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TEM SEU FIM
Marvel, ex-vocalista
do Glamourama, comenta o fim da banda carioca, anunciado
no início do ano
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

hora de guardar os cachecóis felpudos
de cores berrantes, dar uma varrida nas lantejoulas
que ficaram pelo caminho e preparar um álbum
de fotos pra mostrar pros netinhos daqui há algum
tempo, que seus avôs se vestiam de um modo bem
afeminado quando eram mais jovens e tocavam em uma banda
de rock.
Marvel, ex-vocalista do Glamourama, anunciou o fim
das atividades da banda. Trata-se da primeira má
notícia para os que acompanham a cena independente
musical do Brasil. E um grande desfalque para o interminável
catálogo de boas bandas que surgem no Rio de
Janeiro.
O Glamourama apareceu em 2001 e subverteu o rock nacional
com cinco marmanjos vestindo calças de couro
justas e usando maquiagem em cima de um palco. Com o
seu power-pop-rock de temática duvidosa, eles
conseguiram lançar um EP no ano seguinte (Nas
Coxas), que trazia o hit “Cadáver
no Palco”. Foram indicados ao prêmio London
Burning de banda revelação e excursionaram
por algumas cidades do Brasil no ano passado com a Sex
Singles Tour 2003.
Marvel
explica a seguir, em uma entrevista feita por e-mail,
o que aconteceu para que o Glamourama deixasse uma legião
de órfãos de seus pra lá de performáticos
shows. Um público bem mais abrangente do que
o composto por “irmãs mais novas”,
o alvo da banda segundo o release que está no
site
do Glamourama.
Em tempo: Sid Licious, ex-baterista da
banda, manda avisar que está em estúdio
com outra virtuosa banda carioca, o Netunos,
prometendo ainda para este primeiro semestre o disco
produzido por Jr Tostoi (Vulgue Tostoi, RPM, Lenine).
O Glamourama ainda era formado por Jazzmo no vocal e
guitarra, Peter Glitter também na guitarra e
Myself Deluxe no baixo. A existência da banda
já valeu à pena só pelos pseudônimos
de seus integrantes.
Depois do impacto inicial da notícia, você
consegue esclarecer melhor porque o Glamourama terminou?
O Glamourama terminou porque divergências internas,
de ordem profissional, inviabilizaram a banda. Como
as discussões se tornaram constantes, optamos
por encerrar de comum acordo as atividades para que
as amizades fossem mantidas.
Os membros da banda se despedem todos brigados uns dos
outros ou com votos de retornos saudosistas posteriormente?
Nem uma coisa nem outra. Assim como não há
ódio, tampouco há a mais ínfima
possibilidade de retorno da banda, pelo menos não
com a formação que as pessoas se acostumaram
a ver.
A estrutura emergente, ainda que bastante precária,
da cena independente brasileira (e que é descrita
inclusive com riqueza de detalhes na retrospectiva de
um ano da banda, disponível em seu site) contribuiu
de alguma forma para a decisão?
Não. O fim do Glamourama se deve única
e exclusivamente à incompatibilidade de objetivos
de seus integrantes. Acho que é uma grande besteira
parar de fazer qualquer coisa de que se goste por falta
de estrutura. O underground é difícil
mas é altamente prazeroso. É desorganizado,
mas tem um potencial impressionante. Não há
nada mais fantástico do que a certeza de que
as pessoas que nos aplaudiram o fizeram não porque
nosso jabá foi o melhor, e sim por nossos méritos.
Não sei se bandas atualmente grandes podem ter
essa certeza. O aplauso do underground é legítimo
e ninguém vai tirar esse prazer de nós.
Indicada à revelação do prêmio
London Burning, criando burburinho entre público
e crítica e dona do hit underground “Cadáver
no Palco”. O Glamourama não tinha tudo
para ser uma banda maior ainda?
É um julgamento que eu deixo aos críticos.
Eu considero o tamanho que a banda alcançou ótimo
e tenho certeza de que foi justo: nem mais, nem menos.
Se tivéssemos ido mais longe, talvez estivéssemos
atrelados a compromissos e rusgas que não nos
permitiriam uma separação tão bem-sucedida.
É ótimo notar que a banda terminou antes
que tudo ficasse insuportavelmente grande. Não
que eu seja contra o sucesso, de maneira alguma; o que
eu acho é que um sucesso maior poderia levar
uma formação fadada a acabar a um fim
muito mais chato.
Qual é o saldo que você faz da Sex Singles
Tour 2003?
O melhor possível. Revelou o potencial da música
que nós fizemos, nos levou a lugares aos quais
muitos de nós jamais tinham ido e nos fez conhecer
pessoas e bandas interessantíssimas. Eu adorei.

O que podemos esperar dos agora ex-integrantes do Glamourama
em suas futuras empreitadas?
Não posso falar por todos, mas espere rock de
mim e, com certeza, de alguns outros. Com certeza, serão
empreitadas bem-sucedidas, sejam elas musicais ou não.
Confio em cada um dos cinco membros; sei que, onde estiverem,
serão notáveis.
O sonho de trazer (muito) mais glamour ao rock brasileiro
mostrou-se possível?
Totalmente. O Glamourama foi o começo da realização
de um sonho. Agora, cada um provavelmente tem outros
sonhos a realizar em suas cabeças. Eu pretendo
continuar o meu, e muito provavelmente ele terá
a ver com o palco e a música. Não adiantarei
mais porque não gosto de falar de coisas em estado
muito embrionário. No momento certo, iremos nos
rever tendo muito a ouvir. 
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