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1 a 14 de março de 2004

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ERAM OS CONCRETISTAS INDIES?
Já que muita coisa é refugada pelos tubarões da indústria fonográfica, a alternativa é ser alternativo

por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

 Agnaldo Timóteo

 curioso sobre o debate a respeito do que é indie é que bandas, produtores e pessoas que fazem parte da cena independente brasileira resolveram bancar um rótulo simplista. Se indie é ser alternativo, pode-se afirmar duas coisas. 1) sempre houve e sempre existirá música alternativa. 2) ser alternativo não se restringe apenas a pertencer ao universo da música jovem. Um loser-wannabe-pseudo-anything pode fazer pose de alternativo, mas quem não quer fazer sucesso? Se fazer sucesso para cem pessoas é ser alternativo, então uma camerata qualquer que execute Albinoni nos palcos da vida é o quê? Na década de 40, Theodor Adorno dizia que a última trincheira estética do combate contra a Indústria Cultural e a massificação na música estava em coisas como Alan Berg ou Schonenberg. A moda é o misantropismo artístico. O resto é música ligeira e dissimulação. Seriam os concretistas indies?

Ser indie pode ser uma postura romântica de ser. Nos dias de hoje, em que o produto que é vendido pelas gravadoras e apregoado pela mídia é de um gosto cada vez mais duvidoso e que, em tempos de crise econômica (e a profusão da indústria da pirataria), as peneiras para lançamento de novos conjuntos é cada vez mais restritiva, a cena alternativa cresceu bastante e parece ter mais “credibilidade” artística pelo fato de não ser manipulada por produtores ou selos musicais. Nada mais saudável e politicamente correto que ser indie. Os Beatles eram ostensivamente indies quando tocavam para marinheiros bêbados em shows de gafieira em Hamburgo. O cantor que faz cover do Wando em pizzaria é indie. O macaquinho que dança ao som do realejo é indie. Os violeiros do programa da Inezita Barroso são indies. O Agnaldo Timóteo vendendo CD em camelô é indie.

É a lógica perversa: Louis Armstrong cantando “Hello Dolly” é hype e tocando “West End Blues” com o Hot Five é indie? Já o Amado Batista no Nordeste é mainstream. O cantor das gadosas é o Johnny Hallyday do brega. É seguro que ele não sabe o que significa indie e suas dezenas de discos de ouro não lhe transformaram em mais um ressentido do sucesso. Mas se as suas respectivas patroas ouvissem “Princesa” no CD do carro aí seria indie. Interessante é que o Amado Batista não deve nem estar aí para esse papo todo. Mas eles são preteridos pelos “verdadeiros” indies: qual é o interesse em analisar ou rotular cantor sertanejo de alternativo, se nem a grande imprensa se interessaria? Existem mais coisas entre céu e terra que supõe a nossa vã psicologia.

Estar à margem do esquema do jabá, de promoção, do big deal de grande gravadora é uma realidade. A verdade é que muita banda de rock, por melhor que seja, nunca vai fazer parte de um cast de uma multinacional. Já que muita coisa é refugada, a alternativa é ser alternativo. Mas ser indie pode ser uma faca de dois gumes: será que essas bandas alternativas não querem entrar para o circuito das grandes gravadoras ou são os tubarões da indústria fonográfica que os rejeitam? Certo é que, independente de outsider ou mainstream, bandas de garagem sempre existiram e cena alternativa também. O que dizer do antológico Feito em Casa do compositor Antônio Adolfo, refugado pelas gravadoras e lançado “à margem do esquemão”, em selo independente em meados dos anos 70.

Indie é uma forma de transformar o alternativo em moda. E o que a mídia tema ver com isso? Com o advento da Internet e a disseminação de críticos de plantão pela web afora, ninguém precisa da chamada “grande imprensa” para saber o que está acontecendo na música. A mídia faz o que quiser, pode eleger a banda queridinha assim como destruí-la. Há um tempo atrás, um curioso jornal publicou uma resenha de um disco dos ingleses do Oasis. O colunista apenas chamou aquilo de “lixo cultural”. Na semana seguinte, a mesma banda ganhou matéria de capa no suplemento cultural. Detalhe: na assinatura, aparece o nome de outro jornalista. Enviado especial à Londres para cobrir um show dos Gallagher à convite da gravadora da banda. Resultado: naquele jornal, a partir de então, o Oasis se tornou um conjunto inatacável.

