| TRÊS
APITOS
Era uma vez um curioso
flerte do Poeta da Vila com uma menina do Andaraí,
que, para variar, virou samba
por
Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
 os
seus tempos de estudante de Medicina, em 1931, Noel
Rosa estava dividido entre dois amores. De um lado,
Clara, a Clarinha, de Vila Isabel, que se dava com a
mãe do poeta, e era vizinha do jovem sambista.
Ela e Noel tinham um relacionamento de quatro anos,
mas a cada ano, ela tinha cada vez mais dúvidas
com relação aos reais sentimentos dele.
Ela sabia de uma outra menina de quem o poeta gostava
— Josefina. O curioso é que, sempre que
achava que tudo estava perdido entre os dois, a jovem
tinha o apoio de alguma irmã, que lhe inspirava
confiança. Enquanto a relação com
Clarinha era do tipo “namorou, é pra casar”,
Josefina não lhe exercia qualquer pressão.
Mas Josefina era a mais ciumenta das duas, e não
gostava dos famosos “sumiços” do
compositor pelo Rio de Janeiro. Enquanto Clara suportava
o poeta com uma paciência de Jó, Fina ameaçava
quebrar o violão de Noel se não se explicar.
Fina e Noel faziam cena, mas se gostam.
VIRAMUNDO
Um dia, dona Iracema, a mãe de Fina, decidiu
que todas deviam trabalhar. Ela e sua irmã, Bazinha,
se empregaram em fábricas do Andaraí.
A primeira, na Hachiya, indústria de botões,
e a segunda, em numa fábrica de tecidos, a América
Fabril — então, uma das mais importantes
da velha Capital Federal. Constrangida com o emprego
e com medo da marcação cerrada do Poeta
da Vila, Josefina pediu aos seus familiares que não
revelassem ao namorado o seu local de trabalho —
até porque ela gostava de se sentir livre. Mas
Noel era implacável: agora ele tinha comprado
um carro, um velho Chandler preto,
que apelidou com o singelo nome de Viramundo.
Na verdade, o automóvel foi uma aquisição
interessante. Para quem não sabe, além
de cantor, Francisco Alves era agenciador de veículos.
Aliás, o “Rei da Voz” foi o primeiro
marqueteiro da nossa música. Como a parceria
dele com a insuperável dupla Ismael Silva-Nílton
Bastos (“Adeus”, “Se Você Jurar”)
havia acabado, ele decidiu “alugar” Noel
por uns tempos. Para tanto, o poeta assinaria um contrato
segundo o qual teria que pagar as prestações
do Chandler em... sambas fresquinhos!
Cada samba composto era apresentado a Chico Viola, que
abatia as prestações como promissórias.
Agora, com o calhambeque, Noel podia estar mais perto
de Fina. Só faltava descobrir em qual fábrica
ela trabalha.
Um dia, andando pelo Andaraí e suspirando debruçado
sobre o volante do Viramundo, ele encontrou a jovem
na multidão, caminhando como se corresse contra
o tempo, na hora do almoço com a marmita debaixo
do braço, próxima à entrada da
Companhia América. Sem saber que Fina levava
a marmita para Bazinha, ele concluiu que sua musa trabalhava
na fábrica de tecidos. A partir de então,
o poeta bateu ponto diariamente ali, no fim do expediente.
Em seus arroubos apaixonados, Noel parecia ouvir silvos
de um apito de fábrica. Na verdade, não
eram nem da Hachiya, nem da América, mas sim
da Confiança (de propriedade do pai de João
de Barro, o Braguinha, amigo de Noel e parceiro musical
em “As Pastorinhas”), que ficava perto da
casa do compositor, em Vila Isabel. E foi com o silvo
matinal da fábrica que o apaixonado sambista
compôs uma de suas mais belas composições,
“Três Apitos”:
Quando o apito
Da fábrica de tecido
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
Ou está interessada em fingir que não
me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina
Do meu carro?
Na
verdade, o som do apito é licença poética
de Noel, que utiliza o estrépito para enfeixar
em sua memória a lembrança da amada sempre
que o som “vem ferir os seus ouvidos”. Segundo
Carlos Didier e João Máximo, biógrafos
do compositor, a confusão toda se deve ao fato
de que ele achava que Fina trabalhava na América,
e ainda incluiu o apito da Confiança. Como muitos
associavam a fábrica pelo toque do apito, pensava-se
(e pensa-se) que ela trabalhava na Confiança.
