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22/12/2003 a 10/1/2004


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PIROTECNIA SONORA
The Strokes provam em Room On Fire que segundo disco se faz inevitavelmente com qualidade

por Cell Blanc (cellblanc@yahoo.com.br)

m 2001, a banda “salvação do rock” composta por cinco jovens de Nova York causou furor na mídia internacional com o rock agressivo e despojado presente em seu primeiro CD. As 11 faixas de Is This It exibiam solos surpreendentes e rápidos em músicas dinâmicas e uma maturidade rara em trabalhos de estréia. Os vocais agudos de Julian Casablancas entravam em perfeita sintonia com as guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr, que se revezavam soberbamente; o potente baixo de Nikolai Fraiture – sim, este instrumento ainda aparece em algumas bandas de rock – mantinha o ritmo veloz das canções juntamente com a bateria hipnótica do semibrasileiro Fabrizio Moretti.

Tudo isto na época dos ataques ao WTC, na cidade dos garotos. Na versão norte-americana de Is This It, a música “New York City Cops” foi substituída por “When It Started”, já que aquela poderia não ser bem-vinda no momento: “New York City Cops, they ain´t too smart / They act like romans, but they dress like turks” (“Policiais de Nova York, eles não são muito espertos / Agem como romanos, mas se vestem como turcos”). A canção havia sido feita antes dos ataques – portanto não tentem estabelecer relações – e apareceu tempos depois no single da música “Hard To Explain” e nas versões dos demais países, inclusive no Brasil, com uma capa diferente. A incrível “Last Nite” abria caminho para as demais músicas do CD.

Dois anos e uma guerra depois, os Strokes reaparecem com o segundo trabalho, Room On Fire. A crítica especializada – ou não, como a da revista Veja – orgulha-se de repetir idéias pré-fabricadas como “é igual ao primeiro” ou “a maldição do segundo disco continua”; a revista semanal ateve-se a tecer comentários inapropriados sobre o estilo e o modo de se vestir da banda, e não fez uma reflexão sobre o material que aterissava nas lojas naquele momento. De uma publicação para outra, a diferença é notável: a também semanal Época fez seu registro comparando os dois discos e relatando as intersecções entre as músicas.

No novo CD – que também conta com 11 músicas – a banda manteve a forte pegada inicial e as sacadas rítmicas, e fez ainda mais. Em “What Ever Happened?”, primeira faixa, Julian grita “I wanna be forgotten, and I don´t wanna be reminded” (“Eu quero ser esquecido, e não quero ser lembrado”). Difícil. Os Strokes usam e abusam da mistura de estilos ao rock, como na balada soul “Under Control” e nos reggaes – não remeta ao estilo jamaicano de fazer reggae – “Automatic Stop” e “Between Love and Hate”. A new wave e primeiro single “12:51”, cujo videoclipe é inspirado no filme Tron, é executada soberbamente, e cada instrumento toca em um sentido diferente, que se completam com genialidade. A profusão de guitarras toma conta da rápida “Reptilia”, que dispara “I said please don´t slow me down if I´m going too fast” (Eu disse por favor não me faça ir devagar se eu estiver indo rápido demais).

E assim, com músicas certeiras e rápidas – Is This It e Room On Fire não chegam a 40 minutos cada – os Strokes fazem um som de qualidade atrelado à habilidade de seus integrantes em desenvolver diferentes camadas que, quando unidas, fazem uma explosão. Eles vêm ao Brasil em 2004, e sua pegada deu origem a um movimento de grupos que os copiam, mas os Strokes não pertence a nenhum “movimento”. Se os monocromáticos White Stripes conseguem ser repetitivos e desesperados nos berros de velha de Jack White e na bateria orangotanga de Meg, os Strokes são flexíveis e surpreendentes a partir de Julian Casablancas, que, junto com seus companheiros, forma a banda mais pé-no-chão, conhecedora de suas capacidades e corajosa do rock atual.