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17 a 30 de novembro de 2003


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NEÓFITOS
O mercado editorial está mal das pernas, as feiras de livros, fracas,e novos escritores, cada vez com menos chances. Mas ainda se encontra preciosidades no meio disso tudo

por Marcelol Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m época de Feira do Livro, vi um escritor sendo entrevistado, em meio ao bulício de gente na praça da Alfândega. Me chamou a atenção especialmente uma coisa que ele disse sobre os escritores novos: eles não precisam ter pressa em lançar seus livros. Acho que ele está com a razão, mas o tal escritor estava lançando mais um livro. Ou seja, então, é fácil falar. Claro que o mercado não pode comportar toda a produção literária que se desejaria. Tem aí mais o fato de que a maioria esmagadora dos brasileiros não lê nada, e a Feira do Livro serve apenas para os que lêem e têm condições de pagar (pior é que os balaios há muito que deixaram de vender saldo).

Imagino que se todo mundo lesse (principalmente quem não vai lá na Feira), o jabá não corresse solto e as publicações em geral fossem baratas como gibi de faroeste (a Feira estava tão chata que eu parei numa banca de revistas do Mercado Público e levei uma dúzia desses livrinhos, tudo quase de graça), a coisa seria bem interessante. Eu não me preocuparia com aquela observação do escritor, até porque não tenho pretensão de publicar nenhum livro e acho que não há demérito algum em deixar um texto dormindo na gaveta.

Por outro lado, escutei de um editor a afirmação de que ele não se debruça sobre originais endereçados a ele. O homem apenas disse que não se resigna a lê-los: bota tudo no picador de papel. E faz bem. Escritores neófitos não têm credibilidade, não tem o mesmo talento de um Baudelaire e, se é poeta, que procure janela de ônibus. Mas é bem isso. Em época de vacas magras, o jeito é apalpar. Ninguém lê pela Internet, mas você pode publicar textos em blog. O único problema é ser plagiado e ver o seu texto publicado com outro nome. Imagine que se grandes escritores não escapam disso, você pode ter mais possibilidade de ser passado para trás.

Porém, a Internet possibilita o surgimento de "arcádias virtuais". Você escreve para um grupo que também manda textos para você. Alguma coisa como uma oficina de conto onde autores escrevem e lêem textos de gente idem. No fim, é melhor ter três leitores fiéis do que não ter nenhum. E ainda por cima não precisa mofar na gaveta. Ou então você deixar de ser covarde e banca a publicação do livro. Como um demo de banda de rock (desculpem a desmedida comparação). Hoje em dia, ninguém precisa de gravadoras ou editoras para mostrar o seu trabalho. O problema é encontrar leitores e uma crítica literária disposta a analisá-los.

O outro problema é que não existe mais crítica literária, apenas jabá e resenhas superficiais, quase panegíricas. Já li uma resenha de um relançamento da obra do Kafka em que o tradutor brasileiro era mais importante do que o escritor praguense. Pode uma coisa dessas? Vai ver que as traduções anteriores do autor de A Metarmofose eram tão ruins (e eram) que você poderia achar que a tradução ideal é apenas uma paráfrase, e não é (e era). Além do mais, se o objetivo da resenha é, em última análise, apregoar o lançamento, para quê analisar o livro? Suplemento literário, quem banca isso, quem lê isso? Para quem compra pelo prazer de comprar, para quê ler, também? E essa tese da carência de crítica literária também é corroborada pelo patrono da Feira do Livro, Walter Galvani. Pelo menos, ao que se refere ao que se convencionou chamar de crítica. Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, R. Magalhães Júnior, Agripino Grieco, hoje eles teriam que fazer outra coisa mais construtiva, como plantar batatas.

Ou seja, publicar um livro é difícil, os editores têm resistência com os neófitos beletristas da Última Flor do Lácio, os livros são caros, os leitores são raros e a crítica literária é uma nobre e saudosa defunta, como diria o Otto. Mas a Feira do Livro dá a impressão que as coisas não são assim, e que não deveriam ser. As pessoas deviam ter a mesma relação com o livro que o Dostoievski disse que o escritor deveria ter com a caneta. Não sei se me entenderam, mas acho que alguém deve ter entendido. Vocês devem estar se olhando de revesgueio e pensando onde é que eu quero chegar com essa conversa mole. Realmente, não sei. Paciência. Penso que você quiser publicar qualquer coisa, publique. Esqueça a história da gaveta e do editor que não gosta de originais. Quanto aos escritores, procurem os leitores! Os escritores também pecam por não procurarem os leitores.

Mas não era nada disso o que eu ia dizer. Ia dizer que li um livro excelente. Ele se cham Nuvens de Magalhães, e o nome da autora é Manuela Sawitzki (editora Mercado Aberto, 2002). Acredito que pouca gente a conhece justamente porque ela é uma escritora estreante, não teve a mesma bajulação da mídia amiga e porque não existe por aqui um Álvaro Lins para comentá-la. A crítica já morreu. Se não tem, vale aqui o apelo meramente conativo, como anda tão em moda, nos dias de hoje: leiam, é ótimo! O livro saiu no ano passado, e daí? Livro é livro, não cai de voga de uma feira para outra (alguns, sim). Os lançamentos desse ano que esperem. E se o laureado escritor de ocasião disse lá em cima que os neófitos não precisam ter pressa em lançar seus livros, a gente também não precisa ter pressa em comprar o livro dele.