equipe discussao anteriores
12 a 25 de janeiro de 2004


Picosearch

… E NO MEIO TEM O CINEMA
Festival de Santa Maria da Feira faz um verdadeiro intercâmbio entre dois países separados por um oceano de imagens e sensações

por Fernando de Castro Américo (fercastro@netcabo.pt)

 Cena do filme português Antes que o tempo mude, de Luis Fonseca

rasil e Portugal são países irmãos. Quantas vezes você já ouviu esta frase? Muitas. Mas como em toda família, o relacionamento pode não ser muito fácil. Pense apenas: quantos filmes portugueses você viu na sua vida? Quantos artistas portugueses você pode se lembrar que fizeram sucesso no Brasil (e se você respondeu Roberto Leal, vai ficar surpreso ao saber que ele não é tão respeitado em seu país de origem como se poderia supor). No entanto, em Portugal, as novelas brasileiras estão entre os programas mais vistos da TV aberta e os Tribalistas ficaram em primeiro lugar nos tops de música por pelo menos dois meses. Ou seja, o tão cantado “intercâmbio” entre Brasil e Portugal, na verdade, é uma via de mão única.

Para muitos brasileiros, Portugal se tornou uma referência na medida em que, a partir de meados dos anos 90, um novo fluxo imigratório foi inaugurado em direção à “terrinha”. Milhares de brasileiros fizeram o caminho inverso ao de Cabral, deixando parentes saudosos que sentiram na carne o significado da palavra “saudade”, tradução substantiva de um sentimento que só quem fala português entende.

A cultura brasileira e os imigrantes brasileiros são tão presentes em Portugal que existe até um movimento em sentido contrário. As novelas brasileiras têm sido cada vez mais execradas pela crítica em favor das similares nacionais; a rádio de locutores brasileiros mais importante do país mudou de sotaque, contratando apenas locutores portugueses; e Paulo Portas, o Ministro da Defesa, alinhado com a direita (alguns até diriam extrema-direita) já deu a entender que os imigrantes (não só do Brasil, mas também de Cabo Verde, da África, da Ucrânia...) são a verdadeira causa da crise econômica que assola Portugal (declarações estas que foram bastante criticadas por vários órgãos da imprensa, diga-se de passagem).

Neste cenário, o Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira toma uma importância sem igual. Em sua sétima edição, o evento vem se firmando como a verdadeira expressão do intercâmbio entre duas culturas tão unidas e tão separadas.

Como diz Américo Santos, o curador do Festival, o evento começou com o objetivo principal de trazer para Portugal os filmes feitos no Brasil, desmistificando a crença enraizada pelo Cinema Novo de um cinema difícil, hermético. Ao mesmo tempo, o Festival mostra à intelectualidade portuguesa que existem outras linguagens no audiovisual brasileiro além da onipresente novela. Este ano, foram exibidos cerca de 60 filmes portugueses e brasileiros, entre curtas e longas-metragens. Alguns dos filmes brasileiros mais comentados do ano passado estiveram em competição, como O Homem do Ano, O Homem que Copiava, e Amarelo Manga. O documentarista Eduardo Coutinho foi homenageado com uma retrospectiva de seus trabalhos mais marcantes, de Cabra Marcado para Morrer a Edifício Master, além do lançamento mundial do livro Eduardo Coutinho: O Homem que Cai na Real, de Carlos Alberto Mattos, sobre a obra do mestre.

 Murilo Benício em O Homem do Ano

O Festival de Santa Maria da Feira cumpre também a função de mostrar o cinema português para os brasileiros. E também de, curiosamente, promover uma maior troca não só com profissionais de cinema portugueses, mas também entre diretores brasileiros que só se vêem de passagem em festivais de grande porte, como Brasília e Gramado. Até mesmo pela natureza mais íntima do festival, de pequenas dimensões, e pelo tamanho da cidade, os profissionais do Brasil têm uma possibilidade de interagir mais em Santa Maria da Feira. Em que outro festival seria possível reunir profissionais de cinema portugueses e brasileiros para uma oficina com o objetivo de realizar um filme? Pois isto foi possível em Santa Maria da Feira, através do workshop Filme Utopia.

O diretor Paulo Halm, ganhador do prêmio de melhor curta do júri popular por O Resto É Silêncio, e co-responsável, com Helvécio Marins Júnior, por esta oficina, resume o sentimento geral em relação ao papel de Santa Maria da Feira com uma frase: “Eu digo que este é o melhor festival de cinema brasileiro que eu conheço”.

Todos os brasileiros e portugueses que estiveram presentes em Santa Maria da Feira reconhecem a singularidade do evento, que talvez seja o único festival de cinema em língua portuguesa do mundo, e lamentam a falta de uma iniciativa semelhante no Brasil, para divulgar o cinema português (Américo Santos diz que ainda não foi possível encontrar parceiros que viabilizem a realização de uma mostra análoga no Brasil).

A Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, onde ocorreram as projeções, foi, de 7 a 14 de dezembro, um saudável ponto de encontro do cinema em língua portuguesa. Se a língua é o que une, a linguagem é o que separa: uma das diferenças básicas entre o cinema brasileiro e o português está no ritmo. O brasileiro é mais dado ao movimento, procura mais a montagem do que o português, em que os enquadramentos perfeitos, o som ambiente sem música, e a maior duração dos planos convida a uma maior reflexão e traz uma maior gravidade ao conjunto do filme.

A morte é um tema recorrente no cinema português, mesmo quando está ausente. Ou melhor, a morte é como uma sombra que paira sobre o que é vivo, formatando o real a partir do virtual. Em A Ferida, por exemplo, curta português de Margarida Leitão, uma mulher sofre toda a angústia da perda de um filho. Não nos é mostrado como se dá esta perda, mas através de elementos muito sutis, intuímos que o que aquela mulher perdeu foi um pedaço dela mesma, daí a ferida do título. O que não é dito, é pressentido: a falta, a morte, o vazio, são marcas obsessivas do cinema português, como um Pecado Original expiado no escuro do cinema. No cinema brasileiro, a culpa é um conceito mais fluido e relativo, como se na “terra de ninguém” marcada pela violência e pela pobreza não existisse espaço para o remorso: é o que se sente ao ver O Homem do Ano, filme em que é mais fácil se identificar com o leitão Bill que com as motivações dos personagens principais.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador? A equação não é tão simples. Alguns dos melhores trabalhos do festival embaralharam estas cartas marcadas. Foi o caso de A Morte do Cinema, documentário de 30 minutos em que o diretor português Pedro Sena Nunes nos apresenta a Álvaro Dias, um mecânico de automóveis aposentado que reconstituiu dois projetores antigos para criar o seu próprio Cinema Paradiso na garagem em que trabalhava. Lá, ele exibia filmes não muito comportados para uma platéia sedenta de emoções “fortes”, quase no final da ditadura salazarista. Ao contrário do que seu título possa fazer supor, A Morte do Cinema é um tributo à vitalidade do ritual do cinema, à memória, e ao esforço de pessoas como Álvaro, que fez de uma tela branca numa oficina suja o santuário de sua paixão pelo cinema a 24 quadros. Técnica esta que pode, sim, estar a morrer, nas mãos do cinema digital e das novas tecnologias (e a ironia é que A Morte do Cinema é, ele também, filmado em vídeo digital) mas significa mais do que nunca uma vitalidade para a sétima arte em geral.

 

 Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, foi exibido durante o festival

Em O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, o personagem principal embarca numa jornada maluca para conseguir dinheiro para conquistar uma garota. Roubar, falsificar, nada é visto como crime, já que, como o próprio Furtado diz pela boca de André, personagem de Lázaro Ramos, “dinheiro é só um papel que todo mundo acredita que vale muito”. Se o objeto do crime é uma ficção, também as contravenções de André são perdoáveis para o público, que não enxerga culpa na figura de Ramos, muito pela construção do roteiro e pela atuação deste que é um dos maiores atores brasileiros do momento. André representa o brasileiro que não tem dinheiro para fazer o que quer, que não sabe o que fazer, e sua saída pelo crime é menos uma escolha que uma alternativa única.

Amarelo Manga assombrou o público com sua proposta minimalista, seus personagens à beira do animalesco, seus intérpretes sublimes e suas cores explosivas (foi considerado, com justiça, o melhor filme da mostra competitiva, levando também os prêmios de interpretação masculina e feminina, respectivamente, para Chico Diaz e Dira Paes). O curta português O Nome é o N.I.M. (sigla para o Número de Identificação Militar) narrou de maneira simples e leve um fim-de-semana de folga na vida de vários jovens que vão servir o Exército, e mostra que o verdadeiro “repouso dos guerreiros” pode estar na caserna, onde são apenas números, longe dos problemas da “vida real” e da verdadeira identidade. Em Truques, Xaropes e Outros Produtos de Confiança, curta de Eduardo Goldenstein, as ruas do Rio de Janeiro são o cenário de uma divertida reflexão sobre a “cadeia alimentar” da esperteza brasileira, e os pequenos dribles na moral que todos nós temos que fazer no nosso cotidiano.

Será que a diferença principal entre o cinema português e o brasileiro está na moral (ou na falta dela)? Talvez. Ou talvez, como diz Sandra Alves - diretora de um dos curtas mais marcantes do festival, L’Amar – a diferença seja uma questão de clima: segundo ela, “o Brasil tem mais sol, isto faz a diferença”. Ou talvez seja tudo uma questão de família: Brasil e Portugal se comportaram como dois irmãos que não se vêem há muito tempo, e botaram em dia as novidades em Santa Maria da Feira. O tão falado intercâmbio aconteceu mesmo nesta pequena cidade a 30 quilômetros do Porto, que tem como uma característica histórica a troca: desde a idade média, Santa Maria da Feira serviu como ponto de passagem para as várias rotas de comerciantes da Europa. Este foi o lugar perfeito para o escambo de impressões e de experiências, um porto seguro para duas culturas atlânticas que começam a navegar de encontro uma à outra.