| A DITADURA MILITAR
E SEUS MOTIVOS
Duas obras literárias de autores
distintos são destrinchadas no intuito de perseguir os porquês
do golpe de 64 e seus (des)caminhos
por Rodrigo
Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
 |
| Castelo Branco, o primeiro presidente
da ditadura militar |
Brasil enfrentou de 1964 a 1985 um dos períodos mais
obtusos de toda a sua história. Trata-se da ditadura militar,
imposta com apoio da burguesia nacional reacionária e com
grande contribuição, inclusive bélica, do capitalismo
estrangeiro. E para aprofundar apropriadamene esta rápida
e introdutória definição do tema, nada melhor
do que as valiosas contribuições de dois ícones
dos pensar tupiniquim para o entendimento do maior fenômeno
histórico-nacional de nosso século XX.
A primeira obra é Vida e Morte da Ditadura (Vozes,
1984), do historiador e militar da reserva Nelson Werneck Sodré.
Um livro que estabelece as condições para a implantação
do regime fascista, como ele denomina a ditadura vivida no país,
além de enfatizar a influência do imperialismo –
leia-se Estados Unidos, na visão do autor – para a
constituição e consolidação do golpe
no país.
O outro trabalho pertence ao sociólogo Florestan Fernandes
e tem o título de A Ditadura em Questão
(T.A. Queiroz, 1982). A análise perpassa na aliança
da burguesia nacional com os golpistas como base sólida de
sustentação para o sucesso do regime, enquanto este
teve gás para manter-se. Outro aspecto interessante do livro
está nos mecanismos adotados pela cúpula militar para
tentar impor um ar “democrático” a algo totalmente
despido destas premissas, como no caso da liberalização
outorgada, a manipulação dos partidos ou até
mesmo a institucionalização da violência nos
famosos “anos de chumbo”.
Segundo ambos os trabalhos, a questão do imperialismo crava
profundas marcas na história do regime, como parte de uma
aliança de três pontas, defendida pelos autores como
condição sine qua non para o período
ditatorial: o exército brasileiro, a burguesia nacional e
a burguesia estrangeira, principalmente dos EUA, que possuía
interesses óbvios nesta região. Uma das explicações
de Sodré passa justamente pelo momento histórico pós-Segunda
Guerra Mundial e, portanto, anterior até mesmo ao dia 31
de março de 1964.
AS CONDIÇÕES QUE GERARAM A “REVOLUÇÃO
BRASILEIRA”
Com a derrota do nazismo alemão, do fascismo italiano e
do militarismo japonês para os aliados, as forças fascistas
que cresciam no Brasil, em particular dentro do exército,
perderam espaço para o conservadorismo “democrático”
que a burguesia tradicional tanto desejava manter. Além disso,
União Soviética e Estados Unidos saíram vitoriosos
da guerra, cada um, porém, seguindo um caminho diferente
do outro. Os EUA, defendendo a propriedade, o capitalismo e a liberdade
como balizas fundamentais do crescimento econômica. Já
a ex-URSS tinha sua ideologia solidificada no comunismo, buscando
a horizontalidade nas relações econômicas e
sociais, algo totalmente diverso do que o american way
of life pregaria a partir da década de 50.
Isto fez com que o mundo se dividisse, ao menos imaginariamente,
em dois: uns países do lado dos Estados Unidos e seus dogmas
capitalistas e outros, de maior proximidade ao poderio comunista
da então União Soviética. E o Brasil, com seu
papel estratégico na América do Sul, tinha a obrigação
de se posicionar. Assim, Washington fez de tudo para trazer os brasileiros
para junto de suas convicções e anseios.
ANTI-COMUNISMO
A campanha do comunismo como o monstro e causa de todos os males
estava colocada e foi levada à exaustão pela mídia
durante aqueles anos, apoiada por políticos e militares.
