| NEÓFITOS
O mercado editorial está mal
das pernas, as feiras de livros, fracas,e novos escritores, cada
vez com menos chances. Mas ainda se encontra preciosidades no meio
disso tudo
por Marcelol
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m época de Feira do Livro, vi um escritor sendo entrevistado,
em meio ao bulício de gente na praça da Alfândega.
Me chamou a atenção especialmente uma coisa que ele
disse sobre os escritores novos: eles não precisam ter pressa
em lançar seus livros. Acho que ele está com a razão,
mas o tal escritor estava lançando mais um livro. Ou seja,
então, é fácil falar. Claro que o mercado não
pode comportar toda a produção literária que
se desejaria. Tem aí mais o fato de que a maioria esmagadora
dos brasileiros não lê nada, e a Feira do Livro serve
apenas para os que lêem e têm condições
de pagar (pior é que os balaios há muito que deixaram
de vender saldo).
Imagino que se todo mundo lesse (principalmente quem não
vai lá na Feira), o jabá não corresse solto
e as publicações em geral fossem baratas como gibi
de faroeste (a Feira estava tão chata que eu parei numa banca
de revistas do Mercado Público e levei uma dúzia desses
livrinhos, tudo quase de graça), a coisa seria bem interessante.
Eu não me preocuparia com aquela observação
do escritor, até porque não tenho pretensão
de publicar nenhum livro e acho que não há demérito
algum em deixar um texto dormindo na gaveta.
Por outro lado, escutei de um editor a afirmação
de que ele não se debruça sobre originais endereçados
a ele. O homem apenas disse que não se resigna a lê-los:
bota tudo no picador de papel. E faz bem. Escritores neófitos
não têm credibilidade, não tem o mesmo talento
de um Baudelaire e, se é poeta, que procure janela de ônibus.
Mas é bem isso. Em época de vacas magras, o jeito
é apalpar. Ninguém lê pela Internet, mas você
pode publicar textos em blog. O único problema é ser
plagiado e ver o seu texto publicado com outro nome. Imagine que
se grandes escritores não escapam disso, você pode
ter mais possibilidade de ser passado para trás.
Porém,
a Internet possibilita o surgimento de "arcádias virtuais".
Você escreve para um grupo que também manda textos
para você. Alguma coisa como uma oficina de conto onde autores
escrevem e lêem textos de gente idem. No fim, é melhor
ter três leitores fiéis do que não ter nenhum.
E ainda por cima não precisa mofar na gaveta. Ou então
você deixar de ser covarde e banca a publicação
do livro. Como um demo de banda de rock (desculpem a desmedida comparação).
Hoje em dia, ninguém precisa de gravadoras ou editoras para
mostrar o seu trabalho. O problema é encontrar leitores e
uma crítica literária disposta a analisá-los.
O outro problema é que não existe mais
crítica literária, apenas jabá e resenhas superficiais,
quase panegíricas. Já li uma resenha de um relançamento
da obra do Kafka em que o tradutor brasileiro era mais importante
do que o escritor praguense. Pode uma coisa dessas? Vai ver que
as traduções anteriores do autor de A Metarmofose
eram tão ruins (e eram) que você poderia achar que
a tradução ideal é apenas uma paráfrase,
e não é (e era). Além do mais, se o objetivo
da resenha é, em última análise, apregoar o
lançamento, para quê analisar o livro? Suplemento literário,
quem banca isso, quem lê isso? Para quem compra pelo prazer
de comprar, para quê ler, também? E essa tese da carência
de crítica literária também é corroborada
pelo patrono da Feira do Livro, Walter Galvani. Pelo menos, ao que
se refere ao que se convencionou chamar de crítica. Álvaro
Lins, Tristão de Ataíde, R. Magalhães Júnior,
Agripino Grieco, hoje eles teriam que fazer outra coisa mais construtiva,
como plantar batatas.
Ou seja, publicar um livro é difícil, os editores
têm resistência com os neófitos beletristas da
Última Flor do Lácio, os livros são caros,
os leitores são raros e a crítica literária
é uma nobre e saudosa defunta, como diria o Otto. Mas a Feira
do Livro dá a impressão que as coisas não são
assim, e que não deveriam ser. As pessoas deviam ter a mesma
relação com o livro que o Dostoievski disse que o
escritor deveria ter com a caneta. Não sei se me entenderam,
mas acho que alguém deve ter entendido. Vocês devem
estar se olhando de revesgueio e pensando onde é que eu quero
chegar com essa conversa mole. Realmente, não sei. Paciência.
Penso que você quiser publicar qualquer coisa, publique. Esqueça
a história da gaveta e do editor que não gosta de
originais. Quanto aos escritores, procurem os leitores! Os escritores
também pecam por não procurarem os leitores.
Mas
não era nada disso o que eu ia dizer. Ia dizer que li um
livro excelente. Ele se cham Nuvens de Magalhães,
e o nome da autora é Manuela Sawitzki (editora Mercado Aberto,
2002). Acredito que pouca gente a conhece justamente porque ela
é uma escritora estreante, não teve a mesma bajulação
da mídia amiga e porque não existe por aqui um Álvaro
Lins para comentá-la. A crítica já morreu.
Se não tem, vale aqui o apelo meramente conativo, como anda
tão em moda, nos dias de hoje: leiam, é ótimo!
O livro saiu no ano passado, e daí? Livro é livro,
não cai de voga de uma feira para outra (alguns, sim). Os
lançamentos desse ano que esperem. E se o laureado escritor
de ocasião disse lá em cima que os neófitos
não precisam ter pressa em lançar seus livros, a gente
também não precisa ter pressa em comprar o livro dele.

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