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12 a 25 de janeiro de 2004


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O BONDE DOS MANOS DE LONDRES
Britânicos do Audio Bullys flertam com a música negra americana no eletrônico Ego War

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

ense na maior revelação da música eletrônica inglesa misturada com guitarras transgênicas (essas modificadas pelo computador) e outros enxertos sonoros desde o Prodigy, só que desta vez bem mais “clean”. Acrescente à receita uma enxurrada de breakbeats de botar no chinelo o mais conceituado sound-system brasileiro e uma postura gangsta que faz 50 Cent parecer com a voz mais fina, batendo papo com sotaque britânico em um pub londrino. Daí então você tem o duo Audio Bullys.

Simon Franks e Tom Dinsdale, os dois com menos de 25 anos, fazem música juntos desde 2002. Simon é responsável pelos vocais do Audio Bullys. Tom rege toda a mistureba sonora da dupla e com 17 anos já discotecava em clubs. A vivência sonora dos dois é mais influenciada mesmo pela vida na periferia. Tudo bem que se trata da periferia de Londres, bem diferente da realidade suburbana brasileira, mas mesmo assim os Bullys (algo como “briguentos” em inglês) transitam com destreza em meio à temas tabu, como tráfico de drogas e todos os outros que constituem o cotidiano das regiões limítrofes das cidades.

Ego War, disco de estréia do duo, foi lançado pela Virgin/EMI no verão do ano passado para o hemisfério norte. Acabou vindo parar no Brasil no final de 2003, em uma estratégia da gravadora de vender, por preços bem pouco abaixo da média, CDs de artistas não tão novos e aclamados pela crítica. Apesar de não ter nada de rave big boutique pra tocar em praia, com a batida repetitiva de praxe, Ego War tem passagens ideais para ser a trilha sonora de um momento mais íntimo, se você tiver se dado bem em uma dessas festas e não estiver voltando pra casa sozinho.

“Snake” abre o álbum em tom de suspense, mostrando que os Bullys sabem criar boa ambientação sonora. Logo de cara são escancarados o tipo de batida que vai existir em todas as 14 faixas e a malandragem conveniente a um habitante do primeiro mundo existente na voz de Simon.

A melhor passagem do CD vem a seguir, na dobradinha que começa com “100 Million”, em que metais anunciam o aprimoramento dos grooves em relação à primeira música. Na seqüência chega “Way Too Long” e o Audio Bullys mostra a que veio, fazendo com que Ego War ganhe urgência dali em diante. O bamba Elvis Costello é co-autor da música e ajuda a criar um clima malaco típico das terras ao norte do Equador. Inclusive samples de “I Don't Want To Go To”, de autoria de Costello, foram inseridos na canção.

“Turned Away” quebra essa seqüência alucinante com elementos digitalizados que remetem vagamente à música regional, folk. O que se ouve é uma espécie de sanfona robotizada tocando ao fundo. Simon e Tom também põe um pouco o pé no freio (mas só um pouco mesmo) em “The Things”, com suas colagens sonoras que a fazem ficar grandiosa. Mas como não é a intenção dos dois deixar ninguém de fora da pista, as coisas mais calmas acabam por aqui.

“Real Life” reúne o peso, a descontração e os barulhinhos angustiantes das faixas anteriores, além de abrir espaço para “We Don't Care”, primeira música de trabalho e aperitivo da seqüência inabalável de hits feitos sob medidas para os clubs que vem logo depois. “Veteran”, “The Snow” (que ainda conta com samples do tema do seriado SWAT) e “I Go To Your House” formam a trilha sonora perfeita de qualquer noite inglesa. “The Tyson Shuffle” e “Hit The Ceiling” são mais compassadas, no entanto a última é pra ter o suposto refrão cantado em coro, sob pleno estado de bebedeira no meio da pista.

A sensacional “Face In A Cloud” tem um tal de Joe Cocker e uns outros comparsas por trás. A faixa que leva o nome do disco encerra o excelente debute do Audio Bullys. A música brinca com o ouvinte ao destoar uma camada de som. O que sai disso remete diretamente à infância. Sobra até pra um Tarzan meio gripado gritando num vocoder lá pela metade da música. Simon ainda firme e forte tem fôlego pra encarar um dub escondido bem depois do fim da 14ª faixa.

Ficou com vontade de ver os caras ao-vivo? Acha que um som tão bom desses nunca vai poder ser conferido em solo tupiniquim? Então você já está atrasado. Tom e Simon aproveitaram uma folguinha antes de se apresentarem na Argentina, e surgiram animando a boate Sirena, na cidade de Maresias (litoral paulista) em meados de novembro do ano passado. Mas eles com certeza devem voltar. Porque se malandro que é malandro se esbalda no meio de um monte de neve, ah, amigo, imagina no meio de um carnaval de rua do Nordeste então, o que eles são capazes de aprontar. Aos nossos ouvidos, é claro.