| JOGA PEDRA
NA NICOLE, JOGA BOSTA NA NICOLE…
… ela é
feita pra apanhar, ela é boa de cuspir. Nicole
Kidman come o pão que Lars Von Trier amassou
em Dogville
por
Fernando de Castro Américo (fercastro@netcabo.pt)

á algo de podre no reino da Dinamarca? Se tomarmos
como referência os filmes de Lars Von Trier, definitivamente,
a Dinamarca deve ser um lugar muito estranho, onde as
prostitutas falam com Deus, os cegos dançam como
Fred Astaire e as mulheres sofrem mais do que cachorros.
Mas para o próprio Lars Von Trier, a equação
deve ser invertida: estranhos são os outros,
que aceitam viver num mundo guiado por este rei louco
chamado Bush II, o Terrível. Com Dogville,
Von Trier quer mostrar que há algo de podre no
reino da América.
E esta podridão pode ser verificada até
numa escala mínima, numa pequena cidade perdida
nos confins da América profunda, durante a Grande
Depressão. Como uma cidadezinha qualquer dos
Estados Unidos, Dogville é um lugar onde nada
acontece, onde todos sabem da vida de todos, e onde
os segredos, se eles existem, ficam entre quatro paredes.
Mas basta que um elemento saia desta rotina, e que uma
novidade apareça, para que os habitantes deixem
cair a máscara da boa-vizinhança para
revelar toda a sua crueldade e confirmar a máxima
de John Hobbes: o homem é o lobo (ou, no caso
de Dogville, o cão) do homem.
Em A Sombra de uma Dúvida,
a corrosiva visão de Hitchcock sobre o “american
way of life”, o assassino que invade a vida de
uma pacata família americana justifica seus atos
dizendo que “o mundo é um chiqueiro: se
tirarmos as fachadas das casas, veremos os porcos se
refestelando na lama”. É exatamente isto
que Trier faz: ele retira as paredes e portas desta
América em miniatura, e o que vemos não
é nada agradável. A técnica de
“afastamento” de Bertold Brecht é
levada ao extremo em Dogville: o
diretor derruba não só a “quarta
parede” como todas elas, a caracterização
e tudo o que for supérfluo para contar a história.
Dogville, a cidade, não passa de um cenário
em negro, marcado no chão com giz, onde se lê
“Casa dos Henson”, “Casa dos Edison”,
“Elm Street”, e onde, por incrível
que possa parecer, o único cachorro desta “Vila
do Cão” não passa de um desenho
no pavimento. De real, apenas seu latido.
Numa
primeira análise, esta abordagem escolhida por
Trier se encaixa nos princípios do Dogma 95,
movimento estético iniciado por ele, Thomas Vinterberg
e outros cineastas: poucas locações, luz
natural, temas atuais, etc. Mas o próprio Trier
já tinha traído o movimento com Dançando
no Escuro, onde filmava os sonhos de Björk
com mais de 100 câmeras. Aqui, o cenário
nu não é economia, nem cinema-guerrilha:
é uma maneira de concentrar a ação,
de fazer sobressair da história apenas o essencial,
e também uma suprema ironia. Lars Von Trier nos
dá o olhar de Deus, como se pudéssemos
ver lado a lado o horrível e o sublime, o proibido
e o inocente, o sexo e a missa, tudo ao mesmo tempo,
separados por nada mais que as nossas próprias
convenções morais.
A referência divina não é só
estética: algumas análises de Dogville
enxergam a trajetória de Nicole Kidman (que no
filme se chama “Grace”) como a trajetória
de uma “Messias”, uma “enviada”,
que “purifica” a cidade e seus habitantes
através de seu sofrimento. E se existe alguém
que gosta de fazer as mulheres sofrerem no cinema, esse
alguém é Lars Von Trier, uma espécie
de “Nelson Rodrigues” louro, alto e nórdico.
Afinal, na obra do dinamarquês, nem todas as mulheres
gostam de apanhar. Só as normais, aquelas com
quem o espectador vai se identificar: as heroínas
de Trier, macias e dóceis. As Genis do hemisfério
norte.
Realmente, ao assistir Dogville,
lembramos da história de Geni, aquela do Zeppelin,
que Chico Buarque imortalizou na Ópera
do Malandro. Uma pesquisa no site oficial
confirma: uma das fontes de inspiração
de Trier foi a canção “Piraten Jenny”,
da Ópera dos Três Vinténs,
musical de Brecht e Kurt Weil que também foi
o ponto de partida para Chico Buarque.
