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12 a 25 de janeiro de 2004


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LET IT BE PELADÃO
Relançamento de álbum clássico dos Beatles sem o verniz de Phil Spector é apenas um presente tardio aos puristas do quarteto de Liverpool

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

  álbum Let it Be, o “canto do cisne” dos Beatles, foi lançado em oito de maio de 1970 e, desde então, se tornou alvo de polêmica, nem tanto pela qualidade das composições (excelentes), mas sim pela impiedosa “pasteurização” (execrável) que as músicas sofreram nas mãos do produtor Phil Spector, encarregado de transformar aqueles rolos com horas de gravação com John, Paul, George, Ringo e a participação especial de Billy Preston num produto aceitável (afinal, a intenção foi boa), tanto pelos fãs da banda quanto da crítica. A banda, que havia trabalhado inicialmente com George Martin, não participou da mixagem do disco. A idéia de criar um projeto que os levasse de volta ao começo da carreira, cantando velhos clássicos do rock, acabou não dando certo e foi rejeitada pelo grupo.

Daquelas sessões, gravadas durante todo o mês de janeiro de 1969, alguma coisa foi aproveitada em compacto, e o resto foi para a gaveta. Let it Be Naked, como o nome diz, desfaz a nu a arte do quarteto inglês da sebosa mortalha sonora que Spector as outrora envolveu nas doze músicas que compõem o álbum original.

Com o auxílio de uma mesa (no outro estúdio, as músicas ficaram registradas em mono do copião de um filme que seria apresentado pela televisão via satélite para todo o mundo), as gravações em Savile Row, no porão da empresa, seriam “para valer”, apesar de serem registradas todas ao vivo. À medida que o filme desandava, a idéia da TV caiu. Mesmo assim, as filmagens prosseguiam, e o documentário ia sendo registrado, da maneira mais castiça possível, sem overdubs, mixagens ou edição de canções. Os Beatles queriam tudo gravado, com false starts, contagem, enfim, com aqueles “erros” de toda gravação feita ao sabor do vento.

Na Apple, as gravações realizadas pela EMI ocorreram entre 22 e 31 de janeiro de 1969, totalizando ao todo, dez sessões, produzidas por George Martin. Cabe ressaltar que a maioria dos infindáveis bootlegs com canções dessa fase dos Beatles são oriundos do copião (a cópia com a gravação principal) do filme Let It Be. Todos os fonogramas que constam no Anthology 3 (1996) foram registrados no selo da banda.

EXUMAÇÃO

Entre as canções gravadas em Savile Row, estão as do álbum Let it Be e ensaios de músicas que seriam retrabalhadas para o Abbey Road, que seria gravado durante o segundo semestre de 1969. Numa quinta, 30 de janeiro, os Beatles realizaram o “concerto do telhado”, que aparece no fim do filme. Foram apenas dez músicas, até que a polícia aparecesse para mandar abaixar o som e acabar com a baderna. Das sessões, vieram à luz “Get Back”, “Don't Let Me Down”, que saíram em compacto em abril daquele ano, e o single “Let It Be”, lançada em março, com “You Know My Name” como lado B. O resto do material dormiu por meses, até ser exumado por Phil Spector, pelas mãos de George e John, em 1970. Spector era venerado por eles desde os tempos da Motown. A convocação era para refazer o malfadado projeto Get Back com vistas a ser a trilha sonora do filme, que seria lançado naquele ano. A idéia de retorno às origens fez até com que eles cogitassem uma capa que fosse paródia do primeiro LP da banda.

A maior mudança que o novo produtor pretendia fazer era pasteurizar o som naturalmente tosco daquele clima ao vivo, editando as músicas, tirando todo o eco original e enfeixando as canções com uma “parede sonora” (o controverso “wall of sound”, artifício para enganar os ouvidos mais apurados). Umas eram expandidas em tempo através de mixagem, outras ganhavam acréscimos, como orquestra e coro, e pelo menos uma foi transformada em vinheta - “Dig It”, que originalmente era uma jam session bem humorada, com John nos vocais, com uma duração de quinze (!) minutos. O resultado, todo mundo conhece. O lançamento do disco, por sua vez, foi dividindo os fãs dos Beatles a partir de então - sem contar com a rejeição, por parte de Ringo e Paul, que não participaram do processo e negaram com veemência a paternidade daquele patinho feio.

Já a patrulha dos puristas e o exército triunfal de beatlemaníacos xiitas repudiaram (e continuarão repudiando até sob tortura) as modificações de 1970. Os menos entendidos gostam delas como ficaram. O próprio Paul McCartney, que foi um dos que detestaram o trabalho de Spector em pasteurizar as sessões, chegou a tocar ao vivo “The Long And Winding Road” com o mesmo arranjo de orquestra do disco, nas suas turnês pelos anos 90 - sinal de que excluir o arranjo de orquestra seria pagar uma “traição” por outra. Se bem que muitos fãs chegaram até a recusar o Let It Be em formato CD, ficando com o vinilzão como lembrança na estante de casa, e optando por versões bootleg do álbum em formato digital para escutar.

