| FINALMENTE...
GRAM!
Banda acerta a mão
na fórmula que mistura os quatro caras de Liverpool
e músicas cantadas em português
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)
 s
pessoas poderiam estar vivendo histórias de amor
sem se preocupar em documentá-las ou com o seu
fim. É compreensível que em cidades como
São Paulo, onde o cinza e a frieza do cimento
a tudo contaminam, as pessoas não terminem biografias
amorosas de propósito e queiram gravar seus sonhos
(atire a primeira VHS quem nunca pensou nisso antes).
É dessas e outras que trata a música dos
paulistanos do Gram. Música essa de uma aceitação
muito boa, mesmo em cidades mais ensolaradas e onde
a natureza foi mais generosa. Culpa da globalização,
na sua incumbência de enfileirar lado a lado além
das mentes, agora as cidades?
Dela, a globalização, o
Gram não pode reclamar. A banda chamou a atenção
da imprensa especializada e dos garimpeiros de boa música
digital na rede, ao disponibilizar algumas faixas (ainda
que de menor qualidade) do CD de estréia, Gram
(2003), em seu
site. O Gram não foi a primeira, e os exemplos
de bandas que oferecem MP3 de graça na web já
são incontáveis. Para uma atração
independente de qualquer gravadora, o cuidado com a
arte do primeiro álbum do Gram é mais
do que especial. Serve de convite para uma festa musical
que se descortina logo na primeira audição
do disco.
“Você Pode Ir Na Janela”
inaugura o CD. Música e banda caíram no
gosto de Kid Vinil, diretor da redentora programação
da rádio paulistana Brasil 2000 FM. A faixa também
ganhou clipe de animação muito boa exibido
na MTV. É escancarada sem demora a pegada única
que a banda apresenta em relação à
vasta (e contaminada) produção musical
brasileira. Um quase britpop. As guitarras são
nervosas mas nada punk-rockers, graças à
tal “pegada”, que acaba por adestrá-las
durante todo o disco.
Por
essas e outras é injusto deixar de classificá-los
naquela vertente de bandas que mistura Beatles a um
caldeirão de modernidades. Seria o motivo disso
o Mosva (banda já desfeita e que deu origem ao
Gram) e suas músicas cantadas em inglês,
buscando a aproximação com o que é
feito lá fora? Ou seria o fato de Sérgio
(voz, guitarra e piano) e Marcello (voz, baixo e sintetizador)
também integrarem uma banda cover dos Beatles?
Contando ainda com Luiz (voz e guitarra), o guitarrista
Marco e o baterista Fernando, o Gram quase não
precisa de definição, por ser original
e agradar. Agradar não, acertar em cheio.
Um piano anuncia a segunda faixa, “Sonho Bom”,
onde a aparente veia romântica das músicas
compostas pelo Gram se concretiza. Os cinco marmanjos
de Sampa nem por isso dão brecha para serem chamados
de piegas ou últimos românticos. Uma montanha-russa
de emoções, refletidas na melodia, emergem
a seguir. Seja nas incontornáveis situações
boas ou más de “Toda Luz”, ou nas
ácidas conclusões tiradas no começo
de “Seu Troféu”, que termina sob
o signo da felicidade extrema.
“Quase Ilusão” é levada o
tempo inteiro com certa reserva, para no final revelar
uma batida surpresa, contagiante e rápida. Porque
tudo o que é bom dura pouco. A letra da música
ainda compartilha e levanta a bandeira daquela sensação
tão boa de ver aquele alguém partindo.
Mas não esqueça que você ainda está
dentro do carrinho da montanha-russa. Depois do êxtase
vem a fossa de “Moonshine”, única
música do álbum cantada em inglês.
Em
“Faça Alguma Coisa”, a harmônica
lembra algo do catálogo pop-rock brasileiro de
qualquer gravadora. Só lembra, bem de longe.
“Reinvento” é meio claustrofóbica,
a letra conta uma história que corre atrás
do próprio rabo, ou do mesmo amor de sempre.
“Vem Você” é catarse pra assobiar
junto, com percussão retumbando ao fundo. O passeio
chega ao fim com gritos e pequenas pausas seguidas de
guitarras rebeldes: “É A Vida”.
A conquista da cena independente já é
fato consumado na carreira do Gram. Pelo menos a conquista
da imprensa dessa cena independente. Alguma gravadora
por aí poderia cometer o deslize de colocar o
Gram em cada loja de CD desse país. Deslize porque
seria alguma coisa nova e de boa qualidade indo parar
nas prateleiras, o que não costuma acontecer.
Só então cada vez mais pessoas teriam
a chance de se espantar com algumas peças do
Pequeno Construtor (um brinquedo educativo) estampadas
na capa do CD do Gram e começariam finalmente
a indolor mudança dos seus conceitos musicais.

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