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22/12/2003 a 10/1/2004


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PRAZER E PENITÊNCIA DO OUTRO LADO DA TELA
Albergue Espanhol e Irreversível representam duas faces opostas do que chamamos sétima arte: o cinema-prazer e o cinema-culpa

por Fernando de Castro Américo (fercastro@netcabo.pt)

lgumas idéias pré-concebidas têm tanta força que parecem não ter início ou fim. Uma delas é a de que aqueles que vêem a vida de uma maneira negativa estão sempre certos. Esta idéia é tão enraizada em nós que, entre o “Governo” e a “Oposição”, somos sempre tentados a acreditar mais na última. As coisas vão mal, está tudo uma droga, esse governo é uma m*, etc. Podemos nem concordar com isto, mas somos levados às vezes até para não deixar a conversa “morrer”: todo mundo sabe que, depois de “o tempo tá (frio, quente, chuvoso, nublado)” a melhor frase para matar o marasmo das viagens de elevador é “esse governo não presta”.

No domínio da arte, esta máxima encontra sua tradução na idéia da superioridade da Tragédia e do Drama (em letras maiúsculas, por favor) em relação à comédia e à farsa (em minúsculas mesmo). Embora, como qualquer ator ou escritor que tenha tentado os quatro géneros pode confirmar, seja mais difícil fazer rir do que chorar. O “pensamento” e a “reflexão” estariam numa posição mais elevada do que o “humor” e a “diversão”, porque, no fundo, todos nós carregamos a culpa da cigarra em relação à formiga. Ou, se quisermos ser mais católicos, sabemos que a estrada para a salvação é estreita, enquanto a da perdição é uma rodovia de quatro pistas sem pedágio.

A conversa chegou às alturas? Vamos jogar a âncora, então. Pensei em tudo isto ao dar uma olhada nas críticas de dois filmes que estrearam no Brasil recentemente (por coincidência, no mesmo dia): Albergue Espanhol e Irreversível. Aos que não gostam de ler resenhas que contam o filme, um aviso: vou falar de vários elementos de ambas as histórias. Não sei se vou estragar o prazer de quem vai vê-los, mas de qualquer maneira, estão avisados: se continuarem além deste parágrafo, estarão “provando do fruto proibido do Conhecimento” (“pôxa, mas este cara está religioso, hoje!”). O mais importante é: quem viu os filmes vai “dialogar” melhor com o que eu tenho a dizer.

Albergue Espanhol é uma comédia ensolarada sobre um estudante francês que vai para Barcelona morar numa república de estudantes, o “albergue” do título. O filme é contado da maneira mais simples, quase como se fosse um “diário de bordo”, a partir do ponto de vista do rapaz, que abandona o seu próprio país para estudar em outro. É um filme que discute o momento em que deixamos de pertencer à nossa família, à nossa “aldeia”, e nos lançamos ao mundo. É cheio de personagens engraçados, um pouco ridículos, um pouco exagerados, sempre contraditórios – exatamente como os tipos que a gente coleciona pela vida. Ah, e tem no elenco Audrey Tatou, mais conhecida como Amélie Poulain, aquela do “destino fabuloso”.

Irreversível é um drama noturno sobre um ato de violência extrema (um estupro mostrado em um só plano, que dura intermináveis nove minutos), a vingança que ele acarreta e o impacto destes acontecimentos na vida de três pessoas comuns. A história é contada de trás para frente, como Amnésia, o que significa que ele mostra antes a vingança e depois o estupro em si. O filme é difícil de assistir, com planos-seqüência longos, câmera frenética e interpretações bastante realistas (o par de protagonistas era, até pouco tempo, casado na vida real). O filme é todo construído sobre a frase “o tempo destrói tudo”. Ah, e tem no elenco a Mónica Belluci, aquela do Matrix Reloaded… não, não é aquela do couro preto, é aquela italiana que teve peito para beijar a porta, quer dizer, o Keanu Reeves.

