| O HOMEM BRASILEIRO
DE PORTINARI
Exposição de Portinari
apresenta o “Homem Brasileiro” em duas facetas: a do
ìndio nativo do descobrimento e a do mestiço trabalhador
rural
por Rodrigo
Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

m comemoração aos cem anos do nascimento do pintor
José
Cândido Portinari (1903-1962), a Pinacoteca do Estado
de São Paulo apresenta a exposição Portinari:
O Homem Brasileiro, onde estão 48 obras de duas coleções
díspares do artista natural de Brodósqui, interior
do estado paulista.
De uma das coleções, fazem parte dezesseis estudos
de cor, realizados entre 1936 e 1944, para os murais dos Ciclos
Econômicos, fixados no Ministério da Educação
e Saúde do Rio de Janeiro, conhecido hoje como Palácio
de Capanema. A outra série é composta por ilustrações
destinadas à segunda edição do livro de Hans
Staden, Duas Viagens ao Brasil, em que é
descrito o país no período pós-descobrimento.
Ambas estão expostas ao lado da célebre tela “Mestiço”,
feita em 1934 e adquirida naquele mesmo ano pela própria
Pinacoteca, que retrata o trabalhador brasileiro e sua forma miscigenada.
OS CICLOS ECONÔMICOS
Em 1935, o ministro Gustavo Capanema abriu concurso para a construção
de uma nova sede para o Ministério da Educação
e Saúde. O projeto vencedor foi assinado pelos arquitetos
Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Carlos Leão,
Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos. Para fazer a decoração
do edifício, Capanema convidou Portinari. O pintor acabara
de ganhar duas menções honrosas do Carnegie Institute
de Pittsburgh, dos EUA, pela tela “Café” e estava
em alta no Brasil. Além disso, a abordagem temática
deste quadro era parecida com a de “Mestiço”
e colocava o povo brasileiro quase como herói, apresentando-o
como um ser dignificado pelo trabalho, e este raciocínio
era equivalente aos ideais políticos pós-revolução
de 1930.
O ministro Capanema encomendou para o salão nobre uma série
de afescos que retratassem os ciclos econômicos brasileiros
desde seu descobrimento. Seguindo ordem cronológica, foram
pintados: a extração de pau brasil, a cultura da cana,
criação de gado, garimpo, plantação
de fumo, algodão, erva-mate, café, cacau, fundição
de ferro, extração de borracha e de cera de carnaúba.
No total são 12 afrescos, com 2,80 metros de altura, por
2,5 a 3 metro de largura, cobrindo as paredes do salão. Os
painéis dos Ciclos Econômicos registram
a fertilidade da terra e a abundância dos recursos naturais
do Brasil. Ainda assim, Portinari destaca o trabalhador braçal,
com pés e mãos agigantadas, reafirmando sua importância
como protagonista no desenvolvimento do país.
 |
| Carnaúba, pintura mural
a afresco, 1944, uma das doze pinturas murais dos Ciclos Econômicos.
|
Para a realização da obra, Portinari
fez cerca de 300 estudos para os painéis dos Ciclos Econômicos.
Além das pinturas a guache e grafite, a maioria delas possuem
uma escala numérica de cores, indicando a distribuição
destas na composição, algo como um roteiro para os
afrescos. Imagens dos desenhos transpostos para os maiores, assim
como fotografias de detalhes, foram coladas no canto inferior direito
pelo próprio artista. O mais interessante é que os
estudos disponíveis à mostra são finais e não
iniciais, representando, portanto, quase que fielmente os painéis
originais do salão nobre do Palácio de Capanema.
AS POLÊMICAS ILUSTRAÇÕES
DE DUAS VIAGENS AO BRASIL
Em 1941, a pedido de George Macy, do The Limited Edition Club de
Nova Iorque, Cândido Portinari fez uma série de 29
desenhos para ilustrar a nova edição do livro Duas
Viagens ao Brasil, de Hans Staden, que seria lançada
naquele ano. O material sobre a viagem foi escrito por Staden em
1556 e é o primeiro registro em livro do Brasil, descrevendo
os habitantes, a beleza do cenário, a terra fértil
e a abundância da fauna e da flora. O marujo alemão
relatou minuciosamente os hábitos e culturas indígenas,
inclusive os rituais antropofágicos, do qual escapou de um
por pouco.
Hans Staden esteve no Brasil em duas ocasiões: na primeira,
com a tripulação de um navio português; já
na segunda, veio em um navio com espanhóis que se dirigiam
ao Rio da Prata, mas que naufragou na costa brasileira. Staden sobreviveu
e foi acolhido por índios Tupiniquins. Mais tarde, foi capturado
por Tupinambás. Em ambas, teve muito contato com a natureza
e as peculiaridades do lugar, o que proporcionou a elaboração
dos escritos.
Nas ilustrações, Portinari retratou o homem que habitava
o país quando da chegada dos colonizadores, mostrando-o em
seu cotidiano, através de cenas de caça, pesca e diversas
atividade canibais, além de retratar alguns poucos animais.
As imagens feitas em nanquim são fortíssimas, principalmente
as que indicam práticas antropofágicas, relatando
os acontecimentos de forma nua e crua, como no desenho “Índio
Roendo Osso” ou “Índio Esquartejando Cadáver”.
 |
| Hans Staden e o Índio,
desenho a nanquim bico-de-pena e aguada de nanquim/papel, 1941 |
Essas ilustrações impressionaram Macy,
que surpreendeu-se com a crueza de algumas imagens. Elas não
correspondiam aos índios que via representados no ano anterior,
na exposição de Portinari no Museu de Arte Moderna
de Nova Iorque. No entanto, as ilustrações eram muito
fiéis, tanto aos tais objetos da descrição
de Staden, quanto às gravuras que seguiam com a primeira
edição, inclusive em relação ao canibalismo.
Macy tentou convencer o artista a refazer a série, mas este
o recusou, provocando a censura definitiva do editor e o cancelamento
da publicação.
A VISÃO DE UM ARTISTA
As duas coleções exprimem toda a paixão e
singularidade de Portinari em retratar o homem brasileiro com simplicidade
e de forma positiva. O artista conseguiu, em obras e momentos distintos
de sua carreira, expor sua visão de beleza de um Brasil,
e também de um povo sofrido, mas valorizado por sua característica
de trabalhador.
Serviço
Portinari: O Homem Brasileiro
Até 04 de Janeiro na Pinacoteca do Estado
Terça a Domingo das 10h00 às 17h30
Endereço: Praça da Luz, 02 – Bairro da Luz –
São Paulo – SP
Telefone: 11 229-9844 
|