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1 a 14 de dezembro de 2003


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O QUERIDINHO DAS REDAÇÕES
Depois de arrebatar o coração do jornalismo cultural brasileiro, De Leve lança seu segundo trabalho para o grande público

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

  niteroiense Ramon Moreno, de 22 anos, tinha uma idéia na cabeça e um computador com acesso à internet nas mãos. Não era o único, a rede está lotada de casos parecidos com o dele. As semelhanças com qualquer nerd que criou o site sensação da última semana acabam quando Ramon consegue conquistar aquelas que provavelmente são as mentes mais carentes que perambulam pela web.

Era de se esperar que Ramon, que faz música, tivesse seu talento descoberto por uma gravadora enquanto trabalhava em alguma plantação de tomate do interior, vivia em situação de risco social dentro de uma favela dominada pelo tráfico ou coisa parecida. Daí viriam a gravação de um CD, aparições de divulgação na TV, música tocando nas rádios e reportagens estampando páginas de jornal. A evolução natural de um artista preso a um contrato com as grandes gravadoras.

Ramon pulou a maioria dessas etapas e chegou aos finalmentes, às páginas de jornal, (jornais na internet, pra ser mais exato), depois de juntar alguns amigos pra fazer música e usar a rede para divulgá-la. Motivados por um grupo cada vez maior de curiosos, alguns jornalistas encontraram Ramon sob o pseudônimo “De Leve” em programas de troca de arquivos. Com um rap “cariocamente” despojado, sem ser mais uma das dezenas de bandas do cenário independente que se acotovelam por um lugar ao sol, Ramon foi elevado pelos jornalistas viciados em novidade como a revelação maior do underground brasileiro, uma espécie de Maria Rita dos descamisados da música nacional. E dá-lhe reportagem com Alexandre Matias na Folha de S. Paulo, música incluída na trilha de Cidade dos Homens, perfil publicado no site conterrâneo No Mínimo. Tudo isso com apenas um CD bancado do próprio bolso, Introduzindo De Leve, e outro prestes a ser lançado. Alguém ainda tem dúvida do poder do boca-a-boca na internet?

De Leve é parte fundamental do Quinto Andar, um grupo com agregados espalhados principalmente em São Paulo e no Rio, responsável por músicas ainda mais surpreendentes do que as de Ramon quando este resolve tomar as rédeas do processo criativo. O Quinto Andar é um coletivo, termo usado pela imprensa para identificar só aquele conjunto de pessoas que faz alguma coisa fora do padrão e que soa bem. Aqueles que não se destacam continuam a ser chamados, de uma forma depreciativa, de “grupo”. Foi no meio dessa selva de redações e assessorias de imprensa que Ramon fez a sua fama, e até agora se mantém a salvo das bocas dos leões.

Sucesso do De Leve, a música “Largado” é o protesto definitivo da classe média contra os abusos de consumo dos ricos. Mas a crítica social fica em segundo plano quando percebe-se o talento natural de Ramon para fundar uma nova vertente dentro do rap e cantar o cotidiano da maneira mais realista e pessoal que já existiu, deixando os Racionais um pouco atrasados e Gabriel O Pensador, Xis e genéricos a anos luz de distância. De Leve parece ter breakbeats na voz, as batidas e outros sons manipulados em computador para tocar de fundo servem mais como um acompanhamento muito bem construído.

O destaque maior fica para as letras. “Largado” é a ode para aqueles que insistem em levar uma vida vestindo chinelo Havaianas e as famosas camisetas Hering lisas, sem estampas, compradas no pacote que vem com 3 unidades, “da promoção”. Já em “Bombando”, De Leve chama pra briga metade dos personagens da MPB. Mas ele pode dizer que tudo não passou de uma brincadeira, dando dribles na imprensa que o consagrou. Um exemplo é sobre a fantástica “A Lenda”, feita com os parceiros de Quinto Andar, uma “palhaçada e babaquice” conforme declarou ao No Mínimo, mas ainda assim “100% verídica” quando eu perguntei sobre a letra.

 De Leve e Marechal, do Quinto Andar

Com o lançamento de “O Estilo Foda-se” pelo selo Segundo Mundo, contando com uma grande distribuição, resta saber se o rap ainda vai continuar a ter algum tipo de compromisso a não ser o de um mergulho na praia de Icaraí, bairro onde De Leve vive em Niterói, a cidade dos gatos. “A gente passou a nomear assim depois que Branco, um amigo meu, passou a ter TV a cabo fazendo gato. E depois de alguns meses tava todo mundo pedindo pra ele fazer gato também. Ele fazia gato de tudo, de TVA, de carro, de amplificador, de liquidificador, etc. Profissional. Então virou gatolândia, a terra dos que fazem gatos”, explica.

Sobre o compromisso, “depende do de cada um”, emenda Ramon. Se depender do De Leve, não haverá gatos entre a música dele e o compromisso com a diversão garantida do ouvinte.