| AGORA
E NA HORA DE SUA MORTE
Surpresa: por trás
de tanta polêmica, descobre-se que sim, o filme
A Paixão de Cristo vale a pena ser visto
por
Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)
 ra
uma execução em nada diferente de tantas
outras. Quem dos presentes pensaria que, dois mil anos
depois, a morte de um homem da Galiléia ainda
causaria tanto falatório? Mas causa. Há
meses que um dos principais assuntos do diz-que-me-diz
cultural é A Paixão de Cristo,
filme que Mel Gibson idealizou e vem causando bafafá
desde sua concepção.
Ainda no começo do projeto, muitos riram, descrentes,
quando soube-se que este novo filme sobre Jesus Cristo
seria falado em aramaico – e sem legendas. Os
risos transformaram-se em desconforto quando veio à
tona que o longa retrataria o calvário de Cristo,
com um realismo inédito até então.
No final, essa produção, que a princípio
não conseguiu sequer um distribuidor, e na qual
Gibson teve que investir seu próprio dinheiro,
rendeu muito, em dinheiro e em polêmica, principalmente
pelas acusações de anti-semitismo. Mas,
por trás do falatório, o que se encontra?
A resposta é: um bom filme. A Paixão
de Cristo tem qualidades técnicas e
artísticas que resistem a um olhar minucioso
depois que a fumaça da controvérsia abaixa.
Quem teve educação cristã deve
ter ouvido tantas vezes relatos de como Jesus foi traído,
castigado, crucificado e morreu, para depois ressuscitar,
que perdeu a dimensão do que isso significa.
Gibson se propôs a mostrar a dimensão real
do sacrifício cometido com a execução
de Cristo. E logo de início mostra a que veio.
Não se perde tempo com a apresentação
dos personagens ou situando a ação (até
porque a história é tão conhecida
que isso seria totalmente desnecessário). Judas
trai seu mestre, e logo esse vira saco de pancadas de
seus captores. Espectadores acostumados com a violência
asséptica de Hollywood com certeza se espantam
com um dolorido olho direito inchado, que os acompanhará
pelo resto da história. E esse é só
o início.
Apesar de apoiar-se muito no sofrimento
físico, A Paixão não esquece
também de outro lado muito desprezado desta história:
o sofrimento emocional. E para isso boas atuações
são fundamentais. A performance dos atores procura
em todos os instantes humanizar suas personagens, que
choram e se desesperam de forma tão convincente
que não há como não se angustiar
durante o desenrolar da trama. Essas personagens, que
de tão famosas tornaram-se distantes, ganharam
nova existência, de carne, osso e lágrimas.
Outro fator importante é que, com a exceção
de Monica Bellucci, que faz Maria Madalena, não
há atores famosos que ofuscam suas personagens.
Em nenhum momento quem assiste tem pensamentos que comprometem
a realidade do filme, como “ei, esse lavando as
mãos é o David Bowie!”. Os diálogos
em aramaico e latim tornam a ação ainda
mais fidedigna.
Um
dos maiores feitos do filme, no entanto, é em
momento nenhum anestesiar o espectador. Considerando-se
duas horas e tanto de espancamento, isso é algo
impressionante. As formas de tortura vão se sucedendo,
sempre com novas variações; sofrimentos
semelhantes ganham novo frescor através de diferentes
ângulos de câmera. Se um chicoteamento já
perdeu o impacto e começa a parecer comum, a
visão em primeira pessoa desperta quem assiste
para o sofrimento; o espectador sofre com um prego atravessando
a mão direita, e sofre mais ainda ao ver, na
esquerda, apenas a ponta atravessando a madeira e pingando
sangue.
É uma recriação do martírio
de Cristo, que, apesar de ter várias interferências
autorais, é extremamente ortodoxa. Blasfêmias
como Cristo sendo tentado a ter uma vida normal (A
Última Tentação de Cristo)
ou tornando-se uma vítima de Deus (O
Evangelho Segundo Jesus Cristo) passam longe
deste filme. Sente-se o dedo de Gibson, no entanto,
principalmente numa visão extremamente mística
que pontua a narrativa. O demônio aparece várias
vezes, não tanto de forma atuante quanto de forma
alegórica; personagens que se aproximam de Jesus
não conseguem deixar de, em algum ponto, tomar
consciência da santidade de sua vítima
e mudar suas ações de alguma maneira por
conta disso. Flashbacks bem colocados
realçam o conteúdo dramático do
que acontece e esclarecem a finalidade sobrenatural
do que está ocorrendo.
Sobre as acusações de anti-semitismo...
Sejamos sinceros: não há como contar uma
história como esta sendo politicamente correto.
Quem buscar no filme acusações contra
os judeus irá encontrá-las aos montes.
Da mesma forma, pode-se interpretá-las como um
exemplo da mentalidade coletiva, incitada por um líder,
sobrepujando o julgamento de cada indivíduo.
Cada um vê aquilo que mais lhe agrada. Sim, o
diálogo em que Jesus exime Pilatos da culpa,
jogando-a sobre quem pede sua execução,
soa terrivelmente anti-semita. Pode-se dizer, em defesa
do roteiro, que são mostrados também judeus
tentando impedir que a execução aconteça,
judeus lamentando aquela violência (curiosamente,
praticamente só mulheres) e judeus buscando aliviar
o sofrimento de Cristo, enquanto os soldados romanos
só fazem espancá-lo do começo ao
fim.
E,
de qualquer maneira, a trama deixa claro que esse é
um processo pelo qual Cristo tem que passar para que,
como se afirma no começo da história,
carregue em seus ombros os pecados da humanidade e exima
a todos com seu sacrifício. A crueldade dos judeus
é tão instrumental nesse processo quanto
a santidade da vítima. Aqueles cuja principal
intenção ao ver A Paixão de
Cristo for buscar razões para maltratar judeus
vão perder a principal moral da história:
como uma população (o exemplo dado no
filme pode se estender a qualquer outra), quando influenciada
por um líder, pode cometer qualquer atrocidade,
a começar por matar um homem bom (nesse caso,
o melhor de todos). O povo que nunca fez isso que atire
a primeira pedra. 
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