| CRUISE
DE OLHINHOS PUXADOS
Tom Cruise veste o quimono,
mas não a camisa, no épico O
Último Samurai
por
Marcel Nadale (marcel@rabisco.com.br)

omo cineasta, Edward Zwick é um veterano de muitos
fronts de batalha. Moastrou a Guerra da Secessão
em Tempos de Glória e foi o primeiro a
abordar a Guerra do Golfo com Coragem sob Fogo,
ambos com Denzel Washington. Nenhum destes conflitos,
porém, se compara em extensão e complexidade
à batalha final de O Último Samurai,
novidade de Zwick no circuito desde o dia 16. O filme,
porém, tem outra distinção: é
a primeira vez que o diretor leva seu exército
técnico a uma batalha no (e do) vizinho.
É o olhar do roteirista e diretor Zwick, e de
seu produtor, protagonista e parceiro criativo Tom Cruise,
que mira o fim do século XIX – a chamada
Era Meiji, em que o Japão alcança grande
desenvolvimento com a “ocidentalização”
de sua economia. Os samurais remanescentes, clicados
como mastodontes ostracizados, representam vividamente
na perícia do figurino e da direção
de arte o questionamento moral que move o conflito (cinematográfico
e histórico): aculturar-se economicamente pode
poupar as tradições locais? Ou melhor:
deveria?
Os olhos claros de Cruise e de seu compatriota
Zwick, porém, não podem reconhecer tradição
mais extensa que de seu próprio país.
Chega a ser paradoxal: os samurais, por si só,
já têm mais história que os EUA.
E, na ambição de um épico com vocação
popular – um blockbuster gourmand, se quiser –,
O Último Samurai jamais consegue ultrapassar
seus próprios preconceitos. Sob outra interpretação,
pareceria apropriado e até mesmo irônico.
Na
trama, a presença americana, infiltrada como
um parasita no Japão, é o motor indireto
do massacre no tal clímax sangrento de Zwick.
Mas, assim como janelas e psicopatas estão para
Hitchcock, é difícil falar de samurai
sem passar por Akira Kurosawa. É a prata da casa
falando de si mesma; qualquer outra interpretação
empalidece.
A culpa nem chega a Tom Cruise, que, sobretudo, é
a escolha mais correta para o papel. Quem melhor senão
um astro dignamente internacional para uma trama com
intenções cosmopolitas? Cruise vive o
Capitão Nathan Algren, traumatizado pelo massacre
de índios durante a Guerra da Independência.
Bêbado e desesperançoso, vai ao Japão
treinar o primeiro exército armado do Império,
no intuito de conter a facção rebelde
samurai derradeira. Esta introdução é
narrada com eficiência rumo à captura de
Nathan pelos rivais. Isolado com os lendários
guerreiros, ele logo aprende a apreciar seus códigos
de conduta.
Zwick
é competente e faz tudo direitinho, mas soa ligeiramente
fascista (e não é a primeira vez) ao querer
demarcar valores necessariamente como universais. Difícil
acreditar que o conceito de honra que o americano decadente
busca é o mesmo que os japoneses conhecem, mas
o filme apenas tenta abreviar o abismo cultural com
meia dúzia de passagens em off do diário
de Algren. A apropriação dos dogmas orientais
soa fake e, aí, nada mais funciona. Cruise
veste ritualisticamente um quimono deslumbrante, mas
nunca veste a camisa.
O contraste é ainda mais cruel porque o ator
contracena na maior parte com Ken Watanabe, o líder
dos samurais. E o carisma e a força de Ken é
o que pode dar a impressão de que o filme é
muito melhor do que realmente é. Se o público
vai gostar ou não, depende de uma mera predisposição
interpretativa: julgar sobre qual deles, Cruise ou Watanabe,
o ambíguo título se refere. 
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