| SEXO, VIOLÊNCIA
E NÁUSEAS
Mesmo com duas cenas fortíssimas,
Irreversível incomoda bem mais pelo inteligente
uso da câmera e pelo ritmo vertiginoso
por Fábio
Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

rreversível é para quem tem estômago
forte. E essa não é uma frase solta feita para chocar
e servir como enfeite de pôsteres ou trailers. O
filme de Gaspar Noé é uma verdadeira experiência,
no melhor e pior sentido. Uma aula de técnica cinematográfica
aliada a uma narrativa de trás para frente que deixa o espectador
atônito, enojado e nauseado. Tudo ao mesmo tempo agora. O
filme é daqueles que você ama ou odeia, mas não
fica indiferente, principalmente em relação à
sua primeira metade recheada de sexo e violência.
Com um ritmo frenético, fotografia suja, trilha sonora barulhenta
e uma câmera inquieta que sobe, desce e faz várias
piruetas, Noé praticamente joga o espectador dentro da história
de Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupont), que partem
numa busca alucinada atrás do estuprador de Alex (a bela
Monica Bellucci), atual mulher do primeiro e ex do segundo. O diretor
mostra da forma mais violenta possível como duas pessoas
"normais" agem descontroladamente diante de uma situação
inesperada. A cena em que o contido Pierre esmaga a cabeça
do provável estuprador é uma das mais fortes que já
vi no cinema. Filmada de uma forma crua e incômoda, quem sofre
é o público que praticamente se contorce na cadeira.
De
igual crueza é a tão falada cena do estupro. São
mais de dez minutos de uma câmera "jogada" no chão,
sem cortes, que observa passivamente um dos atos mais grotescos
e injustificáveis que um homem pode fazer. Por mais gratuita
que possa parecer, a cena acaba se justificando dentro da proposta
do filme: incomodar e mostrar como tudo pode ser efêmero.
Afinal, Irreversível começa e termina com a
frase "o tempo destrói tudo". E, de acordo com
o conceito do filme, ela faz todo sentido.
Pena que um bom filme seja bem mais do que um conceito
e a boa utilização da técnica. Um roteiro consistente
e bem amarrado também é fundamental, senão
o filme perde a força e cai no vazio. E nisso Irreversível
falha. Quando a tormenta passa, a câmera dá uma trégua
ao espectador e a narrativa deixa o ritmo alucinante de lado para
adotar um tom mais calmo, ainda que angustiante, e mostrar os momentos
que antecedem a tragédia. É a partir daí que
fica claro a direção adotada por Noé (que também
é autor do roteiro), já que sua história não
se sustenta sem os "exageros" narrativos e a inversão
cronológica (tão bem utilizada como no ótimo
Amnésia). Contado de forma tradicional e linear, o
filme perderia grande parte do seu impacto, restando apenas uma
história frouxa, desconexa e vários planos-seqüência
sem uma amarração que os exigisse.
Mas
apesar desse "pequeno" defeito, ainda assim Irreversível
é um filme que merece ser conferido. Seja pela direção
sem concessões de Nóe, pelo elenco que atua de forma
visceral ou mesmo pelo exercício de estilo e experiência
cinematográfica que o filme representa, algo difícil
de se conferir hoje em dia. Mesmo com todas as ressalvas à
violência e ao sexo explorados de forma extremada, Nóe
consegue propor uma obra criativa, inovadora e, acima de tudo, instigante,
ainda que às vezes repulsiva. Mas quem foi que disse que
filmes são feitos para agradar? Nóe leva suas idéias
às últimas conseqüências e acaba ganhando
pontos com isso, mesmo que Irreversível pretenda ser
muito mais do que é: um retrato tosco da brutalidade do ser
humano, seja ele vítima ou algoz, e um cruel atestado de
que, às vezes, nossas vidas não estão sob nosso
controle. 
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