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1 a 14 de dezembro de 2003


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SEXO, VIOLÊNCIA E NÁUSEAS
Mesmo com duas cenas fortíssimas, Irreversível incomoda bem mais pelo inteligente uso da câmera e pelo ritmo vertiginoso

por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

 rreversível é para quem tem estômago forte. E essa não é uma frase solta feita para chocar e servir como enfeite de pôsteres ou trailers. O filme de Gaspar Noé é uma verdadeira experiência, no melhor e pior sentido. Uma aula de técnica cinematográfica aliada a uma narrativa de trás para frente que deixa o espectador atônito, enojado e nauseado. Tudo ao mesmo tempo agora. O filme é daqueles que você ama ou odeia, mas não fica indiferente, principalmente em relação à sua primeira metade recheada de sexo e violência.

Com um ritmo frenético, fotografia suja, trilha sonora barulhenta e uma câmera inquieta que sobe, desce e faz várias piruetas, Noé praticamente joga o espectador dentro da história de Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupont), que partem numa busca alucinada atrás do estuprador de Alex (a bela Monica Bellucci), atual mulher do primeiro e ex do segundo. O diretor mostra da forma mais violenta possível como duas pessoas "normais" agem descontroladamente diante de uma situação inesperada. A cena em que o contido Pierre esmaga a cabeça do provável estuprador é uma das mais fortes que já vi no cinema. Filmada de uma forma crua e incômoda, quem sofre é o público que praticamente se contorce na cadeira.

De igual crueza é a tão falada cena do estupro. São mais de dez minutos de uma câmera "jogada" no chão, sem cortes, que observa passivamente um dos atos mais grotescos e injustificáveis que um homem pode fazer. Por mais gratuita que possa parecer, a cena acaba se justificando dentro da proposta do filme: incomodar e mostrar como tudo pode ser efêmero. Afinal, Irreversível começa e termina com a frase "o tempo destrói tudo". E, de acordo com o conceito do filme, ela faz todo sentido.

Pena que um bom filme seja bem mais do que um conceito e a boa utilização da técnica. Um roteiro consistente e bem amarrado também é fundamental, senão o filme perde a força e cai no vazio. E nisso Irreversível falha. Quando a tormenta passa, a câmera dá uma trégua ao espectador e a narrativa deixa o ritmo alucinante de lado para adotar um tom mais calmo, ainda que angustiante, e mostrar os momentos que antecedem a tragédia. É a partir daí que fica claro a direção adotada por Noé (que também é autor do roteiro), já que sua história não se sustenta sem os "exageros" narrativos e a inversão cronológica (tão bem utilizada como no ótimo Amnésia). Contado de forma tradicional e linear, o filme perderia grande parte do seu impacto, restando apenas uma história frouxa, desconexa e vários planos-seqüência sem uma amarração que os exigisse.

Mas apesar desse "pequeno" defeito, ainda assim Irreversível é um filme que merece ser conferido. Seja pela direção sem concessões de Nóe, pelo elenco que atua de forma visceral ou mesmo pelo exercício de estilo e experiência cinematográfica que o filme representa, algo difícil de se conferir hoje em dia. Mesmo com todas as ressalvas à violência e ao sexo explorados de forma extremada, Nóe consegue propor uma obra criativa, inovadora e, acima de tudo, instigante, ainda que às vezes repulsiva. Mas quem foi que disse que filmes são feitos para agradar? Nóe leva suas idéias às últimas conseqüências e acaba ganhando pontos com isso, mesmo que Irreversível pretenda ser muito mais do que é: um retrato tosco da brutalidade do ser humano, seja ele vítima ou algoz, e um cruel atestado de que, às vezes, nossas vidas não estão sob nosso controle.