| LET IT BE
PELADÃO
Relançamento de álbum
clássico dos Beatles sem o verniz de Phil Spector é
apenas um presente tardio aos puristas do quarteto de Liverpool
por Marcelo
Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

álbum Let it Be, o “canto do cisne”
dos Beatles, foi lançado em oito de maio de 1970 e, desde
então, se tornou alvo de polêmica, nem tanto pela qualidade
das composições (excelentes), mas sim pela impiedosa
“pasteurização” (execrável) que
as músicas sofreram nas mãos do produtor Phil Spector,
encarregado de transformar aqueles rolos com horas de gravação
com John, Paul, George, Ringo e a participação especial
de Billy Preston num produto aceitável (afinal, a intenção
foi boa), tanto pelos fãs da banda quanto da crítica.
A banda, que havia trabalhado inicialmente com George Martin, não
participou da mixagem do disco. A idéia de criar um projeto
que os levasse de volta ao começo da carreira, cantando velhos
clássicos do rock, acabou não dando certo e foi rejeitada
pelo grupo.
Daquelas sessões, gravadas durante todo o mês de janeiro
de 1969, alguma coisa foi aproveitada em compacto, e o resto foi
para a gaveta. Let it Be Naked, como o nome diz,
desfaz a nu a arte do quarteto inglês da sebosa mortalha sonora
que Spector as outrora envolveu nas doze músicas que compõem
o álbum original.
Com o auxílio de uma mesa (no outro estúdio, as músicas
ficaram registradas em mono do copião de um filme que seria
apresentado pela televisão via satélite para todo
o mundo), as gravações em Savile Row, no porão
da empresa, seriam “para valer”, apesar de serem registradas
todas ao vivo. À medida que o filme desandava, a idéia
da TV caiu. Mesmo assim, as filmagens prosseguiam, e o documentário
ia sendo registrado, da maneira mais castiça possível,
sem overdubs, mixagens ou edição de canções.
Os Beatles queriam tudo gravado, com false starts, contagem, enfim,
com aqueles “erros” de toda gravação feita
ao sabor do vento.
Na Apple, as gravações realizadas pela EMI ocorreram
entre 22 e 31 de janeiro de 1969, totalizando ao todo, dez sessões,
produzidas por George Martin. Cabe ressaltar que a maioria dos infindáveis
bootlegs com canções dessa fase dos Beatles são
oriundos do copião (a cópia com a gravação
principal) do filme Let It Be. Todos os fonogramas
que constam no Anthology 3 (1996) foram registrados
no selo da banda.
EXUMAÇÃO
Entre as canções gravadas em Savile Row, estão
as do álbum Let it Be e ensaios de músicas
que seriam retrabalhadas para o Abbey Road, que
seria gravado durante o segundo semestre de 1969. Numa quinta, 30
de janeiro, os Beatles realizaram o “concerto do telhado”,
que aparece no fim do filme. Foram apenas dez músicas, até
que a polícia aparecesse para mandar abaixar o som e acabar
com a baderna. Das sessões, vieram à luz “Get
Back”, “Don't Let Me Down”, que saíram
em compacto em abril daquele ano, e o single “Let It Be”,
lançada em março, com “You Know My Name”
como lado B. O resto do material dormiu por meses, até ser
exumado por Phil Spector, pelas mãos de George e John, em
1970. Spector era venerado por eles desde os tempos da Motown. A
convocação era para refazer o malfadado projeto Get
Back com vistas a ser a trilha sonora do filme, que seria
lançado naquele ano. A idéia de retorno às
origens fez até com que eles cogitassem uma capa que fosse
paródia do primeiro LP da banda.
A
maior mudança que o novo produtor pretendia fazer era pasteurizar
o som naturalmente tosco daquele clima ao vivo, editando as músicas,
tirando todo o eco original e enfeixando as canções
com uma “parede sonora” (o controverso “wall of
sound”, artifício para enganar os ouvidos mais apurados).
Umas eram expandidas em tempo através de mixagem, outras
ganhavam acréscimos, como orquestra e coro, e pelo menos
uma foi transformada em vinheta - “Dig It”, que originalmente
era uma jam session bem humorada, com John nos vocais, com uma duração
de quinze (!) minutos. O resultado, todo mundo conhece. O lançamento
do disco, por sua vez, foi dividindo os fãs dos Beatles a
partir de então - sem contar com a rejeição,
por parte de Ringo e Paul, que não participaram do processo
e negaram com veemência a paternidade daquele patinho feio.
Já a patrulha dos puristas e o exército triunfal
de beatlemaníacos xiitas repudiaram (e continuarão
repudiando até sob tortura) as modificações
de 1970. Os menos entendidos gostam delas como ficaram. O próprio
Paul McCartney, que foi um dos que detestaram o trabalho de Spector
em pasteurizar as sessões, chegou a tocar ao vivo “The
Long And Winding Road” com o mesmo arranjo de orquestra do
disco, nas suas turnês pelos anos 90 - sinal de que excluir
o arranjo de orquestra seria pagar uma “traição”
por outra. Se bem que muitos fãs chegaram até a recusar
o Let It Be em formato CD, ficando com o vinilzão
como lembrança na estante de casa, e optando por versões
bootleg do álbum em formato digital para escutar.
