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1 a 14 de dezembro de 2003


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POESIA & INADEQUAÇÃO
Edição Especial de Lost In Space traz a poética musical de Aimee Mann em dose dupla

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

hega às lojas dia nove de dezembro a edição especial de Lost In Space, quarto álbum solo da cantora americana Aimee Mann. Lançado inicialmente em agosto do ano passado, o disco foi tão aclamado que a equipe da SuperEgo Records decidiu presentear o público com um songbook limitado contendo o álbum original e um segundo com versões ao vivo, os lados B do disco e duas canções inéditas: “Fighting The Stall” e “Observatory”. As vinte mil cópias que devem chegar ao público também contêm o vídeo da canção “Pavlov´s Bell”, uma das obras primas de Mann. Lost In Space Special Edition não terá versão nacional e uma cópia importada não deve sair por menos de cinqüenta reais, embora valha cada centavo.

TALENTO E INDEPENDÊNCIA

Aimee Mann nasceu nos Estados Unidos em 1960. Sua face de menina, no entanto, não acusa os quarenta e três anos completos em setembro passado. Quatro décadas dedicadas à música e à luta pela realização de um trabalho independente. Ela começou a construir a carreira ainda cedo, quando entrou para Escola de Música de Berklee, em Boston, nos anos 70. Na década seguinte, integrando a banda 'Til Tuesday, como vocalista, conseguiu emplacar o single “Voices Carry” – também nome do primeiro álbum do grupo – na MTV americana. O sucesso, porém, não foi repetido com o segundo disco e ela deixou a banda em 1990 para seguir em carreira solo.

Sozinha, Aimee passou para a fase dos processos judiciais. Brigou pelos direitos autorais de sua obra nas três gravadoras em que esteve (Epic, Imago, Geffen/Interscope Records), até fundar seu próprio selo, SuperEgo, em parceria com um antigo companheiro de banda, Michael Hausman, no final da década de 1990. O primeiro disco lançado por eles foi Bachelor Nº 2, terceiro trabalho solo de Aimee, que repercutiu mundialmente depois que Paul Thomas Anderson afirmou ter escrito o roteiro do filme Magnólia escutando a obra.

A parceria entre os dois se intensificou e nove das treze canções que compõem a trilha sonora do longa-metragem são de autoria de Mann. Uma delas, “Save Me”, foi indicada ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Grammy, sedimentando seu talento como letrista. Em seguida, Aimee Mann estabeleceu um dueto com o marido, Michael Penn, e os dois excursionaram durante um bom tempo. A turnê ficou conhecida como “Acoustic Vaudebille”. Além disso, eles participaram da trilha de Uma Lição de Amor, com a música “Two Of Us”. Em meio a tudo isso, ela começou a construir o que seria o álbum mais elogiado de sua carreira: Lost In Space.

EM ALGUM LUGAR DE QUALQUER CIDADE...

Lost In Space é um disco conceitual. Ele foi concebido como um livro de contos. Aimee Mann parte do princípio de que em qualquer parte do mundo existem pessoas que sofrem por não estarem inseridas na lógica condutora da rotina social. Indivíduos que buscam amor, amizade, compreensão e vagam sem destino pelas esquinas do planeta ou, trancados em seus lares, esquadrinham lembranças e pensamentos atrás de pistas que os levem a decifrar os enigmas criados por um simples conjunto de palavras: por que nem sempre a vida toma o rumo desejado?

Assim, as dúvidas que cercam essa incógnita são expostas nas canções sob a trajetória de personagens diferentes, unidos pelo mesmo sentimento de inadequação. Na música-título “Lost In Space”, Mann canta So baby beware / I´m just pretending to care / like i´m not even there / gone, but I don´t know where (Então, baby preste atenção / Eu estou apenas fingindo me importar / como se eu não estivesse lá / distante, mas sem saber em que lugar). Em “Pavolov´s Bell”, ela reflete Oh Mario – Why, if this is nothing, I´m finding it´s so hard to dismiss (Oh, Mario – Por que, se isso não é nada, eu estou achando que é tão difícil descartar?) e mostra bem a linha central do disco: indivíduos que estão inseridos em um ambiente sem sentir que fazem parte dele. É justamente essa sensibilidade para identificar os dramas humanos, as relações que eles têm entre si e descrevê-los de forma pungente que colocou Aimee Mann no patamar de uma das melhores letristas de sua geração.

Quando ela finalizou o processo de criação de Lost In Space, a idéia de um livro de estórias ficou tão clara que Mann contratou o artista gráfico Seth McClain para ilustrar todo o trabalho. McClain produziu uma história em quadrinhos, que está dividida no começo e no fim do encarte, a partir da linha mestra que perpassa todas as letras e criou um personagem que agregasse as características gerais de um indivíduo que se sente à margem da sociedade. Além disso, ele concebeu a capa, o auto-retrato de Aimee e as imagens que sintetizam a poesia dela para cada canção. A parceria nomeou o resultado de voice-o-graph, integração entre voz e artes gráficas. Para o lançamento especial eles expandirão esse conceito entre música e arte para o álbum duplo, trazendo elementos que reforçarão a habilidade lírica de Aimee Mann.