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19 de abril a 2 de maio de 2004

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SENHORAS E SENHORES: O REVERENDO!
O Rabisco aproveita a passagem de Fabio Massari por Santos e troca uma idéia com esse poço de conhecimento musical

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

abio Massari esteve em Santos no último dia de março para lançar seus dois livros na cidade, Rumo à Estação Islândia (Conrad, 2001) e o recente Emissões Noturnas - Cadernos Radiofônicos de FM (Grinta Cultural, 2003). Emissões é uma agradável transcrição das entrevistas que foram ao ar no programa de rádio Rock Report, dirigido e apresentado por Massari. No livro, é possível conferir a estranha admiração do autor pelo Jane’s Addiction, desde os idos até meados da década passada; o estrago causado pelo Nirvana e ascensão da cena independente; muitas críticas a George Bush (pai) e duas citações a Schwarzenegger, uma delas uma verdadeira premonição.

Os depoimentos recolhidos por Massari vão desde Nick Cave, Black Crowes e Ramones, passando por Primal Scream e Sonic Youth, até Alice In Chains e Slash, do Guns’n’Roses. O reverendo (como passou a ser conhecido devido à enorme bagagem de conhecimento musical da qual é dono) ainda relembra os primeiros dias no rádio ao lado de Kid Vinil e Edgard Piccoli. Na entrevista abaixo ele comenta sobre isso e ainda fala de sua passagem pela MTV e os rumos dos bons sons ao redor do planeta.

Chega de apresentações, porque como é bem sabido, Massari não poupa saliva quando é intimado a falar. Azar dos editores que passaram por sua vida.

Qual foi o tempo gasto desde a idéia de Emissões até o lançamento do livro?

Como eu digo na introdução, eu estava rabiscando e pensando numa colagem mais ampla dos meus registros. Tinha coisa de rádio mas tinha outras também publicadas em revista, tipo Trip, General. Aí eu topei, num determinado momento, com os arquivos do Rock Report, que era o meu programa, meio organizados, digamos assim. Duzentas e tantas fitas, os roteiros, clipping, memorabília. Na hora que eu vi que esses arquivos estavam meio juntos eu falei “pronto, isso aqui vai ser o livro”.

Essas fitas do Rock Report estavam contigo ou com a rádio 89 FM, que transmitia o programa?

Pra esse livro, eu queria me concentrar no projeto de autor que era o Rock Report. Esses arquivos estavam comigo, são realmente arquivos pessoais. Eu tenho umas duzentas e tantas edições, boa parte delas, mas alguma coisa devo não ter. Um pouco antes de embarcar nesse livro eu encontrei um cara no Curitiba Pop Festival do ano passado e ele falou, “eu tenho aquele programa das bandas italianas fazendo cover de Sonic Youth. Achei o K7, passei pra CD e ouço no carro”. O legal dos arquivos é saber que de repente eu posso não ter uma entrevista, mas alguém pode ter isso em algum lugar.

Como foi o processo de seleção de material para o livro, a “peneira”?

A peneira foi mais o critério para tirar algumas entrevistas. O Legião Urbana e o Jesus and Mary Chain são entrevistas que eu fiz pra rádio mas não para o Rock Report. São entrevistas que eu adoraria ter como arquivo, como registro. Eu tirei foto com o Jesus, fiz a entrevista, mas não tenho registrado isso de maneira alguma. Então é aquela “graça” de que falei: alguém deve ter em algum lugar. Na verdade deixei de fora a entrevista do [Frank] Zappa, que foi para o Rock Report, mas o Zappa é um outro projeto, uma outra missão. Deixei a entrevista do Sepultura de fora também, são duas entrevistas muito legais aliás, com os quatro, formação original, obviamente. Mas exclui porque era a única importante nacional, que eu achei também que merecia uma outra onda em algum outro momento.

A maioria das entrevistas que já estava transcrita?

Boa parte. Eu fiz alguma coisa braçal, mas pra minha surpresa já tinha boa parte disso engatilhado. Eu até falo: “é possível que algumas dessas entrevistas tenham sido maiores. E é possível que algumas devessem ser menores”. Porque, sei lá, às vezes eu fico um tempão falando de um músico tcheco que ninguém conhece. Por exemplo, Alice in Chains tem três perguntas e é o que eu tinha registrado. Talvez [a entrevista] fosse maior, mas o que entrou no programa foram essas três, quatro perguntinhas, então é o que está no livro.