 Belle & Sebastian

Amado Batista ou Belle & Sebastian, se cair no gosto das imprensa, que detém o poder de escrever a história oficial, vira pop. Se a expressão indie realmente se tornou vaga e pantanosa, o que dizer da palavra “pop”? Alguém disse que o alternativo, pelo menos em teoria, vai na contramão das tendências e do fluxo pop. Ficou fácil para o mercado identificar aquele que consome entretenimento de arte. A mídia pode muito bem manipular os dois conceitos, e disseminar o conjunto indie como balão de ensaio. Bom ou ruim, certas bandas alternativas têm espaço em colunas de jornal. Um exemplo: a música urbana de Porto Alegre sempre esteve sobre palafitas, porque não está atrelada a nenhum tipo de indústria. Até o fim dos 70, as emissoras locais de radio e televisão cooptavam da sociedade artistas e músicos, humoristas, dramaturgos, para poderem produzir programa para publicidade. Nenhum veículo nasce para dar força para artista, é para vender o programa. A classe artística tinha espaço, mas uns eram mais iguais que os outros.

De lá para cá, essa demanda reduziu. Quarenta anos de afastamento completo da comunidade cultural dos veículos de comunicação. E o que acontece? Um bando de gente vai embora, e outros ficam. Eles aproveitavam a mão de obra não para dar força para eles. Antes, o músico era fundamental. As rádios precisavam de produção local. Depois, houve a não-necessidade destas pessoas nos veículos de comunicação, que ficam apenas com os setores de jornalismo. E a arte entra apenas como notícia, e não como evento da emissora. E assim, toda a produção musical da cidade sempre esteve à mercê dela mesmo. Nunca foi uma vocação conjunta entre o veículo e uma indústria do entretenimento.

Exemplo: gente como um Nelson Coelho de Castro ou Carlinhos Hartlieb, que poderiam ser anacronicamente taxados de indies em 1978, quando participaram do independente “Paralelo 30”, foram naufragados pela onda rock que virou moda, poucos anos depois. A MPB que eles produziam foi quase que definitivamente esquecida pelo público, graças aos caprichos da mídia em entronizar e rotular o que lhe aprouver. Podiam ser transformados num museu de grandes novidades, vendidos nos balaios da vida, ou nem isso, já que ser músico à margem da imprensa era um desafio, como querer ficar milionário com diploma de professor. Houve um tempo em que esse tipo de debate poderia ser sério, mas o que é realmente sério nos tempos (pós)modernos?

Hoje existe espaço para ser indie, mas naquela época, não havia a internet e o MP3. Sem visibilidade, o público, que é atavicamente sedento de novidades, não é fiel. Ele é capaz de matar um artista. Agora, a paranóia é inversa: uma banda deixa de ser indie quanto sobe aos píncaros da mídia. Belle & Sebastian não é mais outsider. Os diluidores dos indies agora riem frouxo daqueles que querem classificar o inclassificável. Na verdade, apenas um dandismo de rés-do-chão, um capricho patológico. Freud explica? A moda agora é ser contra o espírito de manada. É quando a metafísica do ressentimento vira pose.

Um colunista hype em pele de cordeiro disse que para algumas pessoas que se dedicam à música, o pop é lixo e o indie rock é algo que presta e que deve ser levado a sério. Será que não existe vida inteligente no pop é tudo o que é indie é palatável? Ele afirmou que Strokes é uma banda pop porque tem apelo popular. Mas eles agradam tanto à camada indie quanto ao mainstream. Se existe a mão dupla, de que serve essa discussão insalubre sobre rotulação e o papel da imprensa nisso tudo? Agora que o jornalismo cultural sofre uma certa crise de credibilidade devido ao jabá e o surgimento dos críticos de Internet, um internauta pode ter mais isenção (e talento) para analisar determinado artista.

 The Strokes

Os sítios na Web que fazem resenha de discos ou shows necessariamente não precisam da subvenção de gravadoras para falar bem (com jabá. Viva o jabá!) ou mal (para pedir jabá e falar bem) de artistas de rock ou salientar essa ou aquela cena musical, Manchester, Seattle, New York, Rio Branco ou Belém do Pará. O aspecto bom é que a Internet acaba com a ditadura imposta pelo servilismo de colunistas de jornal aos selos multinacionais e ao tal “esquemão”.

Tem sempre o outro lado: se a rede de computadores realmente banalizou a figura do crítico, a indústria do jabá e do lobby a caricaturou. O leitor não gosta de ser subestimado. Como disse aquele hyper dissimulando postura indie, quem é bom aparece. Quem não é bom, não aparece. Quem não é bom, é ruim. Ótimo! Mas mais parece o duplipensamento lugar-comum do tempo de nossos avós. Apregoar a mediocridade por dinheiro é constrangedor. Ler jornais que gozam de credibilidade a usando para publicar o lixo insalubre que se insurge como produto cultural é mais constrangedor ainda. Se estamos em busca do que é de valor no alternativo, temos que avaliar qual seria a mídia mais independente, a da história oficial ou a alternativa.

Pelo menos, sempre existe uma “alternativa”. Quem é ruim ou profundamente hermético tem a chance de poder virar alternativo. Coitado do velho Adorno. Morreu sem saber que Alan Berg era indie. Ou sem saber que ele mesmo também era.