| AQUI NESSE MUNDINHO
FECHADO
Resfest aporta no Brasil com o melhor
do design feito para a tela da TV, do computador e do cinema
por Julio
Ibelli (jcim13@ig.com.br)
 |
| Made in Japan, do Pato Fu,
selecionado para a Resfest |
ão Paulo abrigou de 1º a 7 de dezembro o Resfest,
festival que reúne exibições de vídeos
gravados em sua maioria no formato digital, palestras sobre as mais
diversas vertentes dentro do design e performances de alguns dos
nomes que movimentam a cena musical eletrônica. A produtora
Lobo, os Estúdios Mega e a Bizarre Records se mobilizaram
para trazer o evento pela primeira vez a uma cidade do hemisfério
sul. O festival também conta com edições nos
Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul.
O skate recebeu uma atenção toda especial. O pouco
polêmico Turco Louco, que é entusiasta do esporte,
político e sócio da marca Cavalera, e Gyrão,
diretor da Tribo, maior revista de skate nacional (com tiragem de
40 mil exemplares por edição), dividiram a mediação
de uma palestra sobre a estética do skate, que é importante
para a publicidade, fundamental para a moda.
A troca de experiência, depois das lições aprendidas
com os altos e baixos desse ramo, tomaram conta da discussão.
O temor é tanto que a indústria do skate já
parece estar preparada para perder a estabilidade conquistada nos
dias de hoje. Seja com uma crise financeira por aqui, com a mídia
resolvendo de uma hora pra outra que quatro rodinhas e um pedaço
de madeira já eram, ou com os relatos que chegam da América:
por lá, alguns dizem, o skate não é mais cool.
Helen Stickler, diretora do documentário Stoked
- The Rise and Fall of Gator, que estreou no país
dentro do Resfest, entende como ninguém dessas aflições.
O longa que ela dirigiu conta a história de Mark Gator, ou
Mark Rogowski, astro do skate nos anos 80, que mal chegou na vida
adulta e teve sua imagem usada à exaustão para dar
início à indústria de vestimentas inspiradas
no carrinho. Gator cometeu assassinato no começo dos anos
90, cumpre pena até hoje, e ajudou a empurrar pro fundo do
poço a credibilidade do skate entre as autoridades americanas
da época.
A estética do design brasileiro também foi assunto
para palestra. Alguns membros da mesa defenderam a abolição
do uso de elementos nacionais atrelados aos trabalhos por aqui produzidos.
A intenção é dar uma cara mais globalizada
ao nosso design, conseqüentemente padronizada, mas ainda assim
livre do bonequinho do cangaceiro em 3D, da Carmem Miranda cheia
de bananas na cabeça e do Pão de Açúcar,
ícones que acabam sendo usados por imposição
de ramos mais poderosos do mercado, o turismo um deles.
Os espectadores foram radicalmente contra a idéia, alguns
dos palestrantes também aderiram ao sentimento nacionalista,
afinal, há muito mais do que dançarinas com frutas
na cabeça dentro da vasta diversidade cultural do Brasil,
e estes elementos também podem ser aproveitados. O senso
comum de que o que acaba influenciando mesmo um artista é
a sua bagagem pessoal contribuiu para que a palestra se encerrasse
de maneira saudável, sem que a estética do design
brasileiro tivesse que ser incluída junto à política
e à religião naquele seleto grupo de assuntos que
não se discutem.
 |
| Cena de "Weapon of Choice", de Spike Jonze
Rarities |
Responsável por êxitos cinematográficos
como Quero Ser John Malkovich e Adaptação,
além de exímio diretor de videoclipes, Spike Jonze
marcou presença com algumas de suas raridades sendo exibidas
no Resfest. Uma delas, o muito engraçado Torrance Rises,
mostra toda a preparação do grupo de dança
da pequena cidade californiana de Torrance para a performance da
música “Praise You”, do Fatboy Slim, ao vivo
no palco do Metropolitan Opera House em Nova York durante a entrega
dos prêmios da MTV americana em 99. Os presentes nas exibições
de Spike Jonze Rarities também puderam conferir o
videoclipe de “Stand By Me”, dos ingleses do Oasis,
que acabou nunca existindo. Tratam-se de depoimentos espontâneos
recolhidos de transeuntes, que dizem a primeira coisa que lhes vem
na cabeça ao ouvir a música. Jonze partiria dessas
idéias para dirigir o vídeo. É preciso dizer
que os Gallagher não gostaram nada nada do conceito?
Quem também aproveitou o Resfest para estrear em solo brasileiro
foi Interstella 5555, o longa de animação
produzido pela gigante japonesa Toei Animation em parceria com o
Daft Punk. O filme dá continuidade à história
contada com os primeiros clipes do último álbum lançado
pelo duo esquisito de DJs, Discovery, e parte
das outras músicas, utilizadas como trilha sonora, para dar
um final à saga da banda intergaláctica seqüestrada
em “One More Time”, primeira parte da história.
Os integrantes do grupo acabam indo parar na Terra e tem que lutar
para voltar ao seu planeta natal. O final destoa um pouco da temática
da animação japonesa e é no mínimo surpreendente.
Os episódios inéditos incluídos na saga, que
não tinham sido mostrados anteriormente, revelam uma maior
preocupação técnica. Os fiéis seguidores
dos animes, com seus olhos puxados ou não, deixaram de comparecer
em peso às sessões de Interstella,
que contou com divulgação nos meios especializados.
 |
| Cena da abertura do programa Piores do Mundo,
da MTV |
A MTV brazuca mereceu destaque. A Retrospectiva
MTV mostrou comerciais da emissora e aberturas feitas desde
o começo da década de 90 até os que estão
no ar recentemente. Jimmy Leroy, diretor do famoso departamento
de promos do canal, também teve direito de palestrar. Ele
explicou o conceito de distorção de idéias
utilizado pelo pessoal que comanda, o twist, e apontou uma
mudança para o humor na temática de música
e atitude utilizada pela MTV Brasil.
As sessões mais concorridas do festival foram sem dúvida
as de Michel Gondry Rarities. O diretor francês
está por trás de campanhas publicitárias da
Nike, Levi's, Polaroid e Smirnoff, e sim, inventou o efeito Matrix
(o bullet time), ainda que rústico. Mas
foi com os videoclipes que Gondry conseguiu influenciar toda uma
geração. São dele pérolas como “Star
Guitar” e “Let Forever Be” dos Chemical Brothers,
“Around The World” do Daft Punk e “Everlong”
do Foo Fighters. Ainda dirigiu “Fell In Love With A Girl”,
“Dead Leaves And The Dirty Ground” e “The Hardest
Button To Button”, todos da dupla White Stripes, o último
estreando no Brasil. Dono de uma técnica apurada e repetitiva,
Michel consegue descrever com sensatez a incompreensão de
um sonho nas peças que dirige. Um louco genial. 
|