| O BONDE DOS MANOS
DE LONDRES
Britânicos do Audio Bullys
flertam com a música negra americana no eletrônico
Ego War
por Julio
Ibelli (jcim13@ig.com.br)

ense na maior revelação da música eletrônica
inglesa misturada com guitarras transgênicas (essas modificadas
pelo computador) e outros enxertos sonoros desde o Prodigy, só
que desta vez bem mais “clean”. Acrescente à
receita uma enxurrada de breakbeats de botar no chinelo o mais conceituado
sound-system brasileiro e uma postura gangsta que faz 50 Cent parecer
com a voz mais fina, batendo papo com sotaque britânico em
um pub londrino. Daí então você tem o duo Audio
Bullys.
Simon Franks e Tom Dinsdale, os dois com menos de 25 anos, fazem
música juntos desde 2002. Simon é responsável
pelos vocais do Audio Bullys. Tom rege toda a mistureba sonora da
dupla e com 17 anos já discotecava em clubs. A vivência
sonora dos dois é mais influenciada mesmo pela vida na periferia.
Tudo bem que se trata da periferia de Londres, bem diferente da
realidade suburbana brasileira, mas mesmo assim os Bullys (algo
como “briguentos” em inglês) transitam com destreza
em meio à temas tabu, como tráfico de drogas e todos
os outros que constituem o cotidiano das regiões limítrofes
das cidades.
Ego War, disco de estréia do duo, foi
lançado pela Virgin/EMI no verão do ano passado para
o hemisfério norte. Acabou vindo parar no Brasil no final
de 2003, em uma estratégia da gravadora de vender, por preços
bem pouco abaixo da média, CDs de artistas não tão
novos e aclamados pela crítica. Apesar de não ter
nada de rave big boutique pra tocar em praia, com a batida
repetitiva de praxe, Ego War tem passagens ideais para ser
a trilha sonora de um momento mais íntimo, se você
tiver se dado bem em uma dessas festas e não estiver voltando
pra casa sozinho.
“Snake”
abre o álbum em tom de suspense, mostrando que os Bullys
sabem criar boa ambientação sonora. Logo de cara são
escancarados o tipo de batida que vai existir em todas as 14 faixas
e a malandragem conveniente a um habitante do primeiro mundo existente
na voz de Simon.
A melhor passagem do CD vem a seguir, na dobradinha que começa
com “100 Million”, em que metais anunciam o aprimoramento
dos grooves em relação à primeira música.
Na seqüência chega “Way Too Long” e o Audio
Bullys mostra a que veio, fazendo com que Ego War
ganhe urgência dali em diante. O bamba Elvis Costello é
co-autor da música e ajuda a criar um clima malaco típico
das terras ao norte do Equador. Inclusive samples de “I Don't
Want To Go To”, de autoria de Costello, foram inseridos na
canção.
“Turned Away” quebra essa seqüência alucinante
com elementos digitalizados que remetem vagamente à música
regional, folk. O que se ouve é uma espécie de sanfona
robotizada tocando ao fundo. Simon e Tom também põe
um pouco o pé no freio (mas só um pouco mesmo) em
“The Things”, com suas colagens sonoras que a fazem
ficar grandiosa. Mas como não é a intenção
dos dois deixar ninguém de fora da pista, as coisas mais
calmas acabam por aqui.
“Real Life” reúne o peso, a descontração
e os barulhinhos angustiantes das faixas anteriores, além
de abrir espaço para “We Don't Care”, primeira
música de trabalho e aperitivo da seqüência inabalável
de hits feitos sob medidas para os clubs que vem logo depois. “Veteran”,
“The Snow” (que ainda conta com samples do tema do seriado
SWAT) e “I Go To Your House” formam
a trilha sonora perfeita de qualquer noite inglesa. “The Tyson
Shuffle” e “Hit The Ceiling” são mais compassadas,
no entanto a última é pra ter o suposto refrão
cantado em coro, sob pleno estado de bebedeira no meio da pista.
A
sensacional “Face In A Cloud” tem um tal de Joe Cocker
e uns outros comparsas por trás. A faixa que leva o nome
do disco encerra o excelente debute do Audio Bullys. A música
brinca com o ouvinte ao destoar uma camada de som. O que sai disso
remete diretamente à infância. Sobra até pra
um Tarzan meio gripado gritando num vocoder lá pela metade
da música. Simon ainda firme e forte tem fôlego pra
encarar um dub escondido bem depois do fim da 14ª faixa.
Ficou com vontade de ver os caras ao-vivo? Acha que um som tão
bom desses nunca vai poder ser conferido em solo tupiniquim? Então
você já está atrasado. Tom e Simon aproveitaram
uma folguinha antes de se apresentarem na Argentina, e surgiram
animando a boate Sirena, na cidade de Maresias (litoral paulista)
em meados de novembro do ano passado. Mas eles com certeza devem
voltar. Porque se malandro que é malandro se esbalda no meio
de um monte de neve, ah, amigo, imagina no meio de um carnaval de
rua do Nordeste então, o que eles são capazes de aprontar.
Aos nossos ouvidos, é claro. 
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