| SÓ O ROCK SALVA
White Stripes passa por cima das
expectativas negativas e entorpece a platéia do Tim Festival
no dia das bruxas
por Julio
Ibelli (jcim13@ig.com.br)

White Stripes custou a entrar no palco do Tim Stage, a principal
vitrine do Tim Festival (antigo Free Jazz Festival), uma tenda de
estrutura monstruosa construída em um espaço vago
dentro dos limites do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Por
três dias o lugar recebeu a fina flor da música pop
ultra-moderna e meio-underground do mundo. A dupla de irmãos
de Detroit parece ter demorado mais a aparecer do que o tempo que
se passou do festivo anúncio de sua vinda ao Brasil até
as vias de fato: o primeiro acorde enlouquecido vindo da guitarra
de Jack e a primeira porrada das baquetas de Meg nos bumbos de sua
bateria.
Estaria tendo uma briga nos bastidores o casal que nega ter se
envolvido em um matrimônio, mas cuja “cópia”
da certidão de casamento até circula pela internet?
Os mais aficionados acreditam que a historinha de irmãos
é puro marketing. Verdade mesmo é que as apresentações
anteriores ao White Stripes entraram em cena com pontualidade britânica,
e os intervalos entre uma banda e outra davam tempo somente de dar
uma esticadinha até o banheiro, ir ao bar e ainda estar na
metade da cerveja quando a performance começasse.
Totalmente compreensível o atraso: ser um dos pilares da
tríade tida como salvadora do rock (junto de Hives e Strokes)
e só aparecer por aqui uns dois anos depois de estourar em
todo planeta (afinal, o Brasil é importante parada na rota
das grandes turnês, sic), não é
pra qualquer um. Seria estranho se eles estivessem prontos cinco
minutos depois da banda anterior, The Rapture, lhes liberar o palco.
Aliás,
não foi só o palco que o Rapture deixou para o White
Stripes, mas principalmente uma responsabilidade do tamanho do festival.
A dobradinha Super Furry Animals e Rapture não deixou pedra
sobre pedra, ou esperança de que a maior devoção
possível dos irmãos White aos seus seguidores seria
capaz de superar.
No entanto, depois que a equipe do White Stripes (toda uniformizada,
de terno, chapéu e sapato preto, gravata vermelha) montou
a parafernália sonora e saiu do palco, os dois branquelos
mostraram a que vieram nestas terras morenas, justificando a cor
do teto e do chão da tenda - branco e vermelho respectivamente
- e, quem sabe, até as cores escolhidas para o logotipo do
festival.
Abriram com “Black Math”, segunda faixa
de Elephant,
último disco lançado pela dupla. Uma música
com a marca registrada do White Stripes, só como eles sabem
fazer, se ouvir algo parecido desconfie. “Dead Lives And The
Dirty Ground”, hit do CD anterior, White Blood Cells,
veio em seguida para ser cantada na íntegra por cada um dos
ali presentes. O povo queria Seven Nation Army logo e a dupla
não atendeu. O que se ouviu depois foi uma sucessão
das músicas dos outros dois discos da banda, os primeiros,
intercalada uma vez ou outra por faixas mais famosas.
Meg estava do lado esquerdo do palco. No chão, na direção
das suas costas, um ventilador estava ligado para dar movimento
às madeixas da baterista. Era muito difícil de acreditar
que batidas tão fortes vinham daquelas mãos e pulsos
tão frágeis. Ela encenou o show inteiro. Fechava os
olhos, contorcia o corpo, balançava a cabeça e não
parava de mexer com os ombros, tudo isso da forma mais teatral possível.
A todo momento Meg lançava pra Jack expressões dignas
de um mímico graduado em algum curso de correspondência
feito por aí.
Meg saiu da bateria para ir tocar teclado e cantar em “In
The Cold, Cold Night”. A música teve direito até
ao único momento de descontração da dupla,
quando, por um motivo aparentemente desconhecido, os dois riram
rapidamente antes da música acabar. A frieza do casal espantava
algumas pessoas. Jack só falou com a platéia uma vez,
cinco palavras no máximo. Ele também irritava quando
resolvia encasquetar com o som, afinando seu instrumento por longos
minutos. “Fell In Love With A Girl” foi tocada em um
ritmo mais lento do que o convencional. Não foram esquecidas
“I Just Don't Know What Do With Myself”, “The
Hardest Button To Button” e “Hotel Yorba”.
Jack
é tão branco quanto Michael Jackson, seu cabelo estava
todo jogado na cara durante a apresentação. Quando
soltava a voz mais se parecia com uma velha, mas na hora de tocar
guitarra tinha a aptidão de um verdadeiro deus do rock. Não
houve nenhum motivo para reclamar do som, depois das seqüelas
deixadas no dedo de Jack quando ele sofreu um acidente de carro.
Voltaram pro bis e então soltaram “Seven Nation Army”,
espantando todas as bruxas daquele dia, fazendo feliz a legião
que vestia camisetas do disco Elephant e algumas garotas
de meia listrada, vermelha e branca, é claro. 
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