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29 de março a 11 de abril de 2004

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FINALMENTE... GRAM!
Banda acerta a mão na fórmula que mistura os quatro caras de Liverpool e músicas cantadas em português

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

s pessoas poderiam estar vivendo histórias de amor sem se preocupar em documentá-las ou com o seu fim. É compreensível que em cidades como São Paulo, onde o cinza e a frieza do cimento a tudo contaminam, as pessoas não terminem biografias amorosas de propósito e queiram gravar seus sonhos (atire a primeira VHS quem nunca pensou nisso antes). É dessas e outras que trata a música dos paulistanos do Gram. Música essa de uma aceitação muito boa, mesmo em cidades mais ensolaradas e onde a natureza foi mais generosa. Culpa da globalização, na sua incumbência de enfileirar lado a lado além das mentes, agora as cidades?

Dela, a globalização, o Gram não pode reclamar. A banda chamou a atenção da imprensa especializada e dos garimpeiros de boa música digital na rede, ao disponibilizar algumas faixas (ainda que de menor qualidade) do CD de estréia, Gram (2003), em seu site. O Gram não foi a primeira, e os exemplos de bandas que oferecem MP3 de graça na web já são incontáveis. Para uma atração independente de qualquer gravadora, o cuidado com a arte do primeiro álbum do Gram é mais do que especial. Serve de convite para uma festa musical que se descortina logo na primeira audição do disco.

“Você Pode Ir Na Janela” inaugura o CD. Música e banda caíram no gosto de Kid Vinil, diretor da redentora programação da rádio paulistana Brasil 2000 FM. A faixa também ganhou clipe de animação muito boa exibido na MTV. É escancarada sem demora a pegada única que a banda apresenta em relação à vasta (e contaminada) produção musical brasileira. Um quase britpop. As guitarras são nervosas mas nada punk-rockers, graças à tal “pegada”, que acaba por adestrá-las durante todo o disco.

Por essas e outras é injusto deixar de classificá-los naquela vertente de bandas que mistura Beatles a um caldeirão de modernidades. Seria o motivo disso o Mosva (banda já desfeita e que deu origem ao Gram) e suas músicas cantadas em inglês, buscando a aproximação com o que é feito lá fora? Ou seria o fato de Sérgio (voz, guitarra e piano) e Marcello (voz, baixo e sintetizador) também integrarem uma banda cover dos Beatles? Contando ainda com Luiz (voz e guitarra), o guitarrista Marco e o baterista Fernando, o Gram quase não precisa de definição, por ser original e agradar. Agradar não, acertar em cheio.

Um piano anuncia a segunda faixa, “Sonho Bom”, onde a aparente veia romântica das músicas compostas pelo Gram se concretiza. Os cinco marmanjos de Sampa nem por isso dão brecha para serem chamados de piegas ou últimos românticos. Uma montanha-russa de emoções, refletidas na melodia, emergem a seguir. Seja nas incontornáveis situações boas ou más de “Toda Luz”, ou nas ácidas conclusões tiradas no começo de “Seu Troféu”, que termina sob o signo da felicidade extrema.

“Quase Ilusão” é levada o tempo inteiro com certa reserva, para no final revelar uma batida surpresa, contagiante e rápida. Porque tudo o que é bom dura pouco. A letra da música ainda compartilha e levanta a bandeira daquela sensação tão boa de ver aquele alguém partindo. Mas não esqueça que você ainda está dentro do carrinho da montanha-russa. Depois do êxtase vem a fossa de “Moonshine”, única música do álbum cantada em inglês.

Em “Faça Alguma Coisa”, a harmônica lembra algo do catálogo pop-rock brasileiro de qualquer gravadora. Só lembra, bem de longe. “Reinvento” é meio claustrofóbica, a letra conta uma história que corre atrás do próprio rabo, ou do mesmo amor de sempre. “Vem Você” é catarse pra assobiar junto, com percussão retumbando ao fundo. O passeio chega ao fim com gritos e pequenas pausas seguidas de guitarras rebeldes: “É A Vida”.

A conquista da cena independente já é fato consumado na carreira do Gram. Pelo menos a conquista da imprensa dessa cena independente. Alguma gravadora por aí poderia cometer o deslize de colocar o Gram em cada loja de CD desse país. Deslize porque seria alguma coisa nova e de boa qualidade indo parar nas prateleiras, o que não costuma acontecer. Só então cada vez mais pessoas teriam a chance de se espantar com algumas peças do Pequeno Construtor (um brinquedo educativo) estampadas na capa do CD do Gram e começariam finalmente a indolor mudança dos seus conceitos musicais.