| QUEM CONTA UM CONTO...
Eliane Caffé aumenta mais
que um ponto em Narradores de Javé, uma sensível
comédia sobre a tradição do narrar
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

stá lá, no batente da entrada do casebre de Antônio
Biá, o poeta bebum interpretado José Dumont: “proibida
a entrada de analfabetos”. Indiferente à ignorância
daqueles que, claro, não vão saber ler o aviso para
cumpri-lo, Biá tenta, à sua maneira peculiar, excluir
a população iletrada de seu vilarejo. Mas, ainda bem,
falha. Todos os personagens e todas as temáticas de Narradores
de Javé, ainda que não cruzem aquela porta, transitam
sob o paradoxo entalhado na madeira.
A frase funciona só como chiste, como cabe bem ao personagem
e, mais uma vez, ao filme de Eliane Caffé. Em resposta à
pergunta titânica “você tem fome de quê?”,
a diretora dribla o discurso moralista em voga em tempos de Fome
Zero e inova por abordar, com delicadeza, outra privação,
que destitui os sertanejos de uma dignidade ainda mais básica:
a de registrar a própria história e, assim, construir
uma identidade comunitária.
Javé é uma cidadezinha do interior
da Bahia que o governo pretende submergir para a construção
de uma represa. Os moradores acreditam que a única maneira
de salvá-la é comprovar sua importância histórica.
Só que, como uma legítima cidadã brasileira,
Javé nasceu sem outra certidão de nascimento que não
a falada. Para documentar a “saga javélica”,
é convocado o único letrado da comunidade, o irreverente
e malquisto Biá, que passa a “entrevistar” os
cidadãos mais antigos. Em um Rashomon da carne seca,
cada um dá sua versão para os princípios do
povoado.
O
conflito, na verdade, é armado com elipses hitchcockianas.
O espectador nunca chega a ver os engenheiros ou as autoridades
da represa, que poderiam facilmente ser demonizados, fosse o roteiro
maniqueísta. Não é o foco de Caffé,
que nos poupa de alguma fábula revisionista e oxentina acerca
de Sobradinho. A ela, interessa o ritual de se contar histórias
- de fato, mais em voga no interior do que nos grandes centros urbanos.
Mas que, independentemente do lugar, sempre remete a arquétipos
consagrados da elaboração mítica e reflete
nossa própria humanidade.
Os homens creditam a origem de Javé ao patriarca Indalécio,
que singrou o sertão, acompanhado de um punhado de excluídos
que carregavam o sino da Igreja. É uma figura extraída
instantaneamente do imaginário masculino; é o explorador,
o bravo, que lidera seus iguais para além do conforto do
lar, comum a tantas outras lendas, como Hércules ou Ulisses.
As mulheres, porém, destacam a companheira de Indalécio,
Maria Dina. Em sua história, o sino, revisto no restante
do filme como elemento da comoção comunitária,
perde importância - porque Dina é o arquétipo
feminino clássico, o maternal, e já exerce a função
agregadora (tanto que, em sua tréplica, os homens de Javé
tentam desmoralizar tal visão descrevendo Dina como uma bruxa
- a figura da anti-mãe).
Dina
teria “cantado” os limites de Javé, em um ritual
de posse que estende ainda mais o caráter de ilegalidade
daquele povo. Essa cidade, assim sem pai e mãe ao certo,
ganha ecos no cômico conto familiar dos “gêmeos”,
que não sabem se são irmãos ou primos. O lindo
é que mesmo o bastardo, contudo, pode ser hereditário,
e Narradores de Javé nos comove quando uma de suas
personagens relembra os antepassados enterrados no cemitério
local. “Minha família viveu a vida inteira aqui. Como
posso ir embora?”, pergunta-se. Javé e seus contos
se enredam, indissolúveis: são bens que passam de
pai para filho.
Caffé voa longe de seu filme anterior, o hermético
Kenoma, também estrelado por Dumont. Narradores
tem apelo popular, sabe fazer rir e sabe fazer chorar. É,
todavia, um projeto muito mais complexo e desafiador do que aparenta
à primeira vista, posto que, no restauro da trajetória
linear da tradição de contar, o cinema tem tantas
ou mais limitações que a escrita tortuosa de Biá.
A vantagem do áudio, na mídia de Caffé, não
garante a integridade do relato: junto com ele, vem sempre o visual,
pronto para entregar em imagens o que, na transmissão oral,
caberia só às nossas imaginações. Nada
impede, no entanto, que, como espectadores, aproveitemos essa pequena
obra-prima da diretora: assim, é até bom ser um “iletrado”
a ignorar sem culpa o aviso na porta de Biá. 
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