| SENHORAS
E SENHORES: O REVERENDO!
O Rabisco aproveita
a passagem de Fabio Massari por Santos e troca uma idéia
com esse poço de conhecimento musical
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)
 abio
Massari esteve em Santos no último dia de março
para lançar seus dois livros na cidade, Rumo
à Estação Islândia (Conrad,
2001) e o recente Emissões Noturnas - Cadernos
Radiofônicos de FM (Grinta Cultural, 2003).
Emissões é uma agradável
transcrição das entrevistas que foram
ao ar no programa de rádio Rock Report,
dirigido e apresentado por Massari. No livro, é
possível conferir a estranha admiração
do autor pelo Jane’s Addiction, desde os idos
até meados da década passada; o estrago
causado pelo Nirvana e ascensão da cena independente;
muitas críticas a George Bush (pai) e duas citações
a Schwarzenegger, uma delas uma verdadeira premonição.
Os depoimentos recolhidos por Massari
vão desde Nick Cave, Black Crowes e Ramones,
passando por Primal Scream e Sonic Youth, até
Alice In Chains e Slash, do Guns’n’Roses.
O reverendo (como passou a ser conhecido devido à
enorme bagagem de conhecimento musical da qual é
dono) ainda relembra os primeiros dias no rádio
ao lado de Kid Vinil e Edgard Piccoli. Na entrevista
abaixo ele comenta sobre isso e ainda fala de sua passagem
pela MTV e os rumos dos bons sons ao redor do planeta.
Chega de apresentações, porque como é
bem sabido, Massari não poupa saliva quando é
intimado a falar. Azar dos editores que passaram por
sua vida.
Qual foi o tempo gasto desde a idéia de Emissões
até o lançamento do livro?
Como eu digo na introdução, eu estava
rabiscando e pensando numa colagem mais ampla dos meus
registros. Tinha coisa de rádio mas tinha outras
também publicadas em revista, tipo Trip,
General. Aí eu topei, num determinado
momento, com os arquivos do Rock Report, que
era o meu programa, meio organizados, digamos assim.
Duzentas e tantas fitas, os roteiros, clipping, memorabília.
Na hora que eu vi que esses arquivos estavam meio juntos
eu falei “pronto, isso aqui vai ser o livro”.
Essas fitas do Rock Report estavam contigo ou
com a rádio 89 FM, que transmitia o programa?
Pra esse livro, eu queria me concentrar no projeto de
autor que era o Rock Report. Esses arquivos estavam
comigo, são realmente arquivos pessoais. Eu tenho
umas duzentas e tantas edições, boa parte
delas, mas alguma coisa devo não ter. Um pouco
antes de embarcar nesse livro eu encontrei um cara no
Curitiba Pop Festival do ano passado e ele falou, “eu
tenho aquele programa das bandas italianas fazendo cover
de Sonic Youth. Achei o K7, passei pra CD e ouço
no carro”. O legal dos arquivos é saber
que de repente eu posso não ter uma entrevista,
mas alguém pode ter isso em algum lugar.
Como foi o processo de seleção de material
para o livro, a “peneira”?
A peneira foi mais o critério para tirar algumas
entrevistas. O Legião Urbana e o Jesus and Mary
Chain são entrevistas que eu fiz pra rádio
mas não para o Rock Report. São
entrevistas que eu adoraria ter como arquivo, como registro.
Eu tirei foto com o Jesus, fiz a entrevista, mas não
tenho registrado isso de maneira alguma. Então
é aquela “graça” de que falei:
alguém deve ter em algum lugar. Na verdade deixei
de fora a entrevista do [Frank] Zappa, que
foi para o Rock Report, mas o Zappa é
um outro projeto, uma outra missão. Deixei a
entrevista do Sepultura de fora também, são
duas entrevistas muito legais aliás, com os quatro,
formação original, obviamente. Mas exclui
porque era a única importante nacional, que eu
achei também que merecia uma outra onda em algum
outro momento.
A maioria das entrevistas que já estava transcrita?
Boa parte. Eu fiz alguma coisa braçal, mas pra
minha surpresa já tinha boa parte disso engatilhado.
Eu até falo: “é possível
que algumas dessas entrevistas tenham sido maiores.
E é possível que algumas devessem ser
menores”. Porque, sei lá, às vezes
eu fico um tempão falando de um músico
tcheco que ninguém conhece. Por exemplo, Alice
in Chains tem três perguntas e é o que
eu tinha registrado. Talvez [a entrevista] fosse maior,
mas o que entrou no programa foram essas três,
quatro perguntinhas, então é o que está
no livro.
