| ERAM OS
CONCRETISTAS INDIES?
Já que muita coisa
é refugada pelos tubarões da indústria
fonográfica, a alternativa é ser alternativo
por
Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)
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| Agnaldo Timóteo |
curioso sobre o debate a respeito do que é
indie é que bandas, produtores e pessoas
que fazem parte da cena independente brasileira resolveram
bancar um rótulo simplista. Se indie é
ser alternativo, pode-se afirmar duas coisas. 1) sempre
houve e sempre existirá música alternativa.
2) ser alternativo não se restringe apenas a
pertencer ao universo da música jovem. Um loser-wannabe-pseudo-anything
pode fazer pose de alternativo, mas quem não
quer fazer sucesso? Se fazer sucesso para cem pessoas
é ser alternativo, então uma camerata
qualquer que execute Albinoni nos palcos da vida é
o quê? Na década de 40, Theodor Adorno
dizia que a última trincheira estética
do combate contra a Indústria Cultural e a massificação
na música estava em coisas como Alan Berg ou
Schonenberg. A moda é o misantropismo artístico.
O resto é música ligeira e dissimulação.
Seriam os concretistas indies?
Ser indie pode ser uma postura romântica
de ser. Nos dias de hoje, em que o produto que é
vendido pelas gravadoras e apregoado pela mídia
é de um gosto cada vez mais duvidoso e que, em
tempos de crise econômica (e a profusão
da indústria da pirataria), as peneiras para
lançamento de novos conjuntos é cada vez
mais restritiva, a cena alternativa cresceu bastante
e parece ter mais “credibilidade” artística
pelo fato de não ser manipulada por produtores
ou selos musicais. Nada mais saudável e politicamente
correto que ser indie. Os Beatles
eram ostensivamente indies quando
tocavam para marinheiros bêbados em shows de gafieira
em Hamburgo. O cantor que faz cover do Wando em pizzaria
é indie. O macaquinho que
dança ao som do realejo é indie.
Os violeiros do programa da Inezita Barroso são
indies. O Agnaldo Timóteo vendendo CD em camelô
é indie.
É a lógica perversa: Louis Armstrong
cantando “Hello Dolly” é hype
e tocando “West End Blues” com o Hot Five
é indie? Já o Amado
Batista no Nordeste é mainstream.
O cantor das gadosas é o Johnny Hallyday do brega.
É seguro que ele não sabe o que significa
indie e suas dezenas de discos de ouro não lhe
transformaram em mais um ressentido do sucesso. Mas
se as suas respectivas patroas ouvissem “Princesa”
no CD do carro aí seria indie.
Interessante é que o Amado Batista não
deve nem estar aí para esse papo todo. Mas eles
são preteridos pelos “verdadeiros”
indies: qual é o interesse em analisar ou rotular
cantor sertanejo de alternativo, se nem a grande imprensa
se interessaria? Existem mais coisas entre céu
e terra que supõe a nossa vã psicologia.
Estar à margem do esquema do jabá,
de promoção, do big deal de grande
gravadora é uma realidade. A verdade é
que muita banda de rock, por melhor que seja, nunca
vai fazer parte de um cast de uma multinacional.
Já que muita coisa é refugada, a alternativa
é ser alternativo. Mas ser indie pode
ser uma faca de dois gumes: será que essas bandas
alternativas não querem entrar para o circuito
das grandes gravadoras ou são os tubarões
da indústria fonográfica que os rejeitam?
Certo é que, independente de outsider ou
mainstream, bandas de garagem sempre existiram
e cena alternativa também. O que dizer do antológico
Feito em Casa do compositor Antônio Adolfo,
refugado pelas gravadoras e lançado “à
margem do esquemão”, em selo independente
em meados dos anos 70.
Indie é uma forma de transformar
o alternativo em moda. E o que a mídia tema ver
com isso? Com o advento da Internet e a disseminação
de críticos de plantão pela web afora,
ninguém precisa da chamada “grande imprensa”
para saber o que está acontecendo na música.
A mídia faz o que quiser, pode eleger a banda
queridinha assim como destruí-la. Há um
tempo atrás, um curioso jornal publicou uma resenha
de um disco dos ingleses do Oasis. O colunista apenas
chamou aquilo de “lixo cultural”. Na semana
seguinte, a mesma banda ganhou matéria de capa
no suplemento cultural. Detalhe: na assinatura, aparece
o nome de outro jornalista. Enviado especial à
Londres para cobrir um show dos Gallagher à convite
da gravadora da banda. Resultado: naquele jornal, a
partir de então, o Oasis se tornou um conjunto
inatacável.
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| Belle & Sebastian |
Amado Batista ou Belle & Sebastian,
se cair no gosto das imprensa, que detém o poder
de escrever a história oficial, vira pop. Se
a expressão indie realmente se tornou
vaga e pantanosa, o que dizer da palavra “pop”?
Alguém disse que o alternativo, pelo menos em
teoria, vai na contramão das tendências
e do fluxo pop. Ficou fácil para o mercado identificar
aquele que consome entretenimento de arte. A mídia
pode muito bem manipular os dois conceitos, e disseminar
o conjunto indie como balão de ensaio.
