| DEZ ANOS DA MORTE
DE UM GÊNIO
Vitimado pelo câncer de próstata.
Frank Zappa continua vivo em sua obra, sempre polêmica e irreverente
por Laedson
Moreira Junior (laedsonjr@pop.com.br)

á dez anos, num sábado de dezembro, Frank Zappa sucumbiu
ao câncer de próstata que o atormentou em seus últimos
anos de vida. O mundo da música perdia, então, uma
de suas mais geniais figuras. Controvertido, cínico, mordaz,
irônico, polêmico, inovador, todos esses adjetivos sempre
foram usados para descrevê-lo. E, realmente, ele foi tudo
isso e muito mais. Mas foi, acima de tudo, um grande músico,
apaixonado por sua arte, que nunca se encaixou em nenhum rótulo
ou tendência. Sua música revela influências da
música clássica de gente como Stravinsky, Stockhausen
e Edgard Varèse, bem como do Doo-Woop, do Rock and Roll dos
anos 50 e do Jazz, tudo isso pontuado por uma grande habilidade
no manejo de vários instrumentos, principalmente a guitarra.
“Meu trabalho é extrapolar tudo o que é mais
absurdamente extremo”, costumava dizer.
Dotado de grande inteligência e de uma musicalidade impressionante,
Zappa foi um crítico incansável e contundente, que
usava a sátira e o comentário social contra o conformismo,
a mediocridade e a hipocrisia. O american way of life era um de
seus alvos preferenciais, bem como a Igreja, com sua moral duvidosa,
e o Estado, que eram considerados por ele uma coisa só.
Sua obra continua extremamente atual e dotada de um vigor inacreditável,
feito que só os artistas diferenciados conseguem realizar.
Frank Zappa sempre defendeu sua liberdade artística, sem
nunca se render às pressões do mercado fonográfico.
Nascido no dia 21 de dezembro de 1940, em Baltimore, Maryland,
Frank Vicent Zappa era filho de um meteorologista que trabalhava
para o exército americano. Aos 10 anos, se mudou com toda
a família para Alta Loma, na Califórnia. Lá
começou a se interessar por música, tocando primeiro
na banda do colégio, de onde foi expulso, e depois como baterista
em pequenos grupos formados pelos colegas.
Sua vida mudou aos 14 anos, quando caiu em suas mãos o disco
The Complete Works, Vol. 1 do compositor francês
Edgard Varèse. Esse álbum, que continha múltiplas
experimentações atonais e dissonantes, foi o incentivo
que o jovem Zappa precisava. A partir daí, ele passou a se
dedicar mais intensamente à música. Nessa época,
começou a compor seus primeiros temas, que pouco tinham a
ver com rock and roll, estilo que ele só abraçaria
mais tarde. Aos 18 anos, Zappa compôs a trilha sonora de dois
filmes de baixo orçamento: Run Home Slow,
escrito pelo seu professor de inglês, e The World's
Greatest Sinner, para o qual contratou uma orquestra de
52 músicos. Com o dinheiro ganho com esses dois trabalhos,
ele conseguiu montar um pequeno estúdio de gravação,
onde podia dar prosseguimento às suas experimentações
sonoras.
Mas Zappa não queria ficar só no estúdio,
queria se apresentar para platéias, ter uma resposta mais
imediata do efeito que sua música causaria nas pessoas. E,
na época, nada melhor do que entrar em um conjunto para conseguir
o seu intuito. Em 1963, ele entrou para a banda de rythm and blues
The Soul Giants. Em pouco tempo, Zappa já estava liderando
a banda e dando seu toque pessoal (e pouco usual) às letras
e músicas, bem como ao nome que foi modificado para The Mothers.
Em 1965, após assinar com o selo Verve, então pertencente
a MGM Records, a banda, pressionada por diretores que não
aprovavam o nome, adotou definitivamente o nome The Mothers of Invention.
