| BEM-VINDO AO INFERNO
O pesadelo de Joca Reiners Terron
nos microcontos de Hotel Hell
por Steffania
Paola (ste_paola@hotmail.com)
ara onde, amigo?
- Pro inferno.
- Ah, te deixo no Hotel Hell, conhece?
- Cumé? Um hotel?
- É, grande como uma cidade. Tem tudo por lá, cassinos,
bares, ruas, avenidas – o caralho.”
Imagine uma cidade, ou melhor, um parque temático
no qual paquidermes, macacos que comem "merda” e bebês
de 60 anos transitam pelas ruas como seres urbanos normais. Se depender
de Joca Reiners Terron, São Paulo é mais ou menos
isso. Some-se uma dose de escatologia, algum humor e muito caos.
Hotel Hell, segundo livro em prosa de Joca
Terron, é uma metáfora da maior metrópole da
América Latina. O texto é escrito em forma de micro-histórias.
Trata-se de uma coletânea dos post’s do blog
do autor : www.hellhotel.blogger.com.br.
O Hotel Hell foi construído em cima de um cemitério
de macacos e, segundo descreve o taxista, "lá dentro
as putas é que escolhe os clientes.(...) e tem gangues de
comedores de merda que seqüestra todo mundo".
Em algumas passagens a escatologia dá espaço
ao lirismo. É o caso de “O Outono Sempre Queimando
seus Brotos” e “As Entranhas”. Joca transforma
o caos do centro de São Paulo - com seus "taxistas em
chamas" - em pura poesia. Já o humor ácido de
Hotel Hell está em “Tchau”, micro-história
em que um suicida, enquanto estrebucha, percebe uma rachadura no
teto. Deixa então um bilhete pedindo que arrumem. Depois
do suicídio, ocorre uma espécie de reencarnação:
é quando ele se dá conta de que é a nova Sheila
ruiva do É o Tchan.
Outro destaque é o poeta que, em certa
passagem do livro, corta a genitália de um homem e avisa
sua esposa que ela tem 24 horas para pagar o resgate. A linguagem
apurada está em “O Canto do Messias Assado”.
Messias assado ou oráculo, o frango assado. Aqui Joca escreve
ou descreve a linguagem do cocoricó: “cóquóquase
todos aquietam e cocólocócam o cocóração
de cócoras”.
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| Joca Reiners Terron |
O caos parece atingir o ápice em “Cidades
são fábricas de merda”, uma das últimas
histórias. A velocidade com que se desenvolve é traduzida
na linguagem rápida e confusa de Joca, “E luzes.
E luzes. E luzes. E passam rápidas. E postes. (...) E ruas.
E gente. Gente pra caralho.” O final ficou para as cigarras
que cantam fora da época em “Sem Chance”.
O retrato fiel do inferno, ninguém sabe. Mas
se Joca pretendeu descrever o inferno em meio à caótica
vida moderna, com certeza chegou lá. Joca, além de
escritor é editor da Ciência do Acidente. Já
publicou os livros de poemas Eletroencefalodrama (1998) e
Animal Anônimo (2002), os de prosa Não há
Nada Lá (2001), Hotel Hell (2003) e acaba de lançar
pela editora Planeta Curva de Rio Sujo.  |