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26 de janeiro a 8 de fevereiro de 2004

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TODO CARNAVAL TEM SEU FIM
Marvel, ex-vocalista do Glamourama, comenta o fim da banda carioca, anunciado no início do ano

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

  hora de guardar os cachecóis felpudos de cores berrantes, dar uma varrida nas lantejoulas que ficaram pelo caminho e preparar um álbum de fotos pra mostrar pros netinhos daqui há algum tempo, que seus avôs se vestiam de um modo bem afeminado quando eram mais jovens e tocavam em uma banda de rock.

Marvel, ex-vocalista do Glamourama, anunciou o fim das atividades da banda. Trata-se da primeira má notícia para os que acompanham a cena independente musical do Brasil. E um grande desfalque para o interminável catálogo de boas bandas que surgem no Rio de Janeiro.

O Glamourama apareceu em 2001 e subverteu o rock nacional com cinco marmanjos vestindo calças de couro justas e usando maquiagem em cima de um palco. Com o seu power-pop-rock de temática duvidosa, eles conseguiram lançar um EP no ano seguinte (Nas Coxas), que trazia o hit “Cadáver no Palco”. Foram indicados ao prêmio London Burning de banda revelação e excursionaram por algumas cidades do Brasil no ano passado com a Sex Singles Tour 2003.

Marvel explica a seguir, em uma entrevista feita por e-mail, o que aconteceu para que o Glamourama deixasse uma legião de órfãos de seus pra lá de performáticos shows. Um público bem mais abrangente do que o composto por “irmãs mais novas”, o alvo da banda segundo o release que está no site do Glamourama.

Em tempo: Sid Licious, ex-baterista da banda, manda avisar que está em estúdio com outra virtuosa banda carioca, o Netunos, prometendo ainda para este primeiro semestre o disco produzido por Jr Tostoi (Vulgue Tostoi, RPM, Lenine). O Glamourama ainda era formado por Jazzmo no vocal e guitarra, Peter Glitter também na guitarra e Myself Deluxe no baixo. A existência da banda já valeu à pena só pelos pseudônimos de seus integrantes.

Depois do impacto inicial da notícia, você consegue esclarecer melhor porque o Glamourama terminou?

O Glamourama terminou porque divergências internas, de ordem profissional, inviabilizaram a banda. Como as discussões se tornaram constantes, optamos por encerrar de comum acordo as atividades para que as amizades fossem mantidas.

Os membros da banda se despedem todos brigados uns dos outros ou com votos de retornos saudosistas posteriormente?

Nem uma coisa nem outra. Assim como não há ódio, tampouco há a mais ínfima possibilidade de retorno da banda, pelo menos não com a formação que as pessoas se acostumaram a ver.

A estrutura emergente, ainda que bastante precária, da cena independente brasileira (e que é descrita inclusive com riqueza de detalhes na retrospectiva de um ano da banda, disponível em seu site) contribuiu de alguma forma para a decisão?

Não. O fim do Glamourama se deve única e exclusivamente à incompatibilidade de objetivos de seus integrantes. Acho que é uma grande besteira parar de fazer qualquer coisa de que se goste por falta de estrutura. O underground é difícil mas é altamente prazeroso. É desorganizado, mas tem um potencial impressionante. Não há nada mais fantástico do que a certeza de que as pessoas que nos aplaudiram o fizeram não porque nosso jabá foi o melhor, e sim por nossos méritos. Não sei se bandas atualmente grandes podem ter essa certeza. O aplauso do underground é legítimo e ninguém vai tirar esse prazer de nós.

Indicada à revelação do prêmio London Burning, criando burburinho entre público e crítica e dona do hit underground “Cadáver no Palco”. O Glamourama não tinha tudo para ser uma banda maior ainda?

É um julgamento que eu deixo aos críticos. Eu considero o tamanho que a banda alcançou ótimo e tenho certeza de que foi justo: nem mais, nem menos. Se tivéssemos ido mais longe, talvez estivéssemos atrelados a compromissos e rusgas que não nos permitiriam uma separação tão bem-sucedida. É ótimo notar que a banda terminou antes que tudo ficasse insuportavelmente grande. Não que eu seja contra o sucesso, de maneira alguma; o que eu acho é que um sucesso maior poderia levar uma formação fadada a acabar a um fim muito mais chato.

Qual é o saldo que você faz da Sex Singles Tour 2003?

O melhor possível. Revelou o potencial da música que nós fizemos, nos levou a lugares aos quais muitos de nós jamais tinham ido e nos fez conhecer pessoas e bandas interessantíssimas. Eu adorei.

O que podemos esperar dos agora ex-integrantes do Glamourama em suas futuras empreitadas?

Não posso falar por todos, mas espere rock de mim e, com certeza, de alguns outros. Com certeza, serão empreitadas bem-sucedidas, sejam elas musicais ou não. Confio em cada um dos cinco membros; sei que, onde estiverem, serão notáveis.

O sonho de trazer (muito) mais glamour ao rock brasileiro mostrou-se possível?

Totalmente. O Glamourama foi o começo da realização de um sonho. Agora, cada um provavelmente tem outros sonhos a realizar em suas cabeças. Eu pretendo continuar o meu, e muito provavelmente ele terá a ver com o palco e a música. Não adiantarei mais porque não gosto de falar de coisas em estado muito embrionário. No momento certo, iremos nos rever tendo muito a ouvir.