| JURADOS À VENDA
Quatro grandes atores e quatro personagens
sem nenhum escrúpulo incendeiam o suspense O Júri
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

drama de tribunal empresta de seu ambiente a paridade maniqueísta
entre certo e o errado, entre o bom e o mau. Portanto, surpreende
desde o início o suspense O Júri, baseado no
livro Jonh Grisham. Espécie de fordista do gênero literário,
Grisham parece ter atingido alguma maturidade com a obra, que passa
longe das disputas de David e Golias descritas em O Cliente,
A Firma, Tempo de Matar, O Segredo, O Homem
que Fazia Chover e O Dossiê Pelicano, todas adaptadas
para o cinema. Em O Júri, a desproporção
da contenda continua, mas não há heróis –
ao menos à primeira vista.
Como de praxe, com O Júri Grisham traz
à baila algum detalhe obscuro do universo jurídico
que fascina os leigos. No caso, os avaliadores de júri, profissionais
especializados em selecionar, dentre os pré-candidatos a
jurados, aqueles que demonstram psicologicamente tendência
ao veredicto que abona seu cliente. É o papel de Gene Hackman,
contratado por uma poderosa indústria de armas colocada no
banco dos réus por uma mulher que perdeu o marido em um tiroteio.
Imagina-se
que ele vá medir forças com outro nome de peso no
elenco: Dustin Hoffman, intérprete do advogado da viúva.
Por incrível que pareça, é o primeiro encontro
dos dois nos cinemas. No entanto, logo se configura um jogo de forças
tripartite: John Cusack, que parecia ter sido recrutado a contragosto
para participar da banca, logo revela-se um exímio manipulador
de seus colegas jurados. Sem nenhum escrúpulos, com o intermédio
de sua gananciosa namorada (Rachel Weisz), ele garante tanto a Hackman
quanto a Hoffman um veredicto favorável - em troca de uma
módica quantia de alguns milhões, claro.
Ao contrário do que ocorreu em Identidade,
também um suspense com múltiplos talentos, em O
Júri Cusack não apenas herda seu tempo de
cena do personagem principal: ele o merece. O ator completa seu
ciclo e retorna ao mau-caráter que viveu em Os Imorais,
um de seus melhores papéis, há quase quinze anos.
É ele, no geral, quem dá o tom ao filme. A troca de
afetos, segredos e influências que surge em um grupo de pessoas
falíveis diante de uma decisão gigantesca, outrora
explorada no clássico Doze Homens e uma Sentença,
é revisitada, a princípio, sem a moralidade hollywoodiana.
Contudo,
quando a esmola é demais, o santo desconfia. Até seu
desfecho, O Júri passa estilosamente ao largo da discussão
armamentista, mesmo sabendo-se que, no livro, era a indústria
de tabaco que sentava no banco dos réus. O diretor Gary Fleder
foi feliz até mesmo na escalação de Hoffman,
que, sem precisar provar nada a ninguém, não tenta
fazer de seu promotor o mocinho perfeito. Ainda assim, de nada adianta
a Hoffman se seu personagem aprende a lição –
“todo homem que se vende recebe muito mais do que merece”,
diria o Barão de Itararé – mas o roteirista
não. Nos últimos dez minutos, O Júri barganha
porcamente uma ilusória virtude conscientizadora, cedendo
em troca o título de drama de tribunal mais interessante
dos últimos anos. Brian Koppelman não notou que, como
libelo anti-armas, caberia melhor assistir a Tiros
em Columbine. E que, do jeito que estava, ainda que O
Júri não cumprisse sua crítica à
indústria bélica, realizava outras, mais relevantes
e raras, ao sistema judiciário – uma instituição
que não vai além da falibilidade e da ingenuidade
de sua parcela fundamental: o ser humano. 
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