| BOM LADRÃO
Neil Jordan supreende o espectador
e despista os clichês dos filmes de assalto em Lance de
Sorte
por Marcel
Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ilmes de assaltos sofisticados atendem à mesma demanda imaginária
dos filmes de serial killers. Em tempos de violência gratuita
e inexplicável nas ruas, agrada ao público, inconscientemente,
conhecer assassinos que matam segundo os sete pecados capitais,
e não por meia dúzia de trocados; ou ladrões
cerebrais que se preparam para roubar quadros famosos, e não
o rádio do seu carro. A este segundo grupo pertence a trupe
comandada por Nick Nolte em Lance de Sorte, uma aposta arriscada
do diretor Neil Jordan.
Desde cedo em sua filmografia, interessavam a Jordan dois temas
– os costumes de sua Irlanda natal e a ambiguidade da natureza
humana. A combinação de ambos teve resultados explosivos,
como em Traídos pelo Desejo; quando isolados,
renderam menos, mas o suficiente: Entevista com o Vampiro,
Nó na Garganta, etc. Como Lance
de Sorte se passa em Montecarlo, resta ao filme investir
na dubiedade de seus personagens, e, de cara, Jordan manobra sob
o título original “good thief” (em referência
àquele crucificado à esquerda de Cristo). Na tradução
para o português, fica mais claro: um “ladrão
bom” não necessariamente é um “bom ladrão”.
Não
se trata, tampouco, de um “ladrão bonzão”,
como os galãs Pitt e Clooney de Onze Homens e um Segredo.
O diretor dribla a glamourização e não transforma
seu protagonista em um décimo-segundo membro desgarrado do
filme de Sodebergh. Nick Nolte e seu gatuno aposentado Bob possuem
bastante em comum: caíram em desgraça com maus projetos
e o abuso das drogas, mas ainda mantêm inegável carisma
e, sobretudo, talento. O filme e a trama os dão a chance
de se redimir.
Para alguém acostumado à aspereza da Irlanda, Jordan
sabe representar bem a curvilínea e misteriosa Montecarlo.
Mais do que tudo, há um clima de blefes e fortunas na capital
mundial do jogo. Bob vê o destino e uma ex-prostituta imigrante
ilegal lhe sorrirem. Por ambos, volta à ativa. Mesmo sob
a vigilância de um policial que até já se tornou
seu amigo, o ladrão reúne os velhos comparsas para
extrair as pinturas que adornam um rico cassino. No palacete, porém,
estão réplicas – os originais ficam guardado
em um cofre. Eis o aspecto mais óbvio de sua discussão
do duplo que tanto satisfaz a Jordan. Ela volta mais tarde, com
uma carga superior de significado, quando Bob vende sua “alma”
– um Picasso – para custear o assalto.
Lance
de Sorte, claro, se perde nos meandros técnicos que um
roubo deste porte exige, e até chega a dedicar algum tempo
para apresentar os unidimensionais colegas de Bob: o hacker, o Judas,
o veterano sábio, o transexual. Mas não há
grandes cenas de ação, lutas e perseguições,
como Onze Homens ou seu rebento Uma Saída de Mestre.
Quando se aproxima de seu mais improvável desfecho, Lance
põe as cartas na mesa e revela ao público que
ele não assistiu só a um filme de assalto. O espectador
não vai dormir melhor à noite – ainda há
mais ladrões bons do que bons ladrões por aí
– mas vai ter certeza de que presenciou um genial estudo sobre
as peças que a serelepe dama da sorte nos prega. 
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