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17 a 30 de novembro de 2003


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QUEM CONTA UM CONTO...
Eliane Caffé aumenta mais que um ponto em Narradores de Javé, uma sensível comédia sobre a tradição do narrar

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

stá lá, no batente da entrada do casebre de Antônio Biá, o poeta bebum interpretado José Dumont: “proibida a entrada de analfabetos”. Indiferente à ignorância daqueles que, claro, não vão saber ler o aviso para cumpri-lo, Biá tenta, à sua maneira peculiar, excluir a população iletrada de seu vilarejo. Mas, ainda bem, falha. Todos os personagens e todas as temáticas de Narradores de Javé, ainda que não cruzem aquela porta, transitam sob o paradoxo entalhado na madeira.

A frase funciona só como chiste, como cabe bem ao personagem e, mais uma vez, ao filme de Eliane Caffé. Em resposta à pergunta titânica “você tem fome de quê?”, a diretora dribla o discurso moralista em voga em tempos de Fome Zero e inova por abordar, com delicadeza, outra privação, que destitui os sertanejos de uma dignidade ainda mais básica: a de registrar a própria história e, assim, construir uma identidade comunitária.

Javé é uma cidadezinha do interior da Bahia que o governo pretende submergir para a construção de uma represa. Os moradores acreditam que a única maneira de salvá-la é comprovar sua importância histórica. Só que, como uma legítima cidadã brasileira, Javé nasceu sem outra certidão de nascimento que não a falada. Para documentar a “saga javélica”, é convocado o único letrado da comunidade, o irreverente e malquisto Biá, que passa a “entrevistar” os cidadãos mais antigos. Em um Rashomon da carne seca, cada um dá sua versão para os princípios do povoado.

O conflito, na verdade, é armado com elipses hitchcockianas. O espectador nunca chega a ver os engenheiros ou as autoridades da represa, que poderiam facilmente ser demonizados, fosse o roteiro maniqueísta. Não é o foco de Caffé, que nos poupa de alguma fábula revisionista e oxentina acerca de Sobradinho. A ela, interessa o ritual de se contar histórias - de fato, mais em voga no interior do que nos grandes centros urbanos. Mas que, independentemente do lugar, sempre remete a arquétipos consagrados da elaboração mítica e reflete nossa própria humanidade.

Os homens creditam a origem de Javé ao patriarca Indalécio, que singrou o sertão, acompanhado de um punhado de excluídos que carregavam o sino da Igreja. É uma figura extraída instantaneamente do imaginário masculino; é o explorador, o bravo, que lidera seus iguais para além do conforto do lar, comum a tantas outras lendas, como Hércules ou Ulisses. As mulheres, porém, destacam a companheira de Indalécio, Maria Dina. Em sua história, o sino, revisto no restante do filme como elemento da comoção comunitária, perde importância - porque Dina é o arquétipo feminino clássico, o maternal, e já exerce a função agregadora (tanto que, em sua tréplica, os homens de Javé tentam desmoralizar tal visão descrevendo Dina como uma bruxa - a figura da anti-mãe).

Dina teria “cantado” os limites de Javé, em um ritual de posse que estende ainda mais o caráter de ilegalidade daquele povo. Essa cidade, assim sem pai e mãe ao certo, ganha ecos no cômico conto familiar dos “gêmeos”, que não sabem se são irmãos ou primos. O lindo é que mesmo o bastardo, contudo, pode ser hereditário, e Narradores de Javé nos comove quando uma de suas personagens relembra os antepassados enterrados no cemitério local. “Minha família viveu a vida inteira aqui. Como posso ir embora?”, pergunta-se. Javé e seus contos se enredam, indissolúveis: são bens que passam de pai para filho.

Caffé voa longe de seu filme anterior, o hermético Kenoma, também estrelado por Dumont. Narradores tem apelo popular, sabe fazer rir e sabe fazer chorar. É, todavia, um projeto muito mais complexo e desafiador do que aparenta à primeira vista, posto que, no restauro da trajetória linear da tradição de contar, o cinema tem tantas ou mais limitações que a escrita tortuosa de Biá. A vantagem do áudio, na mídia de Caffé, não garante a integridade do relato: junto com ele, vem sempre o visual, pronto para entregar em imagens o que, na transmissão oral, caberia só às nossas imaginações. Nada impede, no entanto, que, como espectadores, aproveitemos essa pequena obra-prima da diretora: assim, é até bom ser um “iletrado” a ignorar sem culpa o aviso na porta de Biá.