| UMA PESSOA DE LIVROS
Fernanda Young debate literatura
e adjacências em As Pessoas dos Livros
por Ana Lira
(analira@rabisco.com.br)

m susto! Foi essa a reação causada por uma segunda
leitura à primeira página de As Pessoas dos Livros
(Fernanda Young – Ed. Objetiva – 2000). A revisão
fora iniciada dentro de um ônibus, numa dessas idas e vindas
para a aula. No entanto, um espaço considerável entre
a primeira e a segunda visita àquelas páginas iniciais
se formou, de modo que a decisão mais sensata foi recomeçar
tudo novamente. No entanto, eis a surpresa: ao terminar de ler o
segundo parágrafo, compreendi que não havia entendido
nada antes. A história que eu havia iniciado não era
a que Fernanda Young estava contando. O que acontecera, então?
Percebi que estava lendo a obra da mesma forma que abordava as
demais e a tentativa falhou diante das nuances apresentadas por
Young em cada página. Ela não tem uma narrativa linear.
Engana o leitor. Perturba. Quando pensamos que a personagem nos
pertence, que somos seus confidentes e nosso leito o seu divã,
a escritora parece nos dizer “Opa! Não é assim
não, meu bem! Vocês não sabem nada sobre essa
mulher!” – e reconhecemos que um livro não é
um campo tão seguro assim. A trajetória de Amanda
Ayd, por mais consumada que esteja dentro das páginas, não
está para o leitor antes da última palavra cruzar
os seus olhos e, até lá, muita coisa pode acontecer.
Essa sensação é latente em As Pessoas
dos Livros. Young mistura tantas maneiras de compor que
é melhor lê-lo como uma espécie de diário
literário. Um espaço onde o autor esboça a
história, comenta, agrega citações alheias,
arrisca formatos diferentes transformando o que deveria ser um romance
em uma colcha de retalhos, como é a vida, fragmentos que
vão se juntando ao longo do caminho. O efeito causado sobre
quem lê é pessoal e intransferível. Alguns podem
se identificar com os personagens, outros com as considerações
acerca da situação narrada ou com o drama da protagonista
ou com tudo isso ou com nada disso e todos ganharão ao final.
O
prêmio é um debate saudável acerca dos aspectos
que atravessam a obra. O paradoxo da escrita enquanto suporte para
a libertação das idéias e a prisão aos
padrões impostos pelo mercado literário. A figura
do escritor enquanto criador de fantasias e debatedor da realidade.
A linha tênue que separa a face pública e privada de
pessoas inserida nos mundo das letras e as conseqüências
de uma diferenciação mal feita, ou não feita,
desses aspectos, por pessoas próximas ou admiradores anônimos.
A imagem que os leitores fazem de quem escreve e a influência
dessa relação na vida de quem usa a literatura como
meio de vida – com todas as conotações
que essa expressão pode ter.
QUEM É ESSA GENTE QUE ESCREVE LIVROS?
Escrever é expor e se expor. Fernanda Young sabe disso como
ninguém. Experimentou elogios e críticas ferinas ao
modo como apresenta suas idéias ao mundo. Foi analisada.
Tachada. Carimbada. Como um produto qualquer lançado no mercado
que, depois de sucessivos testes nas mãos dos que se consideram
entendidos, pode receber ou não um selo de qualidade e a
garantia de que outros naquele modelo virão. Essa relação
é bastante discutida em sua obra, talvez por experiência
própria da autora, talvez por uma observação
sagaz dos conceitos que permeiam a maioria das análises literárias
espalhadas em diversos setores ligados à literatura.
A escrita, porém, vai além de uma escala de 0 a
10 e este texto não vai ser finalizado com uma nota, nem
carimbando um conceito e muito menos estabelecendo um parâmetro
com algum autor clássico para dizer se o que ela faz é
bom ou ruim. A despeito de tudo o que li sobre Fernanda Young, notei
que a forma mais adequada de dizer algo sobre o trabalho era mergulhando
na proposta do livro. O que escrevo é fruto do que senti
enquanto estive acompanhada das 135 páginas que compõem
a sua narrativa. Narrativa que, sem conhecer a autora com mais detalhes,
arrisco dizer que parece ser muito dela. Existem estilos de texto
que não se consegue imitar e isso ficou muito claro para
mim em As Pessoas dos Livros.
QUEM
É ESSA GENTE QUE APARECE NOS LIVROS?
Uma coisa me intrigou, porém. A protagonista chama-se Amanda
Ayd. A capa do livro foi feita por uma garota de nome Marcela Ayd.
Não existe nenhuma indicação de parentesco
ou aquela frase célebre, In memoriam,
que ocupa uma página sozinha, no começo da obra, indicando
uma homenagem póstuma. Não existe nenhuma relação
explícita entre a personagem e a designer; e devorar créditos
de livros é uma mania que tenho desde que decidi conhecer
mais sobre essas pessoas que mexem com a literatura. Curiosidade
que se transforma em perguntas na orelha do livro. Existe um personagem?
Existe vida real? Diante da coincidência ousaria levantar
uma hipótese: será a história de Amanda Ayd
realmente ficção? 
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