Bom ou ruim, certas bandas alternativas têm espaço
em colunas de jornal. Um exemplo: a música urbana
de Porto Alegre sempre esteve sobre palafitas, porque
não está atrelada a nenhum tipo de indústria.
Até o fim dos 70, as emissoras locais de radio
e televisão cooptavam da sociedade artistas e
músicos, humoristas, dramaturgos, para poderem
produzir programa para publicidade. Nenhum veículo
nasce para dar força para artista, é para
vender o programa. A classe artística tinha espaço,
mas uns eram mais iguais que os outros.
De lá para cá, essa demanda reduziu.
Quarenta anos de afastamento completo da comunidade
cultural dos veículos de comunicação.
E o que acontece? Um bando de gente vai embora, e outros
ficam. Eles aproveitavam a mão de obra não
para dar força para eles. Antes, o músico
era fundamental. As rádios precisavam de produção
local. Depois, houve a não-necessidade destas
pessoas nos veículos de comunicação,
que ficam apenas com os setores de jornalismo. E a arte
entra apenas como notícia, e não como
evento da emissora. E assim, toda a produção
musical da cidade sempre esteve à mercê
dela mesmo. Nunca foi uma vocação conjunta
entre o veículo e uma indústria do entretenimento.
Exemplo: gente como um Nelson Coelho de Castro ou Carlinhos
Hartlieb, que poderiam ser anacronicamente taxados de
indies em 1978, quando participaram
do independente “Paralelo 30”, foram naufragados
pela onda rock que virou moda, poucos anos depois. A
MPB que eles produziam foi quase que definitivamente
esquecida pelo público, graças aos caprichos
da mídia em entronizar e rotular o que lhe aprouver.
Podiam ser transformados num museu de grandes novidades,
vendidos nos balaios da vida, ou nem isso, já
que ser músico à margem da imprensa era
um desafio, como querer ficar milionário com
diploma de professor. Houve um tempo em que esse tipo
de debate poderia ser sério, mas o que é
realmente sério nos tempos (pós)modernos?
Hoje existe espaço para ser indie,
mas naquela época, não havia a internet
e o MP3. Sem visibilidade, o público, que é
atavicamente sedento de novidades, não é
fiel. Ele é capaz de matar um artista. Agora,
a paranóia é inversa: uma banda deixa
de ser indie quanto sobe aos píncaros
da mídia. Belle & Sebastian não é
mais outsider. Os diluidores dos
indies agora riem frouxo daqueles que querem classificar
o inclassificável. Na verdade, apenas um dandismo
de rés-do-chão, um capricho patológico.
Freud explica? A moda agora é ser contra o espírito
de manada. É quando a metafísica do ressentimento
vira pose.
Um colunista hype em pele de cordeiro
disse que para algumas pessoas que se dedicam à
música, o pop é lixo e o indie
rock é algo que presta e que deve ser
levado a sério. Será que não existe
vida inteligente no pop é tudo o que é
indie é palatável?
Ele afirmou que Strokes é uma banda pop porque
tem apelo popular. Mas eles agradam tanto à camada
indie quanto ao mainstream. Se existe
a mão dupla, de que serve essa discussão
insalubre sobre rotulação e o papel da
imprensa nisso tudo? Agora que o jornalismo cultural
sofre uma certa crise de credibilidade devido ao jabá
e o surgimento dos críticos de Internet, um internauta
pode ter mais isenção (e talento) para
analisar determinado artista.
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| The Strokes |
Os sítios na Web que fazem resenha
de discos ou shows necessariamente não precisam
da subvenção de gravadoras para falar
bem (com jabá. Viva o jabá!) ou mal (para
pedir jabá e falar bem) de artistas de rock ou
salientar essa ou aquela cena musical, Manchester, Seattle,
New York, Rio Branco ou Belém do Pará.
O aspecto bom é que a Internet acaba com a ditadura
imposta pelo servilismo de colunistas de jornal aos
selos multinacionais e ao tal “esquemão”.
Tem sempre o outro lado: se a rede de computadores
realmente banalizou a figura do crítico, a indústria
do jabá e do lobby a caricaturou.
O leitor não gosta de ser subestimado. Como disse
aquele hyper dissimulando postura
indie, quem é bom aparece.
Quem não é bom, não aparece. Quem
não é bom, é ruim. Ótimo!
Mas mais parece o duplipensamento lugar-comum do tempo
de nossos avós. Apregoar a mediocridade por dinheiro
é constrangedor. Ler jornais que gozam de credibilidade
a usando para publicar o lixo insalubre que se insurge
como produto cultural é mais constrangedor ainda.
Se estamos em busca do que é de valor no alternativo,
temos que avaliar qual seria a mídia mais independente,
a da história oficial ou a alternativa.
Pelo menos, sempre existe uma “alternativa”.
Quem é ruim ou profundamente hermético
tem a chance de poder virar alternativo. Coitado do
velho Adorno. Morreu sem saber que Alan Berg era indie.
Ou sem saber que ele mesmo também era. 
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