| ENCANTANDO
BALEIAS E PÚBLICO
Tudo o que você
precisa saber para apreciar Encantadora de Baleias,
com a indicada ao Oscar Keisha Castle-Hughes
por
Andréia Moroni (andreiamoroni@hotmail.com)

inema americano todos conhecem. Referências ao
império hollywoodiano não faltam em nossa
Terra Brasilis tropical – e nem espectadores para
os filmes campeões de bilheteria que por aqui
aportam (sem ter que mostrar os dedinhos para a alfândega,
vejam bem).
O cinema britânico, menos popular,
também não passa despercebido. O Reino
Unido exportou seu humor peculiar em produções
românticas como Quatro Casamentos e um Funeral,
Um Lugar Chamado Notting Hill e também
películas mais ousadas, como Trainspotting.
Mas nem só da produção
desses países vive o cinema na língua
de Shakespeare. Bem distante do Atlântico, em
um grupo de ilhas do Pacífico ainda mais além
de Austrália e de Priscilla, a Rainha do Deserto,
a Nova Zelândia, terra dos kiwis, pássaros
quase extintos que são incapazes de voar, mostra
todo o seu potencial na arte de fazer filmes com Encantadora
de Baleias (Whale
Rider), com estréia prevista no Brasil
para 6 de fevereiro.
KIA, ORA!
Se você prestar atenção,
verá que a Nova Zelândia não está
tão distante assim do seu universo referencial.
Além de ter o maior rebanho de ovelhas do mundo
(há algo como 6 ovelhas para cada habitante)
e ser o paraíso dos esportes radicais, o país
é a terra natal do gladiador Russell Crowe e
da x-man Anna Paquin, que ganhou o Oscar de melhor atriz
coadjuvante em O Piano (1993) – um filme
kiwi de que você certamente se lembra –
antes de ser exportada para a terra do Tio Sam. A NZ
também serviu de cenário para O
Senhor dos Anéis e O
Último Samurai, em que assina a co-produção.
Falando em produções premiadas,
Encantadora de Baleias já coleciona prêmios:
ganhou em 2003 os dos festivais internacionais de cinema
de Seattle, San Francisco, Roterdã, Sundance,
Maui e até a 27ª Mostra BR de Cinema em
São Paulo. Nesta, foi considerado o melhor longa-metragem
de ficção pelo júri especializado,
tendo recebido o troféu Bandeira Paulista
A propósito: se você viu
o título aí em cima, relacionou-o com
baleias e pensou em Free Willy, esqueça.
A expressão – e o filme – não
tem nada a ver com Keiko, o verdadeiro nome da orca
americana. “Kia ora” é a saudação
equivalente a “olá / tchau” em maori,
a língua e o nome do povo que protagoniza o filme.
HERANÇA
ANCESTRAL
Os maoris habitavam Aotearoa desde muito
antes da chegada do Capitão Cook e sua tripulação
européia, em meados do século XVIII. Já
tinham suas lendas, sua língua, seu sistema de
organização tribal. Desse encontro de
culturas, se tornaram o que são hoje: um povo
dividido entre duas identidades, a ancestral e a moderna,
com heranças igualmente conflitantes, devido
à miscigenação com os europeus.
Em uma comunidade à beira-mar
no nordeste da ilha do norte, Encantadora de Baleias
retoma um mito ancestral de criação,
embora o filme não tenha nada de épico.
Ali, a tribo de Ngati Porou clama ser descendente do
lendário Paikea, que chegou ao local montado
no dorso de uma baleia. Ele foi o encantador de baleias
primordial e primeiro líder do grupo. Por mais
de mil anos, um herdeiro homem, filho do chefe, o sucedeu
no cargo.
Agora, o chefe Koro se vê numa
situação difícil: seu filho Porourangi
casou-se e a esposa deu à luz um casal de gêmeos.
No entanto, ela e o menino morreram no parto. Porourangi
deixou a filha, Pai, para ser criada pelos avós
e partiu para o exterior, investindo na carreira de
artista plástico. Doze anos depois ele retorna,
apenas para frustrar as esperanças do pai, pois
não tem intenção de tornar-se líder
– a distância afetiva e cultural são
grandes demais.
Em meio a esse turbilhão de acontecimentos,
a garota Pai acredita ser capaz de herdar a tradição
– algo inadmissível para o avô, que
a considera “sem serventia alguma”.
Koro, por sua vez, decide convocar todos
os meninos da tribo para um treinamento intensivo de
lutas e cantos ancestrais, através do qual acredita
que o herdeiro será revelado. Enquanto isso,
um grupo de baleias rodeia a costa e encalha, o que
é considerado por Koro um mau augúrio
que apenas pode significar o fim apocalíptico
da tribo. Mas o espírito do encantador de baleias
ainda paira no local.
DE
CARREGADORES A PROTAGONISTAS
Sem dúvida, a narrativa revela
a sensibilidade com que a menina, amparada pela avó,
enfrenta preconceitos e luta para conquistar a afeição
de Koro, na interpretação brilhante de
Keisha Castle-Hughes. Com apenas onze anos na época
das filmagens, ela concorre em 2004 ao Oscar de melhor
atriz – acreditam alguns que as lágrimas
arrancadas da platéia são até demais.
Além da excelente qualidade técnica,
o que marca essa produção é o fato
de ela ser baseada em um livro homônimo de um
aclamado autor neozelandês – Witi Ihimaera,
que por sinal é de origem maori –, com
produção neozelandesa, elenco neozelandês
e uma história verdadeiramente neozelandesa,
provavelmente por isso tão convincente. Nada
de nativos seminus carregando pianos nas costas para
a sinhazinha. Aqui, eles ocupam o foco e estão
no comando, expressando-se claramente naquela que se
tornou a língua das comunicações
do planeta.
Quem sabe esse seja um fator a mais para
impulsionar a cinematografia de um país que mostra
ter os recursos necessários para a arte florescer.
Da mesma forma que o Brasil descobriu gostar de se ver
nas produções cinematográficas
nacionais – e, talvez mais inesperado: descobriu
que a crítica estrangeira também gosta
–, existem boas possibilidades de que o mesmo
aconteça por lá.
EM TEMPO
- As línguas oficiais da Nova Zelândia
são o inglês e o maori. Nas ruas e edifícios
públicos, todas as placas vêm escritas
em ambas as línguas.
- Apesar de praticamente não existirem maoris
“puros” devido à miscigenação
com os europeus, há um forte movimento de revalorização
da cultura maori no país. A língua maori
é ensinada nas escolas. Há livros, programas
de rádio e de TV em maori. Comunidades em que
a língua materna é o maori se mantêm.
- Antes dos jogos de rugby, esporte mais popular
da Nova Zelândia, os times executam o haka –
canto em maori que os ancestrais entoavam antes das
batalhas para invocar o deus da guerra e advertir
o inimigo. A performance do haka é bastante
diferente para homens e mulheres.
A tatuagem também é uma forte expressão
da cultura maori. Os motivos tribais são bastante
característicos, e uma das partes do corpo
tradicionalmente tatuada é a face, em especial
o queixo.
- Witi Ihimaera escreveu inúmeros livros.
Uma forma de conhecer melhor a evolução
da cultura maori é através de Growing
Up Maori (Tandem Press, NZ), organizado por ele,
que traz depoimentos de como era a infância
maori que remontam a mais de um século de história.
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Books.

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