O caminho entre a casa de Josefina e Bazinha e a fábrica
era longo, o que obrigava as duas a madrugarem para
chegar a tempo no trabalho. Elas percorriam todo o percurso
juntas, às cinco da manhã, e às
cinco da tarde, quando Fina voltava sozinha. Para um
trabalho simples, elas usavam roupas simples, sapatos
de salto baixo e sem meias — detalhe que não
passou desapercebido a Noel, que as via passar, com
os olhos cerrados sob o chapéu, observando de
longe e quase incógnito, dentro daquele carro
velho e com a pintura descascada, o longo e tortuoso
passeio que sua namorada fazia de casa até o
trabalho. Ele se enterneceu de vê-la tentando
esconder dele que a jovem trabalhava numa reles fábrica
de botões de osso e madrepérola e a entendeu.
E escreveu:
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz réclame de você
O POETA MUITO SOTURNO
Mais aflito do que o grito da buzina do Viramundo era
Noel, ao ver Fina desacompanhada e quase sempre à
mercê do assédio de um certo contramestre
da fábrica, Jerônimo da Encarnação,
que sempre tentava puxar conversa com a moça.
Noel tanto insistiu com a jovem que ela finalmente cedeu,
e contou onde trabalhava. Então ele se deu conta
do engano. Era na Hachiya e não na América!
Aqui, ele anotou mais quatro versos ao samba:
Nos meus olhos você lê
Como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens
A você
O contramestre cercava Josefina com indisfarçada
insistência, com propostas e galanteios. Ela se
esquivava, apontava para aquele calhambeque parado longe,
no outro lado da esquina, e dizia ao homem: “Olha
lá o seu poetinha. Ele está te esperando...”.
Era Noel, o “malandro medroso”, mas sempre
vigilante e quase incógnito, cuidando os passos
da menina em marcação cerrada, por detrás
do volante do seu inefável Chandler.
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Esses versos pra você.
No fim, ele permaneceu no equívoco em favor
da rima pano/piano, já que ela fazia botões.
Porém, mesmo com tanta confusão, o certo
é que “Três Apitos” foi dedicada
a Josefina. Noel Rosa revelou, em 1936, que este samba
resumia o “romance mais sincero de minha vida
gloriosamente romântica”. Ele diz “que
outra operária de fábrica se encaixaria
nesta canção”. O dado curioso sobre
“Três Apitos” é que, talvez
por ser confessional demais (ou romântica demais.
Ou confusa demais), Noel resolveu pôr defeitos
na canção. Mesmo com achados poéticos
diversos (até para uma época em que o
gênero samba ainda lutava para se livrar de versos
simplórios), o poeta acreditava justamente o
contrário. Já o piano em questão
também era mais uma licença poética
de Noel, que como “pianeiro”, era um grande
violonista.
Por
conta do “desprezo” do poeta por “Três
Apitos”, ela permaneceu inédita por muitos
anos. Chegou a ser gravada na época em acetato
por Orlando Silva (verdadeiro achado, catalogado na
coletânea Noel Rosa — O Poeta da Vila,
da gravadora Revivendo) em 1936, mas com versos a menos.
A primeira versão “oficial” ocorreria
apenas em 1951, na voz de Aracy de Almeida — cantora
para quem ele dedicou a música, na época.
Localizada por uma emissora de TV em 1984, Josefina
disse: "Noel para mim fez apenas o 'Três
Apitos', apesar de, em um dia de pileque, ter dito que
eu tinha um riso de criança" (“Riso
de Criança” era outra composição
do Poeta, também supostamente inspirada por Fina).
Aracy, que teve a primazia de levar o nostálgico
samba em disco, revelou:
— Noel fez esse samba na Taberna da Glória,
na hora, e me deu. Foi para mim que ele fez esse samba.
Ele também fez música para mim.
Contudo, para alguns críticos, a mais bela versão
de “Três Apitos” é a de Maria
Bethânia, gravada em 1965, com Rosinha de Valença
ao violão, em estilo intimista, bem como pede
a letra.
Mas, e quanto aos tais três apitos? O maestro
Homero Dornellas (aquele que botou na pauta o primeiro
sucesso de Noel, “Com que Roupa?”, já
que o compositor não sabia ler música),
contou que, ao invés de três, a fábrica
apitava nove vezes ao dia. Carlos Didier e João
Máximo explicam: certamente que o título
se refere aos que a Confiança soava pela manhã.
O primeiro, às quinze para as seis, para acordar
os operários da redondeza. O segundo, às
sete, o mais longo, que marcava a hora da entrada. E
o terceiro às quinze para as oito, para os retardatários...
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