GUITARRADA
O que seria algo alegre e até nostálgico se transformou
num inferno. Naquele começo de ano, os Beatles entraram no
Twickham Studios para registrar o disco que, de quebra, seria o
último filme acertado com a United Artists pelo então
empresário da banda. O longa, que foi concebido como um documentário,
entrou para a história como um retrato sem retoque daquele
estado de espírito que os envolvia. Incerteza quanto aos
negócios, disputas entre si, brigas constantes, problemas
na gestão da Apple, nada passou desapercebido às lentes
das câmeras. Em uma semana, George começou a fazer
gazeta, optando por uma turnê com Eric Clapton. Antes disso,
Paul havia criticado a forma de tocar de Harrison (que, apesar de
calmo, parecia querer dar uma guitarrada na cabeça do Paul)
aos olhos estupefatos de toda a equipe. A frieza da discussão,
apesar de superada (é lógico), impressiona até
hoje.
Com a rusga, Paul e Ringo se uniram, como se tentassem levar a
coisa de qualquer jeito. Mas o baterista não tinha problemas
com relação à George, apesar de ter se tornado
um tanto burocrático com seu modo de tocar. Em alguns momentos,
Paul, George e Ringo ficavam à parte no ensaio, enquanto
John estava monopolizado por Yoko Ono. O ar se tornou irrespirável
o suficiente em Twickham, até que optaram pelo estúdio
da Apple. Somado à presença de Billy Preston, o clima
viabilizou um antológico (e patético) happening no
telhado, que virou caso de polícia. O projeto de reunir os
quatro juntos e ao vivo, em uma “volta às raízes”
dos covers de rock, prosperou, pelo menos em parte. Com o tempo,
eles preferiram trabalhar as novas canções, a fim
de lançá-las, imediatamente. O filme teria de sair,
já que estava acertado em contrato. O disco seria mera conseqüência,
e Phil Spector fez apenas um trabalho de “fechamento”,
viabilizando as canções como um disco qualquer.
NADA
DE NOVO
Ou seja, não haveria motivo para preservar qualquer tradicionalismo
ou fetiche purista, que recrudesceram com o tempo, por parte dos
fãs e dos documentaristas da história musical dos
Beatles. O que passou desapercebido por alguns (como a “parede
sonora” nas faixas) não foi aceito por muitos. Nesse
sentido, a “despectorização” em Let
It Be Naked é um acerto de contas com os descontentes,
mas não teria condições de suplantar o original,
que é datado e, bem ou mal, faz parte da discografia original.
Desnudadas, as faixas do disco não mudam muito, mas são
mais coerentes. Infelizmente, a presente versão sem a parede
sonora não acrescenta em nada em termos de música.
Em “Two of Us”, “Dig a Pony”, “One
After 909”, “Get Back”, “For You Blue”
e “I've Got a Feeling”, por exemplo, a mudança
é pouco perceptível, já que elas foram apenas
editadas no começo e no fim e receberam a parede sonora.
Porém, salta aos olhos a sutileza dos arranjos que, apesar
de serem as mesmas cantigas, mostram uma sonoridade bem mais leve,
diáfana como um suspiro, sem os graves equalizados do disco
de 1970. “I Me Mine” (gravada um ano depois, sem John,
e cuja primeira versão consta no Anthology 3),
“Let It Be” (em mixagem nova, a voz do Paul aparece
mais próxima e vocais diferentes do original) e “The
Long And Winding Road” perderam o arranjo orquestral e o coral.
“Across The Universe” (também anacrônica,
foi gravada em janeiro do ano anterior) continua mais lenta do que
a original, que é a mesma do Past Masters Volume
2, mas sem os instrumentos indianos e o backing vocal
de duas coristas (uma delas é a brasileira Lizzie Bravo).
Ou seja, nada de novo sob o sol.
Além das mesmas canções de sempre, o que há
de novo é um CD com bônus track, com gravações
da Apple. A melhor parte destas gravações foi incluída
(também sem a influência nefasta de Spector) no Anthology
3, com canções inéditas. No final
das contas, a idéia original - o Get Back
com a paródia da capa do Please Please Me,
de 1963, ficou de lado, em favor de um lançamento que revisita
Let It Be mas não retoma o projeto concebido
antes das gravações.
Além disso, o “grosso” do material dos Beatles
daquele período não foi desencavado: o áudio
de noventa horas de filmagem do copião do filme, que circula
há mais de trinta anos em álbuns piratas em todo o
mundo (raríssimos, alguns se tornariam verdadeiros clássicos
“piratas” daquelas sessões, lançados apenas
em vinil, como Sweet Apple Trax, The
Black Album e Behind Closed Doors)
e que revelam muita surpresa, como uma versão de “A
Quick One (While He's Away)”, do The Who (impressionante!),
com John, Ringo e George, “Too Bad About Sorrows”, “A
Fool Like Me” e “You Win Again” - todas oriundas
do famoso copião do filme. Porém essas canções,
infelizmente, vão ficar mais algum tempo na velha gaveta...

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