| O QUERIDINHO DAS REDAÇÕES
Depois de arrebatar o coração
do jornalismo cultural brasileiro, De Leve lança seu segundo
trabalho para o grande público
por Julio
Ibelli (jcim13@ig.com.br)

niteroiense Ramon Moreno, de 22 anos, tinha uma idéia
na cabeça e um computador com acesso à internet nas
mãos. Não era o único, a rede está lotada
de casos parecidos com o dele. As semelhanças com qualquer
nerd que criou o site sensação da última semana
acabam quando Ramon consegue conquistar aquelas que provavelmente
são as mentes mais carentes que perambulam pela web.
Era de se esperar que Ramon, que faz música, tivesse seu
talento descoberto por uma gravadora enquanto trabalhava em alguma
plantação de tomate do interior, vivia em situação
de risco social dentro de uma favela dominada pelo tráfico
ou coisa parecida. Daí viriam a gravação de
um CD, aparições de divulgação na TV,
música tocando nas rádios e reportagens estampando
páginas de jornal. A evolução natural de um
artista preso a um contrato com as grandes gravadoras.
Ramon pulou a maioria dessas etapas e chegou aos finalmentes, às
páginas de jornal, (jornais na internet, pra ser mais exato),
depois de juntar alguns amigos pra fazer música e usar a
rede para divulgá-la. Motivados por um grupo cada vez maior
de curiosos, alguns jornalistas encontraram Ramon sob o pseudônimo
“De Leve” em programas de troca de arquivos. Com um
rap “cariocamente” despojado, sem ser mais uma das dezenas
de bandas do cenário independente que se acotovelam por um
lugar ao sol, Ramon foi elevado pelos jornalistas viciados em novidade
como a revelação maior do underground brasileiro,
uma espécie de Maria Rita dos descamisados da música
nacional. E dá-lhe reportagem com Alexandre Matias na Folha
de S. Paulo, música incluída na trilha de
Cidade dos Homens, perfil publicado no site conterrâneo
No Mínimo. Tudo isso com apenas um CD
bancado do próprio bolso, Introduzindo De Leve,
e outro prestes a ser lançado. Alguém ainda tem dúvida
do poder do boca-a-boca na internet?
De
Leve é parte fundamental do Quinto
Andar, um grupo com agregados espalhados principalmente em São
Paulo e no Rio, responsável por músicas ainda mais
surpreendentes do que as de Ramon quando este resolve tomar as rédeas
do processo criativo. O Quinto Andar é um coletivo, termo
usado pela imprensa para identificar só aquele conjunto de
pessoas que faz alguma coisa fora do padrão e que soa bem.
Aqueles que não se destacam continuam a ser chamados, de
uma forma depreciativa, de “grupo”. Foi no meio dessa
selva de redações e assessorias de imprensa que Ramon
fez a sua fama, e até agora se mantém a salvo das
bocas dos leões.
Sucesso do De Leve, a música “Largado” é
o protesto definitivo da classe média contra os abusos de
consumo dos ricos. Mas a crítica social fica em segundo plano
quando percebe-se o talento natural de Ramon para fundar uma nova
vertente dentro do rap e cantar o cotidiano da maneira mais realista
e pessoal que já existiu, deixando os Racionais um pouco
atrasados e Gabriel O Pensador, Xis e genéricos a anos luz
de distância. De Leve parece ter breakbeats
na voz, as batidas e outros sons manipulados em computador para
tocar de fundo servem mais como um acompanhamento muito bem construído.
O destaque maior fica para as letras. “Largado” é
a ode para aqueles que insistem em levar uma vida vestindo chinelo
Havaianas e as famosas camisetas Hering lisas, sem estampas, compradas
no pacote que vem com 3 unidades, “da promoção”.
Já em “Bombando”, De Leve chama pra briga metade
dos personagens da MPB. Mas ele pode dizer que tudo não passou
de uma brincadeira, dando dribles na imprensa que o consagrou. Um
exemplo é sobre a fantástica “A Lenda”,
feita com os parceiros de Quinto Andar, uma “palhaçada
e babaquice” conforme declarou ao No Mínimo,
mas ainda assim “100% verídica” quando eu perguntei
sobre a letra.
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| De Leve e Marechal, do Quinto Andar |
Com o lançamento de “O Estilo Foda-se”
pelo selo Segundo Mundo, contando com uma grande distribuição,
resta saber se o rap ainda vai continuar a ter algum tipo de compromisso
a não ser o de um mergulho na praia de Icaraí, bairro
onde De Leve vive em Niterói, a cidade dos gatos. “A
gente passou a nomear assim depois que Branco, um amigo meu, passou
a ter TV a cabo fazendo gato. E depois de alguns meses tava todo
mundo pedindo pra ele fazer gato também. Ele fazia gato de
tudo, de TVA, de carro, de amplificador, de liquidificador, etc.
Profissional. Então virou gatolândia, a terra dos que
fazem gatos”, explica.
Sobre o compromisso, “depende do de cada um”, emenda
Ramon. Se depender do De Leve, não haverá gatos entre
a música dele e o compromisso com a diversão garantida
do ouvinte. 
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