A maioria das críticas de Albergue ressalta a “leveza” e “inconseqüência” do filme como pontos negativos, enquanto as críticas de Irreversível avisam: o filme é duro de aguentar, mas é um “soco no estômago”, uma obra “corajoso”, que leva à “reflexão”, e por aí vai. O que eu penso? Vão tomar sol, madalenas arrependidas.
Antes de me levarem para a cruz (olha a religião aí de novo…) pensem bem: se tivessem que escolher, qual destes dois filmes vocês gostariam de ver de novo?
Golpe baixo, hein?

Tudo bem, vamos por outro lado: Irreversível é realista, Albergue é uma quase-fantasia cheia de estereótipos sobre as nacionalidades européias. Concordo. Mas por que isto faria daquele melhor que este? Irreversível é tão realista (e óbvio) quanto um episódio de Linha Direta, da Rede Globo, ou quanto uma notícia de jornal. Só que é contado de trás para frente. “O tempo destrói tudo”? Isto eu já sabia. Não precisava ver um rosto ser massacrado ou uma bela mulher sendo currada para descobrir. O filme se apóia nestas duas cenas como um todo; quando assistia, eu pensava: isso deve ser o mais próximo que vou chegar de ver um “snuff-movie”, aqueles em que as pessoas são mortas de verdade. Acho que Irreversível, sob a capa de filme “sério e corajoso”, moralista como ele só, vai ser usado no futuro pelos mesmo malucos que alugam a série Faces da Morte.

Mas não. A crítica sempre gosta de pensar que o feio, o desprezível, é sempre mais verdadeiro. Para mim, as aventuras românticas do Xavier de Albergue são muito mais reais, porque nos são contadas em primeira pessoa, têm a autenticidade das lembranças da juventude, onde tudo é aumentado: as alegrias, as tristezas, o tédio, o abandono, a busca pelo prazer… Quanto aos estereótipos de nacionalidade (o alemão obcecado com a ordem, a inglesa reprimida, o francês sedutor) eles servem apenas como ponto de partida. O próprio filme se encarrega de brincar com estes estereótipos e desconstruí-los, principalmente através do personagem do irmão da inglesa, responsável por uma das cenas mais hilariantes do filme.

Na verdade, entendo que algumas pessoas gostem, ou melhor, defendam Irreversível. É um filme que mostra a “verdade da vida”; é como um remédio amargo que precisa ser tomado para nos curarmos do “cinema-pipoca”. Mas o que me irrita é seu caráter “chapado”, sem volume, sem reflexão, unidimensional, quase um “filme educativo”. Não se trata de “tapar os olhos” ao lado cru da vida, à morte, à maldade, à injustiça; trata-se de não mistificar estes elementos para torná-los ainda mais opressores. Irreversível não nos lembra da nossa mortalidade; faz-nos ter medo de viver. É uma fábula, no sentido “moral da história” que carrega. Poderia ser mostrado em escolas, com advertências: “Estão vendo? Não saiam à noite. Meninas, não usem vestidos tão decotados; Rapazes, não fiquem na farra”.

Algumas pessoas podem achar que estes dois filmes, de tão diferentes, não podem ser comparados; são diametralmente opostos. De certa forma, é verdade. Mas, confrontando-os, procuro salientar justamente esta maneira de vê-los e analisá-los, que faz com que um seja “descartado” como entretenimento leve e o outro “elevado” como reflexão profunda. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Albergue é uma reflexão sobre o crescimento e sobre a identidade cultural, sobre quem somos e sobre o que nos tornamos; é um grito contra o preconceito, a favor da convivência entre opostos, da igualdade apesar das diferenças. Irreversível é um conto moralista milimetricamente pensado para “chocar”, de olho na bilheteria. Afinal, muita gente sai no meio do filme, mas todo mundo já pagou o ingresso...

No fundo, no fundo, esta noção de que “reflexão” rima com “sofrimento” vem da nossa herança cristã. No inconsciente da maioria da crítica, Irreversível é uma daquelas penitências a que temos que nos submeter de vez em quanto para nos “desentoxicar” do prazer do cinema. Mas eu não entro nesta ladainha. Com licença, que eu vou ver Albergue de novo. Do prazer, a gente nunca se cansa.