Isso tanto é verdade e solidificou-se de tal maneira que
no Brasil o medo dos ideais igualitários se tornou algo por
demais assustador. De tão arraigado, qualquer um que cismar
em falar de comunismo já será visto de forma estigmatizada
e julgada sob pré-conceitos capitalistas ocidentais desprovidos
de reflexão dialética, mesmo hoje em dia, com supostos
ares democráticos nos embalando.
 |
| Presidente Ernesto Geisel(à dir.)
e General Médici, seu antecessor na Presidência |
Com tudo isto, qualquer sinal de movimentação
democrática nos anos que se seguiram foram massacrados aterradoramente
pelo discurso do senso comum burguês, erguendo à condição
de “comunista” toda e qualquer pessoa que defendesse
os ideais democráticos e libertários que poderia crer.
Por conta desta pseudoameaça foi instaurada no Brasil a “Revolução
Brasileira” (que possui este nome entre os historiadores,
dadas as suas características marcantes de uma revolução),
com o propósito de “livrar o país do comunismo”,
mergulhando a nação num dos períodos mais nebulosos
e trágicos de toda a nossa história recente.
O golpe contou com grande participação do chamado
imperialismo, devido ao plano de controlar os governos dos países
latino-americanos, impedindo que a “praga comunista”
os contaminasse, como “ocorrera” com Cuba, com a revolução
socialista de 1959. Esse “controle” procurava manter
governantes alinhados com a proposta imperial, isto é, de
dependência ao mercado externo, e fortalecer as culturas primárias
de exportação.
Com isto, como Sodré afirma em seu livro, vultuosas verbas
orçamentárias dos Estados Unidos eram destinadas e
tropas enviadas ao sul da América, para treinamento de soldados,
práticas da tortura, etc. Mas todo esse dinheiro retornava
à esperta família Sam através das vendas de
produtos estadunidenses nestes locais, que se comprometiam –
obrigatoriamente, diga-se – a adquirir os manufaturados do
Império.
OS MECANISMOS DO REGIME PARA MANTER-SE NO PODER
Com este cenário estabelecido, fazia mister criar as condições
para ampliar os poderes obtidos com a derrubada do governo democrático
de João Goulart e a subida do general Castelo Branco à
Presidência da República. Justificados na burguesia
que via a ditadura como uma benção ante o avanço
democrático que vivia o país, os militares impuseram
todo o tipo de arbitrariedade em suas ações. Governaram
através de decretos-lei, sem precisar passar pelo Legislativo,
expurgando funcionários públicos e políticos
que ameaçavam os interesses do regime, ao mesmo tempo que
mantinha uma relativa liberdade de imprensa e firmava pontes com
posições amenas da esquerda nacional. Assim, Castelo
Branco e a ala “branda” (se é que pode receber
tal nome) da ditadura aumentavam seu poder.
Mas, como diria Sodré, o “aperfeiçoamento da
ditadura” ocorreu em fins de 1968, com a instauração
do mais conhecido ato institucional imposto durante o regime, o
AI-5. Com isto, a ponte foi sabotada e todas as possibilidades de
negociações entre governo ditatorial e oposição
foram minadas com a extinção dos partidos políticos
e a criação de mecanismos contra a realização
de greves. Mesmo assim, para tentar demonstrar tolerância
e também sabotar a articulação da oposição,
foram criados dois partidos: a Arena (Aliança Renovadora
Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Só
que essa concentração do inimigo em um só dos
lados seria prejudicial aos militares num futuro próximo.
Prosseguindo com as contradições, o Congresso era
aberto e fechado à revelia dos mandatários, a imprensa
fora censurada e as perseguições políticas
intensificadas, com o aumento de torturas, assassinatos e desaparecimentos
de pessoas, institucionalizando, assim, a violência contra
quem ousasse questionar o regime. Tudo isso ocorreu principalmente
durante 1969-74, período em que a ditadura mostrou sua face
mais ríspida e também, como contraste, a pele mais
graciosa de um crescimento econômico fictício.
Durante esse tempo os militares viveram em lua de mel com a burguesia
reacionária. Isso porque, com o “milagre econômico”
– plano de abertura total e irrestrita do mercado nacional,
implementado por Antônio Delfim Neto, então Ministro
da Fazenda, que possibilitou ao país crescer vertiginosamente
– a classe média teve acréscimo substancial
em seu poder aquisitivo, possibilitando comprar vários artigos
importados dos EUA. Enquanto isso a população pobre
se distanciava ainda mais nos índices econômicos das
poucas pessoas que possuíam muito, acentuando perigosamente
a desigualdade social.