(Pausa para Massari ver sua foto estampada ao lado da matéria no jornal A Tribuna, de Santos, tratando a respeito da visita dele à cidade na ocasião. Ainda sobrou tempo para o reverendo tirar sarro da descrição que acompanha seu nome no fim de Emissões: “Bacharel em comunicação social é foda. O pior é que é mesmo. Nome bizarro, né?”)

O quanto de “psicodelia” foi perdida na música atual desde a época relatada no Emissões?

O psicodélico é mais uma onda pessoal, eu sempre gostei dos sons psicodélicos. E até uma pauta recorrente nas entrevistas era justamente de falar com as pessoas, “e aí, o que é a psicodelia hoje em dia?”. Uma resposta excelente é a do Bobby Gillespie, do Primal Scream. Ele fala que a última música realmente psicodélica era o reggae dos anos 70. Acho que se perdeu um pouco esse conceito aí pelos tempos, mas vira e mexe você tem essa coisa ácida, transcendente, enfim, que acaba valendo como psicodelia. Uma das melhores definições do som psicodélico é o Roky Erikson quem dá, um cara que era daquele 13th Floor Elevators, banda psicodélica texana dos anos 60. Ele fala que o som psicodélico é onde o olho encontra a pirâmide. É isso aí, né? Seja lá o que isso queira dizer.

Quem fez a diagramação do Emissões?

Foi o Daniel Motta, um dos sócios da revista Zero e o cara que toma conta da parte gráfica, o diretor de arte da revista. Pra esse livro eu tinha idéias do que eu queria, de tamanho, formato, papel, queria alguma coisa que tivesse essa cara de arquivo mesmo, papel envelhecido. Eu fui dando os elementos e o Daniel acertou na mosca.

Falando na Zero, o que você acha dessa imprensa deficiente que o Brasil tem pra cobrir cenário musical?

Infelizmente fazer o tal do jornalismo musical aqui, nessa praia do rock e derivados, ainda é uma coisa meio de herói, de forças isoladas ou algumas agremiações. Ainda é batalha, esse tipo de jornalismo não tem muita credibilidade, não é encarado nem como boa literatura talvez. Eu não gosto muito de ficar comparando com os mercados lá de fora, mas a crítica e o jornalismo musical são levados a sério.

O quanto de Rumo à estação Islândia te ajudou a chegar no Emissões Noturnas?

Na verdade, essa onda dos livros era uma coisa que eu já vinha planejando há um tempo. Eu sabia que em algum momento eu ia querer me dedicar a isso. Depois que vai o primeiro, fica mais fácil. Quem se envolve com isso, quem gosta de livro e literatura, como eu, acaba sendo auto-crítico. Acho que não sei escrever, que tenho que praticar mais e de fato é isso. O Luís Antonio Giron, clássico crítico de música, falou pra mim, “Bicho, não esquenta. Escreve, publica e faz. Não fica enrolando, não fica nessa piração. Faz e pronto”. E é por aí. Esse ano eu quero ver se lanço logo dois.

Foi o livro que despertou em você a vontade de retornar ao rádio?

Eu sabia que em algum momento isso ia rolar porque eu sempre gostei muito de rádio. Ia querer fazer alguma coisa de novo mas aí veio a onda “pilha” do livro. Mas estamos aí de novo.

Pode adiantar alguma coisa?

Não saberia dizer ainda. Eu acho que se eu fizer alguma coisa vai ser na linha do que era o Mondo Massari [programa da MTV], que é mais a minha praia hoje em dia, com o que eu mais me divirto, que é justamente viajar sonicamente...

As conexões, certo?

Exatamente! São as conexões, ouvir, sei lá, um trip-hop mexicano, punk japonês, rock italiano... Como projeto editorial é interessante a coisa da viagem, globalização. Então eu acho que se fizer alguma coisa, em princípio vai ser nesse caminho.

Qual sua opinião sobre Kid Vinil e a atuação dele como diretor artístico da rádio paulistana Brasil 2000?