O primeiro lançamento, Freak Out, só
sairia em julho de 1966. Foi o primeiro álbum duplo da história
do rock. Continha um primeiro disco em tom de sátira, mais
voltado para o rock, e um segundo mais experimental. Gravado no
próprio estúdio de Zappa, a princípio não
fez muito sucesso nos Estados Unidos, ficando restrito apenas ao
meio underground. Só após ser lançado na Inglaterra,
e ter se tornado um cult por lá, é que público
e crítica norte-americanos começaram a dar a devida
atenção ao disco. A música “Return of
the Son of Monster Magnet” ocupava um lado inteiro do segundo
disco e era uma justa homenagem de Zappa à pessoa que tinha
lhe influenciado: Edgard Varèse.
Em 67 é lançado Absolutely Free,
segundo trabalho dos Mothers, que teve uma melhor aceitação
logo de início, apesar de ser mais experimental. As faixas
deste disco são completamente diferentes entre si. A de abertura,
“Plastic People”, inclusive, se tornou hino dos estudantes
da Tchecoslováquia, que lutavam contra o regime comunista
vigente a época no país.
No mesmo ano saiu Lumpy Gravy, primeiro disco
solo de Zappa, gravado com orquestra e composto de dois segmentos
de 16 minutos, um de cada lado. We´re Only In It
For The Money foi lançado em 1968 e é considerado
por muitos sua obra-prima, na qual Zappa satiriza a cultura hippie,
os beatiniks, a juventude drogada do final dos anos 60 e ataca duramente
a família e a sociedade americana, responsabilizando-os pela
idiotização da juventude. Nem Sgt. Peppers
é poupado. A capa original do disco, uma referência
crítica à capa do clássico dos Beatles, foi
alterada a pedido do próprio Paul McCartney (que, apesar
disso, se dizia influenciado pelo trabalho de Frank Zappa). Também
em 68, Zappa e os Mothers dão uma guinada inesperada e lançam
o disco Cruising With Ruben & The Jets, com
arranjos vocais ao estilo Doo-woop, seqüências de acordes
pouco usuais e letras hilárias.
Em
junho de 69, sai Uncle Meat, quarto álbum de carreira
e segundo duplo dos Mothers, agora rebatizados de Frank Zappa &
The Mothers of Invention. O disco flerta com o jazz-rock. Nesse
mesmo ano, em outubro, Frank Zappa lança o seu segundo solo,
que ia numa direção totalmente oposta a dos anteriores.
As composições, em alguns momentos, beiravam o hard-rock
em outros, ia fundo na combinação de jazz-rock.
Apesar de aclamado pela crítica, os discos de Zappa não
estavam vendendo bem e, em decorrência disso, ele não
conseguia agendar muitos shows, o que lhe causava grande frustração.
Além disso, também estava infeliz com os músicos
que o acompanhavam e até com o público. “Estou
cansado de tocar para pessoas que aplaudem pelos motivos errados”,
dizia. Em 1970, ele desfez os Mothers, provisoriamente, e passou
a excursionar sozinho, o que gerou protestos dos fãs mais
radicais que não aceitavam um Frank Zappa em carreira solo.
Ele remontou os Mothers of Invention alguns meses depois, em 1970,
com os vocalistas Mark Volman e Howard Kaylan, dos Turtles. Essa
formação, que se notabilizou pelos temas mais voltados
para a comédia erótica e escatológica (principalmente
no álbum Filmore East June 1971), durou
pouco tempo, pois, no anos seguinte, em um show no Rainbow Theatre
de Londres, Trevor Charles Howell, um fã (?) enlouquecido
subiu ao palco e empurrou Zappa para dentro do fosso da orquestra,
fazendo com que o músico fraturasse uma perna, tivesse danos
na coluna e no crânio e sofresse um esmagamento da laringe
(que fez sua voz descer 1/3 de oitava). Foram meses prostrado, primeiro
em um hospital, depois em casa. Durante sua recuperação
o músico compôs incessantemente, além de montar
sua própria gravadora independente (Barking Pumpkin) para
poder lançar todo esse material, algo impensável em
uma grande gravadora.
