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17 a 30 de novembro de 2003


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SÓ O ROCK SALVA
White Stripes passa por cima das expectativas negativas e entorpece a platéia do Tim Festival no dia das bruxas

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

  White Stripes custou a entrar no palco do Tim Stage, a principal vitrine do Tim Festival (antigo Free Jazz Festival), uma tenda de estrutura monstruosa construída em um espaço vago dentro dos limites do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Por três dias o lugar recebeu a fina flor da música pop ultra-moderna e meio-underground do mundo. A dupla de irmãos de Detroit parece ter demorado mais a aparecer do que o tempo que se passou do festivo anúncio de sua vinda ao Brasil até as vias de fato: o primeiro acorde enlouquecido vindo da guitarra de Jack e a primeira porrada das baquetas de Meg nos bumbos de sua bateria.

Estaria tendo uma briga nos bastidores o casal que nega ter se envolvido em um matrimônio, mas cuja “cópia” da certidão de casamento até circula pela internet? Os mais aficionados acreditam que a historinha de irmãos é puro marketing. Verdade mesmo é que as apresentações anteriores ao White Stripes entraram em cena com pontualidade britânica, e os intervalos entre uma banda e outra davam tempo somente de dar uma esticadinha até o banheiro, ir ao bar e ainda estar na metade da cerveja quando a performance começasse.

Totalmente compreensível o atraso: ser um dos pilares da tríade tida como salvadora do rock (junto de Hives e Strokes) e só aparecer por aqui uns dois anos depois de estourar em todo planeta (afinal, o Brasil é importante parada na rota das grandes turnês, sic), não é pra qualquer um. Seria estranho se eles estivessem prontos cinco minutos depois da banda anterior, The Rapture, lhes liberar o palco.

Aliás, não foi só o palco que o Rapture deixou para o White Stripes, mas principalmente uma responsabilidade do tamanho do festival. A dobradinha Super Furry Animals e Rapture não deixou pedra sobre pedra, ou esperança de que a maior devoção possível dos irmãos White aos seus seguidores seria capaz de superar.

No entanto, depois que a equipe do White Stripes (toda uniformizada, de terno, chapéu e sapato preto, gravata vermelha) montou a parafernália sonora e saiu do palco, os dois branquelos mostraram a que vieram nestas terras morenas, justificando a cor do teto e do chão da tenda - branco e vermelho respectivamente - e, quem sabe, até as cores escolhidas para o logotipo do festival.

Abriram com “Black Math”, segunda faixa de Elephant, último disco lançado pela dupla. Uma música com a marca registrada do White Stripes, só como eles sabem fazer, se ouvir algo parecido desconfie. “Dead Lives And The Dirty Ground”, hit do CD anterior, White Blood Cells, veio em seguida para ser cantada na íntegra por cada um dos ali presentes. O povo queria Seven Nation Army logo e a dupla não atendeu. O que se ouviu depois foi uma sucessão das músicas dos outros dois discos da banda, os primeiros, intercalada uma vez ou outra por faixas mais famosas.

Meg estava do lado esquerdo do palco. No chão, na direção das suas costas, um ventilador estava ligado para dar movimento às madeixas da baterista. Era muito difícil de acreditar que batidas tão fortes vinham daquelas mãos e pulsos tão frágeis. Ela encenou o show inteiro. Fechava os olhos, contorcia o corpo, balançava a cabeça e não parava de mexer com os ombros, tudo isso da forma mais teatral possível. A todo momento Meg lançava pra Jack expressões dignas de um mímico graduado em algum curso de correspondência feito por aí.

Meg saiu da bateria para ir tocar teclado e cantar em “In The Cold, Cold Night”. A música teve direito até ao único momento de descontração da dupla, quando, por um motivo aparentemente desconhecido, os dois riram rapidamente antes da música acabar. A frieza do casal espantava algumas pessoas. Jack só falou com a platéia uma vez, cinco palavras no máximo. Ele também irritava quando resolvia encasquetar com o som, afinando seu instrumento por longos minutos. “Fell In Love With A Girl” foi tocada em um ritmo mais lento do que o convencional. Não foram esquecidas “I Just Don't Know What Do With Myself”, “The Hardest Button To Button” e “Hotel Yorba”.

Jack é tão branco quanto Michael Jackson, seu cabelo estava todo jogado na cara durante a apresentação. Quando soltava a voz mais se parecia com uma velha, mas na hora de tocar guitarra tinha a aptidão de um verdadeiro deus do rock. Não houve nenhum motivo para reclamar do som, depois das seqüelas deixadas no dedo de Jack quando ele sofreu um acidente de carro. Voltaram pro bis e então soltaram “Seven Nation Army”, espantando todas as bruxas daquele dia, fazendo feliz a legião que vestia camisetas do disco Elephant e algumas garotas de meia listrada, vermelha e branca, é claro.