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12 a 25 de janeiro de 2004


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DEZ ANOS DA MORTE DE UM GÊNIO
Vitimado pelo câncer de próstata. Frank Zappa continua vivo em sua obra, sempre polêmica e irreverente

por Laedson Moreira Junior (laedsonjr@pop.com.br)

á dez anos, num sábado de dezembro, Frank Zappa sucumbiu ao câncer de próstata que o atormentou em seus últimos anos de vida. O mundo da música perdia, então, uma de suas mais geniais figuras. Controvertido, cínico, mordaz, irônico, polêmico, inovador, todos esses adjetivos sempre foram usados para descrevê-lo. E, realmente, ele foi tudo isso e muito mais. Mas foi, acima de tudo, um grande músico, apaixonado por sua arte, que nunca se encaixou em nenhum rótulo ou tendência. Sua música revela influências da música clássica de gente como Stravinsky, Stockhausen e Edgard Varèse, bem como do Doo-Woop, do Rock and Roll dos anos 50 e do Jazz, tudo isso pontuado por uma grande habilidade no manejo de vários instrumentos, principalmente a guitarra. “Meu trabalho é extrapolar tudo o que é mais absurdamente extremo”, costumava dizer.

Dotado de grande inteligência e de uma musicalidade impressionante, Zappa foi um crítico incansável e contundente, que usava a sátira e o comentário social contra o conformismo, a mediocridade e a hipocrisia. O american way of life era um de seus alvos preferenciais, bem como a Igreja, com sua moral duvidosa, e o Estado, que eram considerados por ele uma coisa só.

Sua obra continua extremamente atual e dotada de um vigor inacreditável, feito que só os artistas diferenciados conseguem realizar. Frank Zappa sempre defendeu sua liberdade artística, sem nunca se render às pressões do mercado fonográfico.

Nascido no dia 21 de dezembro de 1940, em Baltimore, Maryland, Frank Vicent Zappa era filho de um meteorologista que trabalhava para o exército americano. Aos 10 anos, se mudou com toda a família para Alta Loma, na Califórnia. Lá começou a se interessar por música, tocando primeiro na banda do colégio, de onde foi expulso, e depois como baterista em pequenos grupos formados pelos colegas.

Sua vida mudou aos 14 anos, quando caiu em suas mãos o disco The Complete Works, Vol. 1 do compositor francês Edgard Varèse. Esse álbum, que continha múltiplas experimentações atonais e dissonantes, foi o incentivo que o jovem Zappa precisava. A partir daí, ele passou a se dedicar mais intensamente à música. Nessa época, começou a compor seus primeiros temas, que pouco tinham a ver com rock and roll, estilo que ele só abraçaria mais tarde. Aos 18 anos, Zappa compôs a trilha sonora de dois filmes de baixo orçamento: Run Home Slow, escrito pelo seu professor de inglês, e The World's Greatest Sinner, para o qual contratou uma orquestra de 52 músicos. Com o dinheiro ganho com esses dois trabalhos, ele conseguiu montar um pequeno estúdio de gravação, onde podia dar prosseguimento às suas experimentações sonoras.

Mas Zappa não queria ficar só no estúdio, queria se apresentar para platéias, ter uma resposta mais imediata do efeito que sua música causaria nas pessoas. E, na época, nada melhor do que entrar em um conjunto para conseguir o seu intuito. Em 1963, ele entrou para a banda de rythm and blues The Soul Giants. Em pouco tempo, Zappa já estava liderando a banda e dando seu toque pessoal (e pouco usual) às letras e músicas, bem como ao nome que foi modificado para The Mothers. Em 1965, após assinar com o selo Verve, então pertencente a MGM Records, a banda, pressionada por diretores que não aprovavam o nome, adotou definitivamente o nome The Mothers of Invention.

