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1 a 14 de dezembro de 2003


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O FILÓSOFO IGNORANTE
Ou as reflexões filosóficas de Voltaire sobre a existência do o mal no mundo e a fragilidade humana

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m novembro de 1755, a luxuosa cidade de Lisboa foi destruída por um funesto terremoto, cuja violência impressionou toda a Europa. Sobre o incidente, o poeta alemão Goethe escreveu, em suas memórias: “porventura em algum tempo o demônio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo”. A natureza do evento, que passou em brancas nuvens para a maioria dos mortais, iria influenciar definitivamente o pensamento de uma pessoa: o filósofo François-Marie Arouet, o Voltaire (1694-1778). Ele tomou conhecimento da tragédia dias depois. Na mesma ocasião, ele escreveria “Poema sobre o Desastre de Lisboa”. Num trecho, Voltaire diz: “Um dia tudo estará bem, eis nossa esperança / Tudo está bem hoje, eis nossa ilusão”.

Como incidente geológico, se as causas do terremoto não eram totalmente conhecidas, pelo menos eram suspeitadas. Contudo, para o filósofo francês, não foi nem o mistério, nem a dimensão do sismo que, para ele, tornou o evento singular. Porém, Voltaire transformaria a catástrofe num evento notável ao utilizá-lo como exemplo para criticar o paradigma do “otimismo filosófico” e a doutrina da Providência Divina. A partir da “tradição” vigente, oriunda de Leibniz, a natureza revelaria um sistema onde o acaso é uma determinação que os homens desconhecem, e o mal é um elemento necessário de uma perfeição da qual conhecemos somente parte do todo. Quer dizer, desta doutrina, podemos depreender que todo mal particular concorre para o bem universal. Desta forma, se Deus escolheu este mundo num conjunto para dar a existência, devemos acreditar que este é o “melhor dos mundos”.

O MELHOR DOS MUNDOS

Em seus Ensaios sobre a Teodicéia, Leibniz escreveu: “Pois, assim como um mal menor é uma espécie de bem, do mesmo modo um bem menor é uma espécie de mal, se criar obstáculos a um bem maior; e haveria algo a ser corrigido nas ações de Deus, se houvesse um meio de fazer melhor”. Através do terremoto de Lisboa, essa concepção do “melhor dos mundos” seria rechaçada por Voltaire, que julgava ser corroborado por aqueles que presenciaram o desastre. Se tudo está bem, qual é o significado da tragédia? Se o mundo está em ordem, nada garante que a ordem se faça para o bem-estar do homem. Como no exemplo bíblico de Sodoma e Gomorra, muitos diriam que Deus castigou a cidade, e a desgraça foi o preço pago por sua luxúria. Mas, e quanto aos inocentes? Ou, por outra, por que Lisboa e não Paris ou Londres?

Se Deus não poderia ter feito um mundo diferente, como poderíamos restringir Seu poder, a ponto de afirmar que Ele não poderia ter concebido sua criação de outra maneira? Se é Deus quem está por trás de tudo e Ele é bom e justo, então qual é a finalidade do sofrimento humano? Se o mundo é um vale de lágrimas, então o universo contradiz o otimismo: como compreender um Deus bondoso que permite a existência do mal? Voltaire cita Epicuro em sua exortação a Lisboa ao concluir que ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode e não quer, ou nem quer e nem pode. Mas, se quer e não pode, não é Deus; se pode e não quer, não é bom, o que é contrário a Deus. “Se quer e pode, o que é a única coisa compatível com a divindade, qual é a origem de todos os males?”, pergunta o pensador grego.

Voltaire admitia a idéia de ordem no mundo, mas percebeu que Leibniz não respondia Epicuro. Ele também opunha o princípio da ordem à existência de catástrofes. O filósofo francês sabia que qualquer explicação científica para quaisquer eventos funestos como desordens naturais não deixava de ser apenas uma face do mal e do sofrimento. Segundo Voltaire, o mal era a razão corrompida. A teoria providencialista e a ciência explicam o incidente em Lisboa, mas não o demovem da idéia de que o terremoto é um exemplo da ruptura da razão, um exemplo de como o ser humano é frágil e vive num lugar onde tudo pode acontecer, sem que possamos fazer nada. Desordenado, o mundo mais parece um relógio maluco, que não pode sequer ser compreendido pelo homem.

