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12 a 25 de janeiro de 2004


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UMA PESSOA DE LIVROS
Fernanda Young debate literatura e adjacências em As Pessoas dos Livros

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

m susto! Foi essa a reação causada por uma segunda leitura à primeira página de As Pessoas dos Livros (Fernanda Young – Ed. Objetiva – 2000). A revisão fora iniciada dentro de um ônibus, numa dessas idas e vindas para a aula. No entanto, um espaço considerável entre a primeira e a segunda visita àquelas páginas iniciais se formou, de modo que a decisão mais sensata foi recomeçar tudo novamente. No entanto, eis a surpresa: ao terminar de ler o segundo parágrafo, compreendi que não havia entendido nada antes. A história que eu havia iniciado não era a que Fernanda Young estava contando. O que acontecera, então?

Percebi que estava lendo a obra da mesma forma que abordava as demais e a tentativa falhou diante das nuances apresentadas por Young em cada página. Ela não tem uma narrativa linear. Engana o leitor. Perturba. Quando pensamos que a personagem nos pertence, que somos seus confidentes e nosso leito o seu divã, a escritora parece nos dizer “Opa! Não é assim não, meu bem! Vocês não sabem nada sobre essa mulher!” – e reconhecemos que um livro não é um campo tão seguro assim. A trajetória de Amanda Ayd, por mais consumada que esteja dentro das páginas, não está para o leitor antes da última palavra cruzar os seus olhos e, até lá, muita coisa pode acontecer.

Essa sensação é latente em As Pessoas dos Livros. Young mistura tantas maneiras de compor que é melhor lê-lo como uma espécie de diário literário. Um espaço onde o autor esboça a história, comenta, agrega citações alheias, arrisca formatos diferentes transformando o que deveria ser um romance em uma colcha de retalhos, como é a vida, fragmentos que vão se juntando ao longo do caminho. O efeito causado sobre quem lê é pessoal e intransferível. Alguns podem se identificar com os personagens, outros com as considerações acerca da situação narrada ou com o drama da protagonista ou com tudo isso ou com nada disso e todos ganharão ao final.

O prêmio é um debate saudável acerca dos aspectos que atravessam a obra. O paradoxo da escrita enquanto suporte para a libertação das idéias e a prisão aos padrões impostos pelo mercado literário. A figura do escritor enquanto criador de fantasias e debatedor da realidade. A linha tênue que separa a face pública e privada de pessoas inserida nos mundo das letras e as conseqüências de uma diferenciação mal feita, ou não feita, desses aspectos, por pessoas próximas ou admiradores anônimos. A imagem que os leitores fazem de quem escreve e a influência dessa relação na vida de quem usa a literatura como meio de vida – com todas as conotações que essa expressão pode ter.

QUEM É ESSA GENTE QUE ESCREVE LIVROS?

Escrever é expor e se expor. Fernanda Young sabe disso como ninguém. Experimentou elogios e críticas ferinas ao modo como apresenta suas idéias ao mundo. Foi analisada. Tachada. Carimbada. Como um produto qualquer lançado no mercado que, depois de sucessivos testes nas mãos dos que se consideram entendidos, pode receber ou não um selo de qualidade e a garantia de que outros naquele modelo virão. Essa relação é bastante discutida em sua obra, talvez por experiência própria da autora, talvez por uma observação sagaz dos conceitos que permeiam a maioria das análises literárias espalhadas em diversos setores ligados à literatura.

A escrita, porém, vai além de uma escala de 0 a 10 e este texto não vai ser finalizado com uma nota, nem carimbando um conceito e muito menos estabelecendo um parâmetro com algum autor clássico para dizer se o que ela faz é bom ou ruim. A despeito de tudo o que li sobre Fernanda Young, notei que a forma mais adequada de dizer algo sobre o trabalho era mergulhando na proposta do livro. O que escrevo é fruto do que senti enquanto estive acompanhada das 135 páginas que compõem a sua narrativa. Narrativa que, sem conhecer a autora com mais detalhes, arrisco dizer que parece ser muito dela. Existem estilos de texto que não se consegue imitar e isso ficou muito claro para mim em As Pessoas dos Livros.

QUEM É ESSA GENTE QUE APARECE NOS LIVROS?

Uma coisa me intrigou, porém. A protagonista chama-se Amanda Ayd. A capa do livro foi feita por uma garota de nome Marcela Ayd. Não existe nenhuma indicação de parentesco ou aquela frase célebre, In memoriam, que ocupa uma página sozinha, no começo da obra, indicando uma homenagem póstuma. Não existe nenhuma relação explícita entre a personagem e a designer; e devorar créditos de livros é uma mania que tenho desde que decidi conhecer mais sobre essas pessoas que mexem com a literatura. Curiosidade que se transforma em perguntas na orelha do livro. Existe um personagem? Existe vida real? Diante da coincidência ousaria levantar uma hipótese: será a história de Amanda Ayd realmente ficção?