleza
das palavras de Prólogo. Estes são os guias da peça
e que nos levarão para dentro da história contada
através de trechos, pequenos espaços de tempo, da
complexidade simplista do amor.
Homem (Joelson Medeiros) e Mulher (Maureen Miranda) se conhecem
em um hospital psiquiátrico. Ele, cheio de dúvidas
sobre si e egocêntrico a ponto de se preocupar apenas consigo
mesmo e com seus pensamentos. Ela, a imagem da contradição
entre ternura e revolta, um retrato fiel de muitas mulheres. O inevitável
acontece: de repente, Homem e Mulher se apaixonam e a peça
vai mostrando todas as dificuldades de duas pessoas neste estado.
A insegurança, a admiração, a necessidade de
impressionar o outro, o primeiro toque, a conversa fluindo mais
naturalmente com o passar do tempo, o beijo... O amor. Ah, o amor!
Prólogo, sempre poético, anuncia um breve intervalo.
Epílogo, apenas dita o tempo de duração: 5
minutps. Bom, intervalo, momento de esticar as pernas, “tirar
a água do joelho”, fumar um cigarro ou engendrar uma
simples conversa sobre a peça. Uma tentativa pessoal de entender
o que foi mostrado pela peça. Até aqui, é muito
subjetiva a comparação entre gripe e amor. Estes cinco
minutos são o suficiente para um salto temporal de quase
um ano na narrativa: só no segundo “bloco” são
jogadas na cara da platéia todas as semelhanças entre
a doença virótica e o sentimento passional.
Um
choque. Do céu ao inferno. Na volta do intervalo, a bela
história parece ter virado de ponta cabeça. Saem de
cena o romantismo, a poesia, as gentis palavras, para darem lugar
à total perda dos sentimentos, à troca de ofensas.
Uma outra pessoa é causadora disso tudo. Nem mesmo Prólogo
e Epílogo conseguem explicar o que está acontecendo.
A história se torna confusa, sem nexo, e uma pergunta vem
à mente da platéia: o que ocorreu com todo aquele
amor dos dois personagens?
O choque entre os dois blocos da peça faz com que a platéia
saia do teatro com cara de quem não entendeu absolutamente
nada. Toda essa confusão, talvez, seja causada pela subjetividade
do sentimento em questão e da linguagem, mais particular
ainda, usada pelo autor Will Eno. Com um pouco de esforço,
percebe-se o paralelo que o autor quis forjar desde o princípio.
Da mesma maneira como aparecem, amor e gripe se vão. Deixam
algumas marcas no corpo, na alma, consomem as forças, chegam
ao ponto de não conseguir mais lutar contra e simplesmente
se entregam, às vezes há sofrimento, outras não.
Então, sem nenhum aviso, somem. Mas o vírus é
mutante e ele nos infecta novamente, de formas diferentes, pessoas
diferentes.
Tentando mostrar todas as sensações causadas pelo
amor, Will Eno acaba usando uma linguagem difícil de se assimilar
dentro de pouco tempo; é muita informação sendo
transmitida rapidamente em pequenos espaços de tempo. Ainda
assim, a peça é uma ótima opção
de lazer para quem está ou não apaixonado, para quem
está sozinho, procurando ou acompanhando. Bom divertimento.

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