| MATURIDADE
À FLOR DA PELE
A refrescante música
cor de terra e de areia do Mombojó
por
Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

riunda de Recife, Mombojó
é uma banda que não carrega nas costas
a cruz do manguebeat, nem atua sob o dogma corporativista
que quis fazer dele, depois do grunge, o novo movimento
musical de amplitude planetária da década
passada. Pode ser acusada, no mínimo, de ainda
fazer ecoar perigosamente os ensinamentos da Nação
Zumbi e do Mundo Livre. Mas se for levado em consideração
o fato de que é impossível negar essa
raiz musical contemporânea, o grupo pernambucano
está livre das acusações de falta
de originalidade.
Munidos não de originalidade, mas de maturidade
de sobra, os integrantes do Mombojó (que beiram
ou ultrapassam bem pouco os 20 anos) surgem com uma
experiência espantosa, digna de veteranos, isso
para quem está apenas começando. Numa
tosca comparação envolvendo somente rumos
de carreira, seu primeiro álbum soa como o Pearl
Jam colocando Riot Act na praça
antes de Ten: o Mombojó vira
de ponta cabeça a regra que dita o rumo normal
da trajetória de uma banda. Despeja agora um
balde de calmaria, pensando em cada conseqüência
de suas arriscadas atitudes como se fossem cidadãos
de meia-idade, e deixa encubada a rebeldia, jovialidade
e pérolas de irresponsabilidade juvenil para
serem libertas em situações posteriores.
Não erram e nem deixam de exalar um frescor
abundante. Por essas e outras, o Mombojó vem
sendo estampado em bandeiras que pretendem demarcar
o território da novíssima velha música
brasileira. Resta saber se vai ter vento (ouvidos atentos
+ boa vontade da “indústria” - entenda-se
máfia) para tremular assim tão radiante
como uma Maria Rita da vida, outro poço de influências
do passado, nesse caso mais distante e adaptado aos
novos tempos.
nadadenovo
(2003) é o tão comentado disco de estréia
da banda, que veio encartado na revista Outracoisa
(editada por Lobão) de março deste ano.
O nome do álbum é grafado assim mesmo,
para desespero dos professores de Língua Portuguesa
depois do advento da lingüística da internet.
China, ex-vocalista de outro seminal grupo pernambucano
- Sheik Tosado -, hoje em carreira solo, é a
participação mais notória nas composições.
O conceituado coletivo musical recifense Re:Combo é
um dos que recebe agradecimentos no encarte de nadadenovo.
“Cabidela” abre o disco e é também
a primeira faixa a ganhar videoclipe. Cartão
de visita ou carta de intenções, apresenta
aos ouvidos alheios a sonoridade do CD,
com seus elementos todos à mostra como em uma
salada, não se tratando de uma combinação
homogênea.
Com o passar das faixas, o ouvinte há de se
acostumar com a pertinência na voz sussurrada
de Felipe e na flauta de Rafa, que lembra aquele peruano
tocando música tradicional do país dele
no hipermercado mais perto de você. A cada música
vamos nos aprofundando cada vez mais em um mundo cheio
de estilo, samba-indie (“Merda”), surtos
roqueiros (“Splash Shine”), scratches,
batidas eletrônicas, barulhinhos-ambiente (“Baú”)
e jam sessions de hip-hop (“Absorva” e “Duas
Cores”), tudo isso embalado pelo teclado e sampleagens
de Chiquinho, fazendo do Mombojó um manjar de
sabor único.
As guitarras de Marcelo Machado não teriam o
porque de se ausentar, apesar de racionadas. “Deixe-se
Acreditar”, a melhor música do CD, se enquadra
na fórmula. A letra e os impulsos de raiva sonora
formam a combinação perfeita pra fazer
pular todos os espectadores dos shows do Mombojó,
como no último Abril Pro Rock em que estiveram
presente. A empolgação é tanta
que Felipe chega a implorar na letra: “quero algo
pra beber!”. Pelo mesmo caminho vão “Nem
Parece” (marcada também pelo violão
de Marcelo Campello), “O Céu, O Sol E O
Mar” e “Faaca”.
Se até a metade do álbum há bastante
empolgação, daí em diante fica
maçante presenciar o Mombojó tentar soar
como bossa nova pós-moderna em algumas passagens,
uma coisa que já parece datada logo de cara.
Nesse momento, “Adelaide” surge calminha
e logo descamba para o indie-rock compassado, brincando
de ser Jovem Guarda, graças à bateria
de Vicente, irmão de Marcelo Machado.
Violência
e um quê cinematográfico ainda permeiam
o trabalho. Pintado em cores fortes e quentes (apesar
do frescor já citado), um aroma de Amarelo
Manga vai até a última das 15 músicas
de nadadenovo. “A Missa”, exemplo
mais bem sucedido da mistureba sonora que define a banda,
parece encaixar-se com maestria no surto religioso que
acomete Fernanda Montenegro em Central do Brasil,
na passagem em que sua personagem acompanha uma peregrinação.
A crítica social está tímida e
estrategicamente disposta, como no prelúdio “Discurso
Burocrático”: “parece ser difícil
mas não/ Todo mundo dançando, nostalgia
do verão”.
Resumindo bem a coisa, o Mombojó e nadadenovo
apresentam música de elevador de festa punk,
também indicado pra dar uma sacudida em lounges.
Trilha sonora dos que amadureceram rápido, em
um mundo onde os arautos anunciam em aconchegantes canções
que você pode consumir algumas doses do caos instalado,
poderia ser ainda a explicação para o
Mombojó encontrada pelo antropólogo Hermano
Vianna (irmão do Herbert do Paralamas do Sucesso),
fã confesso da banda. No mais, é pra ser
degustado pelos que racionalizam as respostas e para
as pessoas que como eu e você, saem desvairadas
pelo mundo à procura delas. É a sua próxima
banda preferida. 
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