| MÚSICA
& MÁGICA
Artimanhas de uma gravadora
não fazem falta à banda Houdini, que já
é dona do que mais importa: ouvintes fiéis
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)
 s
integrantes da banda paulistana Houdini gostam de deixar
bem explícita a sua situação ainda
não muito profissional no tocante à divulgação
e à estrutura de shows, apesar dos seus quase
4 anos de história e de um contrato de distribuição
do CD de estréia, Dia de Sorte (2003),
firmado com a Epic/Sony. Mas a história serve
de consolo para esses casos onde a aceitação
do público acaba convertendo qualquer engravatado
das majors: Houdini já está dentro
da programação da MTV com o clipe espertíssimo
da primeira música de trabalho, "Pra Você
Dizer". A banda foi inclusive convidada para bater
uma bolinha no RockGol de Areia, mesmo admitindo que
"foram pra perder o jogo e que odeiam futebol com
todas as suas forças", palavras do vocalista
Daniel.
Atitude mais hardcore impossível. Apesar da
afinidade dos cinco integrantes (além de Daniel:
Luke e Fish na guitarra, Bina no baixo e Flávio
na batera) com design e computação gráfica
- afinidade essa que acabou trazendo Bina para a banda
que Dani e Luke tinham em mente -, o Houdini dispensa
a super-exposição visual em seus shows.
O máximo que se pode ver é uma colagem
indiscriminada de adesivos na guitarra de Fish. Além
do nome, que remete ao grande mágico ilusionista
do século passado, Luke cita Stanley Kubrick
em meio às suas preferências cinematográficas,
e não se esquece dos quadrinhos que tanto influenciaram
ele e seu irmão Daniel.
Os
primeiros fãs são um capítulo à
parte na breve história do Houdini. A maioria
deles teve o primeiro contato quando a banda abriu shows
para Hateen, Rodox, Ira! e CPM 22. O fórum do
site
do Houdini é o ponto de encontro dos admiradores,
mas alguns deles já chegaram a se conhecer pessoalmente
no Houdini's Day (ou Dia Houdini), realizado pelos freqüentadores
mais assíduos do fórum e que acontece
sem uma periodicidade definida, contando ainda com uma
possível participação da banda.
A admiração acaba criando uma sólida
amizade. Alguns poucos fanáticos pelo Houdini
acabam até freqüentando a casa de seus integrantes.
O som que o Houdini faz é o bom
e velho hardcore, rejuvenescido pela vontade de seus
integrantes de apresentar boa música. Eles brincam
dizendo que o que realmente tocam é “cepacore”,
em alusão ao emocore, vertente mais “dramática”
dentro do HC. São considerados por alguns como
um genérico do CPM 22, no entanto não
se preocupam com os rótulos. Deixam esse pepino
pra imprensa resolver e seguem na luta pelo reconhecimento
da particularidade de seu som.
Uma platéia considerável pôde presenciar
essa particularidade no dia 29 de fevereiro último,
na primeira e histórica apresentação
do Houdini em Santos, litoral paulista. Os votos são
de que essas boas exceções aconteçam
com mais freqüência do que os anos bissextos.
A combinação explosiva da receptividade
do público roqueiro santista com a atuação
de Daniel (um híbrido de Falcão, do Rappa,
com China, ex-Sheik Tosado) e a performance impagável,
no entanto valiosa de Bina, com suas caras e bocas,
forneceram combustível mais do que suficiente
para alimentar uma roda punk durante toda a duração
do show. Do palco, a banda observava abismada e admirada
a maioria de suas músicas na ponta da língua
dos espectadores.
Daniel “culpou” o Kazaa e outros programas
de compartilhamento de música pela boa receptividade
obtida no show em Santos. Ele e companheiros de banda
não crucificam o MP3, e acrescentam ainda que,
quem conhece uma banda pela internet e acaba por aprová-la,
não vai deixar de comprar o CD. Houdini é
mais um daqueles exemplos em que músicos deviam
assumir papel de empresários.
Sem
qualquer semelhança com decisões pensadas
à exaustão pelos almofadinhas de grandes
corporações, foi a entrada ao acaso de
Flávio (ex-baterista do Ultraje A Rigor) na banda,
o último a se juntar ao Houdini. Flávio
presenciou um ensaio do grupo quando ele ainda tinha
um outro baterista e gostou do que viu, com ressalvas.
Por isso mesmo ele se comprometeu em produzir a demo
com a que Sony foi tomar conhecimento do Houdini. O
produtor Rick Bonadio só entraria em cena para
escolher duas das músicas da demo (“Caqui”
e o single “Pra Você Dizer”) que completariam
o restante do álbum de estréia. Flávio
então entrou no Houdini pra dar cara ao que a
banda é hoje. Os outros integrantes são
gratos.
Flávio considera Dia de Sorte
ainda meio fora da realidade musical da banda, e promete
mais peso nas próximas empreitadas. Um novo videoclipe,
surpresa, da música “Caqui”, está
sendo prometido para até o final de abril. Nele,
a banda jura usar toda a sua “experiência
midiática” adquirida em produtoras e em
trampos envolvendo design. Pela hora, o disco é
a chance de Flávio, Dani, Luke, Fish e Bina concretizarem
a virada que eles deram em suas vidas no ano passado,
transformando o envolvimento com música em prioridade
e deixando o resto pra segundo plano. Ficaremos em stand
by, esperançosos e na torcida. 
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