Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

17 a 30 de maio de 2004

Equipe Edições Anteriores

MATURIDADE À FLOR DA PELE
A refrescante música cor de terra e de areia do Mombojó

por Julio Ibelli (jcim13@ig.com.br)

riunda de Recife, Mombojó é uma banda que não carrega nas costas a cruz do manguebeat, nem atua sob o dogma corporativista que quis fazer dele, depois do grunge, o novo movimento musical de amplitude planetária da década passada. Pode ser acusada, no mínimo, de ainda fazer ecoar perigosamente os ensinamentos da Nação Zumbi e do Mundo Livre. Mas se for levado em consideração o fato de que é impossível negar essa raiz musical contemporânea, o grupo pernambucano está livre das acusações de falta de originalidade.

Munidos não de originalidade, mas de maturidade de sobra, os integrantes do Mombojó (que beiram ou ultrapassam bem pouco os 20 anos) surgem com uma experiência espantosa, digna de veteranos, isso para quem está apenas começando. Numa tosca comparação envolvendo somente rumos de carreira, seu primeiro álbum soa como o Pearl Jam colocando Riot Act na praça antes de Ten: o Mombojó vira de ponta cabeça a regra que dita o rumo normal da trajetória de uma banda. Despeja agora um balde de calmaria, pensando em cada conseqüência de suas arriscadas atitudes como se fossem cidadãos de meia-idade, e deixa encubada a rebeldia, jovialidade e pérolas de irresponsabilidade juvenil para serem libertas em situações posteriores.

Não erram e nem deixam de exalar um frescor abundante. Por essas e outras, o Mombojó vem sendo estampado em bandeiras que pretendem demarcar o território da novíssima velha música brasileira. Resta saber se vai ter vento (ouvidos atentos + boa vontade da “indústria” - entenda-se máfia) para tremular assim tão radiante como uma Maria Rita da vida, outro poço de influências do passado, nesse caso mais distante e adaptado aos novos tempos.

nadadenovo (2003) é o tão comentado disco de estréia da banda, que veio encartado na revista Outracoisa (editada por Lobão) de março deste ano. O nome do álbum é grafado assim mesmo, para desespero dos professores de Língua Portuguesa depois do advento da lingüística da internet. China, ex-vocalista de outro seminal grupo pernambucano - Sheik Tosado -, hoje em carreira solo, é a participação mais notória nas composições. O conceituado coletivo musical recifense Re:Combo é um dos que recebe agradecimentos no encarte de nadadenovo.

“Cabidela” abre o disco e é também a primeira faixa a ganhar videoclipe. Cartão de visita ou carta de intenções, apresenta aos ouvidos alheios a sonoridade do CD,
com seus elementos todos à mostra como em uma salada, não se tratando de uma combinação homogênea.

Com o passar das faixas, o ouvinte há de se acostumar com a pertinência na voz sussurrada de Felipe e na flauta de Rafa, que lembra aquele peruano tocando música tradicional do país dele no hipermercado mais perto de você. A cada música vamos nos aprofundando cada vez mais em um mundo cheio de estilo, samba-indie (“Merda”), surtos roqueiros (“Splash Shine”), scratches, batidas eletrônicas, barulhinhos-ambiente (“Baú”) e jam sessions de hip-hop (“Absorva” e “Duas Cores”), tudo isso embalado pelo teclado e sampleagens de Chiquinho, fazendo do Mombojó um manjar de sabor único.


As guitarras de Marcelo Machado não teriam o porque de se ausentar, apesar de racionadas. “Deixe-se Acreditar”, a melhor música do CD, se enquadra na fórmula. A letra e os impulsos de raiva sonora formam a combinação perfeita pra fazer pular todos os espectadores dos shows do Mombojó, como no último Abril Pro Rock em que estiveram presente. A empolgação é tanta que Felipe chega a implorar na letra: “quero algo pra beber!”. Pelo mesmo caminho vão “Nem Parece” (marcada também pelo violão de Marcelo Campello), “O Céu, O Sol E O Mar” e “Faaca”.

Se até a metade do álbum há bastante empolgação, daí em diante fica maçante presenciar o Mombojó tentar soar como bossa nova pós-moderna em algumas passagens, uma coisa que já parece datada logo de cara. Nesse momento, “Adelaide” surge calminha e logo descamba para o indie-rock compassado, brincando de ser Jovem Guarda, graças à bateria de Vicente, irmão de Marcelo Machado.

Violência e um quê cinematográfico ainda permeiam o trabalho. Pintado em cores fortes e quentes (apesar do frescor já citado), um aroma de Amarelo Manga vai até a última das 15 músicas de nadadenovo. “A Missa”, exemplo mais bem sucedido da mistureba sonora que define a banda, parece encaixar-se com maestria no surto religioso que acomete Fernanda Montenegro em Central do Brasil, na passagem em que sua personagem acompanha uma peregrinação. A crítica social está tímida e estrategicamente disposta, como no prelúdio “Discurso Burocrático”: “parece ser difícil mas não/ Todo mundo dançando, nostalgia do verão”.

Resumindo bem a coisa, o Mombojó e nadadenovo apresentam música de elevador de festa punk, também indicado pra dar uma sacudida em lounges. Trilha sonora dos que amadureceram rápido, em um mundo onde os arautos anunciam em aconchegantes canções que você pode consumir algumas doses do caos instalado, poderia ser ainda a explicação para o Mombojó encontrada pelo antropólogo Hermano Vianna (irmão do Herbert do Paralamas do Sucesso), fã confesso da banda. No mais, é pra ser degustado pelos que racionalizam as respostas e para as pessoas que como eu e você, saem desvairadas pelo mundo à procura delas. É a sua próxima banda preferida.