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22/12/2003 a 10/1/2004


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AQUI NESSE MUNDINHO FECHADO
Resfest aporta no Brasil com o melhor do design feito para a tela da TV, do computador e do cinema

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

 Made in Japan, do Pato Fu, selecionado para a Resfest

ão Paulo abrigou de 1º a 7 de dezembro o Resfest, festival que reúne exibições de vídeos gravados em sua maioria no formato digital, palestras sobre as mais diversas vertentes dentro do design e performances de alguns dos nomes que movimentam a cena musical eletrônica. A produtora Lobo, os Estúdios Mega e a Bizarre Records se mobilizaram para trazer o evento pela primeira vez a uma cidade do hemisfério sul. O festival também conta com edições nos Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul.

O skate recebeu uma atenção toda especial. O pouco polêmico Turco Louco, que é entusiasta do esporte, político e sócio da marca Cavalera, e Gyrão, diretor da Tribo, maior revista de skate nacional (com tiragem de 40 mil exemplares por edição), dividiram a mediação de uma palestra sobre a estética do skate, que é importante para a publicidade, fundamental para a moda.

A troca de experiência, depois das lições aprendidas com os altos e baixos desse ramo, tomaram conta da discussão. O temor é tanto que a indústria do skate já parece estar preparada para perder a estabilidade conquistada nos dias de hoje. Seja com uma crise financeira por aqui, com a mídia resolvendo de uma hora pra outra que quatro rodinhas e um pedaço de madeira já eram, ou com os relatos que chegam da América: por lá, alguns dizem, o skate não é mais cool.

Helen Stickler, diretora do documentário Stoked - The Rise and Fall of Gator, que estreou no país dentro do Resfest, entende como ninguém dessas aflições. O longa que ela dirigiu conta a história de Mark Gator, ou Mark Rogowski, astro do skate nos anos 80, que mal chegou na vida adulta e teve sua imagem usada à exaustão para dar início à indústria de vestimentas inspiradas no carrinho. Gator cometeu assassinato no começo dos anos 90, cumpre pena até hoje, e ajudou a empurrar pro fundo do poço a credibilidade do skate entre as autoridades americanas da época.

A estética do design brasileiro também foi assunto para palestra. Alguns membros da mesa defenderam a abolição do uso de elementos nacionais atrelados aos trabalhos por aqui produzidos. A intenção é dar uma cara mais globalizada ao nosso design, conseqüentemente padronizada, mas ainda assim livre do bonequinho do cangaceiro em 3D, da Carmem Miranda cheia de bananas na cabeça e do Pão de Açúcar, ícones que acabam sendo usados por imposição de ramos mais poderosos do mercado, o turismo um deles.

Os espectadores foram radicalmente contra a idéia, alguns dos palestrantes também aderiram ao sentimento nacionalista, afinal, há muito mais do que dançarinas com frutas na cabeça dentro da vasta diversidade cultural do Brasil, e estes elementos também podem ser aproveitados. O senso comum de que o que acaba influenciando mesmo um artista é a sua bagagem pessoal contribuiu para que a palestra se encerrasse de maneira saudável, sem que a estética do design brasileiro tivesse que ser incluída junto à política e à religião naquele seleto grupo de assuntos que não se discutem.

 Cena de "Weapon of Choice", de Spike Jonze Rarities

Responsável por êxitos cinematográficos como Quero Ser John Malkovich e Adaptação, além de exímio diretor de videoclipes, Spike Jonze marcou presença com algumas de suas raridades sendo exibidas no Resfest. Uma delas, o muito engraçado Torrance Rises, mostra toda a preparação do grupo de dança da pequena cidade californiana de Torrance para a performance da música “Praise You”, do Fatboy Slim, ao vivo no palco do Metropolitan Opera House em Nova York durante a entrega dos prêmios da MTV americana em 99. Os presentes nas exibições de Spike Jonze Rarities também puderam conferir o videoclipe de “Stand By Me”, dos ingleses do Oasis, que acabou nunca existindo. Tratam-se de depoimentos espontâneos recolhidos de transeuntes, que dizem a primeira coisa que lhes vem na cabeça ao ouvir a música. Jonze partiria dessas idéias para dirigir o vídeo. É preciso dizer que os Gallagher não gostaram nada nada do conceito?

Quem também aproveitou o Resfest para estrear em solo brasileiro foi Interstella 5555, o longa de animação produzido pela gigante japonesa Toei Animation em parceria com o Daft Punk. O filme dá continuidade à história contada com os primeiros clipes do último álbum lançado pelo duo esquisito de DJs, Discovery, e parte das outras músicas, utilizadas como trilha sonora, para dar um final à saga da banda intergaláctica seqüestrada em “One More Time”, primeira parte da história. Os integrantes do grupo acabam indo parar na Terra e tem que lutar para voltar ao seu planeta natal. O final destoa um pouco da temática da animação japonesa e é no mínimo surpreendente. Os episódios inéditos incluídos na saga, que não tinham sido mostrados anteriormente, revelam uma maior preocupação técnica. Os fiéis seguidores dos animes, com seus olhos puxados ou não, deixaram de comparecer em peso às sessões de Interstella, que contou com divulgação nos meios especializados.

 Cena da abertura do programa Piores do Mundo, da MTV

A MTV brazuca mereceu destaque. A Retrospectiva MTV mostrou comerciais da emissora e aberturas feitas desde o começo da década de 90 até os que estão no ar recentemente. Jimmy Leroy, diretor do famoso departamento de promos do canal, também teve direito de palestrar. Ele explicou o conceito de distorção de idéias utilizado pelo pessoal que comanda, o twist, e apontou uma mudança para o humor na temática de música e atitude utilizada pela MTV Brasil.

As sessões mais concorridas do festival foram sem dúvida as de Michel Gondry Rarities. O diretor francês está por trás de campanhas publicitárias da Nike, Levi's, Polaroid e Smirnoff, e sim, inventou o efeito Matrix (o bullet time), ainda que rústico. Mas foi com os videoclipes que Gondry conseguiu influenciar toda uma geração. São dele pérolas como “Star Guitar” e “Let Forever Be” dos Chemical Brothers, “Around The World” do Daft Punk e “Everlong” do Foo Fighters. Ainda dirigiu “Fell In Love With A Girl”, “Dead Leaves And The Dirty Ground” e “The Hardest Button To Button”, todos da dupla White Stripes, o último estreando no Brasil. Dono de uma técnica apurada e repetitiva, Michel consegue descrever com sensatez a incompreensão de um sonho nas peças que dirige. Um louco genial.