| MODERNISMO ENCAIXOTADO
Réplicas de obras modernistas
são lançadas em uma caixa, sintetizando a história
de um movimento que ecoa até hoje em nossa arte
por Rodrigo
Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

magine obras de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti,
Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade, entre outros artistas
do Modernismo, diante de suas mãos, olhos e ouvidos a todo
o instante que você desejar. Não, isto não é
um sonho de algum colecionador maluco e montado no dinheiro. Esta
é a Caixa Modernista, lançada pela Imprensa
Oficial do Estado e pelas editoras da Universidade de São
Paulo e da Universidade Federal de Minas Gerais. Trata-se de uma
compilação de 30 documentos curiosos e trabalhos voltados
para artes plásticas, arquitetura, cinema, fotografia e música,
sendo todos réplicas fiéis, além de alguns
materiais inéditos. Tudo embalado por uma caixa projetada
pelo artista gráfico Cesar Hirata, que inspirou-se na capa
do livro Paulicéia Desvairada.
Uma das curiosidades está na réplica do programa
da Semana de 22, de Anita Malfatti, bem como o catálogo do
evento. Outra raridade é o convite e catálogo da exposição
realizada por Tarsila do Amaral, na galeria Percier, em Paris, em
1926. Sem falar na primeira edição da Revista
de Antropofagia, com direito ao “Manifesto Antropófago”.
A caixa possui também cartões postais de diversas
obras modernistas, como A Caipirinha, de Tarsila
do Amaral, Cobra Norato, de Raul Bopp, e Bananal,
de Cândido Portinari. Há que se destacar os livros
Paulicéia Desvairada, de Mário
de Andrade e Pau Brasil, reunião de poemas
de Oswald de Andrade, presentes na coletânea.
A
euforia do ineditismo da Caixa Modernista fica por conta
do CD Música em Torno do Modernismo. O álbum
contém temas de Lamartine Babo, Camargo Guarnieri, Anacleto
de Medeiros, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos e Darius Milhaud.
A produção é de José Miguel Wisnik e
Cacá Machado. Há composições nunca gravadas,
como “Melodia da Montanha”, de Villa-Lobos, ou gravadas
anteriormente só em 78 rotações, caso de “Escovado”,
do pré-moderno Ernesto Nazareth.
O coquetel de lançamento ocorreu no último dia 22,
na Pinacoteca do Estado. Durante o evento, estava exposto um modelo
da caixa com todas as réplicas disponíveis para o
olhar atento do público. Foi possível também
adquirir a compilação por módicos R$ 120,00
reais (o valor nas lojas deverá ser de R$ 150,00), com direito
a dedicatória do organizador, o professor de literatura de
pós-graduação Jorge Schwartz.
HISTÓRIA REVISITADA
Não é um mero acaso este professor ser o responsável
pela caixa. Schwartz tem uma ligação longa com o Modernismo.
Sua tese de doutorado foi sobre Oswald de Andrade e ele organizou
em 2000, na Espanha, uma grande mostra sobre a produção
cultural brasileira dos anos 20 aos 50, “Da Antropofagia a
Brasília”. A mesma exposição foi reeditada
em 2002, no Museu de Arte Brasileira, na Fundação
Armando Álvares Penteado (FAAP), quando surgiu a idéia
de organizar a Caixa Modernista e tornar disponível
originais de documentos até então desconhecidos do
público.
A possibilidade de reunir tudo no que Scwartz chama de “museu
portátil” nos traz a oportunidade de reviver ou mesmo
conhecer melhor momentos dessa época tão rica e inovadora
de nossa arte, descontado-se o apelo comercial que a caixa apresenta
para os mais puritanos. Para o professor, o trabalho serve “como
uma síntese caleidoscópica de nossas vanguardas históricas”.
Segundo ele, as obras escolhidas servem de representação
da pluralidade envolvida no movimento modernista, revelando seu
caráter influente para a arte brasileira.
A
caixa realiza o resgate histórico de um movimento que buscava
a valorização de uma cultura plenamente tupiniquim,
voltada para seu povo, sua terra e seus costumes, negaceando as
possibilidades européias da década de 20 do século
passado. O aspecto interessante do projeto é trazer às
pessoas toda a história de um pensamento que pretendia revolucionar
as artes e a sociedade brasileira, mas que não foi compreendida
de início e acabou perdendo espaço em seus exageros
e desconexão com o povo, que era o objetivo principal do
idealismo oswaldiano.
A criação dessa caixa é sintomática
para compreender os novos caminhos tomados pela própria arte
nacional no século XXI e sua relação com os
elementos históricos que alimentam a fogueira inspiradora
de muitos artistas. A simplificação das obras em uma
atrativa caixa colorida revela os rumos de nosso relacionamento
com a História. Enfim, os tempos ficaram mais modernos e
inóspitos do que os próprios modernistas vislumbravam
naquela época. 
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