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1 a 14 de dezembro de 2003


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JURADOS À VENDA
Quatro grandes atores e quatro personagens sem nenhum escrúpulo incendeiam o suspense O Júri

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

  drama de tribunal empresta de seu ambiente a paridade maniqueísta entre certo e o errado, entre o bom e o mau. Portanto, surpreende desde o início o suspense O Júri, baseado no livro Jonh Grisham. Espécie de fordista do gênero literário, Grisham parece ter atingido alguma maturidade com a obra, que passa longe das disputas de David e Golias descritas em O Cliente, A Firma, Tempo de Matar, O Segredo, O Homem que Fazia Chover e O Dossiê Pelicano, todas adaptadas para o cinema. Em O Júri, a desproporção da contenda continua, mas não há heróis – ao menos à primeira vista.

Como de praxe, com O Júri Grisham traz à baila algum detalhe obscuro do universo jurídico que fascina os leigos. No caso, os avaliadores de júri, profissionais especializados em selecionar, dentre os pré-candidatos a jurados, aqueles que demonstram psicologicamente tendência ao veredicto que abona seu cliente. É o papel de Gene Hackman, contratado por uma poderosa indústria de armas colocada no banco dos réus por uma mulher que perdeu o marido em um tiroteio.

Imagina-se que ele vá medir forças com outro nome de peso no elenco: Dustin Hoffman, intérprete do advogado da viúva. Por incrível que pareça, é o primeiro encontro dos dois nos cinemas. No entanto, logo se configura um jogo de forças tripartite: John Cusack, que parecia ter sido recrutado a contragosto para participar da banca, logo revela-se um exímio manipulador de seus colegas jurados. Sem nenhum escrúpulos, com o intermédio de sua gananciosa namorada (Rachel Weisz), ele garante tanto a Hackman quanto a Hoffman um veredicto favorável - em troca de uma módica quantia de alguns milhões, claro.

Ao contrário do que ocorreu em Identidade, também um suspense com múltiplos talentos, em O Júri Cusack não apenas herda seu tempo de cena do personagem principal: ele o merece. O ator completa seu ciclo e retorna ao mau-caráter que viveu em Os Imorais, um de seus melhores papéis, há quase quinze anos. É ele, no geral, quem dá o tom ao filme. A troca de afetos, segredos e influências que surge em um grupo de pessoas falíveis diante de uma decisão gigantesca, outrora explorada no clássico Doze Homens e uma Sentença, é revisitada, a princípio, sem a moralidade hollywoodiana.

Contudo, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Até seu desfecho, O Júri passa estilosamente ao largo da discussão armamentista, mesmo sabendo-se que, no livro, era a indústria de tabaco que sentava no banco dos réus. O diretor Gary Fleder foi feliz até mesmo na escalação de Hoffman, que, sem precisar provar nada a ninguém, não tenta fazer de seu promotor o mocinho perfeito. Ainda assim, de nada adianta a Hoffman se seu personagem aprende a lição – “todo homem que se vende recebe muito mais do que merece”, diria o Barão de Itararé – mas o roteirista não. Nos últimos dez minutos, O Júri barganha porcamente uma ilusória virtude conscientizadora, cedendo em troca o título de drama de tribunal mais interessante dos últimos anos. Brian Koppelman não notou que, como libelo anti-armas, caberia melhor assistir a Tiros em Columbine. E que, do jeito que estava, ainda que O Júri não cumprisse sua crítica à indústria bélica, realizava outras, mais relevantes e raras, ao sistema judiciário – uma instituição que não vai além da falibilidade e da ingenuidade de sua parcela fundamental: o ser humano.