| … E NO MEIO
TEM O CINEMA
Festival de Santa Maria da Feira
faz um verdadeiro intercâmbio entre dois países separados
por um oceano de imagens e sensações
por Fernando de Castro Américo
(fercastro@netcabo.pt)
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| Cena do filme português Antes
que o tempo mude, de Luis Fonseca |
rasil e Portugal são países irmãos. Quantas
vezes você já ouviu esta frase? Muitas. Mas como em
toda família, o relacionamento pode não ser muito
fácil. Pense apenas: quantos filmes portugueses você
viu na sua vida? Quantos artistas portugueses você pode se
lembrar que fizeram sucesso no Brasil (e se você respondeu
Roberto Leal, vai ficar surpreso ao saber que ele não é
tão respeitado em seu país de origem como se poderia
supor). No entanto, em Portugal, as novelas brasileiras estão
entre os programas mais vistos da TV aberta e os Tribalistas ficaram
em primeiro lugar nos tops de música por pelo menos dois
meses. Ou seja, o tão cantado “intercâmbio”
entre Brasil e Portugal, na verdade, é uma via de mão
única.
Para muitos brasileiros, Portugal se tornou uma referência
na medida em que, a partir de meados dos anos 90, um novo fluxo
imigratório foi inaugurado em direção à
“terrinha”. Milhares de brasileiros fizeram o caminho
inverso ao de Cabral, deixando parentes saudosos que sentiram na
carne o significado da palavra “saudade”, tradução
substantiva de um sentimento que só quem fala português
entende.
A cultura brasileira e os imigrantes brasileiros
são tão presentes em Portugal que existe até
um movimento em sentido contrário. As novelas brasileiras
têm sido cada vez mais execradas pela crítica em favor
das similares nacionais; a rádio de locutores brasileiros
mais importante do país mudou de sotaque, contratando apenas
locutores portugueses; e Paulo Portas, o Ministro da Defesa, alinhado
com a direita (alguns até diriam extrema-direita) já
deu a entender que os imigrantes (não só do Brasil,
mas também de Cabo Verde, da África, da Ucrânia...)
são a verdadeira causa da crise econômica que assola
Portugal (declarações estas que foram bastante criticadas
por vários órgãos da imprensa, diga-se de passagem).
Neste cenário, o Festival
de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira toma uma importância
sem igual. Em sua sétima edição, o evento vem
se firmando como a verdadeira expressão do intercâmbio
entre duas culturas tão unidas e tão separadas.
Como diz Américo Santos, o curador do Festival,
o evento começou com o objetivo principal de trazer para
Portugal os filmes feitos no Brasil, desmistificando a crença
enraizada pelo Cinema Novo de um cinema difícil, hermético.
Ao mesmo tempo, o Festival mostra à intelectualidade portuguesa
que existem outras linguagens no audiovisual brasileiro além
da onipresente novela. Este ano, foram exibidos cerca de 60 filmes
portugueses e brasileiros, entre curtas e longas-metragens. Alguns
dos filmes brasileiros mais comentados do ano passado estiveram
em competição, como O Homem do Ano, O Homem
que Copiava, e Amarelo Manga. O documentarista Eduardo
Coutinho foi homenageado com uma retrospectiva de seus trabalhos
mais marcantes, de Cabra Marcado para Morrer a Edifício
Master, além do lançamento mundial do livro Eduardo
Coutinho: O Homem que Cai na Real, de Carlos Alberto Mattos,
sobre a obra do mestre.
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| Murilo Benício em O Homem
do Ano |
O Festival de Santa Maria da Feira cumpre também
a função de mostrar o cinema português para
os brasileiros. E também de, curiosamente, promover uma maior
troca não só com profissionais de cinema portugueses,
mas também entre diretores brasileiros que só se vêem
de passagem em festivais de grande porte, como Brasília e
Gramado. Até mesmo pela natureza mais íntima do festival,
de pequenas dimensões, e pelo tamanho da cidade, os profissionais
do Brasil têm uma possibilidade de interagir mais em Santa
Maria da Feira. Em que outro festival seria possível reunir
profissionais de cinema portugueses e brasileiros para uma oficina
com o objetivo de realizar um filme? Pois isto foi possível
em Santa Maria da Feira, através do workshop Filme Utopia.
O diretor Paulo Halm, ganhador do prêmio de
melhor curta do júri popular por O Resto É Silêncio,
e co-responsável, com Helvécio Marins Júnior,
por esta oficina, resume o sentimento geral em relação
ao papel de Santa Maria da Feira com uma frase: “Eu digo que
este é o melhor festival de cinema brasileiro que eu conheço”.
Todos os brasileiros e portugueses que estiveram
presentes em Santa Maria da Feira reconhecem a singularidade do
evento, que talvez seja o único festival de cinema em língua
portuguesa do mundo, e lamentam a falta de uma iniciativa semelhante
no Brasil, para divulgar o cinema português (Américo
Santos diz que ainda não foi possível encontrar parceiros
que viabilizem a realização de uma mostra análoga
no Brasil).
A Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, onde
ocorreram as projeções, foi, de 7 a 14 de dezembro,
um saudável ponto de encontro do cinema em língua
portuguesa. Se a língua é o que une, a linguagem é
o que separa: uma das diferenças básicas entre o cinema
brasileiro e o português está no ritmo. O brasileiro
é mais dado ao movimento, procura mais a montagem do que
o português, em que os enquadramentos perfeitos, o som ambiente
sem música, e a maior duração dos planos convida
a uma maior reflexão e traz uma maior gravidade ao conjunto
do filme.
A morte é um tema recorrente no cinema português,
mesmo quando está ausente. Ou melhor, a morte é como
uma sombra que paira sobre o que é vivo, formatando o real
a partir do virtual. Em A Ferida, por exemplo, curta português
de Margarida Leitão, uma mulher sofre toda a angústia
da perda de um filho. Não nos é mostrado como se dá
esta perda, mas através de elementos muito sutis, intuímos
que o que aquela mulher perdeu foi um pedaço dela mesma,
daí a ferida do título. O que não é
dito, é pressentido: a falta, a morte, o vazio, são
marcas obsessivas do cinema português, como um Pecado Original
expiado no escuro do cinema. No cinema brasileiro, a culpa é
um conceito mais fluido e relativo, como se na “terra de ninguém”
marcada pela violência e pela pobreza não existisse
espaço para o remorso: é o que se sente ao ver O
Homem do Ano, filme em que é mais fácil se identificar
com o leitão Bill que com as motivações dos
personagens principais.
Não existe pecado do lado de baixo do Equador?
A equação não é tão simples.
Alguns dos melhores trabalhos do festival embaralharam estas cartas
marcadas. Foi o caso de A Morte do Cinema, documentário
de 30 minutos em que o diretor português Pedro Sena Nunes
nos apresenta a Álvaro Dias, um mecânico de automóveis
aposentado que reconstituiu dois projetores antigos para criar o
seu próprio Cinema Paradiso na garagem em que trabalhava.
Lá, ele exibia filmes não muito comportados para uma
platéia sedenta de emoções “fortes”,
quase no final da ditadura salazarista. Ao contrário do que
seu título possa fazer supor, A Morte do Cinema é
um tributo à vitalidade do ritual do cinema, à memória,
e ao esforço de pessoas como Álvaro, que fez de uma
tela branca numa oficina suja o santuário de sua paixão
pelo cinema a 24 quadros. Técnica esta que pode, sim, estar
a morrer, nas mãos do cinema digital e das novas tecnologias
(e a ironia é que A Morte do Cinema é, ele
também, filmado em vídeo digital) mas significa mais
do que nunca uma vitalidade para a sétima arte em geral.
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| Houve Uma Vez Dois Verões,
de Jorge Furtado, foi exibido durante o festival |
Em O Homem que Copiava, de Jorge Furtado,
o personagem principal embarca numa jornada maluca para conseguir
dinheiro para conquistar uma garota. Roubar, falsificar, nada é
visto como crime, já que, como o próprio Furtado diz
pela boca de André, personagem de Lázaro Ramos, “dinheiro
é só um papel que todo mundo acredita que vale muito”.
Se o objeto do crime é uma ficção, também
as contravenções de André são perdoáveis
para o público, que não enxerga culpa na figura de
Ramos, muito pela construção do roteiro e pela atuação
deste que é um dos maiores atores brasileiros do momento.
André representa o brasileiro que não tem dinheiro
para fazer o que quer, que não sabe o que fazer, e sua saída
pelo crime é menos uma escolha que uma alternativa única.
Amarelo Manga assombrou o público com
sua proposta minimalista, seus personagens à beira do animalesco,
seus intérpretes sublimes e suas cores explosivas (foi considerado,
com justiça, o melhor filme da mostra competitiva, levando
também os prêmios de interpretação masculina
e feminina, respectivamente, para Chico Diaz e Dira Paes). O curta
português O Nome é o N.I.M. (sigla para o Número
de Identificação Militar) narrou de maneira simples
e leve um fim-de-semana de folga na vida de vários jovens
que vão servir o Exército, e mostra que o verdadeiro
“repouso dos guerreiros” pode estar na caserna, onde
são apenas números, longe dos problemas da “vida
real” e da verdadeira identidade. Em Truques, Xaropes e
Outros Produtos de Confiança, curta de Eduardo Goldenstein,
as ruas do Rio de Janeiro são o cenário de uma divertida
reflexão sobre a “cadeia alimentar” da esperteza
brasileira, e os pequenos dribles na moral que todos nós
temos que fazer no nosso cotidiano.
Será que a diferença principal entre
o cinema português e o brasileiro está na moral (ou
na falta dela)? Talvez. Ou talvez, como diz Sandra Alves - diretora
de um dos curtas mais marcantes do festival, L’Amar
– a diferença seja uma questão de clima: segundo
ela, “o Brasil tem mais sol, isto faz a diferença”.
Ou talvez seja tudo uma questão de família: Brasil
e Portugal se comportaram como dois irmãos que não
se vêem há muito tempo, e botaram em dia as novidades
em Santa Maria da Feira. O tão falado intercâmbio aconteceu
mesmo nesta pequena cidade a 30 quilômetros do Porto, que
tem como uma característica histórica a troca: desde
a idade média, Santa Maria da Feira serviu como ponto de
passagem para as várias rotas de comerciantes da Europa.
Este foi o lugar perfeito para o escambo de impressões e
de experiências, um porto seguro para duas culturas atlânticas
que começam a navegar de encontro uma à outra.
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