(Pausa para Massari ver sua foto estampada
ao lado da matéria no jornal A Tribuna,
de Santos, tratando a respeito da visita dele à
cidade na ocasião. Ainda sobrou tempo para o
reverendo tirar sarro da descrição que
acompanha seu nome no fim de Emissões:
“Bacharel em comunicação social
é foda. O pior é que é mesmo. Nome
bizarro, né?”)

O quanto de “psicodelia” foi perdida na
música atual desde a época relatada no
Emissões?
O psicodélico é mais uma onda pessoal,
eu sempre gostei dos sons psicodélicos. E até
uma pauta recorrente nas entrevistas era justamente
de falar com as pessoas, “e aí, o que é
a psicodelia hoje em dia?”. Uma resposta excelente
é a do Bobby Gillespie, do Primal Scream. Ele
fala que a última música realmente psicodélica
era o reggae dos anos 70. Acho que se perdeu um pouco
esse conceito aí pelos tempos, mas vira e mexe
você tem essa coisa ácida, transcendente,
enfim, que acaba valendo como psicodelia. Uma das melhores
definições do som psicodélico é
o Roky Erikson quem dá, um cara que era daquele
13th Floor Elevators, banda psicodélica texana
dos anos 60. Ele fala que o som psicodélico é
onde o olho encontra a pirâmide. É isso
aí, né? Seja lá o que isso queira
dizer.
Quem fez a diagramação do Emissões?
Foi o Daniel Motta, um dos sócios da revista
Zero e o cara que toma conta da parte gráfica,
o diretor de arte da revista. Pra esse livro eu tinha
idéias do que eu queria, de tamanho, formato,
papel, queria alguma coisa que tivesse essa cara de
arquivo mesmo, papel envelhecido. Eu fui dando os elementos
e o Daniel acertou na mosca.
Falando na Zero, o que você acha dessa
imprensa deficiente que o Brasil tem pra cobrir cenário
musical?
Infelizmente fazer o tal do jornalismo musical aqui,
nessa praia do rock e derivados, ainda é uma
coisa meio de herói, de forças isoladas
ou algumas agremiações. Ainda é
batalha, esse tipo de jornalismo não tem muita
credibilidade, não é encarado nem como
boa literatura talvez. Eu não gosto muito de
ficar comparando com os mercados lá de fora,
mas a crítica e o jornalismo musical são
levados a sério.
O quanto de Rumo à estação Islândia
te ajudou a chegar no Emissões Noturnas?
Na verdade, essa onda dos livros era uma coisa que eu
já vinha planejando há um tempo. Eu sabia
que em algum momento eu ia querer me dedicar a isso.
Depois que vai o primeiro, fica mais fácil. Quem
se envolve com isso, quem gosta de livro e literatura,
como eu, acaba sendo auto-crítico. Acho que não
sei escrever, que tenho que praticar mais e de fato
é isso. O Luís Antonio Giron, clássico
crítico de música, falou pra mim, “Bicho,
não esquenta. Escreve, publica e faz. Não
fica enrolando, não fica nessa piração.
Faz e pronto”. E é por aí. Esse
ano eu quero ver se lanço logo dois.
Foi o livro que despertou em você a vontade de
retornar ao rádio?
Eu sabia que em algum momento isso ia rolar porque eu
sempre gostei muito de rádio. Ia querer fazer
alguma coisa de novo mas aí veio a onda “pilha”
do livro. Mas estamos aí de novo.
Pode adiantar alguma coisa?
Não saberia dizer ainda. Eu acho que se eu fizer
alguma coisa vai ser na linha do que era o Mondo
Massari [programa da MTV], que é mais
a minha praia hoje em dia, com o que eu mais me divirto,
que é justamente viajar sonicamente...
As conexões, certo?
Exatamente! São as conexões, ouvir, sei
lá, um trip-hop mexicano, punk japonês,
rock italiano... Como projeto editorial é interessante
a coisa da viagem, globalização. Então
eu acho que se fizer alguma coisa, em princípio
vai ser nesse caminho.
Qual sua opinião sobre Kid Vinil e a atuação
dele como diretor artístico da rádio paulistana
Brasil 2000?
