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22/12/2003 a 10/1/2004


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O HOMEM BRASILEIRO DE PORTINARI
Exposição de Portinari apresenta o “Homem Brasileiro” em duas facetas: a do ìndio nativo do descobrimento e a do mestiço trabalhador rural

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

 

m comemoração aos cem anos do nascimento do pintor José Cândido Portinari (1903-1962), a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta a exposição Portinari: O Homem Brasileiro, onde estão 48 obras de duas coleções díspares do artista natural de Brodósqui, interior do estado paulista.

De uma das coleções, fazem parte dezesseis estudos de cor, realizados entre 1936 e 1944, para os murais dos Ciclos Econômicos, fixados no Ministério da Educação e Saúde do Rio de Janeiro, conhecido hoje como Palácio de Capanema. A outra série é composta por ilustrações destinadas à segunda edição do livro de Hans Staden, Duas Viagens ao Brasil, em que é descrito o país no período pós-descobrimento. Ambas estão expostas ao lado da célebre tela “Mestiço”, feita em 1934 e adquirida naquele mesmo ano pela própria Pinacoteca, que retrata o trabalhador brasileiro e sua forma miscigenada.

OS CICLOS ECONÔMICOS

Em 1935, o ministro Gustavo Capanema abriu concurso para a construção de uma nova sede para o Ministério da Educação e Saúde. O projeto vencedor foi assinado pelos arquitetos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos. Para fazer a decoração do edifício, Capanema convidou Portinari. O pintor acabara de ganhar duas menções honrosas do Carnegie Institute de Pittsburgh, dos EUA, pela tela “Café” e estava em alta no Brasil. Além disso, a abordagem temática deste quadro era parecida com a de “Mestiço” e colocava o povo brasileiro quase como herói, apresentando-o como um ser dignificado pelo trabalho, e este raciocínio era equivalente aos ideais políticos pós-revolução de 1930.

O ministro Capanema encomendou para o salão nobre uma série de afescos que retratassem os ciclos econômicos brasileiros desde seu descobrimento. Seguindo ordem cronológica, foram pintados: a extração de pau brasil, a cultura da cana, criação de gado, garimpo, plantação de fumo, algodão, erva-mate, café, cacau, fundição de ferro, extração de borracha e de cera de carnaúba. No total são 12 afrescos, com 2,80 metros de altura, por 2,5 a 3 metro de largura, cobrindo as paredes do salão. Os painéis dos Ciclos Econômicos registram a fertilidade da terra e a abundância dos recursos naturais do Brasil. Ainda assim, Portinari destaca o trabalhador braçal, com pés e mãos agigantadas, reafirmando sua importância como protagonista no desenvolvimento do país.

 Carnaúba, pintura mural a afresco, 1944, uma das doze pinturas murais dos Ciclos Econômicos.

Para a realização da obra, Portinari fez cerca de 300 estudos para os painéis dos Ciclos Econômicos. Além das pinturas a guache e grafite, a maioria delas possuem uma escala numérica de cores, indicando a distribuição destas na composição, algo como um roteiro para os afrescos. Imagens dos desenhos transpostos para os maiores, assim como fotografias de detalhes, foram coladas no canto inferior direito pelo próprio artista. O mais interessante é que os estudos disponíveis à mostra são finais e não iniciais, representando, portanto, quase que fielmente os painéis originais do salão nobre do Palácio de Capanema.

AS POLÊMICAS ILUSTRAÇÕES DE DUAS VIAGENS AO BRASIL

Em 1941, a pedido de George Macy, do The Limited Edition Club de Nova Iorque, Cândido Portinari fez uma série de 29 desenhos para ilustrar a nova edição do livro Duas Viagens ao Brasil, de Hans Staden, que seria lançada naquele ano. O material sobre a viagem foi escrito por Staden em 1556 e é o primeiro registro em livro do Brasil, descrevendo os habitantes, a beleza do cenário, a terra fértil e a abundância da fauna e da flora. O marujo alemão relatou minuciosamente os hábitos e culturas indígenas, inclusive os rituais antropofágicos, do qual escapou de um por pouco.

Hans Staden esteve no Brasil em duas ocasiões: na primeira, com a tripulação de um navio português; já na segunda, veio em um navio com espanhóis que se dirigiam ao Rio da Prata, mas que naufragou na costa brasileira. Staden sobreviveu e foi acolhido por índios Tupiniquins. Mais tarde, foi capturado por Tupinambás. Em ambas, teve muito contato com a natureza e as peculiaridades do lugar, o que proporcionou a elaboração dos escritos.

Nas ilustrações, Portinari retratou o homem que habitava o país quando da chegada dos colonizadores, mostrando-o em seu cotidiano, através de cenas de caça, pesca e diversas atividade canibais, além de retratar alguns poucos animais. As imagens feitas em nanquim são fortíssimas, principalmente as que indicam práticas antropofágicas, relatando os acontecimentos de forma nua e crua, como no desenho “Índio Roendo Osso” ou “Índio Esquartejando Cadáver”.

 Hans Staden e o Índio, desenho a nanquim bico-de-pena e aguada de nanquim/papel, 1941

Essas ilustrações impressionaram Macy, que surpreendeu-se com a crueza de algumas imagens. Elas não correspondiam aos índios que via representados no ano anterior, na exposição de Portinari no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. No entanto, as ilustrações eram muito fiéis, tanto aos tais objetos da descrição de Staden, quanto às gravuras que seguiam com a primeira edição, inclusive em relação ao canibalismo. Macy tentou convencer o artista a refazer a série, mas este o recusou, provocando a censura definitiva do editor e o cancelamento da publicação.

A VISÃO DE UM ARTISTA

As duas coleções exprimem toda a paixão e singularidade de Portinari em retratar o homem brasileiro com simplicidade e de forma positiva. O artista conseguiu, em obras e momentos distintos de sua carreira, expor sua visão de beleza de um Brasil, e também de um povo sofrido, mas valorizado por sua característica de trabalhador.

Serviço
Portinari: O Homem Brasileiro
Até 04 de Janeiro na Pinacoteca do Estado
Terça a Domingo das 10h00 às 17h30
Endereço: Praça da Luz, 02 – Bairro da Luz – São Paulo – SP
Telefone: 11 229-9844