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22/12/2003 a 10/1/2004


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BOM LADRÃO
Neil Jordan supreende o espectador e despista os clichês dos filmes de assalto em Lance de Sorte

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

ilmes de assaltos sofisticados atendem à mesma demanda imaginária dos filmes de serial killers. Em tempos de violência gratuita e inexplicável nas ruas, agrada ao público, inconscientemente, conhecer assassinos que matam segundo os sete pecados capitais, e não por meia dúzia de trocados; ou ladrões cerebrais que se preparam para roubar quadros famosos, e não o rádio do seu carro. A este segundo grupo pertence a trupe comandada por Nick Nolte em Lance de Sorte, uma aposta arriscada do diretor Neil Jordan.

Desde cedo em sua filmografia, interessavam a Jordan dois temas – os costumes de sua Irlanda natal e a ambiguidade da natureza humana. A combinação de ambos teve resultados explosivos, como em Traídos pelo Desejo; quando isolados, renderam menos, mas o suficiente: Entevista com o Vampiro, Nó na Garganta, etc. Como Lance de Sorte se passa em Montecarlo, resta ao filme investir na dubiedade de seus personagens, e, de cara, Jordan manobra sob o título original “good thief” (em referência àquele crucificado à esquerda de Cristo). Na tradução para o português, fica mais claro: um “ladrão bom” não necessariamente é um “bom ladrão”.

Não se trata, tampouco, de um “ladrão bonzão”, como os galãs Pitt e Clooney de Onze Homens e um Segredo. O diretor dribla a glamourização e não transforma seu protagonista em um décimo-segundo membro desgarrado do filme de Sodebergh. Nick Nolte e seu gatuno aposentado Bob possuem bastante em comum: caíram em desgraça com maus projetos e o abuso das drogas, mas ainda mantêm inegável carisma e, sobretudo, talento. O filme e a trama os dão a chance de se redimir.

Para alguém acostumado à aspereza da Irlanda, Jordan sabe representar bem a curvilínea e misteriosa Montecarlo. Mais do que tudo, há um clima de blefes e fortunas na capital mundial do jogo. Bob vê o destino e uma ex-prostituta imigrante ilegal lhe sorrirem. Por ambos, volta à ativa. Mesmo sob a vigilância de um policial que até já se tornou seu amigo, o ladrão reúne os velhos comparsas para extrair as pinturas que adornam um rico cassino. No palacete, porém, estão réplicas – os originais ficam guardado em um cofre. Eis o aspecto mais óbvio de sua discussão do duplo que tanto satisfaz a Jordan. Ela volta mais tarde, com uma carga superior de significado, quando Bob vende sua “alma” – um Picasso – para custear o assalto.

Lance de Sorte, claro, se perde nos meandros técnicos que um roubo deste porte exige, e até chega a dedicar algum tempo para apresentar os unidimensionais colegas de Bob: o hacker, o Judas, o veterano sábio, o transexual. Mas não há grandes cenas de ação, lutas e perseguições, como Onze Homens ou seu rebento Uma Saída de Mestre. Quando se aproxima de seu mais improvável desfecho, Lance põe as cartas na mesa e revela ao público que ele não assistiu só a um filme de assalto. O espectador não vai dormir melhor à noite – ainda há mais ladrões bons do que bons ladrões por aí – mas vai ter certeza de que presenciou um genial estudo sobre as peças que a serelepe dama da sorte nos prega.