| CDD NO
DVD
Extras da edição
dupla revelam os segredos que levaram Cidade
de Deus às quatro indicações
ao Oscar
por
Paulo Gustavo Freire (pgvarandas@yahoo.com.br)
 uando
Cidade de Deus foi indicado a quatro estatuetas
do Oscar, Fernando Meirelles deu algumas entrevistas
sempre dizendo que o filme tinha sido um trabalho de
conjunto. Ele não estava sendo modesto ou humilde.
Seu trabalho como diretor é fenomenal, porém
quando falou em conjunto queria expressar exatamente
o que havia sido “construir” esse filme.
Lançado no ano passado, o DVD duplo de Cidade
de Deus é uma experiência tão
gratificamente quanto o próprio filme. Seus extras
nos relevam alguns dos segredos que geraram o merecido
sucesso. A edição para venda direta é
primorosa, possui dois discos em caixas individuais,
um com o filme e outro carregado de material bônus;
ambos cobertos por luva protetora simples e com um belo
trabalho gráfico.
O primeiro DVD possui 13 cenas extras, divididas em
anos 60, anos 70 e anos 80; o filme em formato 4:3 letterbox
(que preserva a imagem do cinema) com opção
de legendas em português, inglês, francês
e espanhol; som dolby digital 5.1
e 2.0, além da possibilidade de assisti-lo com
uma faixa em áudio de comentários do diretor
(Fernando Meirelles), do diretor de fotografia (César
Charlone) e do roteirista (Bráulio Mantovani).
Esta opção dos comentários
é uma das principais atrações de
todo o disco.
Temos uma aula de cinema, em formato de bate-papo do
trio, explicando como foram feitas determinadas cenas,
curiosidades, fatos reais, além de opiniões
próprias sobre o filme finalizado. Logo de início
somos lançados numa discussão à
respeito do “efeito rotativo” utilizado
para transpor Buscapé dos anos 80 para os anos
60. Falou-se em efeito Matrix, mas nada mais
é do que uma câmera num tripé sobre
um trilho circular e um belo trabalho do montador Daniel
Rezende. Fernando Meirelles chega a comentar, em linhas
gerais, que “só o efeito do Matrix custou
nosso filme inteiro; Cidade de Deus foi feito
com o custo de R$ 30 diários pelo aluguel do
equipamento”.
César
Charlone comenta sobre os diferentes tipos de cores
e lentes usadas para distinguir a passagem dos anos
60 (amarelado e com planos abertos), anos 70 (“supercoloridos”)
e anos 80 (azulado e planos fechados, feitos com câmera
na mão), tudo para explicitar o caos que é
criado no decorrer da vida dos personagens. Em certo
momento, relata que deu a câmera a Alexandre Rodrigues,
o Buscapé, para que este filmasse uma cena de
seu ponto de vista! Já Bráulio Mantovani
exemplifica com cenas o difícil trabalho de adaptação
que teve de realizar, sempre em contato com Meirelles,
e justifica a opção pela “narração
em off” de Buscapé para que a história
ficasse didática e o espectador não se
perdesse.
O segundo DVD possui o documentário “Oficina
de Atores”, que mostra o trabalho de Guti Fraga,
organizador do grupo Nós do Morro, realizando
testes com os atores, e o de Fátima Toledo, que
participou da incorporação das personagens
nos atores, como no caso da extração da
ira do Zé Pequeno e do choro do menino encurralado
por Filé com Fritas. Há ainda um making
of, com tocantes depoimentos do diretor, da co-diretora,
do roteirista, do autor do livro, dentre outros, sobre
o filme e o dia-a-dia dos garotos na comunidade, além
de imagens dos bastidores. Na opção trailers,
pode se ver a excelente preview nacional e as curiosas
versões internacionais. Os bônus incluem
ainda: galeria de cartazes: com a arte gráfica
e a concepção visual do material promocional
filme em outros países; uma engraçada
charge animada sobre sua exclusão no Oscar de
2003; um videoclipe de cerca de cinco minutos muito
bem montado; e uma extensa compilação
das indicações e premiações
nacionais e ao redor do mundo.
Ao
final dos dois discos tem-se a noção de
ter participado ou pelo menos acompanhado parte do trabalho
de todos da equipe. Fernando Meirelles e Matheus Nachtergaele
nos propõem o maior de todos os segredos, a verdade
por trás dos atores que vivenciam e conhecem
o que é morar no conjunto habitacional. O único
ponto negativo da versão nacional é a
não-inclusão do excepcional documentário
Notícias de uma Guerra Particular, de
João Moreira Salles, que está na versão
americana do DVD.
Cidade de Deus possui todos elementos
de uma superprodução moderna: é
conhecido por siglas (CDD, vindo do próprio conjunto
habitacional), possui bordão, montagem com split
screen, inserção de títulos e flashbacks.
Porém, não deixa de lado o conteúdo,
a veracidade e o questionamento. Torna-se a prova concreta
de que filme comercial e de arte podem conviver juntos
- além de ser o marco brasileiro no concorrido
mundo cinematográfico. 
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