| PORTINARI: O PINTOR
DO BRASIL
A vida e a obra do menino Candinho,
que saiu das fazendas de café de Brodósqui para conquistar
o mundo com seus retratos sobre o povo brasileiro
por Rodrigo
Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
á cem anos veio ao mundo um dos maiores pintores que o Brasil
já teve e pôde reverenciar. No dia 30 de dezembro de
1903 nasceu Candido Portinari, filho de imigrantes italianos que
haviam se estabelecido no país há pouco tempo, fixando
residência no interior paulista, num vilarejo que mais tarde
iria se transformar em cidade e se chamar Brodósqui.
Esse nome aparentemente esquisito é em homenagem ao engenheiro
polonês Dr. Alexandre Brodowski, inspetor geral da Companhia
Mogiana de Trens, que na época conduzia a construção
de uma linha férrea no interior de São Paulo que cortava
a pequena aldeia. Para valorizar o lugar, foi sugerida a realização
de uma estação de trem, batizada de “Brodowski”.
Em 1913, a cidade ganhou sua emancipação política,
sendo erguida à condição de município
e o nome, após algumas adequações da Língua
Portuguesa, ficou como Brodósqui mesmo.
No início do século passado, Brodósqui, assim
como boa parte do estado de São Paulo, tinha no café
sua força econômica. Sendo assim, enormes fazendas
rodeavam o lugar, acompanhadas de poucas casas brancas e de uma
igreja. Passavam ali vários retirantes vindos do Nordeste,
exaustos e famintos, caminhando há meses em busca de melhores
condições de vida. E foi nesse ambiente de contrastes,
pobreza e injustiça social que “Candinho”, como
era conhecido na infância, recebeu a influência para
as temáticas de suas futuras telas.
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| Portinari com esposa e filho |
Foi na igreja que Portinari mostrou pela primeira
vez sua afinidade com a arte. O vigário local desejava encomendar
uma porteira e o responsável não conseguia entender
como deveria ser feito o serviço. Nisso, o menino Candinho
pegou lápis e papel e desenhou a porteira. Na mesma hora
o vigário, impressionado, pediu-lhe que acompanhasse um frentista
francês que estava a caminho de Brodósqui para ornamentar
a fachada da paróquia. Era o início, mas o garoto
precisaria rumar para o Rio de Janeiro para aprender as técnicas
da pintura.
ADEUS BRODÓSQUI...
Com a ajuda de amigos da família, Portinari, aos 15 anos,
partiu para a capital carioca na busca de concretizar o sonho de
ser artista. Para poder sustentar-se, trabalhava de dia entregando
marmitas para uma pensão e a noite pulava de galho em galho
atrás de um lugar para dormir. O jovem pintor não
foi aceito pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), pois havia
estudado apenas até a 3º série. Após esta
frustração, resolveu matricular-se no Liceu de Artes
e Ofícios, ingressando na ENBA somente no ano posterior.
Ao entrar na Escola, Portinari participou de sua primeira exposição,
em 1921, no Salão Nacional de Belas Artes. Três anos
mais tarde ele decidiu disputar o concurso do Salão, pois
o primeiro prêmio para o vencedor era uma bolsa-viagem para
a Europa. Foram expostos quatro retratos, mais “Baile na Roça”,
primeiro quadro mostrando sua gente de Brodósqui. Não
foi o bastante para o adolescente ganhar o concurso. Portinari só
iria lograr êxito em 1928, quando cedeu aos padrões
tradicionais da academia e pintou o retrato do poeta Olegário
Mariano.
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| Mestiço, pintura a óleo/tela,
1934 |
Após realizar sua primeira exposição
individual, no Palace Hotel do Rio de Janeiro, o pintor viajou para
a Europa, usufruindo de sua bolsa. Passeou pela Inglaterra, Itália
e Espanha, fixando residência na capital francesa. E foi na
cidade-luz que ele conheceu e casou-se com Maria Martinelli, uma
jovem uruguaia de 19 anos que permaneceu ao lado do artista até
o fim de seus dias.
Na Europa, Portinari pouco pintou. Preferiu observar e absorver
todas as formas de arte que pôde apreciar dos artistas europeus,
ao que ficou bestificado com a beleza das telas e começou
a notar sua vocação na pintura: retratar o Brasil.
Depois do retorno do exterior, em 1931, Portinari passou a valorizar
mais as cores e idéias, transformando a estética de
sua obra realizada até aquele momento. Com a viagem ele pôde
ver melhor a sua terra e sua gente, criando o desejo de pintá-las.
RECONHECIMENTO & REVERÊNCIAS
Portinari resolveu ampliar seu trabalho, utilizando também
os afrescos para expressar seus pensamentos. Em 1934 foi concebido
“Mestiço”, e no ano seguinte o Brasil participou
pela primeira vez da Exposição Internacional de Arte
Moderna do Instituto Carnegie, em Nova York. O artista de Brodósqui
enviou algumas obras, entre elas a tela “Café”,
pintada em óleo, que recebeu a segunda menção
honrosa do Instituto, além dos elogios da crítica
norte-americana.
Com o reconhecimento internacional, Candido Portinari começou
a ser requisitado e reverenciado também no Brasil. Exemplo
disso foi o convite de Celso Kelly para regente da cadeira de pintura
do recém-inaugurado Instituto das Artes. O ministro Gustavo
Capanema chamou o artista para realizar uma série de murais
no novo edifício do Ministério da Educação
e Saúde do Rio de Janeiro, concluído naquela época.
