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15 a 28 de março de 2004

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MÚSICA & MÁGICA
Artimanhas de uma gravadora não fazem falta à banda Houdini, que já é dona do que mais importa: ouvintes fiéis

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

s integrantes da banda paulistana Houdini gostam de deixar bem explícita a sua situação ainda não muito profissional no tocante à divulgação e à estrutura de shows, apesar dos seus quase 4 anos de história e de um contrato de distribuição do CD de estréia, Dia de Sorte (2003), firmado com a Epic/Sony. Mas a história serve de consolo para esses casos onde a aceitação do público acaba convertendo qualquer engravatado das majors: Houdini já está dentro da programação da MTV com o clipe espertíssimo da primeira música de trabalho, "Pra Você Dizer". A banda foi inclusive convidada para bater uma bolinha no RockGol de Areia, mesmo admitindo que "foram pra perder o jogo e que odeiam futebol com todas as suas forças", palavras do vocalista Daniel.

Atitude mais hardcore impossível. Apesar da afinidade dos cinco integrantes (além de Daniel: Luke e Fish na guitarra, Bina no baixo e Flávio na batera) com design e computação gráfica - afinidade essa que acabou trazendo Bina para a banda que Dani e Luke tinham em mente -, o Houdini dispensa a super-exposição visual em seus shows. O máximo que se pode ver é uma colagem indiscriminada de adesivos na guitarra de Fish. Além do nome, que remete ao grande mágico ilusionista do século passado, Luke cita Stanley Kubrick em meio às suas preferências cinematográficas, e não se esquece dos quadrinhos que tanto influenciaram ele e seu irmão Daniel.

Os primeiros fãs são um capítulo à parte na breve história do Houdini. A maioria deles teve o primeiro contato quando a banda abriu shows para Hateen, Rodox, Ira! e CPM 22. O fórum do site do Houdini é o ponto de encontro dos admiradores, mas alguns deles já chegaram a se conhecer pessoalmente no Houdini's Day (ou Dia Houdini), realizado pelos freqüentadores mais assíduos do fórum e que acontece sem uma periodicidade definida, contando ainda com uma possível participação da banda. A admiração acaba criando uma sólida amizade. Alguns poucos fanáticos pelo Houdini acabam até freqüentando a casa de seus integrantes.

O som que o Houdini faz é o bom e velho hardcore, rejuvenescido pela vontade de seus integrantes de apresentar boa música. Eles brincam dizendo que o que realmente tocam é “cepacore”, em alusão ao emocore, vertente mais “dramática” dentro do HC. São considerados por alguns como um genérico do CPM 22, no entanto não se preocupam com os rótulos. Deixam esse pepino pra imprensa resolver e seguem na luta pelo reconhecimento da particularidade de seu som.

Uma platéia considerável pôde presenciar essa particularidade no dia 29 de fevereiro último, na primeira e histórica apresentação do Houdini em Santos, litoral paulista. Os votos são de que essas boas exceções aconteçam com mais freqüência do que os anos bissextos. A combinação explosiva da receptividade do público roqueiro santista com a atuação de Daniel (um híbrido de Falcão, do Rappa, com China, ex-Sheik Tosado) e a performance impagável, no entanto valiosa de Bina, com suas caras e bocas, forneceram combustível mais do que suficiente para alimentar uma roda punk durante toda a duração do show. Do palco, a banda observava abismada e admirada a maioria de suas músicas na ponta da língua dos espectadores.

Daniel “culpou” o Kazaa e outros programas de compartilhamento de música pela boa receptividade obtida no show em Santos. Ele e companheiros de banda não crucificam o MP3, e acrescentam ainda que, quem conhece uma banda pela internet e acaba por aprová-la, não vai deixar de comprar o CD. Houdini é mais um daqueles exemplos em que músicos deviam assumir papel de empresários.

Sem qualquer semelhança com decisões pensadas à exaustão pelos almofadinhas de grandes corporações, foi a entrada ao acaso de Flávio (ex-baterista do Ultraje A Rigor) na banda, o último a se juntar ao Houdini. Flávio presenciou um ensaio do grupo quando ele ainda tinha um outro baterista e gostou do que viu, com ressalvas. Por isso mesmo ele se comprometeu em produzir a demo com a que Sony foi tomar conhecimento do Houdini. O produtor Rick Bonadio só entraria em cena para escolher duas das músicas da demo (“Caqui” e o single “Pra Você Dizer”) que completariam o restante do álbum de estréia. Flávio então entrou no Houdini pra dar cara ao que a banda é hoje. Os outros integrantes são gratos.

Flávio considera Dia de Sorte ainda meio fora da realidade musical da banda, e promete mais peso nas próximas empreitadas. Um novo videoclipe, surpresa, da música “Caqui”, está sendo prometido para até o final de abril. Nele, a banda jura usar toda a sua “experiência midiática” adquirida em produtoras e em trampos envolvendo design. Pela hora, o disco é a chance de Flávio, Dani, Luke, Fish e Bina concretizarem a virada que eles deram em suas vidas no ano passado, transformando o envolvimento com música em prioridade e deixando o resto pra segundo plano. Ficaremos em stand by, esperançosos e na torcida.