O primeiro lançamento, Freak Out, só sairia em julho de 1966. Foi o primeiro álbum duplo da história do rock. Continha um primeiro disco em tom de sátira, mais voltado para o rock, e um segundo mais experimental. Gravado no próprio estúdio de Zappa, a princípio não fez muito sucesso nos Estados Unidos, ficando restrito apenas ao meio underground. Só após ser lançado na Inglaterra, e ter se tornado um cult por lá, é que público e crítica norte-americanos começaram a dar a devida atenção ao disco. A música “Return of the Son of Monster Magnet” ocupava um lado inteiro do segundo disco e era uma justa homenagem de Zappa à pessoa que tinha lhe influenciado: Edgard Varèse.

Em 67 é lançado Absolutely Free, segundo trabalho dos Mothers, que teve uma melhor aceitação logo de início, apesar de ser mais experimental. As faixas deste disco são completamente diferentes entre si. A de abertura, “Plastic People”, inclusive, se tornou hino dos estudantes da Tchecoslováquia, que lutavam contra o regime comunista vigente a época no país.

No mesmo ano saiu Lumpy Gravy, primeiro disco solo de Zappa, gravado com orquestra e composto de dois segmentos de 16 minutos, um de cada lado. We´re Only In It For The Money foi lançado em 1968 e é considerado por muitos sua obra-prima, na qual Zappa satiriza a cultura hippie, os beatiniks, a juventude drogada do final dos anos 60 e ataca duramente a família e a sociedade americana, responsabilizando-os pela idiotização da juventude. Nem Sgt. Peppers é poupado. A capa original do disco, uma referência crítica à capa do clássico dos Beatles, foi alterada a pedido do próprio Paul McCartney (que, apesar disso, se dizia influenciado pelo trabalho de Frank Zappa). Também em 68, Zappa e os Mothers dão uma guinada inesperada e lançam o disco Cruising With Ruben & The Jets, com arranjos vocais ao estilo Doo-woop, seqüências de acordes pouco usuais e letras hilárias.

Em junho de 69, sai Uncle Meat, quarto álbum de carreira e segundo duplo dos Mothers, agora rebatizados de Frank Zappa & The Mothers of Invention. O disco flerta com o jazz-rock. Nesse mesmo ano, em outubro, Frank Zappa lança o seu segundo solo, que ia numa direção totalmente oposta a dos anteriores. As composições, em alguns momentos, beiravam o hard-rock em outros, ia fundo na combinação de jazz-rock.
Apesar de aclamado pela crítica, os discos de Zappa não estavam vendendo bem e, em decorrência disso, ele não conseguia agendar muitos shows, o que lhe causava grande frustração. Além disso, também estava infeliz com os músicos que o acompanhavam e até com o público. “Estou cansado de tocar para pessoas que aplaudem pelos motivos errados”, dizia. Em 1970, ele desfez os Mothers, provisoriamente, e passou a excursionar sozinho, o que gerou protestos dos fãs mais radicais que não aceitavam um Frank Zappa em carreira solo.

Ele remontou os Mothers of Invention alguns meses depois, em 1970, com os vocalistas Mark Volman e Howard Kaylan, dos Turtles. Essa formação, que se notabilizou pelos temas mais voltados para a comédia erótica e escatológica (principalmente no álbum Filmore East June 1971), durou pouco tempo, pois, no anos seguinte, em um show no Rainbow Theatre de Londres, Trevor Charles Howell, um fã (?) enlouquecido subiu ao palco e empurrou Zappa para dentro do fosso da orquestra, fazendo com que o músico fraturasse uma perna, tivesse danos na coluna e no crânio e sofresse um esmagamento da laringe (que fez sua voz descer 1/3 de oitava). Foram meses prostrado, primeiro em um hospital, depois em casa. Durante sua recuperação o músico compôs incessantemente, além de montar sua própria gravadora independente (Barking Pumpkin) para poder lançar todo esse material, algo impensável em uma grande gravadora.

