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1 a 14 de dezembro de 2003


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MODERNISMO ENCAIXOTADO
Réplicas de obras modernistas são lançadas em uma caixa, sintetizando a história de um movimento que ecoa até hoje em nossa arte

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

magine obras de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade, entre outros artistas do Modernismo, diante de suas mãos, olhos e ouvidos a todo o instante que você desejar. Não, isto não é um sonho de algum colecionador maluco e montado no dinheiro. Esta é a Caixa Modernista, lançada pela Imprensa Oficial do Estado e pelas editoras da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Minas Gerais. Trata-se de uma compilação de 30 documentos curiosos e trabalhos voltados para artes plásticas, arquitetura, cinema, fotografia e música, sendo todos réplicas fiéis, além de alguns materiais inéditos. Tudo embalado por uma caixa projetada pelo artista gráfico Cesar Hirata, que inspirou-se na capa do livro Paulicéia Desvairada.

Uma das curiosidades está na réplica do programa da Semana de 22, de Anita Malfatti, bem como o catálogo do evento. Outra raridade é o convite e catálogo da exposição realizada por Tarsila do Amaral, na galeria Percier, em Paris, em 1926. Sem falar na primeira edição da Revista de Antropofagia, com direito ao “Manifesto Antropófago”. A caixa possui também cartões postais de diversas obras modernistas, como A Caipirinha, de Tarsila do Amaral, Cobra Norato, de Raul Bopp, e Bananal, de Cândido Portinari. Há que se destacar os livros Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade e Pau Brasil, reunião de poemas de Oswald de Andrade, presentes na coletânea.

A euforia do ineditismo da Caixa Modernista fica por conta do CD Música em Torno do Modernismo. O álbum contém temas de Lamartine Babo, Camargo Guarnieri, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos e Darius Milhaud. A produção é de José Miguel Wisnik e Cacá Machado. Há composições nunca gravadas, como “Melodia da Montanha”, de Villa-Lobos, ou gravadas anteriormente só em 78 rotações, caso de “Escovado”, do pré-moderno Ernesto Nazareth.

O coquetel de lançamento ocorreu no último dia 22, na Pinacoteca do Estado. Durante o evento, estava exposto um modelo da caixa com todas as réplicas disponíveis para o olhar atento do público. Foi possível também adquirir a compilação por módicos R$ 120,00 reais (o valor nas lojas deverá ser de R$ 150,00), com direito a dedicatória do organizador, o professor de literatura de pós-graduação Jorge Schwartz.

HISTÓRIA REVISITADA

Não é um mero acaso este professor ser o responsável pela caixa. Schwartz tem uma ligação longa com o Modernismo. Sua tese de doutorado foi sobre Oswald de Andrade e ele organizou em 2000, na Espanha, uma grande mostra sobre a produção cultural brasileira dos anos 20 aos 50, “Da Antropofagia a Brasília”. A mesma exposição foi reeditada em 2002, no Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), quando surgiu a idéia de organizar a Caixa Modernista e tornar disponível originais de documentos até então desconhecidos do público.

A possibilidade de reunir tudo no que Scwartz chama de “museu portátil” nos traz a oportunidade de reviver ou mesmo conhecer melhor momentos dessa época tão rica e inovadora de nossa arte, descontado-se o apelo comercial que a caixa apresenta para os mais puritanos. Para o professor, o trabalho serve “como uma síntese caleidoscópica de nossas vanguardas históricas”. Segundo ele, as obras escolhidas servem de representação da pluralidade envolvida no movimento modernista, revelando seu caráter influente para a arte brasileira.

A caixa realiza o resgate histórico de um movimento que buscava a valorização de uma cultura plenamente tupiniquim, voltada para seu povo, sua terra e seus costumes, negaceando as possibilidades européias da década de 20 do século passado. O aspecto interessante do projeto é trazer às pessoas toda a história de um pensamento que pretendia revolucionar as artes e a sociedade brasileira, mas que não foi compreendida de início e acabou perdendo espaço em seus exageros e desconexão com o povo, que era o objetivo principal do idealismo oswaldiano.

A criação dessa caixa é sintomática para compreender os novos caminhos tomados pela própria arte nacional no século XXI e sua relação com os elementos históricos que alimentam a fogueira inspiradora de muitos artistas. A simplificação das obras em uma atrativa caixa colorida revela os rumos de nosso relacionamento com a História. Enfim, os tempos ficaram mais modernos e inóspitos do que os próprios modernistas vislumbravam naquela época.