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26 de janeiro a 8 de fevereiro de 2004

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JOGA PEDRA NA NICOLE, JOGA BOSTA NA NICOLE…
… ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir. Nicole Kidman come o pão que Lars Von Trier amassou em Dogville

por Fernando de Castro Américo (fercastro@netcabo.pt)

á algo de podre no reino da Dinamarca? Se tomarmos como referência os filmes de Lars Von Trier, definitivamente, a Dinamarca deve ser um lugar muito estranho, onde as prostitutas falam com Deus, os cegos dançam como Fred Astaire e as mulheres sofrem mais do que cachorros. Mas para o próprio Lars Von Trier, a equação deve ser invertida: estranhos são os outros, que aceitam viver num mundo guiado por este rei louco chamado Bush II, o Terrível. Com Dogville, Von Trier quer mostrar que há algo de podre no reino da América.

E esta podridão pode ser verificada até numa escala mínima, numa pequena cidade perdida nos confins da América profunda, durante a Grande Depressão. Como uma cidadezinha qualquer dos Estados Unidos, Dogville é um lugar onde nada acontece, onde todos sabem da vida de todos, e onde os segredos, se eles existem, ficam entre quatro paredes. Mas basta que um elemento saia desta rotina, e que uma novidade apareça, para que os habitantes deixem cair a máscara da boa-vizinhança para revelar toda a sua crueldade e confirmar a máxima de John Hobbes: o homem é o lobo (ou, no caso de Dogville, o cão) do homem.

Em A Sombra de uma Dúvida, a corrosiva visão de Hitchcock sobre o “american way of life”, o assassino que invade a vida de uma pacata família americana justifica seus atos dizendo que “o mundo é um chiqueiro: se tirarmos as fachadas das casas, veremos os porcos se refestelando na lama”. É exatamente isto que Trier faz: ele retira as paredes e portas desta América em miniatura, e o que vemos não é nada agradável. A técnica de “afastamento” de Bertold Brecht é levada ao extremo em Dogville: o diretor derruba não só a “quarta parede” como todas elas, a caracterização e tudo o que for supérfluo para contar a história. Dogville, a cidade, não passa de um cenário em negro, marcado no chão com giz, onde se lê “Casa dos Henson”, “Casa dos Edison”, “Elm Street”, e onde, por incrível que possa parecer, o único cachorro desta “Vila do Cão” não passa de um desenho no pavimento. De real, apenas seu latido.

Numa primeira análise, esta abordagem escolhida por Trier se encaixa nos princípios do Dogma 95, movimento estético iniciado por ele, Thomas Vinterberg e outros cineastas: poucas locações, luz natural, temas atuais, etc. Mas o próprio Trier já tinha traído o movimento com Dançando no Escuro, onde filmava os sonhos de Björk com mais de 100 câmeras. Aqui, o cenário nu não é economia, nem cinema-guerrilha: é uma maneira de concentrar a ação, de fazer sobressair da história apenas o essencial, e também uma suprema ironia. Lars Von Trier nos dá o olhar de Deus, como se pudéssemos ver lado a lado o horrível e o sublime, o proibido e o inocente, o sexo e a missa, tudo ao mesmo tempo, separados por nada mais que as nossas próprias convenções morais.

A referência divina não é só estética: algumas análises de Dogville enxergam a trajetória de Nicole Kidman (que no filme se chama “Grace”) como a trajetória de uma “Messias”, uma “enviada”, que “purifica” a cidade e seus habitantes através de seu sofrimento. E se existe alguém que gosta de fazer as mulheres sofrerem no cinema, esse alguém é Lars Von Trier, uma espécie de “Nelson Rodrigues” louro, alto e nórdico. Afinal, na obra do dinamarquês, nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais, aquelas com quem o espectador vai se identificar: as heroínas de Trier, macias e dóceis. As Genis do hemisfério norte.

Realmente, ao assistir Dogville, lembramos da história de Geni, aquela do Zeppelin, que Chico Buarque imortalizou na Ópera do Malandro. Uma pesquisa no site oficial confirma: uma das fontes de inspiração de Trier foi a canção “Piraten Jenny”, da Ópera dos Três Vinténs, musical de Brecht e Kurt Weil que também foi o ponto de partida para Chico Buarque.