Nicole Kidman se junta a Emily Watson e Björk
no panteão das vítimas de Trier. Sua personagem,
Grace, chega à cidadezinha fugindo de algo ou
alguém. Ela é acolhida por Tom Edison,
o intelectual de Dogville, o único que não
se conforma com a pasmaceira do lugarejo e anseia por
ventos de mudança. Mas a comunidade é
avessa a estranhos. Por isso, a forasteira deve passar
por um “período de experiência”,
ao final do qual os moradores vão votar para
decidir se ela deve ficar ou não. Qualquer semelhança
com o trajeto de um imigrante ilegal não é
mera coincidência: como os “cucarachas”
que procuram abrigo no Primeiro Mundo, é através
do trabalho que Grace se integra a Dogville, fazendo
tarefas que “ninguém realmente precisa
que sejam feitas”, mas que uma vez iniciadas,
tornam-se vitais para a “economia dogvillense”:
ela ajuda o agricultor a recolher suas maçãs,
limpa o mercado de uma senhora meio rabugenta (ninguém
menos que Lauren Bacall, a Nicole Kidman de seu tempo),
ajuda a cuidar das crianças de uma família
numerosa, lê para o cego da cidade, ajuda a cuidar
de um rapaz que ia ser engenheiro, mas é meio
atrasado mentalmente, e principalmente, se apaixona
por Tom Edison, no que é plenamente correspondida.
Com o tempo, a presença de Grace deixa de ser
tolerada, para se tornar bem-vinda, e, em última
instância, necessária. Os moradores de
Dogville vão fazer tudo ao seu alcance para manter
esta “mais-valia”.
O
desejo de integração de Grace à
comunidade é concedido, mas ela descobre que
isto vai ter um preço. E que por mais que esteja
integrada, ela nunca fará parte do tecido social
de Dogville: será sempre uma estrangeira. Grace
pode até varrer o caminho das cerejeiras, mas
não pode passar por ele. O cenário em
negro marcado a giz deixa de ser uma cidadezinha para
se tornar a miragem dos imigrantes, que correm para
construir um país que nunca vai ser seu. Um sonho
com vários nomes: Sul Maravilha, Europa, América.
Dá até para enxergar a Estátua
da Liberdade ao fundo do cenário. Dogville, terra
da oportunidade, dos sonhos, e da segregação.
A grande polémica de Dogville
(e talvez seja por isso que o filme ainda não
foi lançado nos Estados Unidos) é o fato
de Lars Von Trier ter dito explicitamente que o seu
filme era sobre a América. (Aos críticos
americanos que acusaram o diretor de falar de um país
que não conhece, ele responde: “Os americanos
nunca foram a Casablanca para fazer Casablanca”).
Será que Dogville é mesmo uma metáfora
da América, ou a crueldade deste retrato engloba
toda a Humanidade?
Na verdade uma coisa não exclui a outra: afinal,
o mundo inteiro se pauta pelos Estados Unidos, pelo
american way of life, em alinhamento com ele ou em franca
oposição. Neste sentido, falar da América,
de sua organização social e da sua podridão
é, sim, falar do mundo e da Humanidade em geral.
Neste sentido, é sintomática a escolha
de Nicole Kidman para o papel de Grace. Trier subverte
o esquema clássico de identificação
com o espectador, fazendo com que uma das mulheres mais
belas do mundo seja escravizada, violada, e finalmente
acorrentada. Amigos, posso lhes garantir: a imagem da
última “loura gelada” de Hollywood
andando pra lá e pra cá com um guizo pendurado
no pescoço, feito uma vaca leiteira, arrastando
um pedaço de ferro, é uma das mais assustadoras
proporcionadas pelo cinema em 2003.
Mas Grace se diferencia das outras Genis de Trier:
ela se cansa de sofrer. Ou melhor, ela entende que este
sofrimento não a aproxima de sua miragem. E a
nossa própria sede de vingança é
jogada na nossa cara. Muito se falou sobre a coleção
de curtas sobre o 11 de Setembro; mas só em Dogville
se questiona se a América, e por extensão,
o Primeiro Mundo, não mereceram a queda das duas
torres.
No final, a “Vila do Cão” expande
seus horizontes, contamina a platéia. Não
existem inocentes, somos todos animais, unidos pela
sobrevivência. Os moradores de Dogville só
formam uma verdadeira comunidade na hora de oprimir
Grace: até mesmo o retardado supera sua limitação
para construir as correntes às quais ela vai
ser presa. Grace descobre, da pior maneira, que Hitler
estava certo: nada pode unir mais a Humanidade que o
medo.
O plano final é o que mais nos espelha, porque,
afinal de contas, o cachorro é o único
que foi honesto com Grace desde o início: ele
nunca gostou dela. Moses (Moisés) é o
seu nome: é o único sobrevivente do Apocalipse,
o Escolhido por Lars Von Trier para simbolizar esta
grande Terra Prometida que é a América.

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