| UM ERUDITO SEM ERUDIÇÃO
A Milésima Segunda
Noite da Avenida Paulista traz as memórias e o
melhor da produção jornalística de Joel Silveira
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

quê? O amigo leitor nunca ouviu falar no grande Joel
Silveira? Decano da imprensa em nossa língua, certamente
não é muito conhecido do público leitor da
era da internet, que também não é muito afeito
a literatices. Também não se tornou uma unanimidade
mundial, como um Jack London, um Joseph Mitchell ou um Truman Capote,
craques do chamado jornalismo literário em língua
inglesa. Porém não há estudante de comunicação
ou leitor diletante deste gênero que deva passar totalmente
batido pela obra deste sergipano de Lagarto, nascido há 85
anos, que foi um dos patriarcas da grande reportagem no Brasil e
chegou a tentar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Para quem não o conhece mas já ouviu falar no homem
e figura de proa do jornalismo cult, leia o recém-lançado
A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista
(Companhia das Letras, 213 páginas), que integra a coleção
“Jornalismo Literário”, que relança também
A Sangue Frio, do citado Truman Capote. Silveira,
que segundo Igor Fuser, é um dos maiores repórteres
brasileiros, iniciou sua carreira em O Globo
como revisor. Em 1943, como redator do semanário Diretrizes
(de Samuel Wainer), lutou contra a Ditadura Vargas, foi preso seis
vezes e, em cinqüenta anos de jornalismo, escreveu vinte e
quatro livros, dos quais A Milésima Segunda Noite
vem à lume para recolocá-lo novamente nas prateleiras
das livrarias, já que a maior parte de sua obra se encontrava
esgotada.
VÍBORA ENTRE VÍBORAS
O livro serve como uma amostragem do que Joel Silveira produziu,
das sutilezas de seu olho curioso e de sua capacidade de redimensionar
um fato jornalístico com o estro de sua pena. Mesmo negando
que um jornalista deva ter estilo, ele tinha o seu, e era inconfundível
— sutil e ferino como um golpe de florete. Sua aventura começaria
mesmo no tempo de Diretrizes (fundado em 1937)
em 1943, quando Samuel Wainer mandou Joel passar uma semana em São
Paulo. Com a ajuda do pintor Di Cavalcanti, Joel Produziu uma sarcástica
descrição da vida estúpida e vazia dos grã-finos
da época. Resultado: Diretrizes esgotou
duas tiragens. Maior furor causaria uma entrevista com Monteiro
Lobato, inimigo do então ditador Vargas, onde o autor de
Urupês dizia que o governo deveria sair
do povo como a fumaça da fogueira. Outra bomba. Diretrizes
foi empastelada pelo governo e Wainer teve que se exilar na embaixada
do Chile. Joel, por sua vez, voltou para sua cidade natal.
Desempregado, Joel chamou a atenção de ninguém
menos que Assis Chateaubriand. Chatô havia lido a reportagem
sobre os grã-finos (“Os Grã-Finos de São
Paulo”), e pediu que Virgílio de Melo Franco o contratasse
para os Diários Associados, dizendo: “Quero esta víbora
trabalhando para mim”. Naquela época, quando um repórter
brigava com Chateaubriand, ele limpava as suas gavetas e ia procurar
emprego em Diretrizes. Se alguém ganhasse
notoriedade no semanário de Wainer, lá estava sempre
um olheiro dos Associados com uma oferta irrecusável. No
começo, Silveira resistiu, mas acabou cedendo. Além
do mais, Joel havia sido colaborador de O Cruzeiro,
de propriedade dos Diários. Pouco tempo depois,
ele seria mandado para sua prova de fogo em Monte Castelo, na Itália,
junto com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira
(FEB). Lá, ficou nove meses e onze dias. Do front,
voltou com uma história e, de certa forma, com o embrião
da mais antológica das suas reportagens, “A Milésima
Segunda Noite da Avenida Paulista”.
“O
CASAMENTO DO SÉCULO”
Tido como um dos textos jornalísticos mais imitados no Brasil,
esta reportagem foi publicada em 1945 pelo Diário
da Noite, sobre o casamento da filha do conde Francisco
Matarazzo Júnior, considerado o maior magnata de seu tempo.
Sobre o ilustre texto de Joel, Igor Fuser escreveu que, até
hoje, quando algum jornal ou revista opta por uma cobertura ferina
de algum evento mundano, sempre envereda pelo caminho aberto nestas
linhas escritas há mais de meio século. Na verdade,
“A Milésima Segunda Noite...” começou
um pouco antes, quando o conde decidiu adquirir o controle acionário
das Folhas (a da Manhã e
a da Noite, esta precursora da Folha
de São Paulo) para tentar diminuir a influência
dos jornais de Chateaubriand em São Paulo — seu arqui-rival.
Aliás, os dois eram inimigos figadais. Chatô apelidava
Matarazzo de “fidalgo do sebo” (alusão ao fato
de o conde ter começado sua fortuna vendendo banha de porco),
enquanto seu arqui-rival chamava o dono dos Associados de “o
lazarento”.
O conde tentou liquidar com o Diário da Noite
vendendo as Folhas em banca pela metade do preço.
Chateaubriand veio à carga em seus incendiários artigos
de fundo, acusando Matarazzo de “manipulador de dumpings”.
A vingança viria quando o “fidalgo do sebo” ofereceu
de bandeja para Chatô o casamento de sua filha Filomena (chamada
de Filly) com o milionário carioca João Lage. Logo,
a imprensa inteira iria rotular as bodas de Filly como “o
casamento do século”, movimentando o high
life paulistano: vários banquetes seriam oferecidos.
