equipe discussao anteriores
12 a 25 de janeiro de 2004


Picosearch

VELHO LOBO
O veterano Clint Eastwood prova que ainda está em boa forma com o ótimo Sobre Meninos e Lobos

por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

epois de uma série de filmes fracos e de pouco repercussão (Dívida de Sangue, Crime Verdadeiro, Poder Absoluto, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal), o diretor/astro Clint Eastwood volta à tona com Sobre Meninos e Lobos (Mystic River), suspense bastante elogiado no Festival de Cannes do ano passado e forte concorrente às principais estatuetas do próximo Oscar. Adaptado de um bestseller homônimo de Dennis Lehane, a produção lembra um pouco outros filmes, mas ainda assim mantém uma certa originalidade.

De Sleepers - A Vingança Adormecida, suspense que trazia no elenco uma trupe de peso liderada por Robert De Niro, Dustin Hoffman, Brad Pitt e Kevin Bancon, Sobre Meninos e Lobos "copia" a história de três amigos de infância que, em virtude de um acontecimento trágico, vêem suas vidas mudarem radicalmente, até que uma nova desgraça os reúne. De Entre Quadro Paredes e Acerto de Contas, temos o pai em busca de vingança pelo assassinato do filho. Mas, se, a princípio, o filme parece mais uma daquelas produções policiais recheadas de clichês, logo esse impressão se esvai, principalmente pela direção enxuta de Eastwood e pela competência do elenco.

Jimmy, Sean e Dave são três amigos de bairro que sofrem um grande trauma na infância quando o último deles é levado por dois homens e desaparece por quatro dias. Passados trinta anos, Jimmy (Sean Penn) é um ex-presidiário duro e dono de um mercadinho; Sean (Kevin Bacon) virou um detetive a serviço do FBI; e Dave (Tim Robbins) é um sujeito atormentado pelo passado. O assassinato da filha de Jimmy reúne os três amigos novamente, todos em posições ingratas na trama. Jimmy é o pai desolado que revela não ser tão durão assim. Sean volta ao bairro de infância para investigar o assassinato. Já Dave acaba se tornando o principal suspeito ao chegar em casa com as mãos sujas de sangue justo na noite do crime. A partir daí, Eastwood (responsável também pela bela trilha sonora) deixa a história e as personagens fluírem de modo natural, sem grandes interferência na narrativa. E essa é a grande virtude do filme, já que em determinados momentos o roteiro peca por adotar uma postura e mudá-la logo em seguida.

Um exemplo é a própria identidade do assassino (que não é nenhuma grande surpresa) e o motivo que o levou a cometer o tal ato. A princípio, o culpado tem até uma razão "válida", mas ela é deixada de lado e o espectador fica a ver navios. O drama pessoal de Sean, abandonado pela esposa grávida que lhe telefona todos os dias, mas não diz uma palavra, também não convence. Ainda mais em meio a outras tramas muito mais interessantes e relevantes para o desenrolar da história. Caso de Celeste, esposa de Dave, que passa a ter medo do marido e acreditar que ele é o assassino da garota. E é em virtude do erro de julgamento de Celeste (muito bem interpretada pela oscarizada Marcia Gay Harden) que Sobre Meninos e Lobos toma novos rumos e foge do típico final feliz hollywoodiano.

Mas não é somente Marcia Gay Harden que dá um show de interpretação. Sean Penn prova mais uma vez ser um dos melhores atores de sua geração. Seu Jimmy é ora contido, ora duro, ora sensível, seja quando encara sua vingança de frente ou quando está preparando o funeral da filha. Tim Robbins também surpreende ao fugir do estereótipo de sujeito arrogante que está acostumado (Bob Roberts e Ameaça Virtual), compondo um personagem que, mesmo frágil, é bem mais esperta do que aparenta. Já Kevin Bacon prova ser um bom ator geralmente mal aproveitado. Sobre Meninos e Lobos ainda conta com pequenas participações de Laura Linney (que se revela bem sinistra) e Laurence Fishburne (que, para a sorte do público, prova que Morpheus é coisa do passado).

No final das contas, Sobre Meninos e Lobos pode não ser uma obra-prima do suspense, mas mesmo com alguns deslizes (o epílogo poderia muito bem ser dispensado, já que tira grande parte do impacto do filme) foge da obviedade. De quebra, nos brinda com interpretações acima da média e com uma direção segura do velho lobo Clint Eastwood.