| POESIA & INADEQUAÇÃO
Edição Especial de
Lost In Space traz a poética musical de
Aimee Mann em dose dupla
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)

hega às lojas dia nove de dezembro a edição
especial de Lost In Space, quarto álbum solo da cantora
americana Aimee Mann. Lançado inicialmente em agosto do ano
passado, o disco foi tão aclamado que a equipe da SuperEgo
Records decidiu presentear o público com um songbook limitado
contendo o álbum original e um segundo com versões
ao vivo, os lados B do disco e duas canções inéditas:
“Fighting The Stall” e “Observatory”. As
vinte mil cópias que devem chegar ao público também
contêm o vídeo da canção “Pavlov´s
Bell”, uma das obras primas de Mann. Lost In Space Special
Edition não terá versão nacional e uma
cópia importada não deve sair por menos de cinqüenta
reais, embora valha cada centavo.
TALENTO E INDEPENDÊNCIA
Aimee Mann nasceu nos Estados Unidos em 1960. Sua face de menina,
no entanto, não acusa os quarenta e três anos completos
em setembro passado. Quatro décadas dedicadas à música
e à luta pela realização de um trabalho independente.
Ela começou a construir a carreira ainda cedo, quando entrou
para Escola de Música de Berklee, em Boston, nos anos 70.
Na década seguinte, integrando a banda 'Til Tuesday, como
vocalista, conseguiu emplacar o single “Voices Carry”
– também nome do primeiro álbum do grupo –
na MTV americana. O sucesso, porém, não foi repetido
com o segundo disco e ela deixou a banda em 1990 para seguir em
carreira solo.
Sozinha, Aimee passou para a fase dos processos judiciais. Brigou
pelos direitos autorais de sua obra nas três gravadoras em
que esteve (Epic, Imago, Geffen/Interscope Records), até
fundar seu próprio selo, SuperEgo, em parceria com um antigo
companheiro de banda, Michael Hausman, no final da década
de 1990. O primeiro disco lançado por eles foi Bachelor
Nº 2, terceiro trabalho solo de Aimee, que repercutiu
mundialmente depois que Paul Thomas Anderson afirmou ter escrito
o roteiro do filme Magnólia escutando
a obra.
A
parceria entre os dois se intensificou e nove das treze canções
que compõem a trilha sonora do longa-metragem são
de autoria de Mann. Uma delas, “Save Me”, foi indicada
ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Grammy, sedimentando seu talento
como letrista. Em seguida, Aimee Mann estabeleceu um dueto com o
marido, Michael Penn, e os dois excursionaram durante um bom tempo.
A turnê ficou conhecida como “Acoustic Vaudebille”.
Além disso, eles participaram da trilha de Uma Lição
de Amor, com a música “Two Of Us”. Em meio
a tudo isso, ela começou a construir o que seria o álbum
mais elogiado de sua carreira: Lost In Space.
EM ALGUM LUGAR DE QUALQUER CIDADE...
Lost In Space é um disco conceitual.
Ele foi concebido como um livro de contos. Aimee Mann parte do princípio
de que em qualquer parte do mundo existem pessoas que sofrem por
não estarem inseridas na lógica condutora da rotina
social. Indivíduos que buscam amor, amizade, compreensão
e vagam sem destino pelas esquinas do planeta ou, trancados em seus
lares, esquadrinham lembranças e pensamentos atrás
de pistas que os levem a decifrar os enigmas criados por um simples
conjunto de palavras: por que nem sempre a vida toma o rumo desejado?
Assim, as dúvidas que cercam essa incógnita são
expostas nas canções sob a trajetória de personagens
diferentes, unidos pelo mesmo sentimento de inadequação.
Na música-título “Lost In Space”, Mann
canta So baby beware / I´m just
pretending to care / like i´m not even there / gone, but I
don´t know where (Então, baby preste atenção
/ Eu estou apenas fingindo me importar / como se eu não estivesse
lá / distante, mas sem saber em que lugar). Em “Pavolov´s
Bell”, ela reflete Oh Mario – Why, if this
is nothing, I´m finding it´s so hard to dismiss (Oh,
Mario – Por que, se isso não é nada, eu estou
achando que é tão difícil descartar?) e mostra
bem a linha central do disco: indivíduos que estão
inseridos em um ambiente sem sentir que fazem parte dele. É
justamente essa sensibilidade para identificar os dramas humanos,
as relações que eles têm entre si e descrevê-los
de forma pungente que colocou Aimee Mann no patamar de uma das melhores
letristas de sua geração.
Quando
ela finalizou o processo de criação de Lost In
Space, a idéia de um livro de estórias ficou tão
clara que Mann contratou o artista gráfico Seth McClain para
ilustrar todo o trabalho. McClain produziu uma história em
quadrinhos, que está dividida no começo e no fim do
encarte, a partir da linha mestra que perpassa todas as letras e
criou um personagem que agregasse as características gerais
de um indivíduo que se sente à margem da sociedade.
Além disso, ele concebeu a capa, o auto-retrato de Aimee
e as imagens que sintetizam a poesia dela para cada canção.
A parceria nomeou o resultado de voice-o-graph, integração
entre voz e artes gráficas. Para o lançamento especial
eles expandirão esse conceito entre música e arte
para o álbum duplo, trazendo elementos que reforçarão
a habilidade lírica de Aimee Mann. 
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