Convidados viriam do exterior, um container seria embarcado especialmente
da Argentina contendo excelentes cortes de carne de veado e javali
para os jantares. Parecia bom demais para ser verdade. O casamento
parecia ter sido feito sob medida para Joel Silveira que, para o
“doutor Assis”, era a víbora de que ele precisava.
Além do mais, Lage serviu a FEB e Silveira o conhecia daqueles
tempos de pracinha. Havia, porém, um problema: a reportagem
sobre os grã-finos de São Paulo havia transformado
a “víbora” em persona non grata
em qualquer palacete paulistano.
Como não iria ganhar convite, precisaria de fontes seguras
que lhe descrevessem as bodas de Filly. Assim, “A Milésima
Segunda Noite...” seria contado de maneira indireta. No dia
seguinte ao fim da chamada “maior festa já realizada
no Brasil”, Joel se entrincheirou atrás de sua Olivetti
na redação dos Associados, a fim de escrever o seu
petardo, baseado no relato de três informantes, encarregados
de não deixar que nenhum detalhe passasse desapercebido,
dentro e fora dos muros do palacete dos Matarazzo.
(...) Nuvem pesada e negra, ameaçando um desastre total,
foi aquela que caiu, dez dias antes das festas, sobre o mundanismo
paulista: em forma de boato terrorista, a nuvem informava que
a senhorita Filly Matarazzo havia sido mordida por um cachorrinho
de raça, e suspeitava-se que o cachorrinho estava doente.
Dizia-se mais: que a noiva fora entregue aos cuidados de todo
um corpo clínico, que lhe vinha ministrando injeções
especiais e exigentes. Em suma: talvez o casamento tivesse de
ser adiado.
Não seria por tão pouco. E aconteceu, com muita pompa
e circunstância:
“A mais bela festa do Brasil”’, ela propriamente
dita, durou precisamente dois dias, três noites e três
madrugadas (...) O palácio resplandecia, mil luzes, mil
reflexos, as fontes luminosas lá fora, o povaréu
anônimo e friorento, se acumulando paciente no sereno. Depois,
as Sílfides. Gentis e airosas, as bailarinas
do Municipal, sob o compasso de uma orquestra de cem figurantes,
amaciaram e encantaram os privilegiados corações
presentes com a música chopiniana.
“GENTE POBRE TAMBÉM NÃO
CASA?”
Mas o elemento burlesco ainda estava por vir. Quando Joel terminava
de bater suas laudas, irrompeu na redação uma certa
santa senhora com um aspecto humilde, chamada Olívia Ramos.
Chocada com a cobertura épica que a imprensa havia dispensado
a um casamento, ela ficou com a pulga atrás de orelha. E
resolveu ir até a redação dos Associados. Esbarrando
em mesas e cadeiras, ela se deparou com Silveira, que estava quase
terminando a sua reportagem, por detrás da sua inexpugnável
Olivetti, e desabafou:
— Leio todo dia essas notícias da filha do seu Chiquinho,
e pensei que vocês poderiam falar do casamento da minha filha.
Gente pobre também não casa? — pensou ela.
Nada podia ser melhor para Chatô e Joel. Às favas
com qualquer critério de edição. O que seria
melhor do que um petardo no “fidalgo do sebo”? Uma operária
da fábrica dos Matarazzo ia se casar com um torneiro-mecânico,
também funcionário do conde. No meio da tarde, uma
equipe de reportagem correu para o local do casamento, numa rua
sem calçamento em São Miguel Paulista, zona leste
de São Paulo, para cobrir as bodas de Nadir Ramos com José
Tedeschi. Depois do casório, começaram as festividades,
que era o que interessava. As bodas da filha de dona Olívia
eram a antítese do casamento de Filly: pão goiabada,
cerveja e guaraná.
Quando voltaram da igreja, ela de azul, ele de marrom, encontraram
o seu pequeno lar enfeitado com algumas flores de papel crepom
e outras naturais. (...) Os móveis eram rústicos,
e ainda não eram pagos. E depois do casamento, no dia seguinte,
Nadir voltou para a sua fábrica e José para a sua
oficina.
Enquanto os fotógrafos registravam a cena, Joel entrevistava
os felizes noivos. A ruidosa reportagem dos Associados seguiu os
pombinhos até a Estação da Luz vazia e acompanhou
a casal num trem de subúrbio que os levou até o centro
da cidade. Eles iriam passar a Lua-de-mel em São Paulo mesmo.
No outro dia, a “mais bela festa do Brasil” aparecia
nas páginas do Diário da Noite
com o mesmo destaque (aliás, sugestão de Chateaubriand)
do desenlace do enlace da filha de dona Olívia, e o detalhe
que fez o conde saltar da cadeira, em seu escritório: Joel
explicou aos leitores que a festa da filha do conde havia sido paga
com o trabalho dos humildes noivos de São Miguel Paulista.
No final da reportagem, após compensar as bodas de Filly
com o famélico e doce casório daqueles românticos
e jovens operários, Joel Silveira concluiu, como sua profissão
de fé:
Era, afinal, uma compensação, um tanto melancólica,
para quem não pode romper a terrível e impraticável
parede que separa o mundo dourado do palácio da avenida
Paulista e o mundo prosaico da rua, o nosso mundo. E de tais compensações
vivem os repórteres otimistas. 
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