Recuperado, Zappa reformulou os Mothers e deu um direcionamento
mais pop-rock aos discos seguintes. São dessa época
os discos de maior vendagem de toda sua carreira, sendo Over-nite
Sensation, de 1973, o campeão. Durante o restante
dos anos 70, Zappa foi extremamente prolífico, chegando a
lançar cinco discos em um ano. No final da década,
o músico atraía um grande número de seguidores
que o cultuavam tanto pela qualidade de sua música quanto
pelo seu humor ferino e imprevisível.
Já nos anos 80, Zappa ganhou os direitos sobre todos as
suas antigas gravações e dedicou boa parte do seu
tempo ao relançamento delas, primeiro pelo seu próprio
selo e, depois, com o surgimento do CD, pelo selo Rykodisc, pioneiro
na nova mídia digital. Zappa ainda catalogou e relançou
grande parte de seu material disponível apenas como bootlegs.
Em 1985, Zappa foi uma das principais vozes a se levantar contra
o PMRC (Parents’ Music Resource Council), organização
liderada por Tipper Gore, esposa do então senador Al Gore,
que acusava a indústria fonográfica de expor a juventude,
através das letras das músicas, ao sexo, à
violência, às drogas e ao álcool. “Não
passa de um grupo de donas-de-casa entediadas de Washington”,
declarou na época. Zappa acusou o conselho de censura à
liberdade de expressão, primeiro em uma carta aberta ao Presidente
Ronald Reagan e, depois, numa série de depoimentos perante
o comitê do Senado americano. Toda a sua indignação
foi registrada no álbum Frank Zappa Meets The Mothers
Of Prevention que, inclusive, em sua versão americana
traz trechos dos depoimentos entre as músicas.
Três anos mais tarde, em 1988, Zappa foi indicado em duas
categorias ao Grammy: melhor álbum de rock instrumental por
Jazz From Hell, gravado só com instrumentos
eletrônicos, e melhor álbum de montagem de palco por
Broadway The Hard Way. Levou o prêmio pelo
primeiro, mas não compareceu à cerimônia de
entrega, nem aceitou o troféu. Indagado sobre os motivos
que o levaram a essa atitude, ele disse: “Eu não tenho
dúvidas quanto ao que sinto sobre os Grammys. Tenho certeza
que a premiação é picaretagem. Acho muito difícil
acreditar que Whitney Houston é a resposta às necessidades
da música americana”. Houston era a maior vencedora
naquele ano.
Nesse
mesmo ano, Zappa partiu para sua última turnê mundial.
Ao término dessa série de shows, ele só fez
algumas aparições esporádicas, como um concerto
na Tchecoslováquia, em 90, convite do então presidente
Vaclav Havel (primeiro presidente pós-comunismo), fã
desde os tempos de “Plastic People”. No final de 1991,
Frank Zappa descobriu que estava com um câncer de próstata,
inoperável. O único tratamento possível, a
radioterapia, forçou-o a parar com todas as atividades. Muito
debilitado, ele nem pôde comparecer ao show-tributo planejado
para acontecer em Nova York alguns meses depois.
Nos dois últimos anos de sua vida, ele dedicou-se, incansavelmente,
às suas novas composições. Álbuns contendo
esse material inédito são lançados até
hoje.
Frank Zappa faleceu no dia 4 de dezembro de 1993, apenas alguns
dias antes de completar 53 anos. Ele deixou mulher, Gail, quatro
filhos (Moon Unit, Dweezil, Ahmet Rodan e Diva) e um legado de mais
de 50 lançamentos oficiais. Foi uma das figuras mais importantes
de toda a história do rock and roll. Inquieto, transgressor,
controverso, inventivo, uma das poucas vozes dissonantes da música
americana. Com Zappa não existia, e nem existe, o meio-termo,
ou você ama a sua música, ou você, simplesmente,
a odeia. É impossível ficar indiferente. Talvez, seja
por isso que o seu nome tenha sido rejeitado duas vezes na escolha
dos novos integrantes do Rock and Roll Hall of Fame. Uma honra que,
provavelmente, ele não gostaria de receber, pois sua arte
sempre transcendeu qualquer tipo de rótulo ou limite imposto
pela indústria fonográfica. 
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