Recuperado, Zappa reformulou os Mothers e deu um direcionamento mais pop-rock aos discos seguintes. São dessa época os discos de maior vendagem de toda sua carreira, sendo Over-nite Sensation, de 1973, o campeão. Durante o restante dos anos 70, Zappa foi extremamente prolífico, chegando a lançar cinco discos em um ano. No final da década, o músico atraía um grande número de seguidores que o cultuavam tanto pela qualidade de sua música quanto pelo seu humor ferino e imprevisível.

Já nos anos 80, Zappa ganhou os direitos sobre todos as suas antigas gravações e dedicou boa parte do seu tempo ao relançamento delas, primeiro pelo seu próprio selo e, depois, com o surgimento do CD, pelo selo Rykodisc, pioneiro na nova mídia digital. Zappa ainda catalogou e relançou grande parte de seu material disponível apenas como bootlegs.

Em 1985, Zappa foi uma das principais vozes a se levantar contra o PMRC (Parents’ Music Resource Council), organização liderada por Tipper Gore, esposa do então senador Al Gore, que acusava a indústria fonográfica de expor a juventude, através das letras das músicas, ao sexo, à violência, às drogas e ao álcool. “Não passa de um grupo de donas-de-casa entediadas de Washington”, declarou na época. Zappa acusou o conselho de censura à liberdade de expressão, primeiro em uma carta aberta ao Presidente Ronald Reagan e, depois, numa série de depoimentos perante o comitê do Senado americano. Toda a sua indignação foi registrada no álbum Frank Zappa Meets The Mothers Of Prevention que, inclusive, em sua versão americana traz trechos dos depoimentos entre as músicas.

Três anos mais tarde, em 1988, Zappa foi indicado em duas categorias ao Grammy: melhor álbum de rock instrumental por Jazz From Hell, gravado só com instrumentos eletrônicos, e melhor álbum de montagem de palco por Broadway The Hard Way. Levou o prêmio pelo primeiro, mas não compareceu à cerimônia de entrega, nem aceitou o troféu. Indagado sobre os motivos que o levaram a essa atitude, ele disse: “Eu não tenho dúvidas quanto ao que sinto sobre os Grammys. Tenho certeza que a premiação é picaretagem. Acho muito difícil acreditar que Whitney Houston é a resposta às necessidades da música americana”. Houston era a maior vencedora naquele ano.

Nesse mesmo ano, Zappa partiu para sua última turnê mundial. Ao término dessa série de shows, ele só fez algumas aparições esporádicas, como um concerto na Tchecoslováquia, em 90, convite do então presidente Vaclav Havel (primeiro presidente pós-comunismo), fã desde os tempos de “Plastic People”. No final de 1991, Frank Zappa descobriu que estava com um câncer de próstata, inoperável. O único tratamento possível, a radioterapia, forçou-o a parar com todas as atividades. Muito debilitado, ele nem pôde comparecer ao show-tributo planejado para acontecer em Nova York alguns meses depois.

Nos dois últimos anos de sua vida, ele dedicou-se, incansavelmente, às suas novas composições. Álbuns contendo esse material inédito são lançados até hoje.

Frank Zappa faleceu no dia 4 de dezembro de 1993, apenas alguns dias antes de completar 53 anos. Ele deixou mulher, Gail, quatro filhos (Moon Unit, Dweezil, Ahmet Rodan e Diva) e um legado de mais de 50 lançamentos oficiais. Foi uma das figuras mais importantes de toda a história do rock and roll. Inquieto, transgressor, controverso, inventivo, uma das poucas vozes dissonantes da música americana. Com Zappa não existia, e nem existe, o meio-termo, ou você ama a sua música, ou você, simplesmente, a odeia. É impossível ficar indiferente. Talvez, seja por isso que o seu nome tenha sido rejeitado duas vezes na escolha dos novos integrantes do Rock and Roll Hall of Fame. Uma honra que, provavelmente, ele não gostaria de receber, pois sua arte sempre transcendeu qualquer tipo de rótulo ou limite imposto pela indústria fonográfica.