GUITARRADA

O que seria algo alegre e até nostálgico se transformou num inferno. Naquele começo de ano, os Beatles entraram no Twickham Studios para registrar o disco que, de quebra, seria o último filme acertado com a United Artists pelo então empresário da banda. O longa, que foi concebido como um documentário, entrou para a história como um retrato sem retoque daquele estado de espírito que os envolvia. Incerteza quanto aos negócios, disputas entre si, brigas constantes, problemas na gestão da Apple, nada passou desapercebido às lentes das câmeras. Em uma semana, George começou a fazer gazeta, optando por uma turnê com Eric Clapton. Antes disso, Paul havia criticado a forma de tocar de Harrison (que, apesar de calmo, parecia querer dar uma guitarrada na cabeça do Paul) aos olhos estupefatos de toda a equipe. A frieza da discussão, apesar de superada (é lógico), impressiona até hoje.

Com a rusga, Paul e Ringo se uniram, como se tentassem levar a coisa de qualquer jeito. Mas o baterista não tinha problemas com relação à George, apesar de ter se tornado um tanto burocrático com seu modo de tocar. Em alguns momentos, Paul, George e Ringo ficavam à parte no ensaio, enquanto John estava monopolizado por Yoko Ono. O ar se tornou irrespirável o suficiente em Twickham, até que optaram pelo estúdio da Apple. Somado à presença de Billy Preston, o clima viabilizou um antológico (e patético) happening no telhado, que virou caso de polícia. O projeto de reunir os quatro juntos e ao vivo, em uma “volta às raízes” dos covers de rock, prosperou, pelo menos em parte. Com o tempo, eles preferiram trabalhar as novas canções, a fim de lançá-las, imediatamente. O filme teria de sair, já que estava acertado em contrato. O disco seria mera conseqüência, e Phil Spector fez apenas um trabalho de “fechamento”, viabilizando as canções como um disco qualquer.

NADA DE NOVO

Ou seja, não haveria motivo para preservar qualquer tradicionalismo ou fetiche purista, que recrudesceram com o tempo, por parte dos fãs e dos documentaristas da história musical dos Beatles. O que passou desapercebido por alguns (como a “parede sonora” nas faixas) não foi aceito por muitos. Nesse sentido, a “despectorização” em Let It Be Naked é um acerto de contas com os descontentes, mas não teria condições de suplantar o original, que é datado e, bem ou mal, faz parte da discografia original. Desnudadas, as faixas do disco não mudam muito, mas são mais coerentes. Infelizmente, a presente versão sem a parede sonora não acrescenta em nada em termos de música.

Em “Two of Us”, “Dig a Pony”, “One After 909”, “Get Back”, “For You Blue” e “I've Got a Feeling”, por exemplo, a mudança é pouco perceptível, já que elas foram apenas editadas no começo e no fim e receberam a parede sonora. Porém, salta aos olhos a sutileza dos arranjos que, apesar de serem as mesmas cantigas, mostram uma sonoridade bem mais leve, diáfana como um suspiro, sem os graves equalizados do disco de 1970. “I Me Mine” (gravada um ano depois, sem John, e cuja primeira versão consta no Anthology 3), “Let It Be” (em mixagem nova, a voz do Paul aparece mais próxima e vocais diferentes do original) e “The Long And Winding Road” perderam o arranjo orquestral e o coral. “Across The Universe” (também anacrônica, foi gravada em janeiro do ano anterior) continua mais lenta do que a original, que é a mesma do Past Masters Volume 2, mas sem os instrumentos indianos e o backing vocal de duas coristas (uma delas é a brasileira Lizzie Bravo). Ou seja, nada de novo sob o sol.

Além das mesmas canções de sempre, o que há de novo é um CD com bônus track, com gravações da Apple. A melhor parte destas gravações foi incluída (também sem a influência nefasta de Spector) no Anthology 3, com canções inéditas. No final das contas, a idéia original - o Get Back com a paródia da capa do Please Please Me, de 1963, ficou de lado, em favor de um lançamento que revisita Let It Be mas não retoma o projeto concebido antes das gravações.

Além disso, o “grosso” do material dos Beatles daquele período não foi desencavado: o áudio de noventa horas de filmagem do copião do filme, que circula há mais de trinta anos em álbuns piratas em todo o mundo (raríssimos, alguns se tornariam verdadeiros clássicos “piratas” daquelas sessões, lançados apenas em vinil, como Sweet Apple Trax, The Black Album e Behind Closed Doors) e que revelam muita surpresa, como uma versão de “A Quick One (While He's Away)”, do The Who (impressionante!), com John, Ringo e George, “Too Bad About Sorrows”, “A Fool Like Me” e “You Win Again” - todas oriundas do famoso copião do filme. Porém essas canções, infelizmente, vão ficar mais algum tempo na velha gaveta...