Nicole Kidman se junta a Emily Watson e Björk no panteão das vítimas de Trier. Sua personagem, Grace, chega à cidadezinha fugindo de algo ou alguém. Ela é acolhida por Tom Edison, o intelectual de Dogville, o único que não se conforma com a pasmaceira do lugarejo e anseia por ventos de mudança. Mas a comunidade é avessa a estranhos. Por isso, a forasteira deve passar por um “período de experiência”, ao final do qual os moradores vão votar para decidir se ela deve ficar ou não. Qualquer semelhança com o trajeto de um imigrante ilegal não é mera coincidência: como os “cucarachas” que procuram abrigo no Primeiro Mundo, é através do trabalho que Grace se integra a Dogville, fazendo tarefas que “ninguém realmente precisa que sejam feitas”, mas que uma vez iniciadas, tornam-se vitais para a “economia dogvillense”: ela ajuda o agricultor a recolher suas maçãs, limpa o mercado de uma senhora meio rabugenta (ninguém menos que Lauren Bacall, a Nicole Kidman de seu tempo), ajuda a cuidar das crianças de uma família numerosa, lê para o cego da cidade, ajuda a cuidar de um rapaz que ia ser engenheiro, mas é meio atrasado mentalmente, e principalmente, se apaixona por Tom Edison, no que é plenamente correspondida. Com o tempo, a presença de Grace deixa de ser tolerada, para se tornar bem-vinda, e, em última instância, necessária. Os moradores de Dogville vão fazer tudo ao seu alcance para manter esta “mais-valia”.

O desejo de integração de Grace à comunidade é concedido, mas ela descobre que isto vai ter um preço. E que por mais que esteja integrada, ela nunca fará parte do tecido social de Dogville: será sempre uma estrangeira. Grace pode até varrer o caminho das cerejeiras, mas não pode passar por ele. O cenário em negro marcado a giz deixa de ser uma cidadezinha para se tornar a miragem dos imigrantes, que correm para construir um país que nunca vai ser seu. Um sonho com vários nomes: Sul Maravilha, Europa, América. Dá até para enxergar a Estátua da Liberdade ao fundo do cenário. Dogville, terra da oportunidade, dos sonhos, e da segregação.

A grande polémica de Dogville (e talvez seja por isso que o filme ainda não foi lançado nos Estados Unidos) é o fato de Lars Von Trier ter dito explicitamente que o seu filme era sobre a América. (Aos críticos americanos que acusaram o diretor de falar de um país que não conhece, ele responde: “Os americanos nunca foram a Casablanca para fazer Casablanca”). Será que Dogville é mesmo uma metáfora da América, ou a crueldade deste retrato engloba toda a Humanidade?

Na verdade uma coisa não exclui a outra: afinal, o mundo inteiro se pauta pelos Estados Unidos, pelo american way of life, em alinhamento com ele ou em franca oposição. Neste sentido, falar da América, de sua organização social e da sua podridão é, sim, falar do mundo e da Humanidade em geral.

Neste sentido, é sintomática a escolha de Nicole Kidman para o papel de Grace. Trier subverte o esquema clássico de identificação com o espectador, fazendo com que uma das mulheres mais belas do mundo seja escravizada, violada, e finalmente acorrentada. Amigos, posso lhes garantir: a imagem da última “loura gelada” de Hollywood andando pra lá e pra cá com um guizo pendurado no pescoço, feito uma vaca leiteira, arrastando um pedaço de ferro, é uma das mais assustadoras proporcionadas pelo cinema em 2003.

Mas Grace se diferencia das outras Genis de Trier: ela se cansa de sofrer. Ou melhor, ela entende que este sofrimento não a aproxima de sua miragem. E a nossa própria sede de vingança é jogada na nossa cara. Muito se falou sobre a coleção de curtas sobre o 11 de Setembro; mas só em Dogville se questiona se a América, e por extensão, o Primeiro Mundo, não mereceram a queda das duas torres.

No final, a “Vila do Cão” expande seus horizontes, contamina a platéia. Não existem inocentes, somos todos animais, unidos pela sobrevivência. Os moradores de Dogville só formam uma verdadeira comunidade na hora de oprimir Grace: até mesmo o retardado supera sua limitação para construir as correntes às quais ela vai ser presa. Grace descobre, da pior maneira, que Hitler estava certo: nada pode unir mais a Humanidade que o medo.

O plano final é o que mais nos espelha, porque, afinal de contas, o cachorro é o único que foi honesto com Grace desde o início: ele nunca gostou dela. Moses (Moisés) é o seu nome: é o único sobrevivente do Apocalipse, o Escolhido por Lars Von Trier para simbolizar esta grande Terra Prometida que é a América.