| VELHO LOBO
O veterano Clint Eastwood prova que
ainda está em boa forma com o ótimo Sobre
Meninos e Lobos
por Fábio
Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

epois de uma série de filmes fracos e de pouco repercussão
(Dívida de Sangue, Crime Verdadeiro, Poder
Absoluto, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal), o diretor/astro
Clint Eastwood volta à tona com Sobre Meninos e Lobos
(Mystic River), suspense bastante elogiado no Festival de
Cannes do ano passado e forte concorrente às principais estatuetas
do próximo Oscar. Adaptado de um bestseller homônimo
de Dennis Lehane, a produção lembra um pouco outros
filmes, mas ainda assim mantém uma certa originalidade.
De Sleepers - A Vingança Adormecida,
suspense que trazia no elenco uma trupe de peso liderada por Robert
De Niro, Dustin Hoffman, Brad Pitt e Kevin Bancon, Sobre
Meninos e Lobos "copia" a história de
três amigos de infância que, em virtude de um acontecimento
trágico, vêem suas vidas mudarem radicalmente, até
que uma nova desgraça os reúne. De Entre
Quadro Paredes e Acerto de Contas,
temos o pai em busca de vingança pelo assassinato do filho.
Mas, se, a princípio, o filme parece mais uma daquelas produções
policiais recheadas de clichês, logo esse impressão
se esvai, principalmente pela direção enxuta de Eastwood
e pela competência do elenco.
Jimmy,
Sean e Dave são três amigos de bairro que sofrem um
grande trauma na infância quando o último deles é
levado por dois homens e desaparece por quatro dias. Passados trinta
anos, Jimmy (Sean Penn) é um ex-presidiário duro e
dono de um mercadinho; Sean (Kevin Bacon) virou um detetive a serviço
do FBI; e Dave (Tim Robbins) é um sujeito atormentado pelo
passado. O assassinato da filha de Jimmy reúne os três
amigos novamente, todos em posições ingratas na trama.
Jimmy é o pai desolado que revela não ser tão
durão assim. Sean volta ao bairro de infância para
investigar o assassinato. Já Dave acaba se tornando o principal
suspeito ao chegar em casa com as mãos sujas de sangue justo
na noite do crime. A partir daí, Eastwood (responsável
também pela bela trilha sonora) deixa a história e
as personagens fluírem de modo natural, sem grandes interferência
na narrativa. E essa é a grande virtude do filme, já
que em determinados momentos o roteiro peca por adotar uma postura
e mudá-la logo em seguida.
Um exemplo é a própria identidade do assassino (que
não é nenhuma grande surpresa) e o motivo que o levou
a cometer o tal ato. A princípio, o culpado tem até
uma razão "válida", mas ela é deixada
de lado e o espectador fica a ver navios. O drama pessoal de Sean,
abandonado pela esposa grávida que lhe telefona todos os
dias, mas não diz uma palavra, também não convence.
Ainda mais em meio a outras tramas muito mais interessantes e relevantes
para o desenrolar da história. Caso de Celeste, esposa de
Dave, que passa a ter medo do marido e acreditar que ele é
o assassino da garota. E é em virtude do erro de julgamento
de Celeste (muito bem interpretada pela oscarizada Marcia Gay Harden)
que Sobre Meninos e Lobos toma novos rumos e
foge do típico final feliz hollywoodiano.
Mas
não é somente Marcia Gay Harden que dá um show
de interpretação. Sean Penn prova mais uma vez ser
um dos melhores atores de sua geração. Seu Jimmy é
ora contido, ora duro, ora sensível, seja quando encara sua
vingança de frente ou quando está preparando o funeral
da filha. Tim Robbins também surpreende ao fugir do estereótipo
de sujeito arrogante que está acostumado (Bob Roberts
e Ameaça Virtual), compondo um personagem que, mesmo
frágil, é bem mais esperta do que aparenta. Já
Kevin Bacon prova ser um bom ator geralmente mal aproveitado. Sobre
Meninos e Lobos ainda conta com pequenas participações
de Laura Linney (que se revela bem sinistra) e Laurence Fishburne
(que, para a sorte do público, prova que Morpheus é
coisa do passado).
No final das contas, Sobre Meninos e Lobos pode
não ser uma obra-prima do suspense, mas mesmo com alguns
deslizes (o epílogo poderia muito bem ser dispensado, já
que tira grande parte do impacto do filme) foge da obviedade. De
quebra, nos brinda com interpretações acima da média
e com uma direção segura do velho lobo Clint Eastwood.

|