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1 a 14 de março de 2004

Equipe Edições Anteriores

CDD NO DVD
Extras da edição dupla revelam os segredos que levaram Cidade de Deus às quatro indicações ao Oscar

por Paulo Gustavo Freire (pgvarandas@yahoo.com.br)

uando Cidade de Deus foi indicado a quatro estatuetas do Oscar, Fernando Meirelles deu algumas entrevistas sempre dizendo que o filme tinha sido um trabalho de conjunto. Ele não estava sendo modesto ou humilde. Seu trabalho como diretor é fenomenal, porém quando falou em conjunto queria expressar exatamente o que havia sido “construir” esse filme.

Lançado no ano passado, o DVD duplo de Cidade de Deus é uma experiência tão gratificamente quanto o próprio filme. Seus extras nos relevam alguns dos segredos que geraram o merecido sucesso. A edição para venda direta é primorosa, possui dois discos em caixas individuais, um com o filme e outro carregado de material bônus; ambos cobertos por luva protetora simples e com um belo trabalho gráfico.

O primeiro DVD possui 13 cenas extras, divididas em anos 60, anos 70 e anos 80; o filme em formato 4:3 letterbox (que preserva a imagem do cinema) com opção de legendas em português, inglês, francês e espanhol; som dolby digital 5.1 e 2.0, além da possibilidade de assisti-lo com uma faixa em áudio de comentários do diretor (Fernando Meirelles), do diretor de fotografia (César Charlone) e do roteirista (Bráulio Mantovani).

Esta opção dos comentários é uma das principais atrações de todo o disco.
Temos uma aula de cinema, em formato de bate-papo do trio, explicando como foram feitas determinadas cenas, curiosidades, fatos reais, além de opiniões próprias sobre o filme finalizado. Logo de início somos lançados numa discussão à respeito do “efeito rotativo” utilizado para transpor Buscapé dos anos 80 para os anos 60. Falou-se em efeito Matrix, mas nada mais é do que uma câmera num tripé sobre um trilho circular e um belo trabalho do montador Daniel Rezende. Fernando Meirelles chega a comentar, em linhas gerais, que “só o efeito do Matrix custou nosso filme inteiro; Cidade de Deus foi feito com o custo de R$ 30 diários pelo aluguel do equipamento”.

César Charlone comenta sobre os diferentes tipos de cores e lentes usadas para distinguir a passagem dos anos 60 (amarelado e com planos abertos), anos 70 (“supercoloridos”) e anos 80 (azulado e planos fechados, feitos com câmera na mão), tudo para explicitar o caos que é criado no decorrer da vida dos personagens. Em certo momento, relata que deu a câmera a Alexandre Rodrigues, o Buscapé, para que este filmasse uma cena de seu ponto de vista! Já Bráulio Mantovani exemplifica com cenas o difícil trabalho de adaptação que teve de realizar, sempre em contato com Meirelles, e justifica a opção pela “narração em off” de Buscapé para que a história ficasse didática e o espectador não se perdesse.

O segundo DVD possui o documentário “Oficina de Atores”, que mostra o trabalho de Guti Fraga, organizador do grupo Nós do Morro, realizando testes com os atores, e o de Fátima Toledo, que participou da incorporação das personagens nos atores, como no caso da extração da ira do Zé Pequeno e do choro do menino encurralado por Filé com Fritas. Há ainda um making of, com tocantes depoimentos do diretor, da co-diretora, do roteirista, do autor do livro, dentre outros, sobre o filme e o dia-a-dia dos garotos na comunidade, além de imagens dos bastidores. Na opção trailers, pode se ver a excelente preview nacional e as curiosas versões internacionais. Os bônus incluem ainda: galeria de cartazes: com a arte gráfica e a concepção visual do material promocional filme em outros países; uma engraçada charge animada sobre sua exclusão no Oscar de 2003; um videoclipe de cerca de cinco minutos muito bem montado; e uma extensa compilação das indicações e premiações nacionais e ao redor do mundo.

Ao final dos dois discos tem-se a noção de ter participado ou pelo menos acompanhado parte do trabalho de todos da equipe. Fernando Meirelles e Matheus Nachtergaele nos propõem o maior de todos os segredos, a verdade por trás dos atores que vivenciam e conhecem o que é morar no conjunto habitacional. O único ponto negativo da versão nacional é a não-inclusão do excepcional documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, que está na versão americana do DVD.

Cidade de Deus possui todos elementos de uma superprodução moderna: é conhecido por siglas (CDD, vindo do próprio conjunto habitacional), possui bordão, montagem com split screen, inserção de títulos e flashbacks. Porém, não deixa de lado o conteúdo, a veracidade e o questionamento. Torna-se a prova concreta de que filme comercial e de arte podem conviver juntos - além de ser o marco brasileiro no concorrido mundo cinematográfico.