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26 de janeiro a 8 de fevereiro de 2004

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CRUISE DE OLHINHOS PUXADOS
Tom Cruise veste o quimono, mas não a camisa, no épico O Último Samurai

por Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

omo cineasta, Edward Zwick é um veterano de muitos fronts de batalha. Moastrou a Guerra da Secessão em Tempos de Glória e foi o primeiro a abordar a Guerra do Golfo com Coragem sob Fogo, ambos com Denzel Washington. Nenhum destes conflitos, porém, se compara em extensão e complexidade à batalha final de O Último Samurai, novidade de Zwick no circuito desde o dia 16. O filme, porém, tem outra distinção: é a primeira vez que o diretor leva seu exército técnico a uma batalha no (e do) vizinho.

É o olhar do roteirista e diretor Zwick, e de seu produtor, protagonista e parceiro criativo Tom Cruise, que mira o fim do século XIX – a chamada Era Meiji, em que o Japão alcança grande desenvolvimento com a “ocidentalização” de sua economia. Os samurais remanescentes, clicados como mastodontes ostracizados, representam vividamente na perícia do figurino e da direção de arte o questionamento moral que move o conflito (cinematográfico e histórico): aculturar-se economicamente pode poupar as tradições locais? Ou melhor: deveria?

Os olhos claros de Cruise e de seu compatriota Zwick, porém, não podem reconhecer tradição mais extensa que de seu próprio país. Chega a ser paradoxal: os samurais, por si só, já têm mais história que os EUA. E, na ambição de um épico com vocação popular – um blockbuster gourmand, se quiser –, O Último Samurai jamais consegue ultrapassar seus próprios preconceitos. Sob outra interpretação, pareceria apropriado e até mesmo irônico. Na trama, a presença americana, infiltrada como um parasita no Japão, é o motor indireto do massacre no tal clímax sangrento de Zwick. Mas, assim como janelas e psicopatas estão para Hitchcock, é difícil falar de samurai sem passar por Akira Kurosawa. É a prata da casa falando de si mesma; qualquer outra interpretação empalidece.

A culpa nem chega a Tom Cruise, que, sobretudo, é a escolha mais correta para o papel. Quem melhor senão um astro dignamente internacional para uma trama com intenções cosmopolitas? Cruise vive o Capitão Nathan Algren, traumatizado pelo massacre de índios durante a Guerra da Independência. Bêbado e desesperançoso, vai ao Japão treinar o primeiro exército armado do Império, no intuito de conter a facção rebelde samurai derradeira. Esta introdução é narrada com eficiência rumo à captura de Nathan pelos rivais. Isolado com os lendários guerreiros, ele logo aprende a apreciar seus códigos de conduta.

Zwick é competente e faz tudo direitinho, mas soa ligeiramente fascista (e não é a primeira vez) ao querer demarcar valores necessariamente como universais. Difícil acreditar que o conceito de honra que o americano decadente busca é o mesmo que os japoneses conhecem, mas o filme apenas tenta abreviar o abismo cultural com meia dúzia de passagens em off do diário de Algren. A apropriação dos dogmas orientais soa fake e, aí, nada mais funciona. Cruise veste ritualisticamente um quimono deslumbrante, mas nunca veste a camisa.

O contraste é ainda mais cruel porque o ator contracena na maior parte com Ken Watanabe, o líder dos samurais. E o carisma e a força de Ken é o que pode dar a impressão de que o filme é muito melhor do que realmente é. Se o público vai gostar ou não, depende de uma mera predisposição interpretativa: julgar sobre qual deles, Cruise ou Watanabe, o ambíguo título se refere.