| O FILÓSOFO
IGNORANTE
Ou as reflexões filosóficas
de Voltaire sobre a existência do o mal no mundo e a fragilidade
humana
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

m novembro de 1755, a luxuosa cidade de Lisboa foi destruída
por um funesto terremoto, cuja violência impressionou toda
a Europa. Sobre o incidente, o poeta alemão Goethe escreveu,
em suas memórias: “porventura em algum tempo o demônio
do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e
rapidez, o arrepio do medo”. A natureza do evento, que passou
em brancas nuvens para a maioria dos mortais, iria influenciar definitivamente
o pensamento de uma pessoa: o filósofo François-Marie
Arouet, o Voltaire (1694-1778). Ele tomou conhecimento da tragédia
dias depois. Na mesma ocasião, ele escreveria “Poema
sobre o Desastre de Lisboa”. Num trecho, Voltaire diz: “Um
dia tudo estará bem, eis nossa esperança / Tudo está
bem hoje, eis nossa ilusão”.
Como incidente geológico, se as causas do terremoto não
eram totalmente conhecidas, pelo menos eram suspeitadas. Contudo,
para o filósofo francês, não foi nem o mistério,
nem a dimensão do sismo que, para ele, tornou o evento singular.
Porém, Voltaire transformaria a catástrofe num evento
notável ao utilizá-lo como exemplo para criticar o
paradigma do “otimismo filosófico” e a doutrina
da Providência Divina. A partir da “tradição”
vigente, oriunda de Leibniz, a natureza revelaria um sistema onde
o acaso é uma determinação que os homens desconhecem,
e o mal é um elemento necessário de uma perfeição
da qual conhecemos somente parte do todo. Quer dizer, desta doutrina,
podemos depreender que todo mal particular concorre para o bem universal.
Desta forma, se Deus escolheu este mundo num conjunto para dar a
existência, devemos acreditar que este é o “melhor
dos mundos”.
O MELHOR DOS MUNDOS
Em seus Ensaios sobre a Teodicéia, Leibniz escreveu: “Pois,
assim como um mal menor é uma espécie de bem, do mesmo
modo um bem menor é uma espécie de mal, se criar obstáculos
a um bem maior; e haveria algo a ser corrigido nas ações
de Deus, se houvesse um meio de fazer melhor”. Através
do terremoto de Lisboa, essa concepção do “melhor
dos mundos” seria rechaçada por Voltaire, que julgava
ser corroborado por aqueles que presenciaram o desastre. Se tudo
está bem, qual é o significado da tragédia?
Se o mundo está em ordem, nada garante que a ordem se faça
para o bem-estar do homem. Como no exemplo bíblico de Sodoma
e Gomorra, muitos diriam que Deus castigou a cidade, e a desgraça
foi o preço pago por sua luxúria. Mas, e quanto aos
inocentes? Ou, por outra, por que Lisboa e não Paris ou Londres?
Se Deus não poderia ter feito um mundo diferente, como poderíamos
restringir Seu poder, a ponto de afirmar que Ele não poderia
ter concebido sua criação de outra maneira? Se é
Deus quem está por trás de tudo e Ele é bom
e justo, então qual é a finalidade do sofrimento humano?
Se o mundo é um vale de lágrimas, então o universo
contradiz o otimismo: como compreender um Deus bondoso que permite
a existência do mal? Voltaire cita Epicuro em sua exortação
a Lisboa ao concluir que ou Deus quer impedir o mal e não
pode, ou pode e não quer, ou nem quer e nem pode. Mas, se
quer e não pode, não é Deus; se pode e não
quer, não é bom, o que é contrário a
Deus. “Se quer e pode, o que é a única coisa
compatível com a divindade, qual é a origem de todos
os males?”, pergunta o pensador grego.
Voltaire admitia a idéia de ordem no mundo, mas percebeu
que Leibniz não respondia Epicuro. Ele também opunha
o princípio da ordem à existência de catástrofes.
O filósofo francês sabia que qualquer explicação
científica para quaisquer eventos funestos como desordens
naturais não deixava de ser apenas uma face do mal e do sofrimento.
Segundo Voltaire, o mal era a razão corrompida. A teoria
providencialista e a ciência explicam o incidente em Lisboa,
mas não o demovem da idéia de que o terremoto é
um exemplo da ruptura da razão, um exemplo de como o ser
humano é frágil e vive num lugar onde tudo pode acontecer,
sem que possamos fazer nada. Desordenado, o mundo mais parece um
relógio maluco, que não pode sequer ser compreendido
pelo homem.
A
ALEGORIA DE CÂNDIDO
Foi a partir desse pensamento que Voltaire concebeu a história
de Cândido ou o Otimismo. A alegoria é
apenas um pretexto para a sua investigação filosófica.