Foram concebidos os Ciclos Econômicos,
uma série de doze afrescos, contando a história da
evolução das culturas de exportação
que o Brasil teve desde seu descobrimento. Começou a ser
notada a partir daí a influência dos muralistas mexicanos
em Portinari, tanto no suporte quanto na temática social,
em voga em toda a América da década de 30.
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| Morro, pintura a óleo/tela,
1933 |
Seu único filho, João Candido Portinari,
nasceu no ano de 1939. Em meio à alegria de uma nova vida,
Portinari Pai expõs três telas no Pavilhão Brasil
da Feira Mundial, em Nova York. Alfred Barr, diretor geral do Museu
de Arte Moderna encantou-se com o quadro “Morro” e o
comprou, incluindo-o nas esposição fixa do MoMA. O
sucesso foi tanto que o museu convidou o pintor brasileiro a realizar
uma exposição individual. Pouco depois o artista foi
solicitado a fazer murais na Biblioteca do Congresso de Washington,
com temas relacionados à história da América.
Mas foi em Nova York que Portinari se deparou com “Guernica”,
do pintor espanhol Pablo Picasso, quadro que influenciou decisivamente
suas obras futuras.
No início dos anos 40, Geroge Macy convidou Portinari a
desenhar as ilustrações da segunda edição
do livro Duas Viagens ao Brasil, no qual Hans
Staden relata suas duas estadas no país, logo após
o descobrimento. Contudo, divergências entre Macy e o pintor
quanto a crueza dos índios retratados fez com que a publicação
fosse cancelada. Em 1944, Portinari iniciou o mural para a igreja
da Pampulha e um ano depois concluiu os murais do palácio
de Capanema. O “Monstro do Trabalho”, como ele gostava
de ser chamado, não parava.
No mesmo período o artista se filiou ao Partido Comunista
Brasileiro (PCB), afim de realizar melhorias ao povo dolorido que
ele tanto captou em suas telas. Portinari concorreu a deputado federal
e anos mais tarde a senador, sem conseguir eleger-se em nenhum dos
dois cargos. Apesar das derrotas, o partido cresceu e colocou outros
nomes como Jorge Amado de deputado e Luiz Carlos Prestes de senador,
transformando-se na “ameaça comunista” aos interesses
das elites burguesas dominantes. O PCB foi colocado na clandestinidade
e o cerco contra os comunistas apertou ainda mais, provocando o
exílio voluntário do artista no Uruguai, onde realizaria
uma exposição.
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| Criança Morta, Série
Retirantes, painel a óleo/tela, 1944 |
Ainda assim, mantendo o pensamento de expressar as
dificuldades sofridas pelo povo, Portinari fez a série “Retirantes”,
expondo os alijados de qualquer direito, os excluídos, restando-lhes
apenas a morte como consolo. É o que mostra a obra “Criança
Morta”, de forte repercussão na época.
UMA DOENÇA PÁRA O “MONSTRO”
Em 51, Portinari voltou ao Brasil, após anistia concedida
aos cidadãos presos ou perseguidos por “delito de opinião”.
Mas a polêmica quanto a sua posição ideológica
ainda causaria transtornos – apesar de seu distanciamento
na política. No ano seguinte o governo brasileiro ofereceu
dois painéis a serem instalados na organização
das Nações Unidas (ONU), nos EUA. Portinari também
foi convidado para executar estas obras e concebeu os painéis
“Guerra” e “Paz”. Os trabalhos levaram quatro
anos para serem terminados, pois, durante a realização,
o pintor sofreu uma hemorragia e adoeceu gravemente. A causa diagnosticada
foi aterradora: envenenamento pelo chumbo contido nas tintas.
Mesmo com esta triste notícia, Portinari encerrou as obras.
No entanto, surgiu outro problema: a burocracia. Levou um ano até
que as discussões entre diplomatas norte-americanos (que
não queriam a obra de um comunista) e diplomatas brasileiros
terminasse na liberação do material a ser exposto
na ONU.
Impedido de pintar por causa da doença, Portinari
dedicou seu tempo a ilustrações e o faz para diversas
obras, como A Selva, de Ferreira de Castro. Acompanhou
também várias exposições de seus trabalhos
pelo mundo, viajando inclusive para a Itália e Israel. Este
último país influenciou muito sua maneira de pintar,
modificando-a novamente nos últimos dias de vida.
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| Retirantes, Pintura a óleo/tela,
1945 |
Aos poucos, Portinari retomou a pintura, mesmo a
contragosto dos médicos. Participou de sua última
exposição individual em vida, no Rio de Janeiro, em
julho de 1961, e no mesmo ano fez um retrato de sua neta Denise.
No início do ano seguinte, a prefeitura de Milão,
na Itália, chamou o pintor de Brodósqui para uma exposição
com 200 telas. Ao trabalhar em demasia com as tintas para este evento,
um novo envenenamento lhe acometeu, matando-o na manhã de
6 de fevereiro de 1962. Candido Portinari deu a vida aquilo que
mais lhe era caro: a pintura. Ou, como melhor dissera Carlos Drummond
de Andrade, o que Portinari criou é sua vida maior e sem
fim: a verdadeira. 
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