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29 de março a 11 de abril de 2004

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AGORA E NA HORA DE SUA MORTE
Surpresa: por trás de tanta polêmica, descobre-se que sim, o filme A Paixão de Cristo vale a pena ser visto

por Marcio Caparica (marcio@rabisco.com.br)

ra uma execução em nada diferente de tantas outras. Quem dos presentes pensaria que, dois mil anos depois, a morte de um homem da Galiléia ainda causaria tanto falatório? Mas causa. Há meses que um dos principais assuntos do diz-que-me-diz cultural é A Paixão de Cristo, filme que Mel Gibson idealizou e vem causando bafafá desde sua concepção.

Ainda no começo do projeto, muitos riram, descrentes, quando soube-se que este novo filme sobre Jesus Cristo seria falado em aramaico – e sem legendas. Os risos transformaram-se em desconforto quando veio à tona que o longa retrataria o calvário de Cristo, com um realismo inédito até então. No final, essa produção, que a princípio não conseguiu sequer um distribuidor, e na qual Gibson teve que investir seu próprio dinheiro, rendeu muito, em dinheiro e em polêmica, principalmente pelas acusações de anti-semitismo. Mas, por trás do falatório, o que se encontra? A resposta é: um bom filme. A Paixão de Cristo tem qualidades técnicas e artísticas que resistem a um olhar minucioso depois que a fumaça da controvérsia abaixa.

Quem teve educação cristã deve ter ouvido tantas vezes relatos de como Jesus foi traído, castigado, crucificado e morreu, para depois ressuscitar, que perdeu a dimensão do que isso significa. Gibson se propôs a mostrar a dimensão real do sacrifício cometido com a execução de Cristo. E logo de início mostra a que veio. Não se perde tempo com a apresentação dos personagens ou situando a ação (até porque a história é tão conhecida que isso seria totalmente desnecessário). Judas trai seu mestre, e logo esse vira saco de pancadas de seus captores. Espectadores acostumados com a violência asséptica de Hollywood com certeza se espantam com um dolorido olho direito inchado, que os acompanhará pelo resto da história. E esse é só o início.

Apesar de apoiar-se muito no sofrimento físico, A Paixão não esquece também de outro lado muito desprezado desta história: o sofrimento emocional. E para isso boas atuações são fundamentais. A performance dos atores procura em todos os instantes humanizar suas personagens, que choram e se desesperam de forma tão convincente que não há como não se angustiar durante o desenrolar da trama. Essas personagens, que de tão famosas tornaram-se distantes, ganharam nova existência, de carne, osso e lágrimas. Outro fator importante é que, com a exceção de Monica Bellucci, que faz Maria Madalena, não há atores famosos que ofuscam suas personagens. Em nenhum momento quem assiste tem pensamentos que comprometem a realidade do filme, como “ei, esse lavando as mãos é o David Bowie!”. Os diálogos em aramaico e latim tornam a ação ainda mais fidedigna.

Um dos maiores feitos do filme, no entanto, é em momento nenhum anestesiar o espectador. Considerando-se duas horas e tanto de espancamento, isso é algo impressionante. As formas de tortura vão se sucedendo, sempre com novas variações; sofrimentos semelhantes ganham novo frescor através de diferentes ângulos de câmera. Se um chicoteamento já perdeu o impacto e começa a parecer comum, a visão em primeira pessoa desperta quem assiste para o sofrimento; o espectador sofre com um prego atravessando a mão direita, e sofre mais ainda ao ver, na esquerda, apenas a ponta atravessando a madeira e pingando sangue.

É uma recriação do martírio de Cristo, que, apesar de ter várias interferências autorais, é extremamente ortodoxa. Blasfêmias como Cristo sendo tentado a ter uma vida normal (A Última Tentação de Cristo) ou tornando-se uma vítima de Deus (O Evangelho Segundo Jesus Cristo) passam longe deste filme. Sente-se o dedo de Gibson, no entanto, principalmente numa visão extremamente mística que pontua a narrativa. O demônio aparece várias vezes, não tanto de forma atuante quanto de forma alegórica; personagens que se aproximam de Jesus não conseguem deixar de, em algum ponto, tomar consciência da santidade de sua vítima e mudar suas ações de alguma maneira por conta disso. Flashbacks bem colocados realçam o conteúdo dramático do que acontece e esclarecem a finalidade sobrenatural do que está ocorrendo.

Sobre as acusações de anti-semitismo... Sejamos sinceros: não há como contar uma história como esta sendo politicamente correto. Quem buscar no filme acusações contra os judeus irá encontrá-las aos montes. Da mesma forma, pode-se interpretá-las como um exemplo da mentalidade coletiva, incitada por um líder, sobrepujando o julgamento de cada indivíduo. Cada um vê aquilo que mais lhe agrada. Sim, o diálogo em que Jesus exime Pilatos da culpa, jogando-a sobre quem pede sua execução, soa terrivelmente anti-semita. Pode-se dizer, em defesa do roteiro, que são mostrados também judeus tentando impedir que a execução aconteça, judeus lamentando aquela violência (curiosamente, praticamente só mulheres) e judeus buscando aliviar o sofrimento de Cristo, enquanto os soldados romanos só fazem espancá-lo do começo ao fim.

E, de qualquer maneira, a trama deixa claro que esse é um processo pelo qual Cristo tem que passar para que, como se afirma no começo da história, carregue em seus ombros os pecados da humanidade e exima a todos com seu sacrifício. A crueldade dos judeus é tão instrumental nesse processo quanto a santidade da vítima. Aqueles cuja principal intenção ao ver A Paixão de Cristo for buscar razões para maltratar judeus vão perder a principal moral da história: como uma população (o exemplo dado no filme pode se estender a qualquer outra), quando influenciada por um líder, pode cometer qualquer atrocidade, a começar por matar um homem bom (nesse caso, o melhor de todos). O povo que nunca fez isso que atire a primeira pedra.