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22/12/2003 a 10/1/2004


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UM ERUDITO SEM ERUDIÇÃO
A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista traz as memórias e o melhor da produção jornalística de Joel Silveira

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 quê? O amigo leitor nunca ouviu falar no grande Joel Silveira? Decano da imprensa em nossa língua, certamente não é muito conhecido do público leitor da era da internet, que também não é muito afeito a literatices. Também não se tornou uma unanimidade mundial, como um Jack London, um Joseph Mitchell ou um Truman Capote, craques do chamado jornalismo literário em língua inglesa. Porém não há estudante de comunicação ou leitor diletante deste gênero que deva passar totalmente batido pela obra deste sergipano de Lagarto, nascido há 85 anos, que foi um dos patriarcas da grande reportagem no Brasil e chegou a tentar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Para quem não o conhece mas já ouviu falar no homem e figura de proa do jornalismo cult, leia o recém-lançado A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista (Companhia das Letras, 213 páginas), que integra a coleção “Jornalismo Literário”, que relança também A Sangue Frio, do citado Truman Capote. Silveira, que segundo Igor Fuser, é um dos maiores repórteres brasileiros, iniciou sua carreira em O Globo como revisor. Em 1943, como redator do semanário Diretrizes (de Samuel Wainer), lutou contra a Ditadura Vargas, foi preso seis vezes e, em cinqüenta anos de jornalismo, escreveu vinte e quatro livros, dos quais A Milésima Segunda Noite vem à lume para recolocá-lo novamente nas prateleiras das livrarias, já que a maior parte de sua obra se encontrava esgotada.

VÍBORA ENTRE VÍBORAS

O livro serve como uma amostragem do que Joel Silveira produziu, das sutilezas de seu olho curioso e de sua capacidade de redimensionar um fato jornalístico com o estro de sua pena. Mesmo negando que um jornalista deva ter estilo, ele tinha o seu, e era inconfundível — sutil e ferino como um golpe de florete. Sua aventura começaria mesmo no tempo de Diretrizes (fundado em 1937) em 1943, quando Samuel Wainer mandou Joel passar uma semana em São Paulo. Com a ajuda do pintor Di Cavalcanti, Joel Produziu uma sarcástica descrição da vida estúpida e vazia dos grã-finos da época. Resultado: Diretrizes esgotou duas tiragens. Maior furor causaria uma entrevista com Monteiro Lobato, inimigo do então ditador Vargas, onde o autor de Urupês dizia que o governo deveria sair do povo como a fumaça da fogueira. Outra bomba. Diretrizes foi empastelada pelo governo e Wainer teve que se exilar na embaixada do Chile. Joel, por sua vez, voltou para sua cidade natal.

Desempregado, Joel chamou a atenção de ninguém menos que Assis Chateaubriand. Chatô havia lido a reportagem sobre os grã-finos (“Os Grã-Finos de São Paulo”), e pediu que Virgílio de Melo Franco o contratasse para os Diários Associados, dizendo: “Quero esta víbora trabalhando para mim”. Naquela época, quando um repórter brigava com Chateaubriand, ele limpava as suas gavetas e ia procurar emprego em Diretrizes. Se alguém ganhasse notoriedade no semanário de Wainer, lá estava sempre um olheiro dos Associados com uma oferta irrecusável. No começo, Silveira resistiu, mas acabou cedendo. Além do mais, Joel havia sido colaborador de O Cruzeiro, de propriedade dos Diários. Pouco tempo depois, ele seria mandado para sua prova de fogo em Monte Castelo, na Itália, junto com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Lá, ficou nove meses e onze dias. Do front, voltou com uma história e, de certa forma, com o embrião da mais antológica das suas reportagens, “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”.

“O CASAMENTO DO SÉCULO”

Tido como um dos textos jornalísticos mais imitados no Brasil, esta reportagem foi publicada em 1945 pelo Diário da Noite, sobre o casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Júnior, considerado o maior magnata de seu tempo. Sobre o ilustre texto de Joel, Igor Fuser escreveu que, até hoje, quando algum jornal ou revista opta por uma cobertura ferina de algum evento mundano, sempre envereda pelo caminho aberto nestas linhas escritas há mais de meio século. Na verdade, “A Milésima Segunda Noite...” começou um pouco antes, quando o conde decidiu adquirir o controle acionário das Folhas (a da Manhã e a da Noite, esta precursora da Folha de São Paulo) para tentar diminuir a influência dos jornais de Chateaubriand em São Paulo — seu arqui-rival. Aliás, os dois eram inimigos figadais. Chatô apelidava Matarazzo de “fidalgo do sebo” (alusão ao fato de o conde ter começado sua fortuna vendendo banha de porco), enquanto seu arqui-rival chamava o dono dos Associados de “o lazarento”.