A ALEGORIA DE CÂNDIDO

Foi a partir desse pensamento que Voltaire concebeu a história de Cândido ou o Otimismo. A alegoria é apenas um pretexto para a sua investigação filosófica. Por trás de eventos e personagens, o filósofo diz que afirmar que Deus tem um plano-mestre para o mundo, além de ser uma idéia absurda, nos faz cair em contradições se analisarmos sobre a questão do mal. Cândido é um jovem criado por Pangloss, seu preceptor, e que lhe oferece uma visão otimista de que todos vivem no melhor dos mundos. Um dia, eles são expulsos do castelo onde viviam, e passam por terríveis atribulações - entre elas, Cândido presencia a destruição de Lisboa. De fracasso em fracasso, o protagonista passa a desacreditar na tese de Pangloss, uma espécie de representação da filosofia de Leibniz.

No final, o jovem conclui que, onde quer que esteja, o mal está por toda a parte. A solução é “cultivar o jardim” e trabalhar a fim de suportar todos os revezes, de forma a tornar a existência um pouco mais suportável. Ceticismo? Não de todo, pelo menos no sentido original. O ceticismo clássico não acreditaria na razão e na ciência. Na verdade, Voltaire inventaria ali o “filósofo ignorante”. Porém, essa ignorância seria o reconhecimento dos limites da razão humana em debater-se sem jamais encontrar uma resposta satisfatória. Ao filosofar sobre o mal em Cândido, por exemplo, ele conclui que “cultivar o jardim e trabalhar” não seria uma forma de resignação, mas o reconhecimento da “ignorância” contra o otimismo e a aceitação de que o mundo não seria tão mau quanto parece.

De acordo com a professora Maria das Graças do Nascimento, em Cândido existem três alternativas para se responder ao problema do mal. A primeira reside no pensamento mágico de Pangloss, onde os males são necessários em favor do bem maior, tese contestada pelo conto. “Se tudo foi feito por Deus tendo em vista um fim, esse fim é, necessariamente o melhor”, diz. A segunda aparece na boca de Martinho, companheiro de Cândido. Para ele, tudo no mundo é regido por dois princípios, o bem e o mal, sendo que o segundo se sobrepõe sempre ao primeiro, ou recalcando qualquer bem incluso no curso dos acontecimentos. A última alternativa, por sua vez, é apresentada por um religioso muçulmano. Cândido e Pangloss perguntam a ele o motivo de existir tanto mal sobre a terra. O homem responde: “por que vocês se preocupam tanto com isso?”.

Cândido (e Voltaire) não aceita o otimismo de Pangloss, rejeita o maquineísmo de Martinho e não aceita de todo o ceticismo do derviche muçulmano. No final das contas,
permanece o impasse, que desnuda todas as teses mas não impõe nada sobre elas, apenas convidando o leitor a cultivar seu jardim. Claro que o filósofo não quer evitar essa questão: ele a sustentou, e sustenta, ao apresentá-la na alegoria. “Portanto, a posição de Voltaire em relação às velhas questões metafísicas de manter-se na recusa de procurar respostas definitivas não se deve apenas à sua aceitação dos limites da razão humana para elucidar essas questões”, avalia Maria da Graça. Para ela, na perspectiva do projeto voltairiano, há coisas que importa saber, e outras que resultam fúteis.

“O que importa saber diz respeito à conduta na vida e à felicidade dos homens”, entende. A professora explica que de nada adianta lamentar a ignorância de sua razão: ela foi dada ao homem para agir. É nesse fator racional agente que reside o pensamento de Voltaire. “A sua reflexão sobre o mal no mundo e a fragilidade humana dá origem a uma ética situada no universo estritamente humano” analisa Maria da Graça. Se não há certeza dos fins e meios do plano-mestre divino, é preciso que os homens trabalhem, com os elementos que a sua razão contingente e humana lhe permite. E se o terremoto lusitano que atemorizou Goethe renovou o misticismo da velha alma gentil portuguesa, encontrou um inimigo desse pensamento mágico no Marquês do Pombal, todo-poderoso secretário de Estado de D. José I.

Anticlerical e “esclarecido” como o enciclopédico Voltaire, Pombal decidiu agir: encontrou recursos suficientes para reconstruir Lisboa com grande empenho, devolvendo o luxo importado aos palácios, imprimindo à capital o estilo arquitetônico que vigora até hoje. Uma singela homenagem à razão demasiadamente humana do filósofo francês.

Para saber mais:
Maria das Graças do Nascimento. Voltaire: A Razão Militante. Moderna, 1993.
Voltaire. Cândido ou O Otimismo. LPM, 1996.