Alegria total. Está encontrando dificuldades
como era de se esperar porque rádio é
assim mesmo. Em rádio a cobrança é
imediata. Rádio é mediado por índices
de audiência, Ibope, esse tipo de coisa, os donos
ficam em cima de quem está coordenando a rádio
e eu sei disso porque eu fui coordenador da 89 durante
dois anos. E na Brasil 2000, que tem esse perfil mais
college radio, mais alternativo, isso deveria
ser um pouco mais leve, mas não é, é
intenso também. Mas tinha que ser o Kid, né?
E pra promover o tipo de mudança que ele tem
em mente, só sendo radical assim do jeito que
ele foi. Senão não tem jeito, meio termo
não rola: ou radicaliza ou tenta ser como as
outras comerciais.
Você acha que falta um apresentador para o Lado
B e outros programas segmentados da MTV?
Eu particularmente vejo com uma certa melancolia, é
claro, porque eu fiquei vários anos no Lado
B. Era o espaço, o carimbo importante, um
quase compromisso orgânico de formar gerações
ou de apontar caminhos diferentes. Mas é isso
aí né? Rock’n’roll.
Que recordações você guarda da sua
época de MTV?
Pra mim é tudo muito quente ainda. Eu fiquei
lá 12 anos, é uma vida lá dentro.
Doze anos é bastante tempo e eu costumo dizer
que eu tenho uma visão meio surrealista da MTV,
no bom sentido. Porque eu convivi com um monte de gente,
vi um monte de coisa legal acontecendo. Posso ficar
dias aqui falando, posso ficar falando mal também,
é lógico. Algumas das coisas mais legais
que eu fiz pessoal e profissionalmente foi lá
dentro.
Quais são os sons que fazem a sua cabeça
hoje?
Um pouco de tudo. Eu ouço desde Dandy Warhols
e essas coisas novas, lado B, até velharias.
Vou muito atrás de vinis. Eu tenho ouvido muita
coisa japonesa, algumas das guitarras mais barulhentas,
uma banda chamada Acid Mothers Temple. Loucura total,
psicodelia fora de controle. Japonês tem ultra-produção,
de qualidade e quantidade. E mexicanos, Plastilina Mosh,
Molotov, Control Machete, tem dezenas. Italianos, que
também é um projetinho de livro para o
futuro. A Itália tem um mundo de bandas legais.
Por conta da conexão familiar eu tive mais contato
com sons italianos. Pra colecionador, a Itália
é um mercado incrível. Pra dar o exemplo
do grunge, Nirvana, essas coisas, quando o grunge explodiu
no mundo, na Itália os caras já tavam
ouvindo isso há 10 anos. Nirvana não era
novidade nenhuma. E os caras têm dezenas de programas
de rádio, vinte revistas diferentes.
Que bandas nacionais vêm chamando sua atenção?
Eu tenho me divertido muito com a independência.
De um tempo pra cá percebeu-se que existe vida
saudável longe das grandes corporações.
Aliás, ela vai ser mais saudável se ficar
longe mesmo. Tem muito disco legal sendo produzido em
tudo quanto é lugar. Você vai pro sul e
tem uma cena fortíssima, Rio de Janeiro e São
Paulo tem um monte de banda, dá pra citar várias.
Zémaria no Espírito Santo, bom demais,
você vai subindo, Nordeste... Pó, Goiânia,
né meu? Goiânia Rock City, Monstro Discos,
um monte de coisa saindo. O mercado da independência
tá pegando fogo. Mas é aquilo: você
tá pensando em tiragens de mil, até 2
mil discos, festivais específicos. É uma
rede que não tem uma divulgação,
não tem uma luz, um holofote da grande mídia.
Mas quem quiser acha.
Quão nocivo você acha que é o “hype”
para o jornalismo musical?
Dia do rock, a salvação do rock, a grande
promessa, são ferramentas que tem menos a ver
com música. Um pouco é culpa nossa, jornalista
faz um pouco isso mesmo. São ferramentas válidas,
é divertido, agora, precisa ter o filtro. Eu
particularmente não acredito em nada dessas coisas,
acho tudo conversa furada.
E a contribuição da internet para esse
nicho de cobertura da imprensa?
Eu não sou apocalíptico de achar que é
uma droga. Tem um monte de coisa positiva. Se por um
lado você democratizou esse espaço de elaboração
jornalística, por outro lado o filtro tem que
ser maior. Enfim, você tem que saber se achar
aí no meio. Também o lance de baixar música.
Se vem bater de frente com o esquema antigo e corporativo
das gravadoras é bom. Talvez mude o suporte,
mas o cara solitário na sua garagem com a guitarra
vai estar sempre por aí. 
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