O conde tentou liquidar com o Diário da Noite vendendo as Folhas em banca pela metade do preço. Chateaubriand veio à carga em seus incendiários artigos de fundo, acusando Matarazzo de “manipulador de dumpings”. A vingança viria quando o “fidalgo do sebo” ofereceu de bandeja para Chatô o casamento de sua filha Filomena (chamada de Filly) com o milionário carioca João Lage. Logo, a imprensa inteira iria rotular as bodas de Filly como “o casamento do século”, movimentando o high life paulistano: vários banquetes seriam oferecidos. Convidados viriam do exterior, um container seria embarcado especialmente da Argentina contendo excelentes cortes de carne de veado e javali para os jantares. Parecia bom demais para ser verdade. O casamento parecia ter sido feito sob medida para Joel Silveira que, para o “doutor Assis”, era a víbora de que ele precisava. Além do mais, Lage serviu a FEB e Silveira o conhecia daqueles tempos de pracinha. Havia, porém, um problema: a reportagem sobre os grã-finos de São Paulo havia transformado a “víbora” em persona non grata em qualquer palacete paulistano.

Como não iria ganhar convite, precisaria de fontes seguras que lhe descrevessem as bodas de Filly. Assim, “A Milésima Segunda Noite...” seria contado de maneira indireta. No dia seguinte ao fim da chamada “maior festa já realizada no Brasil”, Joel se entrincheirou atrás de sua Olivetti na redação dos Associados, a fim de escrever o seu petardo, baseado no relato de três informantes, encarregados de não deixar que nenhum detalhe passasse desapercebido, dentro e fora dos muros do palacete dos Matarazzo.

(...) Nuvem pesada e negra, ameaçando um desastre total, foi aquela que caiu, dez dias antes das festas, sobre o mundanismo paulista: em forma de boato terrorista, a nuvem informava que a senhorita Filly Matarazzo havia sido mordida por um cachorrinho de raça, e suspeitava-se que o cachorrinho estava doente. Dizia-se mais: que a noiva fora entregue aos cuidados de todo um corpo clínico, que lhe vinha ministrando injeções especiais e exigentes. Em suma: talvez o casamento tivesse de ser adiado.

Não seria por tão pouco. E aconteceu, com muita pompa e circunstância:

“A mais bela festa do Brasil”’, ela propriamente dita, durou precisamente dois dias, três noites e três madrugadas (...) O palácio resplandecia, mil luzes, mil reflexos, as fontes luminosas lá fora, o povaréu anônimo e friorento, se acumulando paciente no sereno. Depois, as Sílfides. Gentis e airosas, as bailarinas do Municipal, sob o compasso de uma orquestra de cem figurantes, amaciaram e encantaram os privilegiados corações presentes com a música chopiniana.

“GENTE POBRE TAMBÉM NÃO CASA?”

Mas o elemento burlesco ainda estava por vir. Quando Joel terminava de bater suas laudas, irrompeu na redação uma certa santa senhora com um aspecto humilde, chamada Olívia Ramos. Chocada com a cobertura épica que a imprensa havia dispensado a um casamento, ela ficou com a pulga atrás de orelha. E resolveu ir até a redação dos Associados. Esbarrando em mesas e cadeiras, ela se deparou com Silveira, que estava quase terminando a sua reportagem, por detrás da sua inexpugnável Olivetti, e desabafou:

— Leio todo dia essas notícias da filha do seu Chiquinho, e pensei que vocês poderiam falar do casamento da minha filha. Gente pobre também não casa? — pensou ela.

Nada podia ser melhor para Chatô e Joel. Às favas com qualquer critério de edição. O que seria melhor do que um petardo no “fidalgo do sebo”? Uma operária da fábrica dos Matarazzo ia se casar com um torneiro-mecânico, também funcionário do conde. No meio da tarde, uma equipe de reportagem correu para o local do casamento, numa rua sem calçamento em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, para cobrir as bodas de Nadir Ramos com José Tedeschi. Depois do casório, começaram as festividades, que era o que interessava. As bodas da filha de dona Olívia eram a antítese do casamento de Filly: pão goiabada, cerveja e guaraná.

Quando voltaram da igreja, ela de azul, ele de marrom, encontraram o seu pequeno lar enfeitado com algumas flores de papel crepom e outras naturais. (...) Os móveis eram rústicos, e ainda não eram pagos. E depois do casamento, no dia seguinte, Nadir voltou para a sua fábrica e José para a sua oficina.

Enquanto os fotógrafos registravam a cena, Joel entrevistava os felizes noivos. A ruidosa reportagem dos Associados seguiu os pombinhos até a Estação da Luz vazia e acompanhou a casal num trem de subúrbio que os levou até o centro da cidade. Eles iriam passar a Lua-de-mel em São Paulo mesmo.

No outro dia, a “mais bela festa do Brasil” aparecia nas páginas do Diário da Noite com o mesmo destaque (aliás, sugestão de Chateaubriand) do desenlace do enlace da filha de dona Olívia, e o detalhe que fez o conde saltar da cadeira, em seu escritório: Joel explicou aos leitores que a festa da filha do conde havia sido paga com o trabalho dos humildes noivos de São Miguel Paulista. No final da reportagem, após compensar as bodas de Filly com o famélico e doce casório daqueles românticos e jovens operários, Joel Silveira concluiu, como sua profissão de fé:

Era, afinal, uma compensação, um tanto melancólica, para quem não pode romper a terrível e impraticável parede que separa o mundo dourado do palácio da avenida Paulista e o mundo prosaico da rua, o nosso mundo. E de tais compensações vivem os repórteres otimistas.