Alegria total. Está encontrando dificuldades como era de se esperar porque rádio é assim mesmo. Em rádio a cobrança é imediata. Rádio é mediado por índices de audiência, Ibope, esse tipo de coisa, os donos ficam em cima de quem está coordenando a rádio e eu sei disso porque eu fui coordenador da 89 durante dois anos. E na Brasil 2000, que tem esse perfil mais college radio, mais alternativo, isso deveria ser um pouco mais leve, mas não é, é intenso também. Mas tinha que ser o Kid, né? E pra promover o tipo de mudança que ele tem em mente, só sendo radical assim do jeito que ele foi. Senão não tem jeito, meio termo não rola: ou radicaliza ou tenta ser como as outras comerciais.

Você acha que falta um apresentador para o Lado B e outros programas segmentados da MTV?

Eu particularmente vejo com uma certa melancolia, é claro, porque eu fiquei vários anos no Lado B. Era o espaço, o carimbo importante, um quase compromisso orgânico de formar gerações ou de apontar caminhos diferentes. Mas é isso aí né? Rock’n’roll.

Que recordações você guarda da sua época de MTV?

Pra mim é tudo muito quente ainda. Eu fiquei lá 12 anos, é uma vida lá dentro. Doze anos é bastante tempo e eu costumo dizer que eu tenho uma visão meio surrealista da MTV, no bom sentido. Porque eu convivi com um monte de gente, vi um monte de coisa legal acontecendo. Posso ficar dias aqui falando, posso ficar falando mal também, é lógico. Algumas das coisas mais legais que eu fiz pessoal e profissionalmente foi lá dentro.

Quais são os sons que fazem a sua cabeça hoje?

Um pouco de tudo. Eu ouço desde Dandy Warhols e essas coisas novas, lado B, até velharias. Vou muito atrás de vinis. Eu tenho ouvido muita coisa japonesa, algumas das guitarras mais barulhentas, uma banda chamada Acid Mothers Temple. Loucura total, psicodelia fora de controle. Japonês tem ultra-produção, de qualidade e quantidade. E mexicanos, Plastilina Mosh, Molotov, Control Machete, tem dezenas. Italianos, que também é um projetinho de livro para o futuro. A Itália tem um mundo de bandas legais. Por conta da conexão familiar eu tive mais contato com sons italianos. Pra colecionador, a Itália é um mercado incrível. Pra dar o exemplo do grunge, Nirvana, essas coisas, quando o grunge explodiu no mundo, na Itália os caras já tavam ouvindo isso há 10 anos. Nirvana não era novidade nenhuma. E os caras têm dezenas de programas de rádio, vinte revistas diferentes.

Que bandas nacionais vêm chamando sua atenção?

Eu tenho me divertido muito com a independência. De um tempo pra cá percebeu-se que existe vida saudável longe das grandes corporações. Aliás, ela vai ser mais saudável se ficar longe mesmo. Tem muito disco legal sendo produzido em tudo quanto é lugar. Você vai pro sul e tem uma cena fortíssima, Rio de Janeiro e São Paulo tem um monte de banda, dá pra citar várias. Zémaria no Espírito Santo, bom demais, você vai subindo, Nordeste... Pó, Goiânia, né meu? Goiânia Rock City, Monstro Discos, um monte de coisa saindo. O mercado da independência tá pegando fogo. Mas é aquilo: você tá pensando em tiragens de mil, até 2 mil discos, festivais específicos. É uma rede que não tem uma divulgação, não tem uma luz, um holofote da grande mídia. Mas quem quiser acha.

Quão nocivo você acha que é o “hype” para o jornalismo musical?

Dia do rock, a salvação do rock, a grande promessa, são ferramentas que tem menos a ver com música. Um pouco é culpa nossa, jornalista faz um pouco isso mesmo. São ferramentas válidas, é divertido, agora, precisa ter o filtro. Eu particularmente não acredito em nada dessas coisas, acho tudo conversa furada.

E a contribuição da internet para esse nicho de cobertura da imprensa?

Eu não sou apocalíptico de achar que é uma droga. Tem um monte de coisa positiva. Se por um lado você democratizou esse espaço de elaboração jornalística, por outro lado o filtro tem que ser maior. Enfim, você tem que saber se achar aí no meio. Também o lance de baixar música. Se vem bater de frente com o esquema antigo e corporativo das gravadoras é bom. Talvez mude o suporte, mas o cara solitário na sua garagem com a guitarra vai estar sempre por aí.