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9 a 22 de fevereiro de 2004

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ENCANTANDO BALEIAS E PÚBLICO
Tudo o que você precisa saber para apreciar Encantadora de Baleias, com a indicada ao Oscar Keisha Castle-Hughes

por Andréia Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)

inema americano todos conhecem. Referências ao império hollywoodiano não faltam em nossa Terra Brasilis tropical – e nem espectadores para os filmes campeões de bilheteria que por aqui aportam (sem ter que mostrar os dedinhos para a alfândega, vejam bem).

O cinema britânico, menos popular, também não passa despercebido. O Reino Unido exportou seu humor peculiar em produções românticas como Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill e também películas mais ousadas, como Trainspotting.

Mas nem só da produção desses países vive o cinema na língua de Shakespeare. Bem distante do Atlântico, em um grupo de ilhas do Pacífico ainda mais além de Austrália e de Priscilla, a Rainha do Deserto, a Nova Zelândia, terra dos kiwis, pássaros quase extintos que são incapazes de voar, mostra todo o seu potencial na arte de fazer filmes com Encantadora de Baleias (Whale Rider), com estréia prevista no Brasil para 6 de fevereiro.

KIA, ORA!

Se você prestar atenção, verá que a Nova Zelândia não está tão distante assim do seu universo referencial. Além de ter o maior rebanho de ovelhas do mundo (há algo como 6 ovelhas para cada habitante) e ser o paraíso dos esportes radicais, o país é a terra natal do gladiador Russell Crowe e da x-man Anna Paquin, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante em O Piano (1993) – um filme kiwi de que você certamente se lembra – antes de ser exportada para a terra do Tio Sam. A NZ também serviu de cenário para O Senhor dos Anéis e O Último Samurai, em que assina a co-produção.

Falando em produções premiadas, Encantadora de Baleias já coleciona prêmios: ganhou em 2003 os dos festivais internacionais de cinema de Seattle, San Francisco, Roterdã, Sundance, Maui e até a 27ª Mostra BR de Cinema em São Paulo. Nesta, foi considerado o melhor longa-metragem de ficção pelo júri especializado, tendo recebido o troféu Bandeira Paulista

A propósito: se você viu o título aí em cima, relacionou-o com baleias e pensou em Free Willy, esqueça. A expressão – e o filme – não tem nada a ver com Keiko, o verdadeiro nome da orca americana. “Kia ora” é a saudação equivalente a “olá / tchau” em maori, a língua e o nome do povo que protagoniza o filme.

HERANÇA ANCESTRAL

Os maoris habitavam Aotearoa desde muito antes da chegada do Capitão Cook e sua tripulação européia, em meados do século XVIII. Já tinham suas lendas, sua língua, seu sistema de organização tribal. Desse encontro de culturas, se tornaram o que são hoje: um povo dividido entre duas identidades, a ancestral e a moderna, com heranças igualmente conflitantes, devido à miscigenação com os europeus.

Em uma comunidade à beira-mar no nordeste da ilha do norte, Encantadora de Baleias retoma um mito ancestral de criação, embora o filme não tenha nada de épico. Ali, a tribo de Ngati Porou clama ser descendente do lendário Paikea, que chegou ao local montado no dorso de uma baleia. Ele foi o encantador de baleias primordial e primeiro líder do grupo. Por mais de mil anos, um herdeiro homem, filho do chefe, o sucedeu no cargo.

Agora, o chefe Koro se vê numa situação difícil: seu filho Porourangi casou-se e a esposa deu à luz um casal de gêmeos. No entanto, ela e o menino morreram no parto. Porourangi deixou a filha, Pai, para ser criada pelos avós e partiu para o exterior, investindo na carreira de artista plástico. Doze anos depois ele retorna, apenas para frustrar as esperanças do pai, pois não tem intenção de tornar-se líder – a distância afetiva e cultural são grandes demais.

Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, a garota Pai acredita ser capaz de herdar a tradição – algo inadmissível para o avô, que a considera “sem serventia alguma”.

Koro, por sua vez, decide convocar todos os meninos da tribo para um treinamento intensivo de lutas e cantos ancestrais, através do qual acredita que o herdeiro será revelado. Enquanto isso, um grupo de baleias rodeia a costa e encalha, o que é considerado por Koro um mau augúrio que apenas pode significar o fim apocalíptico da tribo. Mas o espírito do encantador de baleias ainda paira no local.

DE CARREGADORES A PROTAGONISTAS

Sem dúvida, a narrativa revela a sensibilidade com que a menina, amparada pela avó, enfrenta preconceitos e luta para conquistar a afeição de Koro, na interpretação brilhante de Keisha Castle-Hughes. Com apenas onze anos na época das filmagens, ela concorre em 2004 ao Oscar de melhor atriz – acreditam alguns que as lágrimas arrancadas da platéia são até demais.

Além da excelente qualidade técnica, o que marca essa produção é o fato de ela ser baseada em um livro homônimo de um aclamado autor neozelandês – Witi Ihimaera, que por sinal é de origem maori –, com produção neozelandesa, elenco neozelandês e uma história verdadeiramente neozelandesa, provavelmente por isso tão convincente. Nada de nativos seminus carregando pianos nas costas para a sinhazinha. Aqui, eles ocupam o foco e estão no comando, expressando-se claramente naquela que se tornou a língua das comunicações do planeta.

Quem sabe esse seja um fator a mais para impulsionar a cinematografia de um país que mostra ter os recursos necessários para a arte florescer. Da mesma forma que o Brasil descobriu gostar de se ver nas produções cinematográficas nacionais – e, talvez mais inesperado: descobriu que a crítica estrangeira também gosta –, existem boas possibilidades de que o mesmo aconteça por lá.

EM TEMPO

  • As línguas oficiais da Nova Zelândia são o inglês e o maori. Nas ruas e edifícios públicos, todas as placas vêm escritas em ambas as línguas.
  • Apesar de praticamente não existirem maoris “puros” devido à miscigenação com os europeus, há um forte movimento de revalorização da cultura maori no país. A língua maori é ensinada nas escolas. Há livros, programas de rádio e de TV em maori. Comunidades em que a língua materna é o maori se mantêm.
  • Antes dos jogos de rugby, esporte mais popular da Nova Zelândia, os times executam o haka – canto em maori que os ancestrais entoavam antes das batalhas para invocar o deus da guerra e advertir o inimigo. A performance do haka é bastante diferente para homens e mulheres.
  • A tatuagem também é uma forte expressão da cultura maori. Os motivos tribais são bastante característicos, e uma das partes do corpo tradicionalmente tatuada é a face, em especial o queixo.
  • Witi Ihimaera escreveu inúmeros livros. Uma forma de conhecer melhor a evolução da cultura maori é através de Growing Up Maori (Tandem Press, NZ), organizado por ele, que traz depoimentos de como era a infância maori que remontam a mais de um século de história. É possível comprá-lo pela Amazon Books.