Ocorre que, esse tão propalado milagre estava com seus dias
contados desde sua implantação. Era impossível
manter o mercado brasileiro aberto e desprotegido daquela forma,
contraindo empréstimos e cedendo vantagens a empresas estrangeiras,
sem causar um rombo nas contas públicas e crescimento inimaginável
da inflação e da dívida externa. Tal fato tornou-se
mais evidente quando da crise mundial do petróleo, em 1973.
Muitas nações, como o Brasil, quebraram e economias
inteiras tiveram de ser remodeladas, abrindo espaço para
premissas neoliberais, em contrapartida aos métodos keynesianos
que estavam em voga na Europa desde a última guerra mundial.
 |
| Presidente Ernesto Geisel e general
João Figueiredo, que viria a sucedê-lo na presidência. |
A DERROCADA DA DITADURA
A crise do petróleo foi um duro golpe para os militares
que, já sem o mesmo apoio da burguesia, com sérias
divisões internas e sofrendo pressões, mesmo que diminutas,
da população quanto às atrocidades do AI-5,
foram levados a uma saída estratégica da ditadura,
como colocaria Sodré. A saída encontrada por eles
estava na chamada “abertura, lenta, gradual e segura”
proposta durante o governo do general Ernesto Geisel, em meados
da década de 70.
Esta “abertura” consistia, na verdade, em conceder
determinados direitos à população, mas sem
abrir deliberadamente o acesso às esferas políticas
do regime. Trata-se da liberalização outorgada, exaustivamente
debatida por Florestan Fernandes em sua obra, que, metaforicamente,
seria algo como soltar o gado no pasto, manejando-o com o cão.
Encaminhar o país a uma “volta à democracia”,
porém sem revoluções, guerras, brigas, mantendo
as coisas como estavam, apesar dos somente aparentes rumos libertários
que a nação parecia tomar.
Este intento foi amplamente apoiado pela burguesia e por outros
que compartilhavam as opiniões do regime, chamados por Florestan
Fernandes de “consenso nacional”. Este consenso desejava
ver “a desagregação da ditadura sem rupturas
e sem conflitos profundos no seio da própria burguesia”.
Caso contrário, como asserta o autor, isto colocaria sua
supremacia em risco e abriria espaço para as classes menos
abastadas lutarem por melhorias significativas e almejarem tomar
o poder.
Outro mecanismo adotado, já na década de 80, foi
estabelecer a “reforma dos partidos”, incentivando a
criação de novos partidos políticos e o retorno
dos antigos. Isto, na verdade, mostrava o interesse dos militares
em renovar sua “cara” perante o povo, pois levavam sucessivas
“surras eleitorais” nos pleitos menores. Com isto o
Arena se transformou em PDS (Partido Democrata Social), enquanto
a oposição se espalhou entre o MDB, mudado para PMDB,
o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o PDT (Partido Democrata
Trabalhista) e o PT (Partido dos Trabalhadores), entre outros menos
significativos. Com esta divisão entre os opositores, a ditadura
pretendia obter território nas eleições posteriores,
para prosseguir no controle até os últimos suspiros
de um regime que não tinha mais para onde ir.
À FRENTE DO LEME
Tanto Vida e Morte da Ditadura como A
Ditadura em Questão mostram como os militares foram
perspicazes na ação para a tomada do poder, contando
com as ajudas já citadas, pois perceberam as debilidades
democráticas do Brasil naquele período, que vivia
perdido em políticos conservadordes com roupagens populistas.
Os militares tencionavam instar a nação a uma condição
de maior ordem política e econômica, impondo um governo
autocrático burguês, como definiu Fernandes, para depois
devolver o leme brasileiro às forças democrático-burguesas,
que nunca deixaram de controlar o navio, apenas o dirigiram à
distância. 
|