Por trás de eventos e personagens, o filósofo diz
que afirmar que Deus tem um plano-mestre para o mundo, além
de ser uma idéia absurda, nos faz cair em contradições
se analisarmos sobre a questão do mal. Cândido é
um jovem criado por Pangloss, seu preceptor, e que lhe oferece uma
visão otimista de que todos vivem no melhor dos mundos. Um
dia, eles são expulsos do castelo onde viviam, e passam por
terríveis atribulações - entre elas, Cândido
presencia a destruição de Lisboa. De fracasso em fracasso,
o protagonista passa a desacreditar na tese de Pangloss, uma espécie
de representação da filosofia de Leibniz.
No final, o jovem conclui que, onde quer que esteja, o mal está
por toda a parte. A solução é “cultivar
o jardim” e trabalhar a fim de suportar todos os revezes,
de forma a tornar a existência um pouco mais suportável.
Ceticismo? Não de todo, pelo menos no sentido original. O
ceticismo clássico não acreditaria na razão
e na ciência. Na verdade, Voltaire inventaria ali o “filósofo
ignorante”. Porém, essa ignorância seria o reconhecimento
dos limites da razão humana em debater-se sem jamais encontrar
uma resposta satisfatória. Ao filosofar sobre o mal em Cândido,
por exemplo, ele conclui que “cultivar o jardim e trabalhar”
não seria uma forma de resignação, mas o reconhecimento
da “ignorância” contra o otimismo e a aceitação
de que o mundo não seria tão mau quanto parece.
De acordo com a professora Maria das Graças do Nascimento,
em Cândido existem três alternativas para se responder
ao problema do mal. A primeira reside no pensamento mágico
de Pangloss, onde os males são necessários em favor
do bem maior, tese contestada pelo conto. “Se tudo foi feito
por Deus tendo em vista um fim, esse fim é, necessariamente
o melhor”, diz. A segunda aparece na boca de Martinho, companheiro
de Cândido. Para ele, tudo no mundo é regido por dois
princípios, o bem e o mal, sendo que o segundo se sobrepõe
sempre ao primeiro, ou recalcando qualquer bem incluso no curso
dos acontecimentos. A última alternativa, por sua vez, é
apresentada por um religioso muçulmano. Cândido e Pangloss
perguntam a ele o motivo de existir tanto mal sobre a terra. O homem
responde: “por que vocês se preocupam tanto com isso?”.
Cândido (e Voltaire) não aceita o otimismo de Pangloss,
rejeita o maquineísmo de Martinho e não aceita de
todo o ceticismo do derviche muçulmano. No final das contas,
permanece o impasse, que desnuda todas as teses mas não impõe
nada sobre elas, apenas convidando o leitor a cultivar seu jardim.
Claro que o filósofo não quer evitar essa questão:
ele a sustentou, e sustenta, ao apresentá-la na alegoria.
“Portanto, a posição de Voltaire em relação
às velhas questões metafísicas de manter-se
na recusa de procurar respostas definitivas não se deve apenas
à sua aceitação dos limites da razão
humana para elucidar essas questões”, avalia Maria
da Graça. Para ela, na perspectiva do projeto voltairiano,
há coisas que importa saber, e outras que resultam fúteis.
“O
que importa saber diz respeito à conduta na vida e à
felicidade dos homens”, entende. A professora explica que
de nada adianta lamentar a ignorância de sua razão:
ela foi dada ao homem para agir. É nesse fator racional agente
que reside o pensamento de Voltaire. “A sua reflexão
sobre o mal no mundo e a fragilidade humana dá origem a uma
ética situada no universo estritamente humano” analisa
Maria da Graça. Se não há certeza dos fins
e meios do plano-mestre divino, é preciso que os homens trabalhem,
com os elementos que a sua razão contingente e humana lhe
permite. E se o terremoto lusitano que atemorizou Goethe renovou
o misticismo da velha alma gentil portuguesa, encontrou um inimigo
desse pensamento mágico no Marquês do Pombal, todo-poderoso
secretário de Estado de D. José I.
Anticlerical e “esclarecido” como o enciclopédico
Voltaire, Pombal decidiu agir: encontrou recursos suficientes para
reconstruir Lisboa com grande empenho, devolvendo o luxo importado
aos palácios, imprimindo à capital o estilo arquitetônico
que vigora até hoje. Uma singela homenagem à razão
demasiadamente humana do filósofo francês.
Para saber mais:
Maria das Graças do Nascimento. Voltaire: A Razão
Militante. Moderna, 1993.
Voltaire. Cândido ou O